© Fotografia: Pedro Serrano, Golfo da Guiné (2010).
27 setembro 2010
25 setembro 2010
SEM RESPOSTA
Já não sei ao tempo que foi: uma semana, duas semanas, talvez três. Às vezes entrava na cozinha e cheirava-me a gás. Experimentava o esquentador, os botões dos bicos do fogão. Tudo normal. Uma vez, o Zé João chegou a casa, entrou na cozinha, disse: “Ó pai, cheira a gás, não cheira?”. Gás é uma coisa tremenda, fartei-me de ir confirmar óbitos por causa disso, as pessoas caem numa espécie de anestesia, as pernas ficam pesadas, a vontade ausente, adormecem, acordam mortas. Telefonei ao Sr. Lúcio, talvez ele conseguisse resolver o assunto ou, pelo menos, apontar uma via de resolução.
O Sr. Lúcio é a pessoa a quem costumo recorrer, aí de dois em dois anos, para levar o esquentador da água e lhe fazer uma limpeza à serpentina, pois o calcário da água desta zona entope aquilo que se farta e depois não aquece nada. Nas horas vagas o Sr. Lúcio é bombeiro voluntário e foi na sede dos bombeiros que o procurei. Que não estava, disse-me o tipo da recepção, era o seu dia de folga. Então telefonei-lhe. Veio cá no mesmo dia.
Pouco falou enquanto passava uma trincha, embebida em água com detergente, ao longo de toda a canalização. Apenas explicou: “Se houver alguma fuga faz logo uma bolha enorme”. De resto pouco mais disse enquanto estava a fazer o serviço. O Sr. Lúcio é um tipo moreno, de barba façanhuda, com um ar um tanto mal encarado; olha-nos com ar rude, fala com tom seco. Também… Bem, pode ser feitio, mas aquele homem tem um desastre na vida dele capaz de pôr de quatro qualquer um. Na altura ouvi falar, talvez a Vera, que, acho, era a médica de família da menina. Ele tinha uma filha, dos seus sete ou oito anitos; cancro cerebral, inoperável, irremediável. Aquilo arrastou-se anos. Uma vez, ia na rua, e bateu-me no estômago o murro de uma visão violenta: uma miúda dos seus sete ou oito anos, uma pálpebra vazia e sinais de um olho que fora extraído recentemente. Que violência!, pensei, e levantei o olhos da cena para dar com o olhar (protectoramente fixo e pronto a desfazer-me se eu violentasse aquele espaço) do adulto que a acompanhava, um homem moreno, de barba façanhuda e ar de poucos amigos.
Um dia precisei de arranjar o esquentador a gás: a água deixara de aquecer devidamente. Calcário, disseram-me logo, por que não experimentava o Lúcio “Bombeiro”, um profissional competente. Deram-me o telefone.
Quando ele cá veio a menina morrera já há uns bons meses, talvez um ano. Toda a gente soubera disso, os pais tinham ficado na merda, completamente à toa. No fim do serviço fui com ele até ao carro e ao apertar-lhe o bacalhau aproveitei para lhe falar da filha, dizer-lhe que… Lembro-me lá já do que lhe disse. Não respondeu, olhou-me com aquele ar zangado do costume.
Ontem foi parecido. Não encontrou nenhuma fuga de gás, fez-me umas recomendações de alerta, fui levá-lo ao portão. Ao despedir-se, perguntou:
“O doutor escreveu um livro, não escreveu? Diz-me onde posso arranjá-lo? Gostava de o oferecer no Natal a uma pessoa…”
Soube, de imediato, do que estava a falar. Lamentei não ter nenhum exemplar em casa para lhe oferecer, dei-lhe o contacto telefónico da editora, pois pareceu-me bastante determinado a adquiri-lo.
Já o Sr. Lúcio estava sentado no carro, ainda com a porta aberta, quando achei por bem, não fosse haver confusões com a editora, concretizar:
“Suponho que o que o Sr. quer é o Coração Independente, o livro que escrevi sobre uma doença que tive. Não sei se sabe, tive um… (ia a dizer cancro, mas emendei) um enfarte e…”
“Eu sei”, respondeu, seco, “fui eu que guiei a ambulância que o transportou até ao hospital…”
Fiquei a olhar para ele. Despedi-me. Foi-se embora, sem me levar nada.
© Fotografia: Pedro Serrano, 2007.
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ESBOÇOS e RETRATOS
16 setembro 2010
APIMENTADO
Desta vez a culpa foi sua, admita, desta vez não o vai poder acusar.
Da outra vez, quando lhe pediu para procurar na net como estaria o tempo na semana seguinte, ele estava a ver o Sport TV e, praticamente, ignorou o seu pedido, fez a consulta às três pancadas, a previsão que lhe comunicou não foi a do Porto, era a de Porto Rico… E lá se foi o picnic, você com aqueles pimentos todos comprados! Lindos, dos vermelhos, dos verdes...
Desta vez, porém, não tem por onde fugir. Primeiro, aproveitou a nesga em que a sua sogra iria passar uns dias a Porto Santo, com a tia Fani, e marcou o barbecue para esse fim de semana, assim ninguém a poderia acusar de nada, pelo menos directamente. Mas quando, na sequência do agravar da tendinite da tia Fani, a viagem se gorou e você desatou a telefonar aos amigos a avisar que, afinal, ela iria estar presente... Resultado: apareceu metade da gente convidada, o seu marido ficou possesso, tem o frigorífico invadido por pimentos: vermelhos, verdes e daqueles cor de laranja, lindérrimos, que agora se fazem.
“O que vou fazer àquilo...”, pensa, desesperada, enquanto avança pelo corredor em direcção ao confronto final, “como podem três pessoas [a sua sogra ficou para passar uns dias] despachar tanto pimento antes que apodreça?!”
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| Nunu, Inês, Susana e Gabi. |
Prezada amiga, concentre a sua energia em inventar as explicações que vai dar ao homem que, amuado e de pijama, a espera do outro lado da porta e deixe os pimentos por minha conta!
A receita, aprendi-a com a enfermeira Odete que, há muito anos atrás, vivia no terceiro andar em frente ao meu numa vila de Trás-os-Montes. Culinariamente falando, aprendi duas coisas com a enfermeira Odete: a salada de pimentos e o modo de manter o café em pó sempre fresco, introduzindo um rabo de bacalhau (seco) no frasco onde se guarda o pó. Pela salada de pimentos respondo eu, pelo rabo de bacalhau que responda ela; pode ser que sim, mas a ideia, só de a pensar, arrepia.
Aqui fica a receita da salada de pimentos. A autoria deve ser endossada à enfermeira Odete embora, com o passar do tempo e a experimentação, eu lhe tenha introduzido umas pequenas variações.
SALADA DE PIMENTOS
Ingredientes:
Pimentos (nunca menos de 3, de outro modo o investimento é pouco lucrativo)
Sal (grosso)
Azeite
Vinagre
Whisky
Dentes de alho
Folhas de louro
Pimenta
Nota: Use bons ingredientes, não parta do princípio que por ser uma saladita um qualquer whisky rafeiro servirá ou um qualquer ácido acético, em vez de vinagre, enganará o paladar. Metade, ou mais, do segredo de toda a culinária está nos bons ingredientes. Costumo usar Bushmills (10 anos) como whisky, um bom vinagre de arroz ou figo e um azeite de baixa acidez. Quanto à pimenta, opte por uma (prefiro a negra ou uma combinação de negra+rosa) moída na altura.
