Durante os últimos cinquenta anos, todos os médicos portugueses foram formados pelo livro Harrison´s Principles of Internal Medicine*, um grosso tratado que viu a primeira publicação em 1950, e que vai actualmente na 22.ª edição (2025). Em Portugal, o Harrison, como é abreviadamente conhecido, era e é usado não só como instrumento fundamental a partir do quarto ano da licenciatura em Medicina — apoiando a formação em todas as áreas do saber médicas (isto é, as áreas não cirúrgicas) como a medicina interna, a cardiologia, a nefrologia, a hematologia, a neurologia, a pneumologia, a oncologia e a imunologia, mas também como documento único de preparação para o exame nacional que antecedia e determinava, pela classificação obtida, a escolha de uma especialidade médica. De tal modo este livro era fulcral e a sua imagem estava colada a esta prova que ela era designada informalmente entre os candidatos como "exame do Harrison". Tudo isto para expor e salientar não só a qualidade, a abrangência e o valor científico da obra, mas igualmente o peso que adquiriu no panorama médico português ao longo de mais de meio século. O livro, com mais de 2.500 páginas e actualmente editado em dois volumes, resulta do contributo de dezenas de especialistas nas áreas desenvolvidas, capitaneados por uma pequena equipa de cinco ou seis editores, todos eles médicos e especialistas de reconhecidíssima competência no mundo médico internacional. Uma destas pessoas foi o Dr. Anthony Fauci, editor do Harrison desde a sua 10.ª edição (1960) e editor-chefe de várias outras. Este médico americano, conhecido e respeitado há décadas a nível mundial, é o mesmo que se vê agora vilipendiado e perseguido pela administração Trump, que pretende, entre outras sacanices, acusá-lo do mais de milhão e meio de mortos provocados pela pandemia naquele país, como se fosse uma espécie de assassino em massa, ao mesmo nível das altas figuras do regime nazi durante o Holocausto. Para quem possa não recordar bem o assunto, foi o actual presidente Trump (durante o primeiro mandato) que suspendeu uma série de iniciativas em torno do controlo da pandemia no país, chegando a aconselhar publicamente a injecção intravenosa de lixívia como modo de resolver rapidamente o assunto e partindo da neandertal ilação de que se a lixívia é usada com sucesso para eliminar bactérias e vírus... Na mesma ordem de raciocínio poder-se-ia ter recorrido ao napalm ou usado uma bomba atómica para o efeito. Recorde-se, também e ainda, que perante o descalabro a que a pandemia chegou nos Estados Unidos numa certa altura, e muito na sequência das medidas intempestivas e irresponsáveis da administração, o presidente foi forçado a chamar de novo o Dr. Anthony Fauci a coordenar o assunto, afogando-o em repetidos louvores e elogios como sempre costuma fazer quando está entalado. Pois agora, que todo o aperto passou, a administração Trump, ilustrada na área da saúde pelo inenarrável Robert F. Kennedy Jr., equivalente a Ministro da Saúde (para desgraça de tal cargo), faz tábua-rasa de tudo o que aconteceu e sujeitam o pobre Dr. Fauci a perseguições, interrogatórios, o banco dos réus, havendo inclusive quem o queira acusar de ter criado o vírus responsável pela anterior pandemia! Triste país, o que submete os seus melhores, os mais esforçados e mais leais à causa pública, a tais vilanias. Nunca esperei ver tal bizarria perante os olhos, muito menos vê-la acontecer num país onde as estruturas centrais de Saúde Pública (tal o CDC, Centers for Diseases Control and Prevention; e o NIH, National Institutes of Health, ambos desmantelados por esta administração) costumavam, pela competência e desenvolvimento, constituir faróis e modelo para o resto do mundo.
* editado pela Mc.Graw-Hill.

O fundo onde os USA vão bater está cada vez mais fundo. Quando acabará isto?
ResponderEliminarAndo tão triste, desiludida, desmoralizada. Vivi os 8 anos da administração Bush nos USA e pensava que tinha visto tudo. A sacanice nos votos na Florida que lhe deram o mandato, os discursos inergumenos, as palermices sem fim. Mas nada chega aos calcanhares da família Trump e seus bajuladores. O genocídio em gaza, a corrupção galopante, o beija-cu a ditadores, a perseguição política a oponentes, a polícia do ICE, o redistritar dos mapas políticos, o supremo a dar cobertura a tudl. É ilegalidades atrás de ilegalidades diariamente. E a Europa a seguir-lhe os passos. E ninguém faz nada. Ninguém. Quem não vê 2026 como 1936 está doente.
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