06 março 2019

ANDOR VIOLETA!

Se cada um dos mais de 31.000 subscritores que, em pouco mais de 3 dias, assinaram a petição pela destituição do Juiz Desembargador Neto de Moura (doravante designado JUDE NEMO) contribuísse, numa espécie de crowdfunding benemérito, com 1 cêntimo seria possível pagar ao homem um bilhete (de apenas ida) até à Arábia Saudita.
Aí, num caldo cultural mais ao seu jeito, Jude Nemo poderia ganhar honestamente a vida acocorado numa barraquinha dos arrabaldes de Ryad a vender inutilidades a quem passasse: pedras para lapidação, miniaturas em plástico dourado do tribunal da relação do Porto, ferraduras para camelos, magnetos com versículos dos livros sagrados sobre a mulher adulterada... E quando lhe desse ganas de proclamar as desconsiderações que lhe correm nas profundezas, poderia sempre pregar no deserto, por felicidade ali ao lado.
E assim, por cá, todos reencontraríamos a paz e a serenidade, ainda ontem perturbada pelas mais recentes choraminguices e alarvidades com que Jude Nemo inundou a comunicação social através de um intermediário, e que aqui resumo aos mais distraídos: Nemo diz que as intensas reacções públicas à sua pessoa o tem feito sentir “triste, usado, indignado e abatido” expressões que, como uma luva, poderiam ter sido proferidas por uma das vítimas de violência doméstica, daquelas que ainda consegue falar. Que tal, senhor juiz desembargador, ser obrigado a descer a escadaria do seu tribunal até à rua, e vestir, nem que seja por um minuto e apenas ao nível das emoções, a pele de quem é forçado a uma realidade tão feia?  
Pela voz do ventríloquo, Jude Nemo anuncia também que está a ser “usado no relançamento do tema da violência doméstica” em Portugal, o que sugere um ego de boneca insuflável e uma tendência para a generalização um tanto abusiva. Mais à frente, noutra fiada de pérolas, Nemo manda dizer que as vítimas de violência doméstica que se sentirem ofendidas com as suas decisões podem sempre recorrer aos tribunais, exactamente como ele se propõe fazer com quem ofendeu a sua dignidade pessoal e profissional. É preciso lata para invocar esta equidade, esta igualdade de direitos e de meios feita por um cidadão que não gastará um tusto em custas judiciais nas sua cruzada justiceira, que é do meio, e se considera tão irresponsável pelos seus actos que se dá ao luxo de processar as autoridades que, justificadamente, o sancionarem quando foi apanhado a conduzir na via pública um automóvel sem matrícula!
Deixo para o fim essa coisa da ‘honra’ ofendida de que Jude Nemo fala gemebundamente. Para ter acesso à honra – informe-se sobre o sucedido nos sistemas concentracionários da Alemanha dos anos 30/40 e da antiga União Soviética – é necessário, antes do mais, estar-se vivo e ter uma certa liberdade de movimentos para dela usufruir e, deste ponto de vista, a ‘honra’ é um luxo a quem nem todas as vítimas de violência doméstica tiveram tempo de chegar.
Dito isto, fica um conselho à laia de conclusão: “ponha-se na alheta”, “desampare a loja”, desembargue a Relação ou, como se diz na cidade que o senhor desfeia: andor violeta!    


04 março 2019

DIGA LÁ 503!