Confecção:
Ponha os pimentos a assar sem nenhuma espécie de gordura. Pode optar por dar um corte em cada um deles e em deitar um pouco de whisky no seu interior antes de os levar à grelha. Querem-se bem assados.
Enquanto espera, vá preparando numa terrina de porcelana (evite os plásticos) a seguinte marinada:
Deite, primeiro, uma generosa quantidade de azeite e depois o vinagre. Não use demasiado vinagre à partida, é preferível ir provando e acrescentando. Proceda do mesmo modo com o sal. Descasque vários dentes de alho (pelo menos 4, tamanho médio), esmague-os e acrescente-os à mistura. Vá mexendo com uma colher de pau. Prove a mistura, corrija o sal.
Misture o whisky. Aconselho 1 a 2 colheres de sopa, dependendo da quantidade de pimentos que está a assar. Não se quer um sabor demasiado intenso a álcool, de preferência esse sabor nem deverá ser identificado como sabor autónomo. Mexa, prove a mistura e corrija o sabor com mais vinagre, se necessário, ou com mais azeite.
Corte duas folhas de louro, secas, de tamanho médio, em pequenos farrapos e acrescente à mistura. Tempere com a pimenta acabada de moer. Mexa a mistura durante uns minutos até que fique homogénea. Prove e, se lhe souber bem, considere-a pronta.
A quantificação dos ingredientes é difícil de aconselhar e depende do número de pimentos que vai usar. É essencial assegurar que a quantidade de molho preparado cubra os pimentos.
Lave os pimentos assados sob água fria e retire-lhe por completo a pele queimada. Corte-os em tiras finas e não muito longas. Vá-os introduzindo na marinada que preparou.
Servir:
A salada pode ser consumida ao fim de meia-hora de estar preparada, mas ganhará com alguma demolhação (2 a 3 horas).
Pressuponho que fabricou uma grande quantidade. A que sobrar guarde-a no frigorífico, passado um mês estará ainda em óptimas condições de consumo.
Pode consumi-la tal como está ou usá-la como ingrediente para outras saladas frescas.
Por si só, o molho é excelente como tempero de salada, como base para fazer arroz ou, juntando algumas tiras de pimento, como base de refogado para pratos de carne ou peixe.
© Fotografia: Pedro Serrano, Covas (Paredes de Coura), Junho 2007.
Classificação:
RECEITAS COZINHA
13 setembro 2010
VOU-TE CONTAR: 25. Domicílio
Noite. Continuo ao volante com a sensação de não chegar a tempo. Encaixei o auricular mãos-livres do telemóvel na orelha, assim não corro todos os perigos de atender um telefone em andamento.
O meu pai não gostava de gatos. Sempre foi um mistério para nós e, já grandinhos, era com ambivalência que o ouvíamos referir, satisfeito, ter acabado de enfiar umas chumbadas da espingarda pressão-de-ar nos vadios que sempre frequentam os quintais. Outras vezes pegava num toco de vassoura, ou similar, para os “zupar” ou, não chegando a tempo da sova, pelo menos para assustar até à expulsão temporária o felino que se roçava nos arbustos da vizinhança do limoeiro.
Com esta disposição, tinha de ser às escondidas que dávamos um pires de leite ou restos de refeição ao gatito preto que se afeiçoara à casa e cuja sequela de pata partida nos partia os corações. Menos a ele, claro.
Com o passar dos anos, embora a aversão se mantivesse pulsátil, a sua manifestação atenuou-se e tornou-se mais corriqueiro ver um gato rondar a porta da cozinha ou assumir ares de proprietário torrando ao sol na tijoleira.
Depois, já recentemente, confessou o motivo de tanta aversão: tinha sido arranhado por um gato, um dia, quando era muito pequeno e se aproximara do bicho com aquela confiança aberta própria da infância. Senti-me frustrado com a confissão! Tantos anos a tentar convencê-lo a permitir-nos ter um gatizo, tantas acrobacias de pensamento a tentar acondicionar a sua repulsa em medos ancestrais, a desculpar-lhe a fraqueza, e, afinal, tudo se devia a ter sido, uma única vez, arranhado por um gato! E eu, que adorava bichinhos macios, tive de sublimar todas as tendências peluciais da meninice em bonecas de pano espanholas.
O tempo foi amaciando tudo isto e, sem consentimento explícito, o meu pai lá permitiu que um gato adoptado pelos meus sobrinhos, que viviam num andar, fosse acolhido temporariamente no nosso quintal... Depois, já a minha mãe tinha morrido, apareceu uma gata, muito meiga, de pelagem fofa e tonalidades desmaiando entre o castanho e o branco; de físico bem tratado, mas quiçá com carências afectivas, que passou a preferir o nosso jardim. Estaciona em cima dos nossos muros, cobiça a lareira pelo lado de fora dos vidros das portas da sala; a minha irmã Clarinha dá-lhe de comer, mais a pílula de 15 em 15 dias. Um dia, descobri o meu pai, em meias, a coçar-lhe o dorso com os pés, a dizer com um ar travessamente contente:
“Estás a ver? Ela parece gostar do tratamento...”
Toca o telemóvel no meio de luzes difusas. É a Susana, com a voz à beira do desvario. Na última hora o pai resvalou para uma espécie de inconsciência, a respiração tornou-se entrecortada e ruidosa. Pergunto pela posição das mãos, se estão a ter algum movimento: estou a recear o gesto, tão próprio dos moribundos, de acariciar com a ponta dos dedos a fímbria do lençol, como as crianças fazem com um pano de fralda ou a almofadinha favorita à procura do conforto que invoca o sono. Ela parece espantada com a pergunta, quer que alguém vá lá, urgentemente, vê-lo, pois está combinado entre nós que não o tiraremos de casa sob pretexto algum.
“Um médico! Não arranjas ninguém que venha cá? Já!? Vê se arranjas alguém, és médico!”
Um médico, para ir a casa de alguém, já!, às oito da noite... Sei bem a resposta que se dá a pedido desses: “Se está assim tão mal, o melhor é levá-lo ao hospital...”
Telefono à Raquel, médica de família no Porto, em quem deposito toda a confiança do mundo em termos clínicos. Explico-lhe o contexto, peço para me aconselhar alguém, um contacto de telefone.
Ela sugere um nome ou dois, quando se apercebe que estou a guiar propõe-se fazer o contacto, depois pergunta:
“Quer que eu vá lá?”
Não quero. É hora de jantar, interrompi-lhe o ir para a mesa, os gémeos estarão na banheira à espera de serem enrolados em lençóis de banho felpudos e ralhetes carinhosos; não a quero sujeitar a uma visita domiciliária a 10 km de distância e cujo desfecho prevejo sombrio. Ela insiste, calmamente:
“Não quer mesmo que eu vá, Pedro? Eu vou lá, fica mais tranquilo, não tem de andar, feito louco, à procura de alguém... Sabe que a esta hora não vai ser fácil.”
Acabo por aceitar, o leve remorso de a estar a envolver nisto diluindo-se no apaziguamento de ter entregue o assunto em tão boas mãos.
“Vou já para lá, depois ligo-lhe. Guie com cuidado...”
Lá fora está escuro. A auto-estrada está vazia. Merda, tenho de meter gasolina, a luz da reserva acendeu-se, já está em amarelo fixo. Preso em telefonemas, não me dei conta de quando isso aconteceu.
