26 agosto 2013

JANELAS ABERTAS

A mistura de música e letra, a partir do poema de Vinícius de Moraes, terá sido feita por António Carlos Jobim, no ano de 1959 e logo depois dada a ouvir ao mundo por Silvinha Telles, aquela que, escassos anos antes de adormecer ao volante, chegara a ser a encantadora namoradinha de João Gilberto, antes de este topar com Astrud que, curtos instantes após trajar o apelido Gilberto, o trocaria por Stan Getz.
Mas quem, na minha opinião, viria a tornar a canção imortal (como fez a várias outras) foi Gal Costa, que aqui podemos ouvir com o próprio Jobim a pontuá-la em acordes discretos do piano.
Uma década volvida sobre o nascimento de “Janelas Abertas”, qualquer coisa como entre 1969 e 1971, no seu exílio londrino Caetano Veloso (nos seus irreverentes 27 anos) haveria de parodiar a canção, mantendo os “Sim” da letra, mas travando as asas melancólicas da melodia com uma roupagem grave de tango e abrindo as janelas, por onde se esperava que entrasse a luz do sol, “para que entrem todos os insectos”. Esta piscadela de olho (a que Caetano deu o título “Janelas Abertas n.º 2”) estava destinada a ser cantada por Chico Buarque no também imorredouro show que ambos deram na Baía, no teatro Castro Alves, em Novembro de 1972.
O tempo passou, baralhando as cartas e dando-as de novo, como só ele sabe, e todos estes de que aqui vos fui falando se tornaram clássicos, a ironia dos que eram então os juniores  dobrando o joelho ao caminho traçado pelo mais velhos: Caetano tornando-se o intérprete que recorda o mestre que foi João Gilberto e Chico assumindo no seu jeito desinteressado a dimensão de compositor de Jobim. É bonito de se ver, ainda mais de se ouvir.
Fica aqui letra e música das janelas originais.




Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor

Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor