15 outubro 2011

O PAI DO NOIVO


Quem, vindo de Coimbra, chega a Viseu, entra na cidade por uma avenida ladeada de tílias que, infere-se pelo porte, estão ali há longas décadas.
Por boa parte das minhas costelas terem origem na zona, frequento a cidade há tempo suficiente para me ter sido possível observar aquelas árvores crescerem e altearem-se no céu, acabando por ocultá-lo e transformando a alameda num frondoso túnel que, no começo do Verão, derrama sobre os passantes uma fragrância doce que enche os pulmões e tão logo a alma de uma balsâmica sensação. Mas nem todas as evocações daquele dossel arbóreo são tão harmónicas como quando, na última semana do passado mês de Setembro, guiei sob elas de janelas abertas a caminho do centro da cidade e do hotel Grão Vasco.
Dozes anos antes, num sombrio e gelado Outubro, descera aquela mesma avenida com o coração apertado, sem olhos para reparar na coloração que se amarelava nas folhas das tílias e na aragem cortante que estremecia as copas.
Nesse dia, depois de um telefonema na madrugada, rumei a Viseu para o velório e o funeral de uma amiga, ela própria mulher de um grande amigo, uma daquelas relações que se põe em marcha, insidiosa e incipiente, por razões de proximidade profissional mas que o tempo – e os momentos bons, maus e difíceis que sempre traz consigo – transformara em laços que pouco se distinguem dos de sangue.
A Judite era uma mulher ainda nova, um cancro, que parecia curado pelos sete anos de acalmia com que nos seduzira, deixou dois rapazes órfãos e um viúvo inconsolável, tão desamparado que fez arrepiar os amigos, de preocupação e impotência, perante aquela ferida que não ganhava bordos de cicatriz, perante aquela vida que parecia ter perdido o sentido. E Viseu, uma cidade tão benévola, ganhou contornos de canto tristonho, a própria avenida das tílias se volveu num passeio acabrunhado as vezes que por ali voltei a passar, as recordações daquele Outono gelado estremecendo-me a memória.
Os anos passaram e no interior deles vi o meu amigo Zé expandir-se do pai extremoso que sempre fora para contornos maternais, num desdobramento que acarinhasse e protegesse o crescimento dos dois filhos, um deles adolescente quando a mãe morreu, o outro, mais novo, forçado a encerrar uma infância à pressa.
Este Setembro (ano da Graça de 2011), Filipe, o filho mais novo do meu amigo Zé, ia-se casar com Isabel, a sua namorada de sempre, uma paixão que se acendera aos catorze anos no recreio do liceu (ali mesmo, ao lado da avenida das tílias) e os convites foram expedidos com uma antecedência que quadrava bem com o espírito metódico do pai do noivo e com a sua vontade em fazer do casamento um acontecimento inesquecível, motivos que só compreendi em todo o seu alcance no próprio dia da cerimónia.
A igreja do Carmo é uma das mais centrais e requisitadas igrejas de Viseu e a sua riqueza interior de talha dourada e azulejaria anil é tão bem combinada que ali, ao contrário de outras igrejas, não é necessário andar a ocultar as imperfeições ou a insipidez do cenário com os disfarces de arranjos florais profusos e esmagadores.
Sendo muitos os convidados, mais de três centenas, a igreja encheu-se ainda antes de tudo começar e, na coxia de uma fila bem situada, eu e a Ana observávamos tudo com uma atenção fresca.
Senti uma primeira emoção quando o Hallelujah (do moteto "Exultate Jubilate"), de Mozart, se elevou no ar, cantado por uma voz feminina que se erguia perfeita nas alturas. Mas a impressão passou e continuei, entre o divertido e o surpreendido, entretido a observar as crianças brincarem, para grande nervosismo social dos pais, sobre a passadeira vermelha por onde a noiva, bonita no seu vestido escamado de sereia e afivelando um sorriso tenso, passara há pouco pelo braço do pai.
A minha atenção foi de novo requerida ao altar quando vi o Zé subir as escadas. A princípio, não muito conhecedor da sequência da liturgia, ainda pensei que fosse ler uma daquelas passagens tipo:
“Naquele tempo, disse Jesus aos Coríntios...”
Mas não, o homem alisara um papel sob o microfone e começou a ouvir-se aquilo que era um discurso cuidadosamente preparado. 
Tendo em consideração o emotivo que pode ser o meu amigo, e ainda mais agarrado à forma do que ao conteúdo, debrucei-me para Ana, segredei:
“Oxalá ele se aguente até ao fim...”
Mas, às tantas, quem não se aguentou fui eu! O discurso do Zé era um misto de celebração da felicidade que representava para ele o ter-se chegado àquele momento, entremeava alguns conselhos e desejos para o novo casal e terminou relembrando todos os que foram pilares naquelas duas vidas que ali se juntavam, nomeadamente a mãe do noivo que, decerto, muito gostaria de ter estado presente no casamento do seu benjamim.
Assim, na falta de aviso de recepção com que estas coisas sempre atacam, vi desfilar nos meus olhos interiores aquelas duas dezenas e meia de anos que se tinham passado e as lágrimas que me encheram os olhos, a comoção que me estrangulou ainda mais que o colarinho, resultaram da visão do trajecto de vida do meu amigo, no qual se entrelaçava o meu próprio percurso, o todo ponteado pelos olhos, também antigos, de alguns dos que ali estavam, os presentes e os ausentes.
O pai do noivo.
Encabulado, olhei discretamente para a Ana que, muito empertigada e olhando em frente, tinha os olhos brilhantes de água e, para além dela, outra, muita outra gente, nos bancos da igreja, que, como nós, tinham testemunhado o percurso difícil daquele tipo que ali, em cima do púlpito dourado, celebrava o momento com palavras apetrechadas de asas, com as palavras pacificadas e pacificadoras de quem conseguiu chegar. E, no fim do discurso do Zé, aconteceu aquilo que eu achava que uma intervenção daquelas estava mesmo a pedir, embora supusesse que não era habitual em igrejas. Pela nave da igreja, quente, longa, persistente, ecoou uma salva de palmas que ficou a vibrar no ar muito depois de um emocionado pai do noivo ter regressado ao seu lugar de figura secundária.


© Fotografias: (1) e (3) de Pedro Serrano; (2) José Raposo,. Viseu, Setembro 2011.