É uma estação de serviço nos arredores de Coimbra, deserta, com a agulheta na mão olho fixamente o deslizar dos números, de vez em quando espreito o telemóvel pousado no banco do passageiro, a vigiar se a luz se acende. Está uma noite gelada e um ventinho cortante fez-me levantar a gola do casaco, estou insuficientemente agasalhado para o ar livre de Novembro.
Não o sei ainda, não estou lá, mas a esta hora, no Porto, o meu pai expulsou o ar dos pulmões pela última vez e não voltou a inspirar – completa-se o ciclo que começou com a sua primeira inspiração, quando nasceu. A minha urbana, sofisticada e altiva irmã mais nova desmoronou-se no chão do quarto num choro convulsivo, como uma qualquer órfã siciliana.
Pago, entro no carro, deslizo para a auto-estrada silenciosa e negra. Pouco depois o telefone toca. É a Raquel, adivinho o que me vai dizer ainda antes que o diga. Di-lo com cuidado, num tom de voz e num discurso de perfeito equilíbrio entre o pessoal e o profissional, fornecendo a quantidade de informação certa para o momento e avaliando, simultaneamente, qual está a ser a minha reacção à notícia, a interferência que isso poderá ter na minha segurança rodoviária. Em seguida informa-me que ficou em casa do meu pai até chegarem os homens da agência funerária, passou o certificado de óbito e articulou com a agência os detalhes legais; confortou os elementos da família que lhe pareceram mais afectados no momento: a minha irmã mais nova e o marido, o meu cunhado Gil, pessoas que nunca vira anteriormente.
“Fica bem?”, perguntou antes de desligar e finalmente ir poder jantar.
Em minha casa, agora a 250 km de distância, a panela de sopa deve ter arrefecido completamente sobre o disco do fogão.
© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1) 2007; (2) 2008; (3) 2010.
Classificação:
VOU-TE CONTAR
10 setembro 2010
VOU-TE CONTAR: 24. Os três estados da matéria
É onde a intuição intercepta a consciência e ali, dentro de minutos, vai passar a carruagem que me levará ao apeadeiro da acção concreta. Por vezes, sem saber como acontece, acontece-me passar por lá, é uma encruzilhada poderosa, a crer nos resultados. Por exemplo:
Uma manhã resplandecente de Maio, catorze anos atrás, ao espelho, enquanto faço a barba, apercebo-me de que aquele papito no lado esquerdo do pescoço pode muito bem ser um cancro. O alto já ali anda há uns quinze dias, talvez mais, via-o todos os dias ao espelho mas a sua percepção morava abaixo da linha de água da consciência, foi só nesse dia que cristalizou e se encaixou em mim sob a forma de um pensamento que me empurrou a agir e procurar saber qual a sua natureza. Era um cancro.
Uma manhã resplandecente de Maio, catorze anos atrás, ao espelho, enquanto faço a barba, apercebo-me de que aquele papito no lado esquerdo do pescoço pode muito bem ser um cancro. O alto já ali anda há uns quinze dias, talvez mais, via-o todos os dias ao espelho mas a sua percepção morava abaixo da linha de água da consciência, foi só nesse dia que cristalizou e se encaixou em mim sob a forma de um pensamento que me empurrou a agir e procurar saber qual a sua natureza. Era um cancro.
Mais recentemente, não faz um mês, algo de semelhante... A Mia começou a andar estranha, parecia-me: a dormir pelos cantos, menos vigil; comia pouco, há dois ou três dias deixara quase mesmo de comer – não muito mais indícios do que isto. E um dia, exactamente igual aos precedentes, olhei-a, pensei que talvez pudesse andar a chocar uma doença grave dentro de si, que poderia estar a agravar-se e matá-la. No momento em que essa constatação me flutuou à tona da consciência, peguei nela e levei-a ao veterinário.
“A sua gata está mal, tem uma infecção brutal no útero”, comunicou o veterinário no fim da ecografia, “ela já deixou de comer?”
Confessei que sim, na véspera já só cheirara os biscoitos da ração, nesse dia só bebera água...
“Então foi por um triz... Quando deixam de comer vão-se num instante!”
A Mia foi operada nessa mesma tarde, tinha a barriga num estado miserável, cheia de pus; ficou sem útero e sem ovários, mas está bem outra vez e foi com alegria que a trouxe para casa, pois nestes dias sem ela dei-me conta como faz parte da minha história dos últimos sete anos, do meu bem-estar.
Nove de Novembro de 2007, sete horas da noite. Estou na cozinha, acabei de passar a varinha mágica numa panela de base para sopa, voltei a pousá-la no disco do fogão para que acabe de apurar. Silêncio total na casa, no chão da cozinha a Mia olha-me e espera, como geralmente sucede quando há uma perspectiva de comida envolvida. Estou a pensar no meu pai e nos telefonemas do dia que fizeram as minhas irmãs. Está acamado há cerca de um mês e há cinco dias constipou, apareceu uma tossezeca, tem alguma expectoração, nada de febre. Por causa das coisas, prescrevi um antibiótico leve, um expectorante, para que os pulmões não encharquem. Vou perguntando o básico: tem urinado, tem comido, tem febre, as pernas incharam? Tudo parece mais ou menos tranquilo. Durante a tarde as minhas irmãs telefonam, o pai parece ter hoje mais expectoração, depois, ao fim da tarde, a minha irmã mais nova, ao regressar do trabalho, passou por lá, telefona, acha que ele está com uma respiração esquisita.
“Esquisita, como?”
Estou na cozinha de minha casa, a Mia olha-me de baixo para cima, tiro um prato do aparador, talheres da gaveta, um copo, guardanapo... E, de repente, desligo o fogão, subo ao quarto, atiro umas roupas para dentro da mala. Bato a porta, a noite está nítida e gelada, arranco para o Porto. Passa um pouco das sete e meia, tenho 280 km para guiar; a sensação de que não vou chegar a tempo.
Teria metido um fato escuro na mala, uma gravata preta, se já não o tivesse feito dois meses antes, no Verão, com um certo remorso pelo gesto. Quando cheguei ao Porto e abri a porta do guarda-vestidos da cave de casa dos meus pais para o esconder por ali, dois livros, de uma pilha esbarrondada, tombaram de dentro, aos meus pés. Não queria que ninguém se apercebesse da minha antecipação, não queria ser olhado como ave de mau-agouro. Mas, para mim, tornara-se tão evidente...
No entanto, para as minhas irmãs, para os meus cunhados, para o meu filho Zé João que também mora lá em casa pois estuda no Porto, para essa gente que o vê todos os dias, o resvalar do seu estado de saúde não é tão brutalmente evidente como para mim, que o encaro de forma intervalada e, por ser médico, consigo encaixar as mudanças que apercebo naquilo que é a descrição de um estado terminal.
Oh, claro que ele sabia, ele também é médico, arguto, e esteve consciente até ao fim, o olhar imensamente triste perdido nas peças de porcelana que enfeitam a borda da prateleira da parede em frente à cama. Mas não falava do assunto, não queria sobrecarregar ninguém, dar parte de fraco e quando o inquiria brandamente sobre resultados de exames, sobre o que tinham dito os médicos na última ida ao IPO, respondia de forma assepticamente genérica, mudava a agulha do discurso para outra direcção a que imprimia a tónica de ‘falemos do que interessa’:
“E tu, fizeste boa viagem? O Zé João lá continua a tocar a sua cornetazinha, olha que ensaia naquilo seis ou sete horas por dia!”
