17 maio 2012

O DR. VASCONCELOS JUROU-ME...


Nana.
Gosto de filmes sobre a infância e por isso fui ver Nana, um filme que tem como complemento de abertura a curta metragem Rafa, de João Salaviza.
Para começar pelo princípio, Rafa é um filme português que recebeu um prémio internacional e, como é costume, os nossos críticos de cinema, sempre muito generosos com o artesanato, embandeiraram em arco falando de um renascimento do cinema português, agora é que vai ser, etc. e tal. Rafa, no entanto, não tem ponta por onde se lhe pegue ou, melhor dizendo, pode pegar-se-lhe por qualquer ponta que tanto faz. Passo a resumir o argumento: Rafa é um adolescente deprimido que vive num bairro social da margem sul com a mãe e a irmã, uma rapariga muito nova mas já com uma criança nos braços. Não há pais por perto naquela casa alumiada por um poste de iluminação pública. É noite, Rafa e a irmã estão em casa e esperam a mãe, que não há meio de chegar. Rafa decide ir a Lisboa à procura dela e vai directo a uma esquadra de polícia específica, o porquê disso nunca o saberemos. A mãe, que não tirou a carta, espetou o carro do amante (que nunca se vê, mas repetidamente insinuado como o mau da fita) contra uma parede ou assim e está presa, parece. Rafa quer vê-la, mas como não o deixam senta-se na soleira de uma porta em frente à esquadra. Caída do nada, deprimida no anoitecer, aparece a irmã com a criança nos braços. Fim. Perante isto, fiquei a pensar o que haveria de excepcional numa coisa destas? São os actores fantásticos? Não, e como é comum aos filmes portugueses a fita deveria ser legendada, pois os actores falam para dentro e não se percebe o que dizem. A fotografia é excelente, a montagem inteligente? Nada, para além de uns rodriguinhos que mostram a irmã sentada no apartamento social, bebé ao colo, o poste da EDP a revelá-la num chiaroscuro  de Pietá que só lhe revela metade da face e deixa tudo o resto numa penumbra muito artística. E, de repente, sem aviso ou ponto final, o filme acaba, como se estivesse muito cansado de existir.
Deve, aliás, ser esse final abrupto o motivo do encadeamento com o filme que se lhe seguiu, Nana, aquele que eu ia ver. Nana é um filme francês de 2011, realizado por uma senhora chamada Valerie Massadian e eu deveria ter desconfiado, depois da leitura de uma entrevista com a dama no jornal. A senhora revela-se daquele tipo abrasivamente alternativo, sempre a enunciar os seus princípios e posições existenciais e diz pérolas do subgénero de “só se conseguir entender com as crianças”, pois que os adultos perderam a genuinidade original. Não deixa até, e a propósito de nada, de narrar como um dia foi surpreendida na cama, em vias de fazer sexo, pela filhinha pequenita que entrou pelo quarto dentro de máquina fotográfica em punho...  
A dor de cabeça é que esta artista passa o filme inteiro a obrigar uma encantadora menina de 4 anos (Nana) a encenar todos os disparates muito simbólicos que lhe passam pela cabeça sobre a mordacidade da infância: força-a a assistir à matança, à sangria e à chamuscadela da pelagem de um porco; obriga-a a queimar um coelho morto (verdadeiro) na lareira; fá-la ter uma mãe louca e ausente que a deixa passar dias sozinha numa casa no meio de uma floresta, e outras improbabilidades semelhantes. Em nome de quê? Nunca se sabe, o filme também acaba de repente, como se a mulher tivesse gasto todas as ideias que tinha sobre a infância ao fim de escassos 60 minutos. Pobre Kelyna Lecomte (a menina que faz de Nana), espero bem que não venha a ficar traumatizada com tanto disparate.
Tabu.
Cara(o) ouvinte, quer ir ver um filme português bom, com uma história bem contada, actores credíveis e um trabalho de fotografia belíssimo? Então vá ver, enquanto ele aí está nas salas, o Tabu, um filme de Miguel Gomes, o senhor que realizou também esse encantador objecto intitulado Aquele Querido Mês de Agosto.




Nota: "O Dr. Vasconcelos jurou-me que, ao soar da badalada da uma hora na Torre de São Deniz, entraria nesta sala: Ei-lo!", do filme O Pai Tirano, de António Lopes Ribeiro, 1941.