503 é o número de mulheres que foram assassinadas em Portugal entre 2004 e 2018 em ambiente doméstico ou seja, o ambiente que se suporia protector de quem lá vive. Perante a desgraça, quem deveria lidar com ela – o Estado e a Justiça, nos seus diversos departamentos de acompanhamento de casos e punição dos perpetradores – têm-se comportado, salvo honrosas excepções, de forma negligente, incompetente e, sobretudo, fora de horas. As queixas são feitas, os casos são sinalizados, os perigos são reconhecidos, mas a actuação sobre eles é sistematicamente frouxa ou inexistente.
E, como se fosse ainda pouco, há nichos onde estas coisas correm ainda pior do que a média e os funcionários que por lá se sentam concorrem para desfazer o pouco que se fez, insistindo em dar uma mãozinha e soprando a frágil chama da vela que parecia ter sido acesa em nome da justiça e da protecção dos cidadãos. Exemplo flagrante é o Tribunal da Relação do Porto que mais se assemelha a um antro pré-histórico, uma caverna sebosa e sinistra na proximidade da qual dá vontade de atravessar a rua. Dessa caverna, ao público só chegam ecos de más notícias, daquelas em que quase não se acredita quando se ouvem: há meia-dúzia de anos, por exemplo, dois doutos juízes absolveram um médico que, no exercício das funções, violou uma doente, uma senhora em fim de gravidez e em estado de grande fragilidade psicológica. Esse médico tinha sido condenado pelos tribunais comuns, em boa hora fora expulso pela Ordem dos Médicos, mas esse tribunal ‘tira-teimas’ achou que não, que não tinha havido propriamente violência e vá de absolver o monstro e anular a indemnização que este devia à vítima pelos tratos de polé a que a submeteu. Mas estes juízes (o respectivo acórdão pode ser consultado na íntegra em http://www.dgsi.pt/jtrp.nsf/0/1c550c3ad22da86d80257886004fd6b4?OpenDocument) parecem dois principiantes quando comparados com o juiz Neto de Moura, medalha de ouro dos tropeços na luta contra a violência doméstica (na modalidade: dirigida a mulheres) e um herói para todos os matarruanos que a praticam. Com Neto de Moura não há que hesitar em dar porrada nelas, carago, em meter-lhe dentro os tímpanos ou outras membranas, nem que elas façam queixa por escrito e assinem por baixo, pois há ali, na Cordoaria, um amigo que passa a borracha nessa merda toda: reduz sentenças, manda abrir pulseiras electrónicas, defende o pessoal dessas cabras que mereciam ser lapidadas como um diamante, à bruta! Força, Moura amigo, que o pessoal da porrada está contigo! Força, amigo Neto, enche as prisões até ao tecto e processa toda essa cambada que te denigre, mete em tribunal Portugal inteiro, que, estando onde estás e com a prática que tens, não podias estar melhor apetrechado!    

02 janeiro 2019

CADA TERRA COM SEU USO

A propósito da controvérsia portuguesa em torno da divulgação, nas redes sociais (e posteriormente jornais), de uma foto de captura de três bandidozecos violentos do Porto, aqui se dá conhecimento, em segunda-mão, de um hábito costumeiro nos jornais da Índia (neste caso um diário de Goa): a notícia da prisão de dois traficantes de droga com os respectivos captores, posando para a posteridade. Para os mais curiosos, um lakh são 100.000 rupias e um crore vale dez milhões de rupias.

03 dezembro 2018

PORTO INTERPELADO


Porto, Oporto

Quem te apostrofasse

Em prosa ou em rima

Siza Vieira e Viana de Lima.

 

Porto, Oporto

Quem te exclamasse 

No júbilo ou na mágoa

Campolindo, Bonfim e Arca d’Água.

 

Porto, Oporto

Quem te afiançasse

Os muros e as redes

Furadouro, Boavista, Entreparedes.

 

Porto, Oporto

Com apenas duas avenidas para mostrar

Oh, mas ambas levam, a descer, até ao mar

Olha a pérgula, olha a rede, olh’ó castelo

Olha as praias [que lindo], as ondas a chafurdar

E revoadas d’areia para a gente se espojar

Olhos semicerrados, papo a torrar 

Sol na tanga e no sutiã

Língua-da-sogra, bola de Berlim, curassã.

 

Porto, Oporto

Dos toldos vermelhos das churrascarias

Descerrados como pálpebras capotadas

Ou como intenções mal amparadas

Batata frita oleada, febras, entremeada

Chiam os frangos a rodar, a virar, a rodar.

 

Porto, Oporto

[Cisma alguém num eléctrico para S. Mamede]

Das casas embrulhadas em azulejo

Da tanta janela para tão pouca parede

Da luz que foge, se aperta e refulge nalgum brejo

Calçada em Santa Catarina, despida na Cordoaria

Espreguiçada, ouro e mica, na baixela da foz do rio.

 

Porto, Oporto

Por onde pairas agora?

Quando o silêncio goteja

E o nevoeiro – algodão doce enregelado 

Se demora nalguma escadaria de igreja

Atravessado, encolhido, enfastiado

Como um pombo num beirado

 

Porto, Oporto

Mânfios de sapato afiambrado por engraxador

Cuspinhando no chão enquanto trepam as Virtudes

Apressados, as gabardines a pairar os ombros

Como a fumaça das castanhas em Novembro.

 

Porto, Oporto 

Dos arrumadores a mancar, a limpar, a esbracejar

Pensos rápidos e lenços de assoar

Das putas da Alegria, dos chulos na Bolsa

Dos condutores de braço em riste

Extravasando a janela, indignados,

Vociferando: “que foi, nunca viste?”

E outros que bem gostariam de se pronunciar

Mas fugiu-lhes a lábia por entredentes

Lá em Paranhos, em Agramonte

Na Lapa, a Pradorepousar

Os mais alternativos a fumegar...

Olha a lápide, olha a vela, olha a jarrinha

Endireita-me esse molho de cravinas

Adeus, mãezinha, Deus seja contigo

Pró ano trago uma renda nova pró jazigo.