Não valia a pena insistir, nem eu insistia. Permanecíamos calados, a olhar a lareira e, a páginas tantas, se não estava mais ninguém na sala, ele podia dizer:
“Já te disse que tenho direito a um talhão, de borla, em Agramonte? É por ser irmão da Ordem de S. Francisco...”
Ou podia repetir:
“Se eu um dia destes bater a bota, vais à primeira gaveta da minha secretária e encontras lá a relação de tudo o que temos. Já o disse à tua irmã, mas por alto, sabes como ela é nervosa...”
E a noção que ele tinha do seu estado, do que lhe restava acautelar, era tal que eu já há muito abandonara no meu sótão as vestes garridas de um:
“Ora, pai, para que está a falar dessas coisas...”
Não era tempo de negação. Em silêncio, eu tinha trocado as vestes garridas por um fato escuro, por uma gravata preta, que esperavam no guarda-vestidos da cave desde o pino do Verão.
Nesse Agosto meti férias, mudei-me para o Porto, para os aposentos da cave onde mora há dois anos o meu filho, que estuda trompete no Porto. Há séculos que o meu quarto, lá em cima, foi transformado numa sala de estar para que a minha mãe, convalescente de uma mastectomia e da consequente procissão de quimio e radioterapia, pudesse ler os seus livros e escrever os seus poemas longe do bulício doméstico, do esforço das escadas. Depois ela morreu, mas o quarto continuou sala de estar, parecido com o cenário onde ela passava os dias; tornou-se na sala de trabalho do meu cunhado que lá mora com a minha irmã mais velha desde que a minha mãe se foi e o meu pai corria risco de ficar sozinho num casarão de três andares. No quarto de hóspedes onde eu costumava dormir, o quarto mais próximo do quarto do meu pai, está agora a Belmira, que veio da aldeia onde o meu pai nasceu e cuida dele em tempo inteiro.

Da janela do quarto na cave vejo a madeira da lareira alinhada ao longo da parede, está ali a acabar de secar para no Outono estar de feição para estralejar na lareira. A maior parte dos toros é eucalipto, mas também há carvalho, castanheiro... É uma imensa quantidade, o meu pai encomenda sempre duas mãos-cheias de toneladas, para que dure, este ano e o próximo... Olho aquele monte com olhar antecipatório, pergunto-me quanta dessa madeira vai arder aos olhos do dono.
Uma manhã, gloriosa e quente, vou ao IPO. Chego cedo, pois sei como os tempos são mortos num IPO. Horas de espera a enfeitar uns escassos momentos úteis. Procuro o médico no departamento de ‘Tumores Líquidos’, o meu pai tem uma leucemia crónica, uma doença maligna do sangue. Quero falar com ele, pois o meu pai faz um anticoagulante diário para combater o efeito espessante do sangue que provoca a leucemia: com tanta reprodução descontrolada de células do sangue, este tem tendência a entupir os vasos sanguíneos de pequeno calibre. Mas um anticoagulante é uma sanguessuga, é medicamento cheio de manhas e perigos, tem de ser vigiado assiduamente, de outro modo pode actuar em demasia e provocar hemorragias... O meu pai tem de ir ao IPO quase semanalmente controlar aquilo, cada ida representa sair de casa antes das 8 da manhã, regressar depois das 2 da tarde, sem comer; penar esse tempo todo em cadeiras duras, pelos corredores, até que lhe façam uma picada e o mandem embora. Tem mais de 90 anos, a doença cansa-o, a espera arrasa-o, o ambiente deprime-o, a inutilidade do que lá vai fazer tornou-se-lhe evidente. Não se queixa de nada. Vou ao IPO explicar isso ao médico, pedir-lhe que acabe com o anticoagulante, sugerir-lhe que o substitua por uma pequena dose de aspirina, esta também tem efeito anticoagulante. Sei que é uma solução menos específica, menos eficaz; mas trata-se de pôr as coisas nos pratos da balança: a vida que resta ao meu pai pode medir-se em meses, interessa-nos que a viva o melhor possível, nem isso: o menos mal possível. Para quê arrastá-lo pelas estações do calvário em nome da tranquilidade da consciência técnica dos médicos?
Não ignoro que a minha tarefa para essa manhã é árdua. Conheço os médicos, sou um deles, já os enfrentei como doente e sei como ficam escandalizados, inseguros no seu papel, quando tentámos discutir com eles as soluções possíveis para o nosso corpo e alma. Mas vou escorado na decisão que as minha irmãs e eu tomámos sobre o futuro do nosso pai.
Lágrimas rolam pelas faces da Susana, a mais nova, quando insisto que é preciso decidir já:
“O pai é capaz de não chegar ao Natal...”
De súbito, parece-me que não passou assim tanto tempo desde os dias em que, alegremente, em volta da mesa de jantar, discutíamos o nome que iria ser dado à nova menina que vinha aí:
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| O lírio do vale, 1980. |
“O nome que prefiro é Susana”, diz o meu pai do seu lugar à cabeceira, “quer dizer ‘lírio do vale’ em hebreu...”
Agora acabaram-se os tempos em que ela era a menina e ele a figura securizante, que resolvia tudo o que se relacionasse com estar doente; agora os papéis inverteram-se e ela tem de decidir se o melhor é ou não parar com todos os tratamentos, com as idas constantes ao IPO. Resistir às sugestões e às tentações de futuros internamentos, tratamentos agressivos, transfusões, picadelas, tubos... Assumir que chegou o tempo de aceitar o fim e não o adiar meia-dúzia de dias por um massacre; decidir se vai ou não permitir que o pai morra, sozinho, a meio da noite, numa cama de hospital.
O médico dos Tumores Líquidos é novo e simpático, tem um nome tranquilizante, o meu pai gosta muito dele e ele exprime grande consideração pela postura civilizada e paciente do seu doente. Noto que fica surpreendido com a minha abordagem, com o que lhe proponho: parar com tudo o que seja invasivo, não exigir que o meu pai lá volte em nome de controlos de cartilha, trocar o anticoagulante por uma modesta aspirina... Mas acaba por concordar comigo, que estou ali e, em silêncio, não desisto. Só diz:
“Mas vai ser preciso ouvir a opinião dos ‘Sólidos’, o seu pai também é seguido por lá...”
Pois..., os ‘Tumores Sólidos’. O meu pai, para além da leucemia, tem metástases ósseas de um tumor na próstata, operado há muitos anos atrás; nada de mais sólido que os ossos.
“Eu vou lá, falo com eles...”, proponho, “se me disser quem é o médico que devo procurar. Se o doutor fizesse o favor de lhe dar uma ligadela, entretanto...”
Do outro lado da secretária, o médico olha-me, vagamente, como se estivesse a pensar noutra coisa. Depois diz:
“Eu vou lá consigo. Espere um bocadinho por mim lá fora enquanto acabo aqui umas coisas...”
Noutra ponta dos corredores, num gabinete ao cimo de umas escadas, o médico dos Sólidos consulta o processo no computador ao mesmo tempo que ouve a minha proposta com algum embaraço. Também ele está espantado com a minha determinação respeitosa e vontade afável em discutir com ele o curto futuro do meu pai. Acabam por concordar em suspender alguns dos medicamentos, substituir o anticoagulante por aspirina, autorizar que o meu pai deixe de lá ir, que só lá vá por absoluta necessidade, necessidade ditada por ele, mais do que pelo hospital.
“Você pode pôr o seu pai a ser seguido pelos Paliativos; acho que eles têm um serviço de apoio domiciliário...”, diz um deles.
