10 agosto 2013

UMA ÁRVORE APETRECHADA DE ASAS


O meu amigo Gonçalo tem uma quinta em Santa Valha, localidade onde o distrito de Vila Real se desfoca no de Bragança. Um dia destes chapou no Facebook esta fotografia de uma tília em plena frutificação, o que traduz ter sido tirada Verão avançado.
Semanas antes, em Viseu, tentara eu fotografar tílias do centro da cidade usando o  telemóvel, impressionado, como sempre fico, com a presença intensa e aromática desta árvore e pensando em alinhavar uns parágrafos botânicos sobre o assunto para deixar aqui. Mas a foto do Gonçalo, pela qualidade, beleza, e por conter todos os detalhes que interessavam à minha descrição, esmagou-me. Apressei-me a pedir licença para a usar.
Em Viseu, no Verão, tílias que estou habituado a encontrar há mais de cinquenta anos (estas árvores podem durar 250 anos) ladeiam ambos os passeios da avenida que leva ao centro da cidade, erigindo um dossel frondoso sobre o asfalto e fazendo-nos sentir regiamente privilegiados ao deslizar sob elas.
Mais tarde, sentado numa esplanada da praça principal, esperando a minha sandes de presunto, espiava a cortina verde que me protegia o olhar do céu vistoso e cruel de Julho, olhando as folhas em forma de coração que palpitavam levemente à sístole do ar quente. E eis que, de súbito, vejo desprender-se e voltear em sustenido movimento helicoidal uma folha, servindo de veículo a um ninho de sementes que buscavam o solo para aí preparar nova árvore. Pobres sementes que, na sua cegueira genética, nada mais iriam encontrar que estéril cimento quadriculado...
Mas, em toda esta busca inútil de terra fértil, a perversão cabia ao Homem que em betonificado colete de forças aprisionara a natureza, dado que aquele voo era perfeito na  génese e aterrissagem. Em silêncio, volteando sobre si mesma, a diminuta esfera contendo as sementes garantia o choque contra o solo no amortecido daquela pirueta lenta mas, simultaneamente, deixar-se-ia levar, tal pequena bailarina leviana, pelas brisas que soprassem no momento e a amolecessem em leito fecundo...
Bráctea florida.
Estendi a mão, apanhei em pleno voo um daqueles mensageiros que prestavelmente iam cair sobre a minha mesa. A folha na qual se enxertava o fruto era diferente das outras na forma lanceolada, no verde desmaiado e até na sua textura de papiro. É estranha à copa, é uma falsa folha, os botânicos chamam bráctea a essa espécie de asa vegetal, desenhada para rodopiar. De resto, supõe-se que o termo tília advém do grego ptilon e, piscando o olho ao velho Homero, podemos garantir que é árvore apetrechada de sábias asas.

Sendo personalidade sensível a esse tipo de particularidades, imagino que o Gonçalo, antes de ter sido tentado pelo impulso de a fotografar, deve ter sentido a aura de todos aqueles tons de verde e amarelo, a presença do mel, o  silêncio sagrado sobre a cabeça... Não se enganava. Na Alemanha, ainda hoje, a tília é considerada árvore sagrada e mais de um milhar de localidades do país ostenta nome daí derivado. Entre as mais conhecidas estará provavelmente Leipzig (Lipzk, lugar junto às tílias), a mais musical das cidades europeias onde até no pisar das teclas de um piano se sente o tacto esculpido da sua madeira branca e macia.

De cima para baixo: (1) © Gonçalo Mota, Santa Valha, 2013; (2) Blog Outras Comidas: A tília.