02 fevereiro 2014

VOU-TE CONTAR: 63. NÃO HÁ ROSAS SEM ESPINHO

O QUE TEM O PALÁCIO DE CRISTAL A VER COM ESPINHO? Para mim, não tinha nada até a um baile de gala da Queima das Fitas onde, andava eu no primeiro ano de Medicina e ela ainda no liceu, conheci uma rapariga chamada João Pinto Basto.
De entre os milhares de pessoas que nessa noite enxameavam sob a cúpula do Palácio ela foi meu par num rosário de danças das canções que debitava o conjunto que abrilhantava o evento e, de um modo a que não recordo detalhes, demos uma oportunidade de continuidade à noite pela troca de números de telefone. Costa Cabral, onde ela morava, não era zona que eu frequentasse e, sem um cordão umbilical qualquer, não seria provável voltar a encontrá-la pela cidade pois não havia ninguém que a conhecesse que eu conhecesse e vice versa.
Mas o que é certo é que evoluímos rapidamente da cristalina situação de completos desconhecidos para a de amigos e, para além da correspondência que íamos trocando, no Verão seguinte dei comigo em Espinho, pois ela costumava veranear por ali e convidou-me a visitá-la. Às vezes ia até lá pelo método de me pôr na estrada de polegar no ar e se havia dias em que isso podia ser simples e directo, era outras vezes complicado e conseguido à custa de prestações no trajecto. Assim volveu-se mais prático apanhar o comboio em São Bento, que a viagem, para além de rápida, era interessante. Sempre gostei de comboios, do cheiro a pó de carvão, mesmo quando são eléctricos, dos ambientes associados; das linhas estrábicas que se estendem a perder de vista; do manquejar das rodas sobre os trilhos e, mais do que tudo, da mudança de lugar que proporcionam.
Porto-Gaia-Valadares-Madalena-Miramar-Aguda-Granja-Espinho.
Espinho, uma terra de pescadores seccionada por um comboio, só podia ser uma cidade estranha, sempre assim a achara desde os tempos em que, ainda muito pequeno, era arrastado até lá a visitar os familiares que, em ousadia anual, deixavam a Beira e ali renovavam casa para banhos numa praia cronicamente tornada infrequentával pela nortada e pelas próprias águas do mar, geladas e de correntes perigosas. Mas isso era o menos, havia o ar marítimo, havia os cafés ao longo da rua principal, havia o casino, havia o picadeiro, a linha de caminho de ferro que atravessava a cidade e, pelo alvoroço ferroviário, era ela própria uma atração.
Foi então com uma sensação de liberdade adulta, uma leveza transitária, que vi Espinho com uns olhos diferentes dos do macerado miúdo visitando tios que assobiavam nas vogais e nos recebiam em casas com mobílias que não lhes pertenciam; moradas soturnas de soalhos rangentes, vidraças tristonhas com vista para as ervas daninhas do cascalho da linha de comboio e aparadores torneados de onde, à hora do lanche, surgia a tigela de marmelada que viajara da serra até ao mar.
Com a João não havia marmelada e à hora do lanche, o mais tardar, regressava ela à casa que a família alugava numa rua de que já não recordo o algarismo, pois, nesse único particular, Espinho era como Nova York e as ruas, ao invés de serem apelidadas com nomes de comendadores ou políticos pulverulentos, eram numeradas. Não me lembro também de alguma vez termos idos juntos molhar os pés, limitávamo-nos a passear contentes em companhia, a sentarmo-nos nalguma esplanada a conversar.
E de qualquer sítio de onde viéssemos ou para onde fôssemos lá estava a linha do caminho de ferro contida entre grades e, como ponto de referência do centro nevrálgico da agitação urbana, a passerelle, muito concorrida, pois passando por sobre os carris, permitia aos peões circunvagar de um lado para o outro da cidade sem ter de esperar que os comboios passassem e as cancelas se abrissem.
Por esses dias imaginei escrever uma história que se passaria numa cidade que não se chamava Espinho, mas que teria uma linha de comboio a fazer-lhe risca ao meio; uma passagem aérea para peões com degraus de madeira; e, numa casa vazia, um telefone que, esquecido nas tábuas do soalho, tocava insistentemente sem que ninguém atendesse.
Porquê a casa vazia, porquê o telefone, quem marcava esse número e como terminava a história? Não sei, nunca saí desse momento que retinia como as campainhas das passagens de nível, mas foi essa sensação, desolada e paralisada no tempo, que Espinho me inspirou.
Provavelmente o mesmo não diriam os meus pais que, dois anos após ter terminado a Segunda Guerra Mundial, olham a máquina fotográfica no conforto abrigado da nortada das risquinhas de uma barraca de praia em Espinho. O meu pai, trigueiro e peludo, que, como as minhas tias da marmelada, vinha somente dos lados de Viseu parece chegado de Marrocos na véspera, mas a minha mãe, nos seus vinte anos e clara como convinha a uma praia do norte, parece demasiado etérea para pensar nisso.



Fotografias: (1) Espinho, por volta de 1930; (2) Espinho, 1946. Fotógrafos desconhecidos.