E cá por fora, ainda fora, ainda à tona 

Tanta perna, tanta bochecha, tanta cona

A passejar, a rebarbatar, ao arejo

A recordar que um dia cá por cima

É um bom dia, um bom dia – Salvo seja!

 

Porto, Oporra

E se te fosses foder?

Mais o teu regionalismo tacanho 

Sempre na sopesação do teu tamanho

Resmoneando remoques contra a capital

Que encofra para ela todos os favores

Um concentrado de régulos e regedores

Olha quem fala, olha quem cala.

 

Porto, Oporto

Não cheira a rosas na Areosa, mas

Olha a Rotunda, como está agora

Um diamante deitado

Cravejado no asfalto

À entrada da avenida...

Tal e qual como lá fora.

Marafona rebrandada e lúbrica

A nossa casa da Música

É que nem o centro cultural, mas ainda mais

Mundial, toda em vidro, anodizados e cimento

Que presença, engenheiro, que argumento!

Sim, pode recuar – mais, mais – tá no ponto

Não se rale do tiquê, estou aqui até às oito. 

 

Porto, Oporto

Alho porro, manje-rico

Bacalhau empunhetado

Abrilhantado, enfarruscado 

Equinócio, soles-tício 

Vespertino, matutino

Desnorteado, orientado

Bem-nascido, malcriado

Invictório, mictório, romaria

Hoje é sempre a véspera do dia

Em que ali regressarei.

 

 


© Porto Unnamed, Fotografia de Maria João Pinto Basto.

18 novembro 2018

ENTRETANTO EM MUMBAI (ou Bombaim, ou Bombay)

Lavandaria ao ar livre, Mumbai (Índia), © fotos de pedro serrano, novembro 2018.

09 novembro 2018

ICH WEISS NICHT WAS SIE SAGEN (Não sei do que estão a falar)

Embora afirme ter mais de trina anos de “vida pública”*  José Silvano (secretário-geral do PSD) parece desconhecer algumas regras que norteiam essa mesma função, pelo menos para os vulgares mortais que nela trabalham. Aqui, na função pública, o que acontece a quem faz o que fez, é ser sujeito à instauração de processo disciplinar por – alegadamente, não posso esquecer – ter falsificado um registo de assiduidade e por ter lesado o chamado erário público ao receber dinheiro que não lhe era devido. As consequências podem ir da falta injustificada à suspensão ou expulsão da função, depende.
Mas o senhor parece não só ignorar o enquadramento do que, repetidamente, praticou mas, numa “relação dinâmica entre eleito e eleitores”, para parafrasear Fernando Negrão, líder parlamentar do PSD, ainda tenta convencer os parvos de que é alheio a quem marcou presença por ele, como se vulgar fosse contar com um anjo da guarda que vela e se apressa a pôr a cruzinha no registo, mesmo sem que lhe seja pedido. Ó mundo maravilhoso: ele nem queria, mas alguém que conhecia a sua palavra-de-passagem o fez... “Não, não faças isso, podes-te prejudicar, podes-me prejudicar...”, admite-se até que possa ter pensado, infelizmente tarde demais. É lindo, assistir a esta partilha, esta solidariedade nos apertos da chatice de ter de estar no emprego para receber um subsídio de presença.
E aquilo que é, para o rebanho, motivo de sanção, torna-se, para as rarefeitas personagens que nos gerem e representam, uma “mera questiúncula”, um  pormenor que diz somente respeito aos serviços administrativos da Assembleia da República. Ele, José Silvano, o próprio, magnânimo, já mandou, inclusive, pedir que lhe marquem as faltas, vai devolver o dinheiro recebido..., que “é também isto a democracia”, como logo inferiu Negrão.
Alegremente, Rui Rio, vai assinando por baixo, desvalorizando, mantendo confianças, dando tiros nos sapatos e conduzindo mais fundo o PSD na insignificância em que se encontra.     
* Alguns cargos exercidos por José Silvano segundo o site da Assembleia da República:
Comissão Eventual para o Reforço da Transparência no Exercício de Funções Públicas [Coordenador GP na Assembleia da República] / Presidente da Câmara Municipal de Mirandela / Presidente da Assembleia Municipal de Mirandela / Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Mirandela / Presidente da Assembleia Geral das Águas de Trás-os-Montes / Deputado da Assembleia da República / Presidente do Conselho de Administração do Hospital Terra Quenta, S.A. / Presidente do Conselho de Administração do Complexo Agro Industrial do Cachão / Presidente da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana / Presidente do Conselho de Administração da Empresa Resíduos do Nordeste / Diretor Executivo da Agência do Desenvolvimento Regional do Vale do Tua / Presidente do Conselho de Administração dos Serviços Municipalizados de Mirandela / Presidente do Conselho Local da Ação Social / Presidente do Conselho Local de Educação / Presidente do Conselho de Administração da Escola Profissional de Arte de Mirandela / Presidente do Conselho Fiscal do Sport Clube de Mirandela / Membro do Conselho de Administração do GAT.


