22 outubro 2012

VOU-TE CONTAR: 51. RETRATO DE FAMÍLIA COM RISCO


Quem terá riscado esta fotografia, que inconsciência terá produzido essa falta de respeito pelo passado? Parece seguro que foi uma criança, na idade em que já sabe que um lápis serve para aplicar em papel ou material que se pareça com papel, mas em que ainda não é capaz de produzir contornos identificáveis como olha um sol, olha o piu-piu, olha a mamã... Quem teria sido e por onde andará hoje, disfarçada de adulto pelos corredores do mundo?
As crianças da foto, por seu lado, estão todas mortas, o tempo delas passou há muito. O tio Alberto, por exemplo, meu tio-avô, é a menina bochechuda que está sentada no colo da minha bisavó Emília e o seu ensimesmamento social era famoso na família, toda a gente esperando vê-lo aparecer apenas em dia de velório ou enterro... A esses, o tio Alberto e a mulher – a tia Maria, com o passar dos anos reconvertida de cozinheira em dona do galo velho – não falhavam.
Encostada ao ombro do pai (o meu bisavô José Figueirinhas) está a tia Fernanda, que morreu de cancro da mama e morava, com o tio Domingos, num renque de vivendas com trapeira perto da Arca de Água. Nunca tiveram filhos e visitavam a casa dos meus pais, certos como pêndulo de relógio, todas as semanas, à tarde. (Lembro ainda um presente, laboriosamente construído pelo tio Domingos em cartolina forrada a papel de lustro, que consistia numa complexa garagem, para arrumar os meus carrinhos, com vários andares e rampa de acesso).
Quanto ao meu bisavô materno, pai da minha avó Zaida, ainda corre na família a lenda da sua generosidade como médico, generosidade cheia de consultas grátis a quem menos podia e que deitava por fora no dinheiro deixado para remédios (que ele mesmo receitava) debaixo da almofada dos doentes pobres. Para além disso, o meu bisavô Zé falava como um carroceiro, o que só o torna mais simpático quando agora me fixo nas suas barbas de patriarca.
A minha avó Zaida é a menina bonita de laçarote na cabeça e a caminho de um meio sorriso... No seu recorte de olhos consigo rever o reflexo da minha mãe e da minha sobrinha Ana. Repare-se só ao nível que ela traz o cordão que lhe aperta o vestido! E ainda falam das calças de ganga de fundilhos descaídos que usam os rapers e skaters caseiros do século XXI! Quando ela morreu, andava pelos meus dezasseis ou dezassete anos, tive um imenso desgosto, tão ranhoso e destilado que passei o dia do funeral enterrado nos óculos-escuros que o meu futuro cunhado me emprestou. Nesse dia chorava por ela e por mim: nunca mais teria a quem vender as agendas de papel-costaneira cosidas com linha de costura; quem mais voltaria a comprar as mesinhas desniveladas que eu e os meus primos carpinteirávamos e que ela, ao fim de tempo razoável, nos devolvia para que lhas vendêssemos de novo? Mas olhem para ela aqui ao lado, olhando a eternidade com confiança, na tenra idade em que, de bom-grado sairia da foto e se juntaria aos netos para colorir um desenho que, à tardinha, recém-saídos do banho e de risca bem vincada, iríamos oferecer a ela própria.

© Pedro Serrano, Porto, fotógrafo desconhecido.