Interesso-me por essa possibilidade, mas eles ignoram tudo sobre pormenores. Só sabem que o outro serviço funciona dentro da cerca do IPO, “lá para o fundo”.
Atravesso uma extensa terra de ninguém e, no meio de algumas árvores, descubro um edifício discreto e rasteiro onde, em vez da azáfama tecnológica dos edifícios principais, reina um silêncio e uma calmaria anestesiante.
Atravesso uma extensa terra de ninguém e, no meio de algumas árvores, descubro um edifício discreto e rasteiro onde, em vez da azáfama tecnológica dos edifícios principais, reina um silêncio e uma calmaria anestesiante.
Depois dos sólidos e dos líquidos, aquilo tem todo o ar de ser o pouso dos que se avizinham do estado gasoso da existência, penso enquanto espero ser recebido pela médica responsável pelo serviço. Na espera, telefonei a uma colega a saber que informações me podia dar sobre o serviço, os cuidados que prestam, a sua responsável. Referências boas, a minha amiga disponibilizou-se para lhe telefonar de imediato, fazer a ligação, explicar resumidamente o caso. Suspirei, confortado, naquela quase hora de almoço de uma manhã dura.
Pouco depois o segurança chamou-me, alguém queria falar comigo no telefone pousado sobre o balcão.
Na linha, uma voz de funcionário comunicou que o que havia a dizer não necessitava nem que ela descesse nem que eu subisse:
“O seu pai tem direito a ser seguido por nós como qualquer outra pessoa, não é nenhum favor que lhe fazemos. Basta que prove que ele é cá doente...”
Ainda consegui, antes que desligasse, que me explicasse como queria que fizesse a prova e fui a correr ao departamento dos Tumores Líquidos ver se ainda apanhava o médico simpático.
Apanhei, voltei aos gasosos a entregar umas etiquetas e saí da cerca do IPO com tudo resolvido. Tinha sido uma manhã produtiva. Porque seria então que me sentia com tal sensação de derrota?
© Fotografias, de cima para baixo: (1) Pedro Serrano, 2008; (2) Pedro Serrano, 2007; (3) Pedro Serrano, 2010; (4) Pedro Serrano, 2007; (5) Eduardo Serrano, Edfu (Egipto), 1980.
Classificação:
VOU-TE CONTAR
05 setembro 2010
VOU-TE CONTAR: 23. Doce violação
Ontem, dia 4 de Setembro de 2010, num prolongado encontro gastronómico no vale do Douro, soube pela minha prima Zi o que queria dizer ‘Zaida’. É que a Zi, coitada, herdou o ‘Zaida’ como nome. E, mal saiu da pia baptismal, toda a gente desatou a experimentar-lhe alcunhas como quem experimenta carapins: ficou Zi para a maioria, Zaidinha e Zizi para meia-dúzia. Com um nome destes, a Zi, que cultiva o português com desvelo, escavou pelo significado com a curiosidade ansiosa de quem procura os pais biológicos.
Zaida é um nome árabe, isso eu já sabia, e quer dizer ‘felicidade’. Ou dito de outro modo, se não fosse a influência árabe na Península a minha avó materna seria pura e simplesmente conhecida como D. Felicidade.
Pois, como já por aqui disse, D. Felicidade tinha uma relação patologicamente retentiva com as suas receitas de cozinha, que tratava como tesouros de Estado e mantinha aferrolhadas no armário da copa, em frente ao pequeno relógio de pêndulo que por ali havia e que, tenho a certeza, tivesse a minha avó vivido no século XXI e não no XX, seria substituído por uma câmara de videovigilância com monitores de controlo no quarto dela.
Já vos deixei a receita do Rolo de Barcelos, doce pouco comum e um dos mais consagrados do receituário da minha avó e hoje, mau-grado os anos que passaram sobre o seu passamento, o seu olhar fuzila-me do Assento Etéreo ao adivinhar aquilo que me preparo para fazer dentro de momentos. E, não fosse ela estar no Céu, seria mesmo prudente da minha parte considerar a hipótese de mau-olhado.
No texto em que pus à disposição do cosmos a receita do Rolo de Barcelos falei também no Doce Tirsense, o la crème de la crème dos doces da avó Zaida. Ainda não tinha transcrito a receita, pois faltava-me uma fotografia que ilustrasse, minimamente, com o que se parece. Mas ontem, no almoço-lanche-jantar em Cambres, ele surgiu sobre as mesas como uma bênção de fim de Verão, abrilhantado em três travessas com friso de azuis e dourados como o dia que estava. Trémulo, mais rápido que todos e antes que alguém lhe espetasse a colher, saquei do telemóvel e colhi três instantâneos, um por travessa.
É certo que se pode comer ao longo de todas as estações e, nesse aspecto, ele é como as rabanadas, mas o Doce Tirsense é, claramente, um doce de Verão. Antigamente, aliás, como não havia estufas e morangos todo o ano, só se podia sonhar em comê-lo no Verão e, antes da invenção do frigorífico, calculo que fosse guardado em cave bem sombria e fresca nas horas que antecediam a sua subida triunfal para a proximidade do centro de mesa, pois a sua divindade não consente posição de menor destaque.
Agora, antes de passar à exposição dos ingredientes e técnica de confecção, permitam que diga que vislumbro algo de sensual no modo como aquele doce chega à mesa: acabado de sair dos claustros do frigorífico, ao enfrentar a luz do mundo exterior, o rosado dos morangos como que alastra sobre o branco imaculado e tenro das claras em castelo que, resguardando o dourado-moreno do doce de ovos que se oculta sob elas, tremem como um busto arfante ante a gulosa ameaça de, em escassos minutos, virem a ser inauguradas por uma irreprimível colher.
“Não há melhor do que isto!”, comentava, servindo-se à ganância, o meu primo Pedro, filho da minha prima Zi, neto da minha tia Teresa e bisneto da guardiã implacável das receitas. Este vício já vai na quarta geração...
Ingredientes:
6 gemas
2 claras
250 gramas de açúcar
1 chávena de chá de leite
1 cálice de vinho do Porto
morangos frescos q.b.
miolo de noz q.b.
Confecção:
Batem-se as gemas com o açúcar, à mão e num tacho não aquecido.
Quando já estiver a fazer "bolhinhas", junta-se o leite e o vinho do Porto.
Leva-se ao lume até ferver.
Ao levantar fervura, põe-se o disco mais brando e deixa-se ferver durante 5 minutos, mexendo sempre.
Põe-se numa travessa e deixa-se arrefecer.
Leva-se ao frigorífico.
Batem-se as 2 claras em castelo e espalham-se cuidadosamente sobre o creme.
Enfeita-se com morangos e miolo de noz.
Nota: Só o creme é que vai ao frigorífico, as claras, os morangos e as nozes juntam-se antes de servir.
© Fotografias de Pedro Serrano, Quinta do Mourão (Cambres, Douro) 2010.
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VOU-TE CONTAR
02 setembro 2010
VIA PARENTÉRICA
De um semáforo em ânsia
Ela ligou a importância
De uma coisa assim-assim.
[O mesmo é dizer a mim]
Depois guinou à esquerda,
Pela Via Parentérica,
A tonalidade feérica
De um sorriso sem fim.
[O mesmo é dizer em mim]
O embate com os olhos
Foi um acidente de rua,
No éter da noite de Verão.
[E eu atropelado no chão]
"Não sei porque raio isto foi...
Quer que lhe chame um doutor?"
"Não.., preferia um ascensor
Ou uma torre de marfim."
