09 junho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 2. Atrás da porta

Primeiro Domingo de Outubro. Dez da manhã. Um jipe percorre em velocidade previdente a estrada nacional. Sentado ao lado do condutor, o delegado de saúde vê, lá em baixo, afastar-se a vila, embruxada nos dourados, nos castanhos e nos vermelhos vivos da folhagem.
“... ela, o marido, e uma filha que ficou para tia. Dantes viviam lá os pais dele, mas já faleceram.”
“Que idade tinha?", inquiriu o médico.
“Andava em cinquenta e dois. Coitada, parece que era uma mulher muito doente...”
“Doente, como?” O delegado retivera a inflexão do comandante da GNR ao pronunciar "doente". O Comandante levou o dedo à careca.
“Nervos. Parece que até terá estado internada num hospital especializado...”
E agarrando-se com entusiasmo ao volante, o condutor embrenhou-se numa narrativa das particularidades dos internamentos da falecida que revelava um conhecimento para-profissional do caso. O delegado de saúde mergulhou na justaposição das peças soltas – a estrada fizera nova curva e, lá longe, os painéis fotovoltaicos que cobriam o telhado do Centro de Saúde desenhavam na paisagem um U rectangular – 51 anos, casada; uma filha solteirona a morar em casa; alguns internamentos psiquiátricos. Domingo, sete e meia da manhã: o marido e a filha saem para a missa (ela ficara, andava um pouco arredada dos padres e da religião). Pega numa espingarda-caçadeira, encaixa-a no peito e - traz! - mata-se.
A casa era à borda da estrada, uma varanda de tábuas corridas sob um alpendre pejada de vultos negros; uns debruçados no varandim, outros crocitando em ajuntamentos. Quando a porta do jipe bateu, murmúrios anunciaram que a lei dos homens chegara para tirar as medidas à morte.
O médico atravessou o ajuntamento distribuindo acenos de saudação e foi recolhendo os bons-dias, apáticos, lamuriosos ou desconfiados, que lhe eram dirigidos. Mais gente no vestíbulo, estes sentados; sem parar pelo corredor até ao quarto ao fundo, à esquerda, de porta fechada.
Uma figura atarracada e vermelhusca, a quem o preto ainda ficava mal, destacou-se da massa de sombras do corredor.
“Por aqui...”
A morta estava estendida, de costas, na cama de casal, tapada com um lençol ensopado de vermelho na região do peito. 
“Foi ali”, o viúvo apontou o canto atrás da porta, “mas trouxemo-la para aqui, pensámos que talvez não houvesse mal... Estar para ali, assim.…” E choramingou.
No canto, escondida pela porta a quem entrava, a parede, de si amarelada, estava borrada por longos laivos vermelhos de aspecto pegajoso. No rodapé e no soalho adjacente havia uma poça de sangue onde se enlameava o cano duplo de uma espingarda e duas chinelas, de flanela axadrezada, imitavam barcos ancorados num poente.
O comandante da GNR acocorou-se com audácia e pescou a caçadeira cuidadosamente. Examinou-a com lentidão, desarticulou-a, inalou-a, piscou um olho aos canos.
“Só foi disparado um cartucho, Sr. Dr. Mas foi municiada com dois.”
O médico destapou o cadáver: uma face inexpressiva de há muitos anos (a morte era mais recente, com toda a certeza), uma madeixa grisalha sobre a testa e uma cratera no meio do peito, um buraco onde cabia um punho e para onde eram sugados os bordos esfarrapados de uma bata às risquinhas verticais, abotoada à frente. A explosão fora tão violenta que destruíra a crença ingénua de que para o coração é preciso mirar à esquerda.
Na vizinhança da janela empoeirada, beneficiando dos raios de sol da manhã, o Comandante e o viúvo reconstituíam o suicídio. O delegado de saúde, cansado de procurar indícios no lodo sangrento, juntou-se-lhes.
“Soube que esteve internada; o que é que tinha?”
“Nervos, senhor doutor. Deu de entristecer, entristecer... Dias seguidos sem dizer água-vai, a mim ou à filha... Até que os médicos acharam melhor que ficasse lá.”
O comandante da GNR interrompeu para citar o viúvo e dizer que "segundo aqui o cônjuge, parece haver uma certa ligação entre o começo da doença e a partida dos incómodos”. O viúvo confirmava, silencioso.
“Segundo aqui o cônjuge”, continuou o comandante, “ela já ameaçara fazer isto (apontou o corpo) em repetidas circunstâncias. Até que, desta vez, fê-lo mesmo.... É formidável!”
Os três vultos mantinham-se encostados à janela. Deve ter, mais ou menos, a idade da Micéu. O delegado de saúde – distraído a observar a criança que, agachada no exterior, o rego do sexo ao léu e roçando o solo encardido, espiava uma galinha a debicar – explicava que, provavelmente, o gatilho fora premido com um dedo do pé e lamentava que o viúvo não recordasse se ela já teria as chinelas calçadas quando saíra para a missa. O outro desculpava-se:
“Olhe que não reparei; se eu soubesse..., se soubesse tinha reparado.”
Quando, no regresso, voltaram pela sala havia duas velas acesas no tampo de uma masseira e uma velha adornava, adormecida, numa cadeira. O viúvo reteve um momento o médico para, às escondidas, lhe perguntar para quando é que poderia combinar o funeral com o padre.
