27 junho 2013

P'RA MACHUCAR MEU CORAÇÃO


Eu agora quando aqui venho é como se pairasse sobre a cidade.
No Porto, nos fins de Junho e já muito além das nove da noite, é ainda dia por entre os bocados de poente que aguarelam a paisagem.
Ia ao Convívio comer uma francesinha, mas na Rotunda da Boavista tive de fazer um Desvio por causa de obras e eis-me Rua da Meditação, os muros de Agramonte lá ao fundo, as cruzes do cemitério a espreitar o trânsito desusado. “Olá, pai”, disse de mim para mim no silêncio quebrado pelo saxofone do Stan Getz que soprava o começo do solo de “Para Machucar Meu Coração”.
No Convívio, apesar do manto pindérico e tristonho que a crise conferiu aos detalhes, tudo ainda se parece um pouco com o que sempre foi e só agora disso me dou conta com tanta nitidez: é um espaço por conta das famílias que, suponho, devem morar ali por perto. A gente mora sempre por perto mesmo quando mora longe. O empregado foi directo dentro do balcão confirmar se, em definitivo, não havia cerejas para a menina de três anos que as queria tanto como sobremesa...
“Vê se consegues arranjar algumas...”, insistia, como se perante tal pedido as cerejas devessem brotar do nada.
Pela minha mesa da montra, enquanto espero o meu manto de queijo derretido, vejo passar quem passa envolto pela luz dourada que pinta todo o Campo Alegre.
“Quer o contribuinte na factura ou basta normal?”
Normal está muito bem para mim, um clandestino na cidade onde nasci e cresci e que agora atravessa a rua a dez metros da passadeira, em direcção ao carro estacionado em local proibido. O sistema de som está onde o tinha deixado, o Stan Getz a meio de uma expiração, desse fantástico solo de quem percebeu tudo o que a Bossa Nova pretendia dizer e, ainda mais, a que devia soar o lamento sem palavras de um “Está fazendo ano e meio amor, que o nosso lar desmoronou...”
Rotunda da Boavista, viro para a Rua Nossa Senhora de Fátima, o António Carlos Jobim dá a canção por terminada com uns contidos acordes de piano, não há mais nada a dizer depois daquele solo de saxofone; o cantor não regressa com a suas vogais almofadadas. Ali, à direita, moravam os pais da Regina Valente – tantas tardes passámos naquela casa, a ouvir e gravar música, a lanchar croissants com fiambre que ela mandava buscar ao Porto Rico. Cruzamento e já me aparece no cimo da subida a igrejinha da Ramada Alta, ali especada no meio do asfalto como se a qualquer instante pudesse ouvir o sino da minha aldeia. Mas não, pus outra vez a tocar o “Prá Machucar Meu Coração” e é o João Gilberto que introduz a canção com a sua voz almofadada: “Está fazendo ano e meio, amor...”
É noite cerrada nos semáforos do cruzamento de Oliveira Monteiro com a Constituição; mais adiante, nos da Arca d’Água, pela janela aberta, penetra a radiância adocicada e morna das plantas louvando o fim do dia, como só no fins de Junho acontece nas ruas e jardins da nossa infância.  

Nota: "Para Machucar Meu Coração", composição de Ary Barroso, 1943.
© Fotografia de António Amen, Porto 2007.