[É qu’eu ainda não estava em mim]
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POEMAS
21 agosto 2010
VOU-TE CONTAR: 22. Flagrantes da vida real
Como com muitas outras coisas, só me dei conta disso quando comecei a circular fora de casa e pude comparar a minha realidade com a de outros.
Na minha casa mais antiga havia-os por todo o lado: estantes, mesinhas de cabeceira, pousados em cima do autoclismo ou esquecidos pelas cadeiras ou bancos dos quartos-de-banho que eram sempre de cor branca. Na casa que o meu pai construiu depois também os havia em todos os andares, aqui em maior quantidade, talvez por que a passagem do tempo permitiu o seu acumular por compra, por oferta, por herança. O maior quinhão enchia duas estantes na sala da lareira, depois havia-os no escritório e, lá em cima, no primeiro andar, nas duas estantes do hall, na prateleira encastrada na parede do quarto dos meus pais, no meu quarto, no quarto das minhas irmãs, nas mesinhas de cabeceira, esquecidos sobre o autoclismo e os bancos ou cadeiras do quarto de banho que eram sempre de cor branca... Até na cave, amontoados numa estante envidraçada que era um crime estar ali; na despensa, na companhia de torradeiras ou espremedores de citrinos que já não funcionavam; num guarda-vestidos naftalínico ao qual se abria uma porta e escorregava um para fora duma pilha esbarrondada como um queijo maduro de mais.
E na casa dos meus avós maternos a mesma coisa: livros por todo o lado. Concentrados nas estantes do escritório do meu avô Heitor, arrumados com uma disciplina que não mais tornei a ver senão em bibliotecas. Estantes catalogadas, livros com etiquetas personalizadas onde constava o seu número, a origem e a estante onde deveriam ser arrumados depois de consultados. O homem tinha livros que se fartava e, não satisfeito com o que tinha, escrevia mais alguns.
Havia ainda as revistas. Em casa dos meus avós sobretudo Civilização, Selecções do Reader’s Digest e National Geographic Magazine, esta última muito apreciada pelos netos do sexo masculino dado que era frequente trazerem uma reportagem ilustrada sobre uma tribo exótica cujas mulheres, pesasse embora os discos de madeira que lhe deformavam os lábios ou os ossos de tarambola que lhe atravessavam narizes, se passeavam nuas pelas redondezas, a maior parte das vezes usando minúsculas saias de palha ou, com sorte, completamente nuas! Era a única fonte que eu e os meus primos tínhamos desse tipo de material, para além daquele que se escondia nos livros médicos do meu pai, esse amiúde frustrante pois ver uma mulher nua que só se sustém de pé perante o fotografo porque tem uma pilha de livros onde assentar o pé da perna mais curta é um tanto desanimador.
Em casa dos meus pais, para além das Selecções já citadas, havia Paris Match e o Courier da Unesco, dado que o meu pai não se aguentava mais de um mês sem coscuvilhar as novidades sobre o que se tinha passado em Luxor e no Vale dos Reis nos últimos cinco mil anos.
Mas, como dizia no princípio, só quando comecei a sair do lar me dei conta que não era assim em todo o lado: havia casas onde só se quedava uma única e humilde estante, outras onde os únicos livros que se viam eram os de cozinha e, com boquiaberto espanto, vi um dia uma estante onde às obras completas de Shakespeare só era necessária a lombada, como se tudo aquilo fosse cenário de teatro!
Até aos sete ou oito anos, apesar dos esforços da minha mãe, não me interessava por livros sem imagens, olhava-os com tédio e todo o meu interesse ia para os álbuns do Tintim, que os meus primos possuíam em grande quantidade. Uma manhã, numa das minhas crises amigdalinas, fui visitado no quarto pelo meu pai que, antes de sair, passou a dar-me uma fogachada com merthiolato nos estreptococos. Deixando-me com os olhos rasos de água e antes de sair, perguntou o que queria que me trouxesse à hora da fogachada vespertina, um novo raid sobre os estreptococos que de manhã se tinham refugiado sob as estalactites das criptas amigdalinas.
“Traga-me um livro do Tintim...”, pedi em voz roufenha.
E, por entre sumos de laranja naturais, supositórios imaculados e termómetros que escorregavam da axila e só revelavam a febre à segunda tentativa, sonhava com os desenhos claros, semelhando aguarelas, da banda-desenhada a vir. Que não veio! À noite, em vez do embrulho grande, fino e de capa dura que era obrigatório a um livro do Tintim, o meu pai pousou sobre a cama um embrulho atarracado, grosso e mole. Abri, desgostoso, e percorri-o com aversão: ali quase só havia letras e, para além da figura da capa, encontrei meia-dúzia de desenhos a preto e branco! O homem que tinha escrito aquilo chamava-se Enid Blyton, o livro chamava-se Os Cinco Na Ilha do Tesouro. Deixei o livro abandonado sobre a coberta e, após o jantar, enquanto esperava que a minha mãe me viesse apagar a luz e entalar as quatro camadas de cobertores, peguei no livro e, reticente, concedi-me ler o primeiro parágrafo. Nessa noite, com uma mal disfarçada satisfação que me fez desconfiar que aquela compra tinha sido uma conspiração contra mim, a minha mãe viu-se aflita para me arrancar o livro das mãos; disse:
“Ah, afinal gostaste...! Eu não te dizia? O melhor está aqui,” continuou batendo um dedo na minha testa quente, não está nas figuras... Vá, agora deita para baixo, amanhã lês mais.”
Escassos anos depois descobri a utilidade prática desse dedo na testa, pois nessa época não havia muito que se pudesse ver ao vivo ou onde a gente se pudesse inspirar para deambulações erotizantes. A televisão, fenómeno recente, era a preto e branco e não se ia longe com os decotes subidos dos vestidos, austeros e pesados como reposteiros, de Lady Marianne, a eterna noiva de Robin dos Bosques. Não havia internet, clubes de vídeo, dvd, downloads piratas, scanner a cores, nem sequer máquinas de fotocopiar em gamas de cinzento... Só nos restavam mesmo as revistas e os livros.
Assim, a nossa atenção pairava como uma águia sobre tudo o que nos passava à frente dos olhos e, ainda mais, sobre o que nos era ocultado. Nas aulas de português, por exemplo, na eternidade e no tédio dos dez Cantos dos Lusíadas não nos passava despercebido o nervosismo e o modo abreviado com que era referido o Canto IX. Mas, sentado na retrete, o calhamaço pousado no banco branco arrastado até à proximidade dos meus joelhos, rapidamente me apercebi ser a linguagem demasiado simbólica e que o perder-me no seu decifrar era quase tão prejudicial à manutenção de um certo limiar de entusiasmo como o súbito bater na porta e o trovejar de um:
“Estás aí quase há uma hora! Sai, preciso usar o quarto-de-banho!”
Tudo melhorou com o novo escritor predilecto da minha mãe, o brasileiro Jorge Amado, a quem ela gabava com entusiasmo a prosa inventiva e, em conversas com as minhas tias, referia em voz baixa ter passagens bem “picantes”. É claro que esses livros não estavam à superfície das estantes, eram cuidadosamente escondidos em sítios insuspeitos e mantidos sob rigoroso controlo. Mas a minha capacidade para encontrar fosse o que fosse que tivesse sido oculto era espantosa, tornou-se, até, tão lendária em minha casa que a minha própria mãe pedia, em desespero de causa, que lhe tentasse reencontrar riquezas que tinha escondido de nós mas não se lembrava onde...