“Isso não depende de nós, amigo”, respondeu o delegado de saúde englobando a autoridade policial, “temos que aguardar a decisão do tribunal.”
“Mas o Sr. Dr. acha que vai ter de haver autópsia?”
“Quem me dera saber... Mas não posso adiantar nada. Quando chegarmos lá em baixo vamos tentar contactar outra vez o magistrado do tribunal. Está tudo nas mãos dele... Só depois é que podemos avançar nós.”
Passava das treze quando o jipe cruzou o pequeno painel de azulejo que dava as boas-vindas a quem chegava à vila, momento que o Comandante parecia ter escolhido para perguntar:
“O Dr. Raul quer que o deixe em casa?”
“Estava para aqui a pensar... E se tentássemos ligar ao homem agora? É hora de almoço, pode ser que o apanhemos em casa.”
O Comandante pareceu reanimar com a ideia, propôs que o fizessem a partir do posto da Guarda; depois podiam ir até casa dele petiscar alguma coisa, iam sendo horas e – pelo menos o dele – o bandulho já ronronava...
“Telefonava do Posto à minha esposa, era só pôr mais um talher...”
O médico agradeceu muito, pediu que, em sendo possível, ficasse para outra ocasião.
“Esta noite dormi mal... Para ser franco, ainda estava na cama quando o senhor ligou a anunciar esta prenda... Quer dizer, já não estava a dormir, mas estava para ali, no choco. Vamos telefonar e depois, se não me levar a mal, vou esticar-me um bocado. É que se o homem resolve insistir na autópsia...”
“Oxalá não...”, desejou o Comandante arrepiando-se, “é inequívoco que não há suspeita de crime...”
“Sei lá, comandante Mário, sei lá; com estes gajos novos que eles agora colocam nos tribunais... Ainda por cima de fora, não conhecem a realidade da comarca, tanto lhes faz....”
O Comandante reconheceu o grande constrangimento que era o concelho não possuir tribunal próprio, de tudo ter de se coser pelas regras de Paço de Vilharigues.
“É uma porra!”, resumiu o médico.
Em casa, Raul atirou-se para cima da cama com um suspiro, tendo o cuidado de manter os pés calçados fora dos limites do colchão. Ficou-se a matutar por que raio se teria a outra matado atrás da porta, como se fosse uma menina de castigo ao canto de uma sala de aula, ou tivesse vergonha do que ia fazer.
Afinal, não tinham conseguido apanhar o delegado do Procurador da República, o comandante da GNR voltara a insistir no almoço e, seguidamente, em o levar a casa no jipe.
“São cinco minutos a pé, comandante Mário! E o que vamos fazer, entretanto, com aquela pobre lá em cima? Chateia-me deixá-la ali, em exposição, com a família pendurada e os vizinhos a espreitar, a poder mexer no que deve estar quieto. Não é bom...”
O Comandante concordava, tirara o quépi e massajava a cabeça na zona onde este trilhara a calva. Adiantou:
“O que é que o Dr. Raul acharia de mandarmos lá o carro mortuário e a trazermos para baixo, para o Centro de Saúde? Ficava em local neutro e, se a autópsia não vier a ser dispensada, já está onde é preciso...”
“Não podia estar mais de acordo. O senhor fala com os bombeiros? E pede a alguém que telefone ao viúvo, a avisar?”
Apesar de já estar naquelas terras ia para três anos, o delegado de saúde sentiu no olhar piedoso do comandante, no remexer na cadeira do Cabo, que preenchia um bloco-notas aplicadamente, ter voltado a cometer outra das suas gafes de citadino.
“É que eles não têm telefone lá em cima... Ó Duarte,” invectivou o subalterno, “quem é que, na Reboriça, terá telefone mais perto do local da ocorrência?”
O Cabo pousou a esferográfica com cuidado, entrelaçou as mãos e recostou-se na cadeira, saboreando o momento.
“Ali, mais perto, só se for a venda do Feliciano... Pode não atender, sendo Domingo, mas como mora por cima...”  
Eram seis da tarde quando o telefone o acordou de um sono embrutecido. Correu à sala, àquela hora só podia ser a GNR. As filhas costumavam ligar ao Domingo, mas em cima das nove da noite, rigorosamente antes de irem deitar-se.
“Não consegui apanhar o homem..., dizem-me que terá ido almoçar a Sardanelos, a casa dos sogros. Ora sucede que Sardanelos é para lá de Carrazeda de Ansiães”, confidenciou uma voz desalentada. “Acho que isto vai ter de ficar tudo para amanhã.”
Desligou e ficou-se ao pé do telefone, a olhar o lusco-fusco nos vidros da janela. Já anoitecia mais cedo, não tardava e estavam na porra do Natal! Meteu a fralda da camisa dentro das calças, passou um pente afogado em água pela gaforina e viu-se no espelho do quarto de banho com desgosto. Ao passar pela sala, pescou as chaves do carro, picou uma ameixa seca da tacinha na mesa, e desceu as escadas como se tivesse pressa.  
Fechou a porta da garagem, guardou a chave no bolso e espreitou com cautela à esquina que permitia ver a fachada do edifício. A chusma de gente ainda lá estava; como era possível, depois de ter já explicado tudo quanto havia a explicar! Por duas vezes! Ou iriam ficar ali de guarda toda a noite, como os ciganos? A coberto do crepúsculo, sorrateiro como um gatuno, desceu a tira de relva do talude e saltou o murete que separava o recinto do Centro de Saúde da rua do Papagaio.
&&&

