07 abril 2020

Covid19: PORTUGALventil

Aqui quase em frente à minha porta há um renque de contentores do lixo, nas modalidades de lixo normal, plástico e metal, e cartão e papel. Nestes dias de quarentena acumulou-se uma grande quantidade de lixo não classificável entre os contentores, depósitos que provocaram uma febre de feira de antiguidades entre os vizinhos, que andam por lá a disputar colchões velhos, mesinhas de cabeceira desirmanadas, colheres enferrujadas e outras preciosidades do estilo. 
Todas as vezes que espreito os contentores, o meu coração angustia-se, pois, mais do que o receio de não cumprimento, por parte dos respigadores, do distanciamento recomendado pela DGS, temo que, por esse país fora, na vertigem das arrumações, as pessoas estejam a deitar fora uma séria hipótese de sobrevivência à pandemia que nos fustiga.
Assim, cara/o ouvinte, tem uma varinha mágica com as lâminas embotadas e estava a pensar desfazer-se dela? Por amor de Deus, não a deite fora! O motor da sua escova de dentes eléctrica gripou e você ia deitá-la ao lixo? Por amor de, Deus não faça isso! Olhe que até as coisas mais humildes, como o tubo dispensador das gelatinas de WCPato que se colam na retrete podem vir a tornar-se um componente fulcral num futuro ventilador de cuidados intensivos! Ouviu?
Após arrastadas semanas em que assistimos às comunicações dos nossos responsáveis relatando a fase em que estávamos no derivado a ventiladores (a longa espera pela contagem dos que existiam em Portugal, da hesitante subcontagem dos que existiam mas estavam ocupados; da possibilidade de recorrer a ventiladores de uso veterinário; da intenção de os comprar num futuro próximo; da encomenda já feita à China, da retenção na alfândega dos mauzões dos alemães de uma encomenda que era só nossa), depois desse longo intervalo de mastiga, faz bola e estica a pastilha elástica, eis que, de súbito, um vendaval de empreendedorismo percorreu o país de lés-a-lés, como se todo o território tivesse sido contagiado pela WebSummit. Surgem startups como cogumelos, empresas de plásticos de Aljubarrota reconvertem-se da noite para o dia, fabricantes de motores de esguicho para limpa-para-brisas afirmam-se aptos a produzir sejam ventiladores  prontos a usar, sejam componentes essenciais para estes, pois recauchutaram já a impressora a preto e branco Acer numa impressora 3D que, mal chegue o cartucho tricolor da China (retido em Frankfurt), produzirá, ininterruptamente, cerca de 10.000 juntas da colaça específicas para ventilador/semana, funcionando em regime híbrido, eléctrico e solar e, portanto, contribuindo ainda mais para reduzir o tamanho da nossa pegada de carbono.
É que se fica abismado, quase embriagado, com esta promessa de abundância e acho que das duas uma: pelo Natal ou estaremos a exportar ventiladores para países com uma curva epidémica que cresça mais do que 7,3 % ao dia ou, em alternativa, vão começar a sair ventiladores grátis nas raspadinhas e no suplemento de fim de semana do Diário de Notícias e do Correio da Manhã. Qualquer um de nós poderá vir a ter um ventilador em casa e, quando já não precisar dele para a sogra, poderá sempre usá-lo para atiçar as brasas do grelhador que tem no quintal, pois as acendalhas ecológicas saíram fracas.
É claro que, depois de termos os ventiladores operacionais, vai se necessário que alguém os opere. E embora um médico intensivista ou um anestesista demore cinco anos a especializar, estou certo que, no mesmo espírito empreendedor e desenrascado que nos caracteriza, não teremos dificuldade alguma em reconverter a intensidade das dezenas de comentadores televisivos que discutem com todo o à vontade os formatos e as bossas da curva epidémica do Covid19, desde os seus achatamentos epidemiológicos à sua repercussão nas bolsas e nos mercados.

Como sou um pessimista nato, dou por mim a rezar para que, chegada a minha hora de necessitar de um ventilador (cruzes, canhoto, temido), me calhe um daqueles antigos que já havia nos hospitais no tempo da crise do BES ou mesmo um daqueles para uso veterinário de que o Dr. Francisco da Cruz Vermelha tanto pavor tem, por, suponho eu, aflição de poder acordar uma manhã num serviço de cuidados intensivos e deparar na cama ao lado com um pekinois (ressuscitado de algum Cãorona), enquanto o seu próprio ventilador está pacatamente a ser regulado por um médico veterinário.




© Fotografia de cima: pedro serrano, 2019.



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