24 junho 2011

VOU-TE CONTAR: 37. Desembrulha, amor!


Manhã gloriosa de S. João. Decidimos ir ao horto tomar o pequeno-almoço e, na empreitada, comprar um manjerico para abrilhantar e aromatizar a sala de estar da casa do meu pai, anémica por integrar agora os aposentos tristonhos de uma casa fechada vai para três anos.
O Horto da Quinta do Tronco, aqui ao fundo da rua, aproveitou uma velha casa agrícola, conhecida outrora como a Quinta do Bravo, e tornou-se num enorme hangar de cobertura amovível e paredes de granito, repleto de plantas ornamentais, bonsais, flores para todos os gostos e ocasiões, velas, incensos; vasos, floreiras, pires e outros tipos de recipiente que alegram o espaço com a sua cor cremosa de tijolo e o seu buraquinho redondo, com jeito de umbigo, por onde se escoarão os excessos de rega de donas de casa pressurosas.
O dono do Horto é um tipo vivaço e, como se não bastasse tanta variedade, onde até se encontra, para venda, uma pontezinha arqueada de madeira, como aquelas que se veem, mirando os nenúfares, nos quadros impressionistas, integrou na área as amenidades de um café com esplanada e tornou todo o recinto wireless, de modo que é vulgar encontrar por ali gente nova a teclar em computadores ou obsessivamente agarrada aos monitores.
Pedi um croissant com fiambre, aquecido, um Sumol de ananás – nada como começar uma manhã são-joanina de forma dieteticamente incorrecta. A empregada é uma moçoila despachada, de t-shirt, rabo-de-cavalo e calças de fato de treino, acoplados a um olhar transbordante de curiosidade desafiadora e evidente gosto pelo convívio. Quando se afasta, após pousar na mesa de madeira às ripas e bancos corridos, o pequeno-almoço e o cartão electrónico com a despesa, reparo que ostenta no tornozelo direito, logo acima do rebordo dos ténis, uma tatuagem representando a clássica composição da caveira com tíbias entrecruzadas, a que foi aposta um lacinho cor de rosa no crânio ossudo.
Terminada a refeição propriamente dita, A. e eu vegetámos mais um pouco pela mesa, onde o fundo dos cinzeiros – ao invés de água – contém uma camadinha de terra fresca, beberricando um café antes de nos decidirmos levantar para ir escolher, entre muitos da espécie, o nosso manjerico.  
Eis-nos ao balcão da caixa. Do outro lado, a empregada limpa cuidadosamente restos de terra agarrados ao vaso e prepara-se para acondicionar a planta num saco de plástico com asas.
“Demorou muito, fazer aquela sua tatuagem da caveira?”, pergunto à rapariga.
“Gostou?”, pergunta ela de imediato, olhando-me com olhos curiosos. “Não, não demorou muito, doeu mas foi como o caraças...”
“É natural”, respondi, “é uma zona quase só pele e osso...”
“E também tem umas estrelinhas engraçadas aí no ombro...”, junta-se A. à conversa.
“Também tenho uma com os gatinhos da minha filha, e outra com o meu nome em português e em árabe...”, acrescentou ela, enquanto dá um jeito com a tesoura aos contornos da bandeirola que enterrou no vaso e onde reza uma quadra alusiva à Quadra.
“Mas a melhor é uma que eu tenho aqui”, continuou ela. E, dando-nos as costas, levantou a t-shirt generosamente, expondo os lombos e permitindo-nos a visão, na fronteira do cós descaído das calças do fato de treino, de um vistoso laço, tatuado em azul-negro e cor-de-rosa-choque no fundo das costas.
“Bem, esse laço aí ninguém vai conseguir desapertar...”, comentei, entre o divertido e o surpreendido.
“Pois não”, diz ela, que, entretanto, já se recompôs e está a conferir o nosso troco, “se não tinha-lhe mandado tatuar por baixo DESEMBRULHA, AMOR”.
Caro ouvinte, um último conselho antes de me ir em busca de sardinhas e pimentos: não se meta nunca com uma gaja do Porto, vai ficar sempre a ganhar!


© Fotografias de Pedro Serrano: Porto, Junho 2011.