Quando acabou o jantar onde iam as nove horas e lá se fora o telefonema das filhas — ia ficar registado mais um agravo para a próxima vez que a ex-mulher quisesse glosar a tese do ‘pai ausente’. Resolveu voltar ao Centro de Saúde, a ver como ia tudo e se a noite chegaria à manhã sem sobressaltos de maior.
Já não parecia haver movimento à porta da Urgência, mas, por via das cautelas, voltou a usar a porta da garagem. Alguém colocara um tabuleiro de alumínio – grande, quadrangular, daqueles de ir ao forno – repleto de gelo entre a ventoinha e os tornozelos da morta, e uma brisa fresca soprava o cadáver, pregueando o lençol como um ventinho sobre o mar.
Subiu as escadas até ao internamento.
“Então, tudo nos conformes?”, perguntou ao abrir a porta da sala de trabalho onde Odete escrevia sentada ao livro de ocorrências e Alcina dobrava compressas a partir de uma montanha branca de gazes. A enfermeira ergueu um olhar desdenhoso da escrita:
“Tudo calmo, Dr. Raul, quer dizer: agora; que há bocado esteve um bocado animado com essa gentinha toda.”
O médico continuava à porta, sem se atrever a entrar na pequena sala, como se, embora fosse o director de tudo aquilo, lhe estivesse vedado perturbar a pacatez da rotina nocturna. Tossicou, quis saber:
“Foi a senhora enfermeira que pôs o tabuleiro de gelo lá em baixo...? Boa ideia.”
“Fui eu, Dr.”, retificou Alcina levantando a atenção das compressas, “era costume em Angola. Fazia-se isto, por causa do calor.”
“Foi bem lembrado... Amanhã deveremos ter isto resolvido”, desculpou-se pela inquilina da cave, “Bem, vou andando, tenham uma noite descansada. Alcina, espero que não sonhes com ratos...”
“Ai, Dr. Raul, não comece, por favor... Não sabe que sonhar com ratos é mau, traz desgraça?”
“Não sabia”, respondeu o director genuinamente espantado; “e tu acreditas nisso?”
“Acreditar, acreditar, não acredito; mas não deixo de pensar nisso e não é bom...”
“Pois... Bem, até amanhã.”
“Se Deus quiser”, completou a enfermeira.
“Ou isso”, concedeu.
Será que ficavam a falar dele quando virava costas? Apostava que sim, talvez sobre miudezas como o ar desmazelado, as camisas amarrotadas; o andar às compras no supermercado local, faltar-lhe uma mulher na vida, essas porras. Ainda por cima, Odete era vizinha, morava na porta em frente à sua, estava habilitada a relatar a qualidade dos silêncios que trespassavam as paredes dos apartamentos.
A 4L esperava, silente como um cavalo fiel, no estacionamento deserto. O volante estava frio, arrefecera com a noite; apesar dos dias ainda quentes, o Inverno fazia-se anunciar por pequenos sinais.
Era engraçado como, um milheiro de dias depois, ainda se lembrava, como de uma fotografia, do momento em que primeiro pusera os olhos em Alcina. Acontecera precisamente no dia em que decidira meter-se no carro e ir espreitar o novo local de trabalho, o desterro. Odete chegara mais tarde, já o Centro tinha aberto portas ao público, recambiada de Moçambique e seduzida por um emprego com casa, luz, água e telefone incluídos.
Quando deu por si, estacionado em frente aos prédios, o motor não tivera nem tempo de passar algum do seu ronronar quente para as grelhas de aquecimento do habitáculo. Olhou as janelas do segundo direito, onde brilhava uma luz - era a do quarto, deixara-a esquecida ao sair. 