Falei dos livros, resta-me referir essa outra fonte de material estimulante da imaginação que eram as revistas; essas, por definição, mais ilustradas. Todos nós humedecíamos o dedo e batíamos conscienciosamente as páginas de tudo quanto circulava ao nosso alcance, trocávamos informações sobre o assunto nos intervalos das aulas ou, mesmo, durante as próprias aulas. Uma das minhas descobertas mais apreciadas nesse mercado negro foi um anúncio a um produto chamado Señobel, cuja finalidade era conseguir “um busto invejável”. Na diminuta fotografia via-se o perfil a cores de uma mulher aplicando no peito uma espécie de ventosa com o formato de um tupperware cónico. A crer pelo resultado, ela devia ser uma fervorosa e incansável praticante do método.
No mês seguinte, logo que chegou à caixa do correio um novo número das Selecções do Rider’s Digest, senti chegado o momento de substituir aquele material por outro, pois sentia que o manuseio do Señobel tinha atingido o seu limite - uma pausa far-me-ia apreciá-lo de novo mais tarde. Meti o exemplar na pasta e levei-o para o liceu.
Como nem toda a gente assinava ou comprava a revista, não faltaram candidatos e, depois de escolher um que me parecia seguro e com um bom produto para troca, confiei-lhe a revista com as recomendações do costume, onde a mais vincada era a de que ma devolvesse sem páginas coladas.
© Fotografias, de cima para baixo: (1) Pedro Serrano, 2010; (2) Pedro Serrano sobre fotograma de Inland Empire, de David Lynch, 2010/2007.
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VOU-TE CONTAR
18 agosto 2010
VOU-TE CONTAR: 21. Agora a gente já não tinha medo
Aposto que nunca ninguém a tratou pelo nome, talvez com a excepção de umas enjoadas colegas de trabalho e, já se sabe mas isso não conta, as professoras do liceu. Nem a mãe dela, a minha tia Olinda, estando furiosa, lhe conseguia gritar em termos de:
“Maria Leonor, se não paras imediatamente de rir levas com o batedor de tapetes...”
É que Leonor, embora nome nobre e belo, é de pronúncia insuportável no dia a dia; a língua embaraça-se no “nor”, a mente não espera que a seguir à majestade de um “Leo” nos tenhamos que acomodar a um “nor” que confere ao nome um ressentimento de amoníaco. Das outras variações (Leonilde, Leopoldina, Leocádia, etc.) nem é bom falar...
De modo que a minha prima Leonor foi reconvertida em Nunu como aliás aconteceu com todas as Leonor minhas conhecidas, que se transformaram em Nônôs, Norzinhas ou Nunus e (mas mais num ambiente média-luz) em Nus.
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| Nunu e eu na casa mais antiga (algures no final dos anos 50, fotógrafo desconhecido) |
Pois esta minha prima, um ano mais nova do que eu, morava numa casa igual á minha, siamesa da minha casa mais antiga, e representou um importante papel na minha infância e adolescência.
Desde pequenitos tivemos muitas coisas em comum, uma das quais foi a primeira inclinação profissional, pois ambos sonhávamos ser peixeiras. Nessa época, embora se praticasse a ida à mercearia e a outras lojas abastecedoras, o mais comum era, durante a manhã, assistirmos ao tocar da sineta do portão e vermos desfilar até á porta da cozinha o padeiro, a leiteira, a biscoiteira, o marçano e, profissão que ultrapassava todas as outras em prestígio, a peixeira.
Para além de falar alto e sem uma sombra de pestanejamento, a peixeira tinha, por sobre as várias camadas de saias, um avental preto cheio de bolsos e por baixo deste uma bolsa escondida onde acamava notas em grandes quantidades. E depois, quando tirava o pano molhado aos quadrados que cobria a canastra e revelava o que trazia... Eles eram cavalas, eram fanecas, sardinhas e, mais próximo do topo da hierarquia, o belo badejo, a bela pescada, o fino linguado... E a minha mãe, olhando de cima, atenta, a apontar o dedo:
“E as mílharas, são frescas? São mesmo de pescada, não serão de bacalhau...?”
“Ó, Dona Manuela, pela minha saúdinha, que são uma riqueza! Então eu ia lá impingir à senhora ovas de bacalhau!”
A Nunu e eu, calados e fascinados, seguíamos aquelas negociações complexas com toda a atenção, retínhamos na memória a gíria e nas retinas as atraentes ventosas do polvo, o furta-cor das lulas, as escamas prateadas, os olhos saídos e brilhantes daqueles peixes todos; mirávamos, aterrados, o peixe-espada e o tamboril imaginando o que seria um encontro com um peixe daqueles quando tomássemos banho na Praia dos Beijinhos. Achávamos que poderia ser mesmo pior do que um rendez-vous com o temível e tão publicitado peixe-aranha!
Quer eu quer ela, enquanto preparávamos os nossos tabuleiros cheios de folhas de diferentes dimensões e brilhos, cobertos com um pano da cozinha molhado, entretínhamos conversas em torno de como guardaria a peixeira toda aquela peixaria em casa. Eu tinha a certeza que a casa dela era revestida, em todas as divisões, com armários de gavetas sobrepostas onde ela guardava o peixe, gavetas em tudo semelhantes àquelas onde o senhor Gonçalves Oliveira, da Fergoliv (a retrosaria da esquina), acondicionava as gravatas.
“Achas que ela come do peixe que vende ou compra-o a outra peixeira?”, perguntava a Nunu enquanto aspergia de água umas folhas de hidranja indistinguíveis de besugos.
Eu não sabia, distraído a dispor as minhas folhas de agapanto como vira serem acondicionados os peixe-espada; a pensar em que tipo de gaveta ela guardaria os polvos e se as manteria, para maior segurança de quem dorme, fechadas com cadeado. Sobre a peixeira, a única coisa que dava como certa era que o marido seria pescador e que nunca comiam peixe às refeições para terem sempre mercadoria para os fregueses.
“Agora eu já não era peixeira”, comunicava eu, vendo os irmãos dela a aproximarem-se, “agora vamos trabalhar para o Subterrâneo...”
“Vou-vos lá vender peixe daqui a um bocado e depois eu era a cozinheira...”
O tempo passou, a Nunu cresceu, durante uns anos afastamo-nos um pouco. Até ao dia em que na saída do liceu das raparigas dei por ela e reparei como tinha tantas amigas interessantes. Por outro lado, o Renato, o meu melhor amigo no liceu dos rapazes, também a achou muito interessante a ela e isso aproximou-nos outra vez, de tal modo que a Dona Aninhas Pinto, a gentil avó materna dela, na sua voz esganiçada, inquiriu a minha tia:
“Ò Olinda, tu não achas que a pequena e o primo andam demasiado juntos...?”
Nenhum de nós, nem sequer os nossos pais, ligou demasiado a isso e a Nunu, que atravessava uma fase muito estranha, continuou por mais uns bons anos obcecada em lavar as mãos até esfolar a pele de tanta limpeza e a cair das cadeiras abaixo de tanto se rir sem conseguir parar. Uma vez, o meu pai até a ameaçou que lhe dava um par de lamparinas se ela continuasse naquilo, mas o máximo que ela conseguiu foi sair da mesa de jantar aos tropeções... Outra ocasião íamos no eléctrico, do liceu para casa, sentados um em frente ao outro naqueles bancos de palhinha que havia à entrada e à saída, e eu apontei-lhe um tipo com uma cara mesmo ridícula que seguia pendurado na pega entre nós, e ela, quando olhou para cima e o viu, desatou a rir de tal maneira que se mijou e tivemos de sair à socapa na paragem seguinte e fazer, entre gargalhadas incoercíveis, o resto do caminho a pé.
