09 janeiro 2013

A CONCERTINA


“É para o ministério da saúde, ali na esquina da joão crisóstomo com a defensores de chaves...”
“A tocar a concertina...”, exclamou olhando-me pelo retrovisor.
“Lá em cima está o tiro-liro-liro, cá em baixo está o tiro-liro-ló”, recitei, mais do que cantei.
“Ao tempo que não ouvia isso!”, respondeu do banco da frente sem virar a cabeça orlada de caracóis embranquecidos; “que nostalgia desses tempos...”
Não respondi, olhei o trânsito matinal da avenida da república. Saído do último pensamento, ele continuou:
“O tamanho que tinham os dias nessa altura, lembra-se? O que o tempo demorava a passar!”
Recém cuspido do torpor do pequeno-almoço, calculei que se referisse à juventude, em geral, já estava pronto a largar um prêt-à-porter:
“Quem nos dera nessa idade, não era?, e saber o que sabemos hoje...”, quando ele precisou:
“A gente passa os primeiros dez anos da vida a perceber onde está...”
“Sim, achamos que somos eternos nessa altura...”, respondi, percebendo finalmente ao que se referia.
“E os últimos dez a perceber o que ainda andamos a fazer aqui... Olhe que é triste...”
Reconheci que na realidade. A mim a nostalgia dá-me mais vespertina, raramente a hora tão precoce. Ele continuou:
“Imagine agora – se já é assim – o que era a gente saber o dia que ia ser o último. Então é que havia de ser lindo!”
O táxi tinha virado à direita na joão crisóstomo; apontei-lhe um espaço entre dois carros estacionados:
“Pode encostar mesmo ali...”
Estendi a nota, ele virou-se para dar o troco; tinha uma face agradável, serena, compatível com o subtipo de hieróglifos que trocáramos.
“Obrigado, amigo”, ouvi ainda enquanto me inclinava para fechar a porta, “um bom ano para si...”
“Para si também...”, resvalou inutilmente a minha resposta no metal creme da carroceria.

© Desenho de G. Devy e S. Dupret em L. Testut (Traité d'Anatomie Humaine, 1930)