(continua)
© Fotografia de pedro serrano, Penaformosa 2016.

05 junho 2020

AMIGOS NOVOS E ANTIGOS (na morte de Aldir Blanc)


O meu primeiro contacto com a poesia de Aldir Blanc deu-se em 1978, quando se exibia em Portugal uma telenovela brasileira, nesses dias a coqueluche da programação da TV, chamada O Astro. No fundo musical do enredo ouvia-se, a páginas tantas, uma voz que recitava:

      Em Setembro se Vênus me ajudar
      Virá alguém
      Eu sou de Virgem
      E só de imaginar 
      Me dá vertigem...



E a canção propriamente cantada iniciava-se com a seguinte declaração:


      Minha pedra é ametista
      Minha cor, o amarelo
      Mas sou sincero
      Necessito ir urgente ao dentista
      Tenho alma de artista
      E tremores nas mãos
      Ao meu bem mostrarei
      No coração, um sopro e uma ilusão...


Devido ao sucesso da novela, pouco depois apareceu em Portugal um disco de longa duração, chamados LP, cuja capa anunciava conter a canção 'Bijouterias', da telenovela O Astro. O título desse LP era Tiro de Misericórdia, o cantor chamava-se João Bosco e o autor da letra e de, aliás, todas as outras, chamava-se Aldir Blanc. Comprei, ainda o tenho por aí nessa versão pré-histórica em vinyl.
Acontece, igualmente, que nesses anos 70 eu era estudante de Medicina e abundavam na Faculdade de Medicina do Porto os alunos vindos do Brasil fazer o curso em Portugal por falta de capacidade numérica das universidades de lá. Fiz amizade com vários e um deles era grande amante de música e especificamente de João Bosco, de quem possuía vinys de que eu nunca ouvira falar. Um deles chamava-se Caça à Raposa (1975) e outro, editado em 1976, Galos de Briga. Ponto em comum: todas as canções eram assinadas pela dupla João Bosco (música), Aldir Blanc (letra) e todas, mas mesmo todas, o que é muito raro num conjunto de 11 ou 12 canções, eram excelentes e musicalmente superiores. 
Algo que, desde logo, muito me cativou nessas canções eram os poemas, autênticas joias, repletos de ironia e humor, muitas vezes sarcástico outras vezes negro; as histórias que iam sendo contadas através deles; os retratos de habitantes de favela, malandros, deserdados vários da sorte, gente vulgar. Sim, já por cá andava o Chico Buarque a cantar isso tudo também e com a sofisticação literária que se lhe conhece, mas estes faziam-no em tom mais malandro ainda (se é que era possível e se assim se pode dizer), mais esfusiante, de como alguém que não tem respeito por ninguém. Inclusive, até com um samba do Chico gozavam numa das suas canções ('Samba de Marimbondo')!
Nesses dourados anos dos meus vinte anos fui conhecendo e ouvindo tudo quanto ia saindo de João Bosco. Não que os discos fossem comercializados em Portugal (nunca foi tão famoso por cá como Caetano, Gal, Chico ou Bethânia), mas esse meu amigo brasileiro ia praticamente todos os anos a Cachoeira de Itapemirim, terra natal de Roberto Carlos, visitar a família e, no regresso, trazia as novidades musicais, obrigatoriamente as referentes a João Bosco e Aldir Blanc. E, desse modo, conheci Linha de Passe (1979), Bandalhismo (1980), Essa É a Sua Vida (1981), Comissão de Frente (1982) e, em 1984, Gagabirô, a maravilhosa obra que, embora não o soubesse à altura, marcava o fim da colaboração regular e praticamente exclusiva entre João Bosco e Aldir Blanc. Tinha durado dez anos, bem bom; era uma pena ter terminado, sem dúvida, mas a vida corre assim.
Da esqueda para a direita: João Bosco, Aldir Blanc.
João Bosco, em minha opinião, nunca mais foi o mesmo, nunca se recompôs da ausência de Aldir Blanc, como nunca se recompuseram os The Doors após o desaparecimento de Jim Morrison, ou cada um dos quatro Beatles quando se separaram, ou Art Garfunkel quando ficou sem a inspiração de Paul Simon por perto. Acontece, "O tempo vence toda a ilusão", como escreve Blanc para 'Agnus Sei'.
Na metade que faltava completar da época de 80 e nas décadas seguintes fui comprando os CD de João Bosco que apareciam. Não todos por cá, que continuavam a ser pouco editados, mas em Espanha ou no Japão, país que tem extraordinária veneração pela música brasileira e onde se encontra tudo quanto se queira, de João Gilberto a Cartola, passando por Pixinguinha e João Donato. E fui assistindo aos concertos que João Bosco deu por Portugal, quatro ou cinco vezes entre o Porto e Lisboa. Sempre um músico fora de série, um cantor fora de série, na companhia de instrumentistas fora de série; introduzindo arranjos novos em canções antigas.
Mas composições novas, como as do tempo de Aldir Blanc, nunca mais. E sem aqueles poemas, sem aquela vivacidade, aqueles enredos, o que ficava mais no ouvido do João Bosco órfão de parceiro eram algumas canções de amor romântico, de queixa amorosa total (como 'Desenho de Giz' ou 'Quando o Amor Acontece'), que é sempre mais fácil de conseguir contar do que o resto. Os amores transviados ou difíceis dos tempos de Aldir evaporaram-se e nunca mais se pôs a vista numa "Amiga inseparável, rancores siameses nos unem pelo olhar; infelizes para sempre, em comunhão de males, obrigação de amar" ('Siameses'); ou num "Quando você gritou, mengo, no segundo golo do Zico, tirei sem pensar o cinto e bati até cansar" ('Golo Anulado'); nem jamais a declaração de que "O amor é demais, me fez dobrar os joelhos me faz tirar coelhos da cartola surrada da esperança" ('Falso Brilhante') ou o resignado "Voltei pro lar e, em plena dor de corno, quebrei o video da televisão" ('Bandalhismo').
Deixaram-me eterna saudade as metáforas ou as analogias surpreendentes como a de "Caía a tarde feita um viaduto" ('O Bêbado e a Equilibrista') ou a de "Hoje em dia o nosso romance está mais azul que equimose" ('Parati'), esta última só podendo ser achada por um médico, como o era Aldir Blanc. Empalideceu das letras das canções a beleza inesperada de "A ponta de um torturante Bandaid no calcanhar" ('Dois Para Lá, Dois Para Cá') ou os "Beijos, cometas rolando no céu da boca", de 'Latin Lover'; ou, ainda, a história, a estourar de nostalgia irónica, de um modesto sucesso, narrado por um velho admirador, de Margot no dia em que foi 'coroada Miss Suéter' no concurso do Instituto Nacional de Previdência Social [equivalente das nossas Caixas de Previdência], onde era administrativa:

      Fascínio tenho eu
      Por falsas louras
      Ai, a negra lingerie
      Com sardas
      Sobrancelha feita a lápis
      E perfume da Coty
      Na boca
      Dois pivots tão graciosos
      Entre joias naturais
      E olhos tais minúsculos aquários
      De peixinhos tropicais
      Eu conheço uma assim
      Uma dessas mulheres
      Que um homem não esquece
      Ex-atriz de TV
      Hoje é escriturária do INPS
      E que, dias atrás
      Venceu lá o concurso de
      Miss Suéter...


