07 agosto 2011

VOU-TE CONTAR: 40. Concerto para clarinete e mu


Não sei que pensar disto, mas associo duas das minhas tias a animais, quadrúpedes! Ainda por cima, tias que partilham o mesmo nome, um nome de forte carga estratosférica e simbólica.
Falei aqui muito recentemente (Vou-te Contar: 38. Um peso no peito) da minha tia Celeste, a de Matosinhos, tia-avó materna, conhecida entre alguns dos sobrinhos por ‘leão-da-montanha’, dada a sua semelhança com esse simpático bicho. Hoje, proponho-me falar de outra Celeste, não que esta fosse parecida com nenhum animal conhecido, mas porque a recordo como responsável por... Bem, comecemos do princípio.
O meu pai tinha uma série interminável de irmãs, o que fazia com que eu tivesse uma profusão de tias naquele lado da família: Céu, Clara, Celeste, Amélia, Otília, Ilda, ... (falta-me uma, porra, mas agora não me lembro). Estas tias e respectivas famílias moravam na Beira-alta, num epicentro de cerca de 20 km em redor de Viseu.
Todos os anos da minha infância e primeira adolescência, por várias vezes ao longo do ano, demandávamos aquelas paragens, o que incluía uma provação de quase três horas para percorrer uma esquálida centena de km, sofridos e vomitados nas curvas do vale do Vouga, uma estrada de tal modo contrariando o conceito de linha recta que se encontrava  apetrechada com um tipo de sinal de trânsito que não voltei a ver em nenhum outro lugar (salvo na serra algarvia do fim dos anos 60) representado por um triângulo onde, em baixo-relevo, estavam pintados sobre o imaculado da cal três zzz em asfalto negro e que, ao contrário do que cheguei a pensar face à monotonia da viagem, não alertava para o risco de sonolência mas para a interminável sucessão de curvas e contracurvas entre Sever do Vouga e Viseu.
A minha mãe, coitada, fazia de tudo para distrair o nosso sistema labiríntico de equilíbrio (que hoje se sabe ser especialmente sensível durante a infância), desde contar-nos histórias ou desafiar-nos a enumerar os automóveis que passavam em sentido oposto e cuja matrícula começava por P.
Quanto ao meu pai, coitado, esse tinha de encostar à berma de dez em dez km para que, à vez, um de nós saísse a correr e vomitasse aquela idílica paisagem em que o rio, por entre uma massa de verdes, serpenteava lá ao fundo a caminho de Aveiro.
Sabíamos que já não estávamos demasiado longe de chegar ao destino quando a paciência dos adultos se esgotara por completo e todos os cuidados com as crianças no banco de trás eram substituídas por um:
“Se voltas a pedir para vomitar, levas...”
E eu, olhando fixamente em frente, respirando ruidosamente pelas narinas o ar puro que entrava pela frincha da janela, tentava abstrair-me do cheiro a novo dos estofos do Citroën boca-de-sapo e imaginar que não estava em movimento.
Oliveira de Barreiros, 1964. De mãos cruzadas e óculos, 
sentada à minha direita, a tia Celeste. Por trás dela, a tia 
Céu e, à esquerda de tudo (em pé), o tio Augusto.
Nos primórdios desta viagens, antes de a casa que fora dos meus avós paternos sofrer profundas obras e ficar pronta a receber os tiques de comodidade de uma família urbana, ficávamos geralmente alojados em casa da minha tia Céu, que, em Viseu, residia não muito distante do recinto da Feira de S. Mateus e da estátua do Viriato. A minha tia Céu era a irmã mais velha do meu pai, uma espécie de figura maternal (dado que o meu pai ficou órfão de mãe pelos oito ou nove anos), e casada com o meu tio Augusto, cujo mister principal era ser director de uma escola primária mas que recordo muito mais por ter um belo clarinete de madeira negra e ser regente de uma filarmónica. No quintal desses meus tios havia sempre cães perdigueiros, latadas com videiras e, se acontecia ser Setembro, toda a casa recendia com o odor das maçãs bravo-de-Esmolfe que se amontoavam nas tábuas dos salões vazios do sótão. Se, pelo contrário, chegávamos nas férias do Natal, então o que melhor recordo é o frio árctico de Viseu na passagem do ano e a manobra, lenta e dolorosa, do estender dos pés nus pela aspereza gelada de lençóis de linho, rigidamente engomadas, até alcançar o oásis da botija de grés, envolta em flanela, do fundo da cama. O deitar, o levantar, eram os momentos mais custosos destes invernos em que quase congelei sentado na tampa da sanita de um quarto de banho, imenso como um banho-público, onde os canos gemiam de torpor e as torneiras sopravam vapor cada vez que se tentava invocar a água quente.