Hoje em dia, ela já tem um par de filhas muito mais velhas do que nós éramos nessa altura e é casada com um engenheiro que trabalha nos transportes públicos do Porto, pois o mundo é maravilhosamente redondo.
PS: “Agora a gente já não tinha medo” é uma frase universal da infância. Mas houve um senhor, chamado Francisco Buarque de Hollanda, que a fixou para a eternidade numa canção chamada “João e Maria”. Aqui fica para os (improváveis) que possam não a conhecer.
Chico Buarque/Nara Leão: "João e Maria" (Sivuca/Chico Buarque), 1977.
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VOU-TE CONTAR
14 agosto 2010
VOU-TE CONTAR: 20. Um calhau com dois olhos
Oh minha alma: não aspires à vida imortal,
mas esgota o campo do possível.
Píndaro (A.C. 518-438)
Eu próprio tive um pequeno Mito de Sísifo, privado... Pergunto-me até que ponto isso terá ajudado a moldar o meu temperamento existencialista.
Mas, deixem, antes de avançar, que gaste um punhado de palavras a explicar, em gentileza aos meus ouvintes mais distraídos, quem era este Sísifo.
Sísifo foi, talvez, o maior malandro da mitologia grega, um mestre a meter os pés pelas mãos, tão habilidoso que conseguiu enganar, para além da mulher, a Morte, duas vezes, e os Deuses ainda mais do que isso. O homem era mortal e gostava de andar cá por baixo, pela Terra, era tudo quanto conhecia, de modo que tentava esgotar o campo do possível. Mas os Deuses não acharam grande graça a serem desconsiderados por um mortal e Zeus condenou-o a passar a eternidade no transporte de um grande bloco de mármore até ao cimo de uma montanha. Quando estava mesmo a chegar com a pedra ao topo, esta fugia-lhe das mãos e resvalava por ali abaixo até ao sopé e lá tinha Sísifo de recomeçar tudo de novo. E todos sabemos como a eternidade costuma ser longa.
Na casa mais antiga havia dois quintais, o da frente, conhecido pelo jardim, e o de trás, conhecido como o quintal. O da frente, virado a Norte e algo sombrio, era exíguo, pois a casa estava praticamente construída em cima da rua, e da janela do meu quarto eu via o passeio do lado de lá quase na vertical; o de lado de cá só o via pelos interstícios da grade do portão.
É certo que os metros minguam à medida que crescemos, mas, mesmo assim, o quintal de trás era enorme. Começava no terreiro, atapetado de saibro, do lado Sul da casa, onde havia a olaia e eu me sentava a fazer bolos de terra. Contígua, havia uma área ajardinada, com canteiros de dálias e amores-perfeitos e caminhos entre os canteiros, e depois uma zona relvada de transição onde ficava o coradouro, o poço, o tanque da roupa e duas árvores, uma minha outra da minha irmã mais velha pois o meu pai plantava uma árvore quando um de nós nascia. A dela era uma oliveira, a minha um eucalipto que por ter sido posto ao lado do poço cresceu tanto que se via à distancia de quilómetros e competia em pujança com a torre da Igreja dos Capuchinhos, da qual era vizinho.
Além das duas árvores ficavam as cordas e as molas da roupa e o quintal selvagem, estendendo-se em horta e árvores de fruto até ao muro que o separava do terreno da Fábrica dos Curtumes. Encostados a este muro, tinham sido edificados os restantes redutos da casa mais antiga: a garagem e o canil do Foguetão, o nosso Serra da Estrela cinzento.
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| O Renault Dauphine do meu pai (anos 50, fotógrafo desconhecido). |
Que extensão, em metros, teria o quintal? Não sei, tenho receio de exorbitar, vou tentar escapar com uma resposta de tipo qualitativo, mas sempre vos digo que, se chovia, devíamos usar guarda-chuva aberto para percorrer a avenida e alcançar a garagem onde era guardado o Renault Dauphine, tão longe da casa que, logo que passaram ao meu pai os excessos por o carro ser novo, ficava simplesmente estacionado perto da rampa do portão.
Em largura, esta era a suficiente para que a avenida principal (onde ainda agora passaram os guarda-chuvas a caminho da garagem) tivesse uma transversal, conhecida por todos como a Rua do Castelo e meu domínio, pois a minha irmã mais velha praticamente só se interessava por ir espreitar casamentos à igreja, pernas e sapatos.
A Rua do Castelo era uma álea sem saída, conduzindo ao muro de divisão do quintal, onde, do lado de lá, havia outra Rua do Castelo, pertença dos meus primos Manel e Heitor que moravam na casa ao lado, cópia siamesa da minha casa. Por junto, eles e eu possuíamos extensa propriedade, cuidadosamente repartida em termos de instalações e actividades: do lado de lá do muro ficava o baloiço, suspenso na estrutura de fero da ramada, e do meu lado o Subterrâneo, que no ferro da ramada tinha suspensa a corda do balde com que tirávamos a terra cavada cá para fora.
Com o Subterrâneo dávamos corpo, tal como com o Laboratório, às ideias de aventura e descoberta que nos ocupavam a mente o dia todo, mesmo se sentados nas carteiras da escola primária. Por requerer grande esforço de planeamento e execução, o Subterrâneo era uma actividade predominante das férias de Verão. Demorou temporadas até que descobríssemos os princípios, fundamentos e técnicas do escoramento de terras, pois logo que atingíamos com as nossas escavações uma profundidade que nos ocultava os joelhos aquilo desatava a aluir... Mas éramos persistentes e gastávamos a grande fatia diurna dos nossos dias a escavar; para não perder tempo eu, sempre que o conseguia, dormia vestido, de botas e tudo. Na casa pegada, os meus primos tentavam um trajar semelhante.
Quando o Subterrâneo estava pronto, e muito poucas ocasiões o esteve, cabíamos os três lá dentro, de pé. Raramente deixávamos entrar a minha prima Nunu, irmã dos meus primos mineiros; a função dela era ficar por ali a tomar conta das coisas ou a cozinhar. Quando pronto, o Subterrâneo era um quadrado no chão, tapado com uma placa de folha de flandres, de interior algo assustador pela escuridão e intenso cheiro a terra que reinava. Sistematicamente, num dia em que ainda estando bom tempo chegávamos da escola e corríamos à Rua do Castelo, encontrávamos a ausência no local do Subterrâneo. Com toda a simplicidade, com toda a facilidade, alguém atulhara meses de trabalho, fazendo parecer que nunca tinha existido; a folha de flandres encostada a um canto parecendo muito mais uma placa de folha de flandres do que o telhado-cobertura onde, sob uma caveira e duas tíbias, alertávamos os estranhos para os perigos de uma intrusão.
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| PROIBIDA A ENTRADA! |
Para além do “filho da puta” definitivo que dedicávamos ao Mendes, o jardineiro Neandertal que morava na Ilha do Bravo ao fundo da rua, não nos passava pela cabeça outra forma de reclamar ou, sequer, invocar um qualquer poder oculto que invertesse a situação. No Verão que se seguia, e em muitos verões seguintes, recomeçávamos do zero o Subterrâneo. Nunca conseguimos que nos deixassem lá dormir, mas passámos várias meias-horas sentados no seu chão de terra alisada a comer sardinhas de conserva à luz da lanterna.
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