Foram-se, também, as letras escabrosas e quase gráficas que algumas canções exigiam, como o "Preparando um caldinho para a noiva gargarejar" ('Foi-se o Que Era Doce'), ou "Fazendo anos no sofá-cama" ('Anos de Instituto/Anais'); a perspectiva visual de "Banca a artista, se cruza as pernas é aquela vista, mostra mais que em ida ao ginecologista" ('Tal Mãe, Tal Filha'), ou as imundícies orais de "Perdigoto, cascata [conversa fiada], tosse e escarro" acumuladas em 'Bandalhismo'. 
Mas Aldir Blanc tinha igualmente em si a mágoa da passagem do tempo, "É o tempo, Maria, te comendo feito traça num vestido de noivado" ('Bodas de Prata'), e o peso de todos os mortos acumulados de 'Viena fica na 28 de Setembro'; como não lhe era alheia a consciência de que o ser humano não é sempre transparente ou bem intencionado: "Meu coração tem botequins imundos" (Bandalhismo); "Domingo numa solenidade, uma otoridade me abraçou, bati-lhe a carteira, nem notou, levou meu relógio e eu nem vi, já não há mais lugar para amador" ('Profissionalismo É Isso Aí').
Apesar da irreverência, mas sempre sujeitas a ela, nas suas letras abundavam os episódicos bíblicos transformados, desde o presépio de 'Genesis' ("Quando ele nasceu foi do sufoco, tinha uma vaca, um burro e um louco"), ao Cristo morto de 'Vitral da Sexta Estação':

Ai, Verônica, enxuga esse ai no avental: 
lama, púrpura e cal, graxa, bile, suor
Essa borra em teu pano é um rosto profano 
na via cachorra de um batalhador numa de horror.

Aldir Blanc e João Bosco cantaram de tudo, cantaram até a pátria em vários hinos, épicos, como no grandioso fresco de 'Nação', ou nostálgicos como em: 

        Saindo pro trabalho de manhã
        O avô vestia o sol do quarador
        Tecido em goiabeiras, sabiás
        Cigarras, vira-latas e um amor
        E o amor ia ao portão pra dar adeus
        De pano na cabeça, espanador 
        Os netos, o quintal, Vila Isabel
        Todo o Brasil era sol, quarador...


estes últimos abrindo a canção 'Tempos do Onça e do Fera/Quarador' [quarador é o mesmo que coradouro]; sem esquecer o glosar de temas históricos e de escravatura, como em "Rubras cascatas, jorravam das costas dos santos, entre cantos e chibatas" ('O Mestre Sala dos Mares'), ou a colonização de novos países como em 'Agnus Sei': 

        Faces sob o sol, os olhos na cruz
        Os heróis do bem prosseguem na brisa na manhã
        Vão levar ao reino dos minaretes
        A paz na ponta dos arietes
        A conversão para os infiéis
        Para trás ficou a marca da cruz
        Na fumaça negra vinda na brisa da manhã...


Cantaram, igualmente, a história actual, a dos anos 70 a que assistiram, sobretudo os momentos políticos importantes, como acontece na imortal canção 'O Bêbado e a Equilibrista', que se transformou num hino nacional informal durante as Directas; cantaram as esperanças sem futuro dos emigrantes internos do Brasil, fosse na sua visão colectiva, como em 'Rancho da Goiabada', ou individual, como no divertido 'Vaso Ruim Não Quebra', ou no lindíssimo 'Essa É a Sua Vida':  

Ser atriz, ser feliz
Ex-favelada conquista Paris
Joias, corbéis, gritos de bis
Um gentil homem, que lembre Aramis
Ter sempre carne, licor de Anis
no Balcão
Serve em pé, pra um funcionário
pra um operário, pra um otário qualquer, o avental azul
os seus sonhos, manchas de café.

Podia estar todo o dia nisto, acreditem, e amanhã também. A dupla, desde que se conheceu em 1970, escreveu mais de 100 canções em conjunto e não consigo nunca decidir-me, sequer, pelas vinte melhores! (tentei fazer uma lista e acabei com 49 listadas, algumas a gemer na minha consciência por terem ficado de fora). 
Nos anos 70, O Pasquim, um jornal literário brasileiro de grande popularidade e humor e responsável pela edição do primeiro single de João Bosco (Agnus Sei/Bala com Bala; 1972), anunciava com frequência nas suas páginas que Aldir Blanc acabara de escrever mais uma letra totalmente impossível de musicar e o desafio, divulgado o poema, era medir o tempo que João Bosco demoraria a musicá-la. Fazia-o sempre, e de que modo brilhante e conseguido, em acrobacias tão descomunais como o que, mais recentemente e no inverso, Chico Buarque alcançaria (Carioca, 2006) ao inserir um poema na música 'Bolero Blues' de Jorge Hélder.
Da minha geração, fui conhecendo, aqui e ali e com grata surpresa e uma sensação de intimidade, outros fãs portugueses de João Bosco; um deles tinha o hábito energético de cantar 'Miss Suéter' a plenos pulmões logo que se levantava e cirandava pela casa. Depois vieram os filhos dessa gente e novos e intensos seguidores apareceram. Um dos grandes e mais antigos amigos do meu filho confessou-me um dia que abraçara a música como profissão ao ouvir, entre outros, João Bosco aqui em casa. E é reconhecível, na música que pratica, a marca de João Bosco, na que compõe o dedo de Aldir Blanc. Feliz surpresa. Como feliz surpresa é agora ver alguns dos filhos desses filhos começar a ouvir João Bosco como se fosse descoberta deles, tipo "pai, tu já ouviste bem isto?"  
Agora dizem que Aldir Blanc, morreu, mas, por mim, sei que vai continuar a espreitar às janelas da minha história. Que posso eu dizer mais, Aldir, que você não tenha dito já?

