15 março 2014

VOU-TE CONTAR: 65. A CIDADE BRANCA

Alain Tanner, um realizador suíço votado ao sucesso nos anos 70, estreou em 1983 uma história filmada em Lisboa a que entendeu dar o título de A Cidade Branca. Lembro de, na altura, ter ficado um tanto chocado com a escolha da cor, pois Lisboa é cidade de amarelos e rosas – nada tem de branco! Depois, com o passar do tempo absolvi o homem: para quem chegava de onde ele vinha, paragens cinzentas com claridades mortiças, é natural que Lisboa, com a sua luz generosa, pareça branca...
Em Portugal, Faro, sim, essa é que era a cidade branca, os copos verdes em cima do frigorífico.
Para um tipo que pouco mais vira do que cidades do norte, chegar a Faro pela primeira vez foi como ter atravessado o estreito mar sem se dar conta e acordar numa localidade da África árabe: Marrocos, Tunísia, Argélia, eu sei lá. O Alentejo, esse, era percorrido numa pressa de deixar as planuras chamuscada por Agosto e chegar à borda de água do litoral algarvio. Quem iria, derretido no banco de trás de um automóvel sem ar condicionado, reparar nas tonalidades de Grândola ou Mértola? A sul, a sul, que na rua Conselheiro Bivar o apartamento já esperava por nós, as chaves prontas para entrega no escritório do Sr. Fagulha.
Às vezes, para evitar atravessar o Alentejo às horas de maior torreira, saíamos do Porto à noite, de modo a chegar ao Algarve às primeiras horas da manhã, a tempo de tomar um pequeno almoço desentorpecente na serra do Caldeirão, por entre o odor da esteva o pão de centeio acabado de fatiar.
Em Faro, durante o dia, as portas abriam-se para a cal incendiada, impiedosa como um cautério, os nossos olhos cerrados como frecheiras; mesmo à noite a superfície macia dos edifícios parecia reflectir, agora na textura doce de pétalas de jasmim, a brancura caiada da cidade, debruada pelas escamas reptilíneas dos telhados.
Os apartamentos Garantia tinham o recheio parcimonioso, contado, dos apartamentos mobilados e a meia-dúzia de copos de vidro grosso verde-garrafa esperava, militarmente alinhada, em cima do frigorífico – beber era uma coisa que devia estar à mão.
© Fotografia de Pedro Serrano, Faro 2013.