10 novembro 2012

VOU-TE CONTAR: 52. UMA CASA NÃO É UM LAR (Opus 2)


Com o à vontade do tipo habituado a milagres, Jesus produziu rapidamente um chicote a partir de um pedaço de corda e, a explodir de raiva pela falta de respeito para com a casa do seu pai, zurziu com ele os vendilhões do templo, o homem que vendia pombas, pôs em pantanas os expositores dos banqueiros... Em seguida, causando um arrepio de horror nos construtores civis presentes assegurou que, sozinho, conseguiria demolir e reconstruir em três dias o templo que demorara 46 anos a edificar.
Encolhido de frio na quinta fila da nave, encaixado entre as minhas irmãs, era a quinta vez que ouvia esta história em anos consecutivos. Já a sei de cor, mas, este ano, o padre Avelino, um oficiante inesperado na missa das sete, aproveitou as metáforas do evangelho segundo S. João para traçar, em tons sombrios, um lúcido retrato da penúria em que se encontra a igreja católica e a fé dos poucos crentes que esta ainda vai arrastando. Nada de mais verdadeiro, bastava olhar:
Na plateia, a congregação reduzia-se a uma escassa trintena de assistentes e não fora os frades e os noviços presentes, flagrantemente oriundos da longínqua lusofonia africana, mal se ouviria o coro de responso às invocações do altar. Antecedendo a chegada do padre, no púlpito, um seminarista de traça indonésia, provavelmente um timorense, enumerou, num português emperrado, o nome das almas por quem a missa fazia intenção, transformando o Serrano do patronímico do meu pai em ‘Sereno’... “Nunca pior”, ruminei para mim, entalando as mãos entre as coxas e enterrando o pescoço no cachecol.
No final de tudo, enquanto os fiéis, ainda zonzos da hóstia, se arrastavam para a saída, deslizei do meu banco e bati discretamente no vidro martelado da porta da sacristia, após o que a entreabri e chamei:
“Padre Avelino, dá licença?”
“Quem é lá...?” ouvi responder do outro lado da enorme cómoda de madeira escura com tampo de mármore onde se guardam sotainas e  paramentos. Mas só quando cheguei perto ele me reconheceu e abriu os braços para um abraço onde se fundia a amizade de muitos anos e a entoação profissional da saudação:
“Ó Pedro, que felicidade ver-te por aqui...”
“Vim à missa do meu pai, fazem hoje cinco anos que morreu...”
“Cinco anos, já!? Como o tempo voa... O nosso querido Dr. Serrano...”
E ficamos por ali uns momentos, sabendo um do outro, ele interessando-se pelo meu trabalho, eu querendo saber da sua saúde, uma vez que é diabético de longa data.
“Estou bem, estou bem; estou como vês... Também já tenho oitenta e um anos... E o teu menino, as tuas irmãs?”
Estava a contar-lhe que, também, o meu menino já ia nos 23 anos, que estava na Alemanha, quando as minhas irmãs irromperam pela sacristia tomando conta da actualização das suas próprias notícias.
No fim da visita ele veio acompanhar-nos à porta da sacristia, ficou-se um pouco a ver-nos afastar, eu ia progredindo na nave e virando-me para trás num repetido gesto de adeus que ambas as partes sabem agora que pode sempre ser um último.
Cá fora não estava muito mais gelado do que no interior e Novembro fazia descer sobre a escadaria da igreja e o par de candeeiros que a iluminam uma névoa alaranjada. Do outro lado da rua, tão vizinha da igreja que se poderia assistir a uma missa das janelas, a casa do meu pai esperava, como sempre, o limoeiro espreitando por cima do musgo do muro. Mas desta vez, das vezes que se seguem, a casa está fechada, envolta em negrume e silêncio e nenhum de nós vai meter a chave no portão, descer os degraus até às luzes que costumavam brilhar por trás de estores corridos ou pelas das vidraças da cozinha nem o meu cunhado Gil cruzará a ombreira para, faminto, ir levantar as tampas a tachos e panelas para espreitar o jantar que, paciente como a senhora Berta que dormitava sentada num banco, se aprimorava para quem chegava da noite. 
© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Cochim, Índia, 2012; (2) Porto, 2011.