Vou-me, deixando a letra integral da canção que emprestou título a este texto ('Amigos Novos e Antigos') e onde Aldir escreveu e João musicou uma linda e delicada homenagem a 'Sun King', de Lennon e McCartney: 

          As frases e as manhãs são espontâneas
          Levantam do escuro e ninguém pode evitar
          Eu tento apenas mostrar cantando
          O lado oculto do meu coração.
          Eu tenho às vezes no olhar tardes de chuva
          E sons percorrendo alamedas na memória
          Eu tento apenas mostrar cantando
          O que há nos lagos do meu coração.
          Quando paramucho mi amore defelice corazon
          Mundo paparazzi mi amore chicka ferdy parasol
          Cuesto obrigado tanta mucho que can eat it carousel.
          Alguém entrou no meu peito agora
          Mas só depois vou saber quem é.
Aldir e Mariana Blanc.




Nota: este texto é dedicado a Andreia Azevedo Soares que, gentilmente, me falou da sua amizade com Mariana Blanc, filha de Aldir, nos tempos em que os dias que aqui referi tinham acontecido











© Todas as canções referidas são (excepto se indicado de outro modo) da autoria de João Bosco e Aldir Blanc.

04 junho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 1. Gambas à la planche

E a vida que era um tão longo processo de asfixia... 
Não estava no local mais consentâneo – aguardava uma dose de gambas à la planche, a especialidade da casa – mas fora um pensamento que, mal fechara sobre si a porta da garagem do Centro de Saúde, se lhe colara ao espírito como um chiclete à sola dum sapato. 
Meteu a chave ao bolso e espreitou pela esquina que permitia ver a fachada do edifício. Anoitecera, porém, a horda continuava lá, apinhada à porta da Urgência, à espera. Já de manhã tivera de se haver com alguns deles. Fartara-se de repetir – aos filhos, ao viúvo, à nora – que nada podia adiantar: era Domingo, era uma morte violenta, o ónus da decisão cabia ao Delegado do Procurador da República, ausente em parte incerta. Mas eles insistiam numa previsão da hora do funeral, esganiçavam-se sobre o ser preciso combinar com o padre, lavar e vestir a mãe…. Respeitoso, rodando a aba do chapéu preto entre os dedos, o viúvo atrevia-se, repetia-se:
“Bem vê, Sr. Dr., o tempo vai quente: amanhã já deve cheirar.”
Oh sim, nem ele calculava como; aliás já cheirava qualquer coisa, não ainda o infecto perfume da putrefação orgânica, mas uma mistela, igualmente inesquecível, de pólvora e vísceras ao léu. Disse:
“Eu sei, amigo, já de manhã falámos nisso...”
E fora nesse ponto da argumentação, enquanto os vultos de escuro se agitavam à sua volta, que decidira pelas gambas. Nada de carne: umas gambazinhas com aquele molho mistério que o Maximino aprendera na tropa; uma espécie de mimo a si próprio para pincelar a agrura do feriado. Para se desprender, foi prometendo:
“No fim digo-vos o que puder…” 
E, deixando a horda a esbracejar, raspara-se para o interior do edifício em direcção à cave, onde ficava a garagem.
“Quer ajuda lá em baixo, Dr.?” perguntou o enfermeiro, que fumava pensativamente um cigarro encostado à ombreira da sala de observações da Urgência.
“Obrigado, Soares, acho que não. Vou só tapá-la das moscas.”
Todavia, a oferta fê-lo reconsiderar e, pousando uma mão no ombro do homem, pediu: 
“Arranje-me um frasco de Cetavlon, uma pinça de dentes e uma molhada de gazes enquanto passo pelo gabinete a pegar a ventoinha – vou pô-la lá em baixo a soprar. Sempre é melhor que nada.”
O enfermeiro, como se encolhesse os ombros, arregalou as sobrancelhas acima da armação dos óculos de aros dourados. Era assunto mais que batido entre eles, aquele da estupidez de quem concebia equipamentos de saúde em Portugal. Onde já se tinha visto? Um edifício estreado há três anos, apetrechado com o último berro da tecnologia, como afiançara na inauguração um dos quatro ministros presentes e, aparentemente, ninguém se lembrara de que as pessoas morrem, que é necessário arrecadá-las, que, por vezes, é preciso proceder a uma autópsia. Estavam nos anos 80, porra! Mas nada: nem morgue nem sala mortuária, nem frigorífico onde coubesse um corpo. Que imaginavam eles? Que iam deitar os cadáveres numa das camas do internamento? Que os iam manter arrefecidos na arca congeladora da despensa, entremeados com as febras e as postas de pescada?! 
Já mesmo assim era um inferno improvisá-los por uma noite ou duas na garagem, espichados na mesa de carpinteiro que sobrara das obras, ao lado do Land Rover. De cada santa vez tinha de ouvir das boas às auxiliares, borradas de medo com aquelas presenças intranquilas, algumas recusavam-se a descer as escadas para a cave. Um dia fora vista uma ratazana a cirandar na garagem, a cobiçar o morto; houve que isolar as pernas da mesa, mergulhá-las em latas com gasóleo, dar um cheiro de Valium à Alcina, mais transtornada pelo roedor do que pelo defunto e que, incomodada por estar deitada numa marquesa em vez de a trabalhar, se justificava:
“Eu sei, Dr., nem sequer acredito muito que os mortos voltem para nos apoquentar, coitadinhos; mas o que quer - é mais forte do que eu, é como com os ratos.” 
“Então, hoje fica cá dentro? Com este tempo!"
Levantou os olhos da toalha de papel onde traçava riscos. Clara acercava-se com a ementa e um sorriso. Baixou a voz quando ela se inclinou a recolher a toalha usada.
“Sabes, aquilo lá fora está um bocado perigoso... Estou a ser muito requisitado.”
“Já ouvi dizer...”, respondeu ela com um acento sombrio, “a notícia chateou-me – eu gostava dela, sabe? Era boa mulher, chegou a trabalhar aqui. Nunca imaginei que fosse pessoa para fazer isto, mas, também, o que é que a gente sabe do que vai na cabeça dos outros?”
“Exactamente…”, concordou o cliente iniciando riscos na nova toalha, “mas não te adiantes em palpites, que ainda não temos autorização do tribunal para abrir o bico...”
“E então o que vai ser?”, quis ela saber, recuperando o tom e o sorriso como quem tira um lápis da estante da orelha.
“Olha, pede-me aí ao Maximino uma dose de gambas, bem picantes, e uma travessa de batatas fritas… E um fino, gelado, já já... Estou a precisar de um luxo no estômago…”
Ficou-se a vê-la atravessar a sala, carregada de pratos, a empurrar a porta de vaivém para a cozinha com o rabo, um gesto prático e sensual. Sentiu como que um raio de sol atravessar os pensamentos, era esse o efeito que Clara tinha em si.

