25 junho 2010

VOU-TE CONTAR: 8. Sexo indeterminado

O meu pai mantinha um registo minimalista e pragmático da sua existência. Fazia-o sob a forma de agendas, daquelas do tamanho de um lenço de bolso e recordo, desde criança, o ritual dos primeiros dias de cada ano em que, aplicadamente sentado à secretária do escritório, respondia a todos os postais de Natal que lhe tinham enviado e passava dados da agenda do ano findo para a agenda do ano que se iniciava. Tudo começava com uma página de identificação, preenchida ao pormenor: nome completo, morada, número da apólice do seguro, a quem avisar em caso de acidente; contactos telefónicos de familiares, colegas médicos, daqueles doentes que se transformam em amigos e quase família; o electricista, o homem que vai contar os vasos de resina dos pinheiros sangrados nas matas de Viseu, todo esse mundo que convém manter à mão.
Mas depois dessa primeira página sobrelotada e minuciosa, os registos de cada dia volviam-se minimalistas e não continham nada de pessoal, consistiam apenas em informações factuais sobre doentes vistos, intervenções cirúrgicas realizadas, dinheiros recebidos, compromissos a realizar. Nada de íntimo.
Na agenda de 1953, para dar um exemplo, no dia em que nasci, o meu aparecimento no mundo consta em rodapé da quadrícula destinada ao dia 22 de Junho, e a menção é esquálida:

Peso com vestuário 3.550
                             340
                          3.210
Às 5,10 Nasceu

E é tudo. Por ali nem o meu sexo se ficava a saber ou alguma luz é derramada sobre a circunstância de o meu nome estar já ou não decidido. Sabendo que, nessa época, a minha existência não seria viável abaixo do, digamos, quilo e meio, concluo por exclusão de partes que a minha primeira roupa pesou 340 gramas...
Nos dias e nos meses que se seguiram à sua morte tivemos que remexer as gavetas da secretária dele, em busca da infindável lista de demonstrativos que a solicitadora nos ia exigindo para regularizar a situação perante as finanças e o registo civil. Num desses dias, enfiei as dezenas de agendas que encontrei na primeira gaveta da escrivaninha em duas caixitas de cartão e colhei-lhes uma etiqueta na tampa: “agendas do pai”. Arrumei as caixas numa das divisões com porta da estante onde dantes estavam amontoados as amostras de medicamentos e não pensei mais nisso. Elas não eram úteis de imediato, isto é, não iam servir como demonstração formal de nenhum facto. 


© Fotografia de Pedro Serrano, Porto (2010).