Importa sublinhar, para começar, que o Covid19 não é uma doença em que a transmissão através dos alimentos seja a mais usual ou frequente, ela não é nenuma gastrenterite ou toxinfecção alimentar. O coronavírus é um vírus respiratório e, deste modo, o grande perigo de contágio faz-se através do contacto com alguém infectado, através da tosse, espirros ou gotículas expelidas por essas pessoas, gotículas que ficam nas superfícies durante algumas horas e até dois dias (embora, à medida que cada hora passa, o número de vírus contaminantes diminua de forma rápida). Isto não quer dizer que os alimentos e a sua confecção não possam ter algum papel na transmissão da doença: se um manipulador de alimentos doente tossir sobre os alimentos, o vírus vai-se manter viável neles como se se tratasse de uma superfície inerte e, por isso, é preciso tomar algum cuidado com esta área tão importante da vida: cozinhar e comer.
Mas comecemos pelo princípio:
1. Ironicamente está a acontecer-nos aquilo que praticamos quando, à porta dos supermercados, nos pedem que sejamos solidários com os sem-abrigo ou o Banco Alimentar Contra a Fome. Estamos sobretudo a comprar, para enfrentar o isolamento gerado pela ameaça do Covid19, arroz, massa, feijão, conservas e outros enlatados, isto é: alimentos que se aguentam por muito tempo. Frescos (legumes e vegetais, carne e peixe fresco) compramos muito menos, pois temos medo que possam estar contaminados. Já lá vamos.
Uma das características da comida processada ou em conserva (fumados, salchichas, cubos concentrados de carne, sopas chinesas instantâneas, conservas de peixe e carne, batatas fritas, milho frito) é que o seu teor em sal é altíssimo e o teor em gorduras saturadas também o pode ser. Deste modo, devemos contrabalançar um consumo exagerado, em relação ao que habitualmente consumimos, com uma grande redução no sal com que temperamos a comida. O sal mata, nunca se esqueça: demora, mas até mata mais do que o Covid19. Quanto ao excesso de gordura animal presente em alguns alimentos (salchichas, patés, batatas fritas, mesmo bolachas) devemos contrabalançá-lo usando e abusando dos legumes e vegetais.
2. Um dos modos seguros de consumir legumes e outros vegetais é a sopa, um alimento essencial, que além de aplacar a fome, hidratar o corpo (tem uma grande quantidade de água) nos pode ajudar a repor as vitaminas e sais minerais que precisamos. Falo de sopas de legumes, claro, e das feitas em casa, não das compradas já preparadas, pois nessas caímos no problema referido do excesso de sal e nos ingredientes liofilizados que reduzem a eficácia de algumas vitaminas. A segurança que advém de comer legumes e outros vegetais na sopa provém de ser um alimento cozinhado: o coronavírus (e outros vírus) é destruído se submetido a uma temperatura superior a 60º graus durante mais do que quinze minutos, pelo que um alimento fervido (100º) destruirá qualquer vírus, eventualmente presente, ainda mais rapidamente (escassos minutos).
3. Uma dúvida muito frequente é a seguinte: será que o micro-ondas, como método de cozinhar, e o congelamentoem arca frigorífica destroem o vírus? O micro-ondas sim, destrói o vírus em todas as modalidades de confecção que durem 45 segundos (ou mais). Já o congelamento (à temperatura das arcas domésticas) não destrói o vírus, mas não se esqueça que se congelar pão acabado de comprar durante três ou quatro dias, a probabilidade de ele conter vírus activo ao descongelá-lo e torrá-lo é nula, uma vez que o vírus é como o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa: não consegue viver longe das pessoas, precisa de estar dentro de uma célula humana para sobreviver muito tempo. De igual maneira, os métodos de confecção como cozer, fritar, assar, grelhar, estufar, destroem o coronavírus facilmente pelos motivos já indicados: temperaturas iguais ou superiores a 100º centígrados. Assim sendo, não devemos ter receio em consumir carne ou peixe cozinhados, mas, como recomendação geral, lavem-se previamente em água corrente antes da confecção.