(continua)

© Foto de baixo: pedro serrano, Penaformosa, 2016.

26 maio 2020

05 maio 2020

COVID19: UM BALANÇO ONDULADO

Grosso modo, resumindo e apenas com o fito de equacionar atitudes práticas no dia a dia, Portugal, como um todo, não chegou assim tão mal ao final da primeira onda da pandemia: com 25.351 casos e 1.007 mortos, parece que a nossa letalidade (proporção de infectados por Covid19 que morre da doença) ronda os 4,0 %, valor dentro da média para a letalidade global por esta doença, segundo os, sempre algo atrasados, cálculos da OMS e que, no início de Março, apontava os 3,4 %. 
Mas convém usarmos de prudência e, talvez, para obter valor mais condizente com o real, seja adequado adicionar-lhe mortes arrumadas como por todas as causas, mas que, sobretudo na fase inicial da pandemia, poderiam ser devidas a Covid19 não diagnosticado como tal, e, nessa óptica, juntar-lhe-ia outro tanto (mais um milhar), o que, grosso modo, e deixando as pitonisas emergentes e os teóricos das décimas após a vírgula engalfinhados, fará subir a letalidade portuguesa actual para 7,9 %. É forte, se nos compararmos com a Alemanha (4,1, %), mas há quem se esteja a sair bem pior, como a Espanha, a Itália, o Reino Unido ou a Bélgica (todos com valores, por agora, acima dos 10 %), e sob a reserva desta nova doença estar ainda a revelar contínuas surpresas em termos de apresentação, gravidade e mortalidade associada. E, deve acrescentar-se que o tamanho deste valor, que nos dá uma ideia sobre o risco de morrer se infectado pela doença, tem, em Portugal, estado fortemente dependente da quantidade de pessoas com idades avançadas que têm morrido, quase metade pessoas muito idosas e internadas em lares. 
Com cerca de 39.000 de testes de diagnóstico por milhão de habitantes, estamos nos primeiros quatro lugares, a nível planetário, dos países que mais testam, o que tem uma ilação interessante: esta quantidade de testes permite, finalmente e com alguma segurança, dar como próximas a realidade e os números que nos são divulgados diariamente pelas autoridades. Finalmente, outro aspecto positivo é o modo como os hospitais estão a aguentar o embate da doença: como os casos têm sido contidos a montante pelas medidas de prevenção postas em prática (confinamento, higiene, protecção individual), os internamentos e os cuidados intensivos têm aguentado bastante bem a procura gerada pelo Covid19.
2. Na história lusa desta epidemia, medida desde Fevereiro de 2020 quando tudo começou a aquecer a nível mundial, há, ao nível nacional, quem se tenha portado muito mal (responsáveis máximos de órgãos centrais do Ministério da Saúde) e muito bem (profissionais de saúde e autarcas). Este últimos foi o que nos valeu, diria, pois a esse tempo, Lisboa só dizia disparates (não vai chegar cá; só é confinado quem quer; é uma doença leve como a gripe; máscaras não servem para nada; vá ao lar visitar os velhinhos), sendo conveniente sublinhar — pois há já quem se entretenha a retocar o sucedido — que todas estas aleivosias tiveram lugar nos últimos três meses! Três meses que parecem três anos! Bem, enquanto Lisboa se entretinha na cacofonia e na desorientação, houve quem, após aguardar pacientemente por orientações nacionais, arregaçasse as mangas e pusesse as mãos à massa. Os primeiros foram os hospitais, os que iam levar com a fúria do touro no peito, isto é com as terríveis consequências de um Covid19 no seu estádio mais assanhado. Por lá, eles já andavam a medir com preocupação o que se via nos vizinhos do lado e, por aventuras anteriores, sabiam o que uma simples gripe banal pode provocar num hospital enfraquecido por anos de desinvestimento, quanto mais um bicho cerca de 40 vezes mais agressivo na sua capacidade de fazer mal! Honras lhe são devidas, a todos eles, e particularmente aos grandes hospitais do Norte que, como se sabe, foi onde a tormenta bateu mais forte. E, para além deles, os autarcas e, esses, enfureceram-se mesmo com a paralisia do poder central e, na minha visão, muito apropriadamente. Enquanto o camião dos testes levava quinze dias de Lisboa a Aveiro, era à porta deles que batiam os familiares dos velhinhos que morriam nos lares, uns atrás dos outros, enquanto a capital, como fazia a Constança dos incêndios, remetia a culpa do que sucedia nos lares para os lares ou, filosoficamente, ruminava que "morrer num lar não é uma fatalidade", enquanto em Lisboa chovia no molhado, eram os autarcas que, nas ruas das suas terras, eram interpelados ao vivo pelos munícipes e assistiam, em directo, à desgraça, ao caos e à ausência de resposta, tudo a crescer como uma maré. Se alguém tem dúvida que pergunte a Ovar, ao Porto, a Vila Real, a Aveiro, a Vila Nova de Gaia, a Resende.
