07 julho 2013

PARLAMI PIANO (Os Sopranos)


Deus abençoe as séries televisivas. Deus abençoe as séries televisivas, das mais fáceis de consumir e esquecer como a americana Donas de Casas Desesperadas (Desperate Housewifes, ABC, 2004-2012) até às muito inglesas e clássicas como A Jóia da Coroa (The Jewel in the Crown, PBS, 1984) ou Downton Abbey (ITV, 2010-2013), a última inspirada na receita feliz de uma série antiga de patrões e criados chamada Upstairs, Downstairs (ITV, 1971-1975).
Depois, há aquelas que podemos arrumar no capítulo das obras-primas ou das memórias definitivas, tão cuidado e brilhante são o todo e os pormenores, seja o argumento que sustenta o enredo, a fotografia, a banda sonora ou o desempenho de actores que se tornam indistinguíveis dos personagens que personificam e nos deixam saudade aguda mal termina o último episódio. Joias destas há poucas, muito poucas e, dos anos 80 até hoje, consigo citar apenas quatro: Reviver o Passado em Brideshead (Brideshead Revisited, Granada, 1981); Twin Peaks (de David Lynch para a ABC, 1990-1991); Sete Palmos de Terra (Six Feet Under, HBO, 2001-2005); e Os Sopranos (The Sopranos, HBO, 1999-2007). É minha intenção dedicar, um dia, um texto exclusivo a Brideshead Revisited, a maravilhosa encarnação cinematográfica do maravilhoso romance homónimo de Evelyn Waugh, mas hoje, em celebração da morte recente (19 de Junho 2013) do seu actor principal (James Gandolfini) fico-me pela recordação dos Sopranos.
Os Sopranos retomam um tema caro ao imaginário americano – a Mafia – e é herdeiro em linha recta da saga O Padrinho, de Francis Ford Coppola. Os três filmes que contam a história da família Corleone duravam, somados, mais de dez horas o que, nos dias de hoje, cobria uma série com uma dúzia de episódios. David Chase, o mentor dos Sopranos, quis ir mais longe em termos de duração e detalhe ao explorar o perfil de um Padrinho dos tempos modernos e que, ao arrepio do herói sem falhas incarnado por Marlon Brando, Robert de Niro e (em menor grau) Al Pacino, é vulgar, mais manhoso do que inteligente e sofre de imprevisíveis  ataques de pânico...
O primeiro episódio da primeira temporada, das seis que a série iria ter, abre precisamente com um ataque de pânico de Tony Soprano, o chefe do poderoso clã suburbano: um casal de patos nidificou no seu quintal e os patinhos usam a piscina como lago familiar. Mas os patos cresceram e um dia levantam voo para não voltar, e a projecção deste desmembrar de uma família una e feliz faz fugir o chão debaixo dos pés do mafioso implacável. E ei-lo, às escondidas, a ter de recorrer a um psiquiatra que, ainda por cima, é uma mulher.
Os  cerca de 60 episódios dos Sopranos foram produzidos e apresentados na TV ao longo de sete anos o que permitiu, em tempo real, assistir ao crescimento dos dois filhos adolescentes de Tony e Carmela, ao envelhecimento e morte dos – poucos – que se foram por morte natural e, ainda, ao imiscuir dos acontecimentos reais da América e do mundo (como o 11 de Setembro) na trama da série.
Como muitas vezes sucede com as produções televisivas, Os Sopranos arrancaram de modo hesitante, a testar o público, mas o sucesso foi tão grande que a série teve meios e ímpeto para se sofisticar até à perfeição, dando até espaço para o experimentalismo cinematográfico: os personagens ganharam maior complexidade e profundidade; vários realizadores foram chamados a dirigir episódios específicos (dos quais alguns dos actores da série como Michael Imperioli – Christopher Moltisanti, o sobrinho-filho de Tony); actores famosos vieram fazer uma perninha; e o modo como foram encenados em filme os sonhos de Tony – um deles durando um episódio quase inteiro – atingiu um requinte que faria crescer água na boca a Dali, Hitchcock ou Buñuel.

Na morte de James Gandolfini – que, decalcando a ficção, apareceu morto no chão do quarto de banho de um hotel em Itália, sendo o óbito associado a excesso de drogas e álcool – foi afirmada, como é costume nestas coisas, a sua dimensão de excelência como actor o que, para mim, é exagero póstumo. Vi Gandolfini em  vários filmes manhosos e não achei que passasse de um secundário mediano... Mas nos Sopranos construiu com génio um homem contraditório,  dissimulado, chico-esperto, com uma intuição paranoide, passando do sentimentalismo descartável à violência gratuita no esfregar de um olho, personagem que ganha consistência imediata por ser tão próximo do ser humano vulgar de Lineu.
Nunca viu Os Sopranos?! Meus Deus, de que está à espera!? Os DVD da série continuam por aí à venda em tudo que é lado. Não perca a oportunidade de ver actores em estado de graça como Livia, a perversa mãe de Tony (representada por Nancy Marchand) e a origem de todas as debilidades psicológicas do filho; o ambíguo tio Júnior (Dominic Chianese – um actor que veio do Padrinho) ou de se comover com a cena em que Carmela (mulher de Tony, a que dá vida a actriz Edie Falco) chora ao ver na TV um anúncio de comida para cães, tal é frágil o seu estado psicológico no momento.
Ouviu dizer que Os Sopranos é série muito violenta? É verdade, mas isso não deve impedi-la de a ver, pois a violência não é o motor do assunto: essencialmente, Os Sopranos, tal como O Padrinho, é a história da vida e do declínio de uma família.
Deus abençoe as séries televisivas pela companhia que nos fazem, o prazer que nos proporcionam e o modo como aumentam o número de desconhecidos que passam a fazer parte da nossa vida como se realmente existissem.