31 agosto 2013

À PORTA DE UM ABRAÇO


Por esses dias, quando batia à porta da casa da rua Cesário Verde, a Dominique (a menininha loura da foto) devia andar pela idade e pelo tamanho do Patrick, o irmãozito sentado à esquerda. Quanto à Tati, a cadela que nos mira com o ar ternamente façanhudo, já atingira o tamanho definitivo com que aparece na foto e assim ficou na minha memória para sempre, mesmo hoje, que deve passar as tardes a rilhar uma nuvem em forma de osso lá no céu dos cães.
Mas por esses dias, quando batia à porta da rua Cesário Verde, às vezes era a Dominique que, vivendo o ano inteiro em Bruxelas, vinha atender a correr, a saudar os tios que não via às longas eternidades que são os meses na infância. Numa outra chegada, num outro Natal ou num outro Verão era a Tati que, pressentindo em ultrassons a chegada, se antecipava a quem puxava o trinco e me saltava em cima numa excitação igualmente saudosa.
E eu, brincalhão, naquela confusão similar de situações, abraçava, abanava a Dominique entre os braços, e comentava:
“Tati, como estás grande...”
E ela, na identidade ainda algo vacilante de quem tem três anos, num riso inseguro, reclamava comigo, olhando simultaneamente para a cadela que saltitava à nossa volta:
“Eu não sou a Tati, sou a Domi, a Tati é aquela ali...”
Quanto á Tati, na sabedoria de quem já tem barbas, nunca se importou nada que eu a tomasse nos braços e lhe trocasse o nome pelo da minha sobrinha.

© Fotógrafo desconhecido, anos 90.