3. Dito isto, que foi um balanço para trás, balancemos então para a frente, ou seja: preparemo-nos para a segunda onda da pandemia, a qual irá ser desencadeada pelo Corona com a nossa ajuda. É que isto não vai desaparecer assim, o vírus não é um ser bem-educado que verterá uma lágrima emocionada pelo nosso esforço colectivo e dirá:  "Ok, foi lindo, adorei os novos anúncios dos hipermercados e agora vou portar-bem e só farei cócegas e trejeitos fofinhos". Não, ele vai comportar-se como os bancos falidos, vai procurar novo sustento no fundo de resolução que somos nós todos, os que ainda não fomos visitados por ele e a que os especialistas chamam 'susceptíveis'.
    Portugal. Casos diagnosticados de Covid19 entre Abril e Maio de 2020. 
    Fonte: Johns Hopkins University. Nota: Na figura pode ainda ser observado 
    o famoso pico que, desobedecendo ao anunciado pela Ministra da Saúde, 
    teve lugar a 10 de Abril e não a 14 de Abril de 2020.
Lamento desenganar os mais sonhadores (ou os mais assustados), mas, pela nossa intervenção humana, isto só vai parar com uma vacina eficaz ou atenuar-se a sério com a descoberta de um (ou mais) medicamentos que nos façam, pela razão covidiana, deixar de ter medo de ir parar ao hospital e evitar as fases mais dramáticas dos cuidados intensivos. Até lá, o Corona vai marrar e só nos salvam as medidas do costume: distanciamento entre pessoas, máscaras cada vez que saímos (e luvas se formos andar a mexer em coisas) e a higiene que, por esta hora, já todos aprendemos. Já aprendemos muita coisa todos nós e isso foi outra benesse deste dilatar do tempo mantendo o vírus razoavelmente açaimado: toda a gente teve tempo para se preparar melhor, aprender a proteger-se melhor e interiorizar esses comportamentos.
É previsível que a tal segunda onda levante a cabeça com o desconfinamento (Maio/Junho), sobretudo se as pessoas acharem que tudo voltou ao que era, que o sonho mau terminou e que o Corona foi a nado para a América e para o Brasil. A altura da crista que a segunda onda terá vai depender mais de nós do que de milagres. Depois dessa, é possível que nos visite uma terceira onda lá para o Outono, com o frio (os vírus respiratórios adoram o frio, embora este seja algo mix nos gostos) e, nessa altura, a gripe normal, dita sazonal, vai complicar tudo, vai confundir tudo, uma vez que irá coexistir com o Covid19 e ambos partilham sintomas muito similares como a febre, a tosse e as dores no corpo. Vacine-se contra a gripe sazonal logo que essa vacina chegue (começo de Outubro), particularmente se integrar um grupo de risco. Para além da protecção contra uma gripe mais violenta, estar vacinado contra a gripe irá ajudar os profissionais de saúde a melhor decidir sobre se os seus sintomas podem ser devidos a uma vulgar constipação ou a uma infecção por Covid19.
4. Termino com um alerta especialmente dirigido às minhas ouvintes, embora saiba que os homens também estão mortos por ir ao barbeiro/cabeleireiro — mas não é a mesma coisa! Amigas, eu sei do vosso desespero com as pontas e as raízes confinadas, mas não conheço intimidade maior do que a que se estabelece com uma cabeleireira/manicura/esteticista (só talvez a massagem...). Nunca esqueçam que vão ter uma pessoa (ingenuamente contaminada e potencialmente infectada) a respirar sobre vós, mesmo que nas vossas costas, a muito menos da distância regulamentar (1,5/2 metros); alguém que vos vai mexer na cabeça; endireitar o pescoço; entortar a cara; meter os dedos no vosso couro e cabelo. Deste modo, ou ela/e está muito bem artilhada/o (máscara, viseira, luvas) e o local severamente higienizado, ou estamos mal. E há um derradeiro detalhe: mesmo que você entre no salão usando máscara, vai surgir um momento em que a cabeleireira sussurrará à mente sonolenta da cliente:
"Ó Dona Gabriela, alivie aí um bocadinho essa bico-de-pato: é que tenho de lhe dar aqui um jeito com a tesoura nesta madeixa ao lado da orelha, e com os elásticos da máscara..."
Inocentemente, a querida ouvinte irá obedecer com a naturalidade de quem se quer eternamente bela e é por aí, por essa fenda exígua da vaidade, que o Covid19 lhe vai soprar ao ouvido: "Bom dia, alegria: vamos então dar um grande abraço e ficar muito juntinhos?"      


Nota razoavelmente técnica: Os números que serviram de baliza ao texto são os publicamente divulgados, por entidades nacionais e internacionais, e referem-se aos dias 30 de Abril e 1 de Maio de 2020. As estimativas sobre total de mortes por todas as causas/possíveis excessos de mortalidade atribuíveis ao Covid19 em Portugal, inspiram-se em trabalhos do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, que há cerca de vinte anos desenvolve investigação e vigilância nesta área, designadamente nas estimativas de mortalidade por ondas de calor, ondas de frio, e gripe sazonal.


© Fotografia de cima: pedro serrano, Sri Lanka, novembro 2017.

30 abril 2020

18 abril 2020

ESPERA



© Fotografia de pedro serrano, Tessalónica, Grécia, 2018.