Este casal de Viseu, que nos recebia de coração nas mãos e cuja doçura de modos era tão envolvente como a cor atijolada da marmelada da minha tinha Céu, não possuía, no entanto, muitos animais de quinta, pois, apesar da casa ter quintal, viviam também numa cidade. Podíamos apontar galinhas, patos, perus, alguns garnisés para enfeite, o perdigueiro que referi, talvez um gato ou dois; seguramente alguns ratos, rebolando-se felizes no sótão perante o maná de maçãs. Bicharada a sério havia-a em Oliveira de Barreiros, em casa da minha tia Clara – que tinha um burro e tudo – e em Queirã, a aldeia do meu pai no sopé do Caramulo, em casa da minha tia Celeste e do seu marido, o meu tio Antoninho Figueiral.
Aí sim, e sucedia que, por temperamento, a tia Celeste tinha especial prazer em mostrar os seus bichos ao curioso sobrinhito do Porto que, mal ele batia à porteira de madeira da sua casa, o recebia com um sonoro:
“Ó Pedrito! Então vieste ver dos tios?! Entra, entra, vai subindo que já vamos ver os animais todos...”,
dizia ela numa interpelação onde as vogais, em tons agudos, eram vincadas num chamamento cantado que muito me intrigavam face ao estranho modo de se exprimir daquela gente.
E depois de me enfiar um ladrilho de marmelada na boca, lá ia eu com ela dar a volta pela criação, com a qual se relacionava como se fossem animais pensantes, poupando as frases e os pensamentos articulados para os mamíferos superiores, e usando interjeições, onde abundavam os pi-pi-pi e os trriu-trriu, para as aves que se atropelavam em torno das suas pernas enquanto ela distribuía milho e ração feita com couve segada, água quente e farinha. Depois das galinhas, dos patos e dos perús, passávamos às coelheiras e, em seguida, aos porcos. Propositadamente, deixava sempre o momento de maior suspense, no sentido de maravilhamento junto com algum receio, para o fim da visita.
“Não tenhas medo, que ela não te faz mal”, tranquilizava-me, intuindo o receio no modo como me colava atrás dela ao chegarmos àquela porta de madeira, fechada por uma tramela de madeira exterior. E isso era a primeira coisa que me intrigava: aquela porta só podia ser aberta pelo lado de fora, pormenor que, em vez de me tranquilizar, amplificava o mistério.
O compartimento, que ela agora abria, ficava sob a casa, dava para o enorme espaço murado entre o portão de entrada e a fachada de granito da habitação, recinto cujo chão estava atapetado de mato cortado, tojo e giesta, o que tornava o andar fofo e silencioso. Também inaudível, pelo mesmo atapetamento, era a aproximação do habitante que morava dentro daquele anexo, mergulhado em completa escuridão, pois quem precisa de luz se não tem de ler e se consegue encontrar no escuro aquilo de que precisa?
Surgida do nada, de nenhum local na escuridão que eu conseguisse precisar, em completo silêncio apesar do seu tamanho, ali estava, encostada à minha pessoa, olhando-me de uns enormes, pestanudos e castanhos olhos, uma vaca, que respondia ao nome de “Malhada”, “Castanha” ou “Mimosa”, conforme os desenhos ou o temperamento.
A tia Celeste, encantada com o meu assombro, intimava-me a fazer-lhe uma festa, que "ela não faz mal, é muito mansa, muito meiga...”
E eu, como se tocasse em algo sagrado, com o poder de me aniquilar a qualquer instante, atrevia-me a pousar a mão entre aquelas narinas que, escavadas entre uma pele rosada e sardenta, sopravam ar quente; ousava, ao fim de  minutos de confiança, passar a mão pelo lombo macio e acetinado da Mimosa. Nesse tropel de emoções e sensações, sentia, lá muito ao fundo, sem saber muito bem porquê, que estava a entrar em contacto com um ser que, apesar da sua diferença de forma, da sua estranheza de modos, pertencia a uma qualquer família próxima da minha, uma noção de parentesco onde não teria lugar uma lagartixa ou, mesmo, uma galinha.
Então, ajudava a tia Celeste a atirar braçadas de erva tenra para a manjedoura e ficávamos ambos a vê-la retouçar naquilo, enquanto cada um dos três ruminava para os respectivos botões.