06 novembro 2018

Leonard Cohen: A chama e o fogo (a propósito de um livro póstumo)

              Sure it failed my little fire
              But it’s bright the dying spark.

Dois anos redondos após a sua morte (7 de novembro 2016) foi posto à venda um novo livro de Leonard Cohen. Na impossibilidade de o pai o ter feito em tempo útil, The Flame teve o título escolhido pelo seu filho Adam, que justifica a escolha invocando algumas das palavras mais usadas pelo pai ao longo da sua vida de cantor, poeta e escritor: fire, flame, naked, broken. Não restam dúvidas de que foi bem achado, basta recordar o modo como Cohen se referia à vida e ao seu carácter de derrota invencível (invencible defeat), convicção reencontrada, com um aperto na garganta por quem lê o refrão de ‘What Happens to the Heart’, poema que abre The Flame e  datado de 24 de Junho de 2016, a uns escassos quatro meses da morte do autor: Sure it failed my little fire/But it’s bright the dying spark.
The Flame segue uma estrutura semelhante à de outros livros de Leonard Cohen, como Stranger Music (1993) e The Book of Longing (2006), e contém poemas, letras de canções, autorretratos e desenhos, encerrando-se, por desejo do autor, com o belo texto do discurso de aceitação que fez, em Outubro de 2011, ao receber o prémio Príncipe das Astúrias.
Os poemas, em número de 64, ocupam a primeira parte, sendo a segunda preenchida pelas letras das canções dos últimos três álbuns de estúdio gravados (Old Ideas, 2012; Popular Problems, 2014; You Want it Darker, 2016), bem ainda como pelas letras da dezena de canções que escreveu para o CD Blue Alert (2006), de Anjani Thomas, a última companheira da sua vida e voz recorrente nos coros de vários dos seus discos desde 1984.
Quanto aos desenhos e autorretratos, foram sabiamente entremeados ao longo do livro e alguns deles remontam às suas estadias no modesto hotel Kemps Corner, em Mumbai, onde Leonard Cohen ocupava regularmente o quarto 215 durante as suas sessões de aconselhamento espiritual na Índia.
A última parte do livro é ocupada maioritariamente por entradas e registos dos numerosos cadernos de notas mantidos por Mr. Cohen, a que se somou também alguma troca de correio electrónico, mormente o último mail que, na véspera da morte, escreveu agradecendo a recepção de fotos dos filhos da sua ex-mulher, a actriz Rebecca de Mornay.
Anjani Thomas na cozinha de Leonard Cohen (foto Lorca Cohen)
Aliás, ao longo das páginas de The Flame, em versos de poemas ou notas dos cadernos, vão sendo citadas pessoas que foram importantes na vida de Leonard Cohen, como se – e isso é consistente com a tendência para explicitar agradecimentos dos seus últimos anos – quisesse deixar o rasto dessas menções em herança: nelas constam os nomes de Annie (Georgianna Anne Sherman, o seu primeiro amor adulto), Nico (um amor frustrado da época da Factory de Warhol e do Chelsea Hotel), Marianne Ihlen (a norueguesa da canção homónima), Anjani, Bob Dylan (de quem Cohen era admirador confesso) e Roshi (o seu mestre zen  japonês). Mas nem só pessoas parece Mr. Cohen querer relembrar ou despedir-se de: um dos poemas louva, com humor, a ajuda de um novo antidepressivo e duas das entradas das notas em cadernos sublinham a gratidão à Grécia, onde viveu sete anos, uma delas para afirmar que “não podia escapulir-me sem vos dizer que morri na Grécia, fui enterrado naquele lugar onde o burro é amarrado à oliveira, sempre estarei lá”.
Apesar de póstuma e de parte do conteúdo não ser inédito, a totalidade da obra, desde os poemas aos desenhos e às notas dos cadernos, foi escolhida e acompanhada por Leonard Cohen e constituiu o seu último trabalho em vida ao longo do penoso Verão de 2016, como se fica a saber pelos prefácios e posfácios que acompanham o livro, assinados por pessoas que lidaram intimamente com o autor nos últimos dias.

The Flame foi editado em Outubro de 2018, simultaneamente no Canadá, pela Penguin Random House, nos Estados Unidos, por Farrar, Strauss and Giroux, e em Inglaterra, pela Canongate.



Ao lado: fotografia da contracapa de The Flame, da autoria de Joel Saget.