05 outubro 2012

O BOLINHA VAI À PRAIA


Durante o último ano, o meu filho esteve a estudar no nordeste da Alemanha, numa cidade encantadora onde, no Inverno, as temperaturas atingem os vinte graus negativos e respirar se torna doloroso como um ataque de tosse.
Assim, pode imaginar-se o gosto com que, chegados os fins de Julho, desceu por aí abaixo para vir rever amigos e família, a comida, o sol e o azul português, a Praia onde sempre morou e que este ano, graças às agruras do país, esteve repleta de animação e abençoada por dias sem vento e por neblinas transitórias.
Durante o mês que esteve por casa, antes de regressar por dois anos à Alemanha, decidiu fazer uma revisão profunda às coisas que guardava no quarto e no quase-apartamento por cima da garagem, posses que se foram acumulando nas últimas duas décadas e fazem o desespero da Carlota, a empregada que vela pelo pó e arrumações da família praticamente desde que ele nasceu.
“Um dia deito tudo isto ao lixo!”, dizia-me ela sazonalmente, à beira de um ataque de nervos, enquanto eu lhe pedia paciência, pois havia de chegar um dia em que ele, já grande, rearranjaria o seu mundo numa outra hierarquia.
Este Verão, dos bens que pôs de parte, por já não lhe interessar ou por a sua utilidade se ter tornado distante, alguns deu, outros vendeu na feira de velharias, outros (poucos) tiveram como destino os diversos contentores do lixo. E todos os dias me aparecia com um qualquer objecto, perguntando:
“Pai, queres isto para alguma coisa?”
Numa das últimas tardes em que aqui esteve, já eu antecipava o silêncio que em breve se ia instalar na casa, surgiu com uma pilha de livros, explicou:
“Olha, são livros de quando eu era pequeno... Alguns gostava de guardar, outros podem-se dar ou ficar por aí, pode ser que alguém os queira ler um dia...”
“Claro, guardam-se no cimo da estante do quartinho do meio, já lá estão os meus, de quando era pequeno, alguns até os leste também...”
Depois foi-se, exactamente na primeira manhã de chuva deste Outono, eu, desambientado como um patego, do lado de cá dos vidros da gate do aeroporto de Pedras Rubras, guarda-chuva enrolado nas mãos, vendo-o dissolver-se no meio da multidão.
Cá em baixo, no sul onde moro, a tal resma de livros antigos continuava empilhada em cima do piano. Um fim de tarde, ao ir fechar as portadas do quarto dele, pus-me a inspecioná-la, cada capa que desfilava sob os meus olhos trazendo à memória o momento em que aquele livro fora comprado, ou quem o oferecera, a fase da vida dele em que fora manuseado...
Iluminei-me num sorriso ao topar, agrupados no meio da pilha, com quatro livros das aventuras do Bolinha, livros que eram uma preferência dele entre os três e os quatro anos de idade. O Bolinha é um cachorrinho cor de areia-tisnada-pelo-sol, distinguido com umas manchas castanhas arredondadas no lombo e no rabo, espetado e curioso. Os desenhos são nítidos e de cores felizes, o diálogo é mínimo – como se quer num livro para crianças que estão ainda longe das letras – o herói move-se num mundo seguro, em que os pequenos sustos e surpresas são amparados pela presença do pai e da mãe Bolinha.
E em quase cada uma das páginas de cartolina do livro existe um bónus: a porta azul do quarto pode mesmo abrir-se; no desenho do guarda-vestidos verde as portas coladas podem ser escancaradas pelo leitor entre dois dedos; a cesta de vime tem uma tampa de cartolina que se deixa levantar e revelar um Bolinha escondido e de que toda a gente andava à procura desde o princípio do livro... Que pormenores tão bem concebidos! Aquele acrescento táctil em cada página fazia a felicidade, ingénua e suspensa, mil vezes repetida, do meu filho há vinte anos atrás, pois a infância não se cansa de experimentar se a mesma causa precede o mesmo efeito ou se, pelo contrário, o mundo se pode fragmentar em mil direcções e, debaixo da tampa da cesta de vime, já nada mais aguarda do que o silêncio um pouco bafiento da ausência.