4. Ficam-nos então os alimentos que consumimos frescos e crus: as alfaces, os tomates, couves não cozinhadas, as frutas. O que dizer sobre eles? Em primeiro lugar que são excelentes como fonte de fibra, vitaminas e sais. Um conselho possível durante esta fase de isolamento, e se é previsível que os vamos consumir em menor quantidade, é complementar a dieta com um suplemento vitamínico, um qualquer daqueles que têm um espectro alargado de ingredientes (um por dia) e, para os obter, não precisamos sequer de nos deslocar à farmácia.
4.1. Saladas (cruas)
A primeira sugestão, tal como é feito para as nossas mãos (mas sem o sabão/sabonete) é que lave abundantemente em água corrente todos os vegetais que vai usar crus. Quando se recomenda às pessoas que lavem as mãos muitas vezes ao dia não é só por causa do efeito do sabão/sabonete sobre o vírus, é também porque o arrastamento provocado pela água que corre faz com que o vírus vá parar ao cano, apesar de ser invisível e quase não ter peso. Este método de diminuir a carga de bactérias ou vírus é usado há muitos anos com eficácia em medidas de saúde pública.
Mas, admitamos, mesmo com estes cuidados podem permanecer alguns vírus nos ingredientes de uma salada crua? Podem, mas como já foi dito, esta via de contaminação é longínqua. Mas, mesmo assim, você é um pouco hipocondríaco, não se sente seguro e, como se não bastasse o Corona, é velhinho ou tem uma doença crónica ou está imunodeprimido, ou tudo junto. Então, encha de água um recipiente, deite-lhe 1 colher de sopa de lixívia pura/litro de água e deixe os legumes/vegetais imersos nela durante 15 minutos - tudo quanto é vírus e bactérias será destruído. No final, passe os vegetais ou fruta por água corrente para eliminar o sabor a lixívia.
Nota: a lixívia (ou o cloro, que é o seu princípio activo) é extremamente eficaz, mais do que o álcool, para destruir bactérias e vírus. É, aliás, o produto usado para tratar a água que nos chega a casa e que podemos usar em total segurança. Quanto ao vinagre, é sobretudo útil para temperar a salada, não confie nele para desinfectar, pois não é eficaz.
4.2. Fruta (fresca)
Poderá usar o mesmo método da lixívia com a fruta (sobretudo a que se come com casca, como as uvas ou morangos), mas é suficiente lavá-la abundantemente com água fria, secá-la com papel de cozinha e depois descascá-la. É mais seguro comer fruta descascada nos tempos que correm. Resta-nos a fruta em conserva, enlatada ou enfrascada: é uma alternativa, mas não esqueça que tem demasiado açúcar acrescentado e que os processos de conservação destroem algumas das qualidades alimentares.
5. Comida de outros países (nota sugerida por Raquel Braga)
Das cozinhas de outros países, as mais populares e usadas em Portugal são a chinesa e a japonesa. Quanto à cozinha chinesa esta é perfeitamente segura, pois baseia-se em cozidos e fritos. No que se refere à cozinha japonesa, são de evitar o sashimi (peixe cru) e o sushi, uma vez que são confeccionados à base de ingredientes crus. Este cuidado é sobretudo de observar em idas a restaurantes e comida de takeawy/entrega em casa. Já a tempura (comida frita) e as saborosas sopas ram são completamente seguras.
6. E, finalmente, pode ir comer em paz. Não se esqueça de lavar as mãos com água e sabão/sabonete antes de o fazer e o mesmo deverá fazer antes de começar a cozinhar. Enquanto mastiga, não se ponha a amaldiçoar o Corona. Ele simplesmente luta pela vida, como qualquer outra espécie, e já se viu que é suficientemente inteligente (os vírus são dotados de uma tremenda inteligência colectiva, toda orientada para a sobrevivência) para não nos querer eliminar a todos nós - humanos. Ficaria sem mesa e almofada, sem ter onde comer e se reproduzir, e seria o fim dele!
Por conseguinte, caro/a compatriota/o, ponha-se fino/a e vá à vida, como ele/a.
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