02 junho 2013

TUDO POR QUASE NADA (Na Praia de Chesil)


Com um prazer de novo intenso, acabei de reler Na Praia de Chesil (2007), a pequena obra-prima de Ian McEwan. O ‘pequena’ vem somente de o romance ter umas escassas 120 páginas e a sensação que uma segunda leitura nos deixa (pois já conseguimos estar atentos não apenas à trama da história, mas também ao modo como o autor a construiu) é a de nos ter sido permitido olhar na intimidade e em todos os seus detalhes uma filigrana, delicada e brilhante. O livro é tão bom e intenso, cada uma das suas palavras foi escolhida com tal mestria que, sobretudo durante a primeira leitura, dei comigo a atrasá-la, a resistir a passar ao capítulo seguinte sem o pousar uns instantes que fosse, a ler devagar – tudo isto com o intuito de não chegar ao fim do romance ao fim das duas horas que ele demora a ler.
Na Praia de Chesil (publicado em Portugal pela Gradiva) é, na minha opinião, a última obra de uma década abençoada do escritor, época que começou em 1998 com Amsterdão e que inclui ainda Expiação (2001) e Sábado (2006). Todos estes romances são perfeitos e, se ainda não os leu, faça-o logo que tiver uma aberta, pois quem fica a ganhar é o ouvinte. E se, no final das leituras, tiver de optar por classificar o melhor deles, vai ver que lhe será difícil escolher entre Na Praia de Chesil e Expiação.
Na Praia de Chesil ocupa-se apenas com duas personagens principais e a história passa-se em meia-dúzia de horas, durante a noite de núpcias dos protagonistas, sempre no mesmo sítio: Chesil, uma localidade do sul de Inglaterra virada para o canal da Mancha. Ou seja, McEwan seguiu à risca a receita, velha de quase três mil anos, do enredo grego e que aconselha concentração da acção em termos de tempo, lugar e pessoas. Uma tríade muito eficaz para garantir a intensidade narrativa e, ainda hoje, como se vê, completamente actual.
É certo que ao longo do livro aparece texto em flashback que nos explica como Edward e Florence ali chegaram e em que mundo e entre que gente se moviam, mas são apenas dois capítulos e o seu surgimento é entrelaçado à situação central com tal necessidade e naturalidade que nos deixa a certeza de a história não poder ser contada com outras roupagens.
Embora passado na noite do dia de casamento de pessoas que pareciam amar-se ternamente, na Praia de Chesil não tem um final feliz, embora este também não possa ser classificado como infeliz. É uma história com um fim comum, que ilumina e sublinha o que tantas vezes sucede na vida real: podemos perder tudo o que nos é querido por um quase nada.