18 julho 2013

VOU-TE CONTAR: 59. NATUREZA QUASE-MORTA


Quando era pequeno e, neste caso, o pequeno refere-se a idade abaixo dos onze anos, tinha um medo tremendo do vitral aqui ao lado, finalmente fotografado num Sábado recente em Viseu.
Sempre que íamos à cidade, tão seguro como visitarmos a minha tia Céu ou irmos à missa na Sé, havia um momento da tarde reservado ao lanche na Confeitaria Horta, uma pastelaria onde parava a alta sociedade de Viseu e as senhoras bebiam disfarçadamente, a acompanhar empadas de lombo de porco, vinho branco do Dão por chávenas de chá...
Alheio a tudo isso, até ao frisson de Aquilino Ribeiro poder estar sentado a uma das mesas com a sua neta Marianinha, as minhas mãos começavam a humedecer-se mal entrava na confeitaria, pois, mais tarde ou mais cedo, o meu olhar não resistiria a levantar-se para a vítrea imagem que vibrava na parede do fundo. E, depois de olhado, era certo e sabido que nessa noite, nas seguintes, paralisado como uma múmia na minha cama de Queirã, seria assaltado por visões de horror, catalisadas pela natureza morta-viva daquele vitral. Mas qual a razão específica desse terror que não me atrevia a desabafar, pois ninguém o compreenderia e ao medo teria ainda que somar a humilhação do gozo?
“Tia, o Pedro tem medo do tatu...”
“Não é um tatu, é um rato-porco-assado!”
Pelo traço, o vitral denuncia a sua época Arte-nova e mostra a mesa de uma qualquer festa rica: o champagne, as taças, os ananases, as cascatas de fruta, o rico faisão. Nada de muito diferente da sala de jantar das festas em casa dos meus avós do Porto, quase se poderia escutar o bruá das conversas em torno da ceia...
Mas, para mim, havia algo de muito inquietante no vitral, algo que sobrava, algo que faltava: é que a cena representava uma sala já depois de terminada a festa (não há um único ser humano presente) e na qual, pela calada da noite, um inquietante e sobrenatural animal, uma espécie de tostado cruzamento entre rato e leitão assado, tenta chegar ao colorido faisão, derrubando, na tentativa, uma travessa cheia de frutos... Mas ninguém ouve o tremendo barulho da travessa estilhaçando-se no chão? Ninguém dava conta daquela violação, ignóbil e maléfica, da harmonia? Então ninguém acudia, expulsava o monstro e defendia a alegria de uma mesa festiva? Iam-no deixar ratar aquilo tudo? É que depois do faisão iam os doces; ia conspurcar as taças, mijar nos restos de espumante... Não, era evidente que não, não havia evolução ou alívio na cena e, de cada vez que voltávamos à Horta, lá estava tudo aquilo, paralisado como num pesadelo!
Somente já grande consegui olhar o painel com serenidade e apreender os seus pormenores, a beleza do seu desenho e concretização.

A Confeitaria Horta, fundada em 1873 por um pasteleiro do Porto radicado em Viseu, famosa pelas castanhas de ovos, pelos pastelinhos de feijão, fechou há uns anos para grande desgosto dos viseenses e de quem mais se lembrava dela. Agora voltou a abrir, mas a remodelação deu cabo do espaço e continua sem os cliente que levaram ao seu fecho... As mesas de madeira, os bancos acolchoados, os espelhos na parede, a intimidade ar um pouco escura, tudo foi varrido pela alvura de uma decoração século XXI, por um tom demasiado branco e cru de paredes e tecto, lancinante ao olhar e avesso ao resguardo do cliente. Vá lá que mantiveram o painel, mas agora, única mancha de cor e sofisticação em toda aquela modernidade em série, parece um fresco melancólico que desbota na sua tristeza de exilado.   

Fotografia que antecede o texto: © Pedro Serrano, Viseu 2013.