17 junho 2013

O ORVALHO DA NOITE


Eis o Pedro Miguel na tarde do seu casamento e da foto disse o Zé João que ele parece um fazendeiro sul-americano de 1860 ou por aí. Quanto à Rita, a noiva, que não desmerece a invocação, é uma latina clássica, podendo ser argentina ou venezuelana pelo mate da pele e muito sul da europa pelas feições. Um belo par, para despachar o retrato; oxalá o tempo os favoreça na aliança que celebraram.
O Pedro Miguel é o primogénito da Carlota e andava ainda no infantário quando ela começou a trabalhar cá em casa – de algum modo ele e o Zé João, o meu filho nascido pouco depois, cresceram juntos, ostentam ainda no sorriso e no abraço que dão quando se encontram – por muito que a vida os tenha levado por distintos caminhos – o prazer comum a pessoas que assistiram às respectivas infâncias.
Um dia, há vinte e dois anos, o telefone tocou demasiado cedo cá em casa, ainda mal amanhecia. “Porra, quem seria?”, pensei, alarmado, pois telefones a uma hora daquelas... Era a Carlota e queria uma opinião médica. Estava grávida de fim de tempo e acordara inundada com as águas rotas: o que achava eu que devesse ser feito? Não achei nada, saí de casa a correr e conduzi os vinte quilómetros até à urgência do hospital de Torres Vedras com tiques de ambulância. Foi assim que desovou o Ricardinho, que, no Sábado, assistiu ao casamento do irmão de óculos escuros, brinco na orelha e poupa no cabelo a esticá-lo ainda mais alto do que o metro e oitenta e tal que Deus e a boa comida da mãe lhe deram.
No meio disto tudo (ainda nem saíramos da igreja da Ramada para alvejar os noivos com uma saraivada de arroz colorido e pétalas de rosa), o João Pedro, o pai do noivo, chorava como uma madalena, aquele homenzarrão!
“Você está num lindo estado”, disse-lhe eu ao ouvido no abraço que demos.
“Que é que quer?! Vê-los assim criados, de repente; e depois ver aí chegar o Zé...”
Sim, essas partes eu compreendia. O tempo correra sem aviso por todos nós e o Zé João voara os mais de 3.000 km de Leipzig até aqui para estar no casamento do velho amigo. Quanto à mãe do noivo, essa chorou menos do que eu imaginaria, mas compreendo ser a atitude mais prudente para manter a maquilhagem num estado de caiação aceitável!

Esta cena da choradeira passou-se por volta da uma da tarde e eram umas nove da noite quando deixei a boda, em Alenquer, uns bons 60 km a norte da igreja onde se celebrou o matrimónio.
Na manhã de Domingo, a Carlota passou por cá a deixar umas amostras de bolos da boda e contou que a festa tinha acabado por volta das três da manhã, que o Zé João dançara como um louco.
“Estou a ver...”, respondi, “e você não parou de falar a noite inteira – até está rouca!”
“Foi do orvalho da noite...”, justificou-se numa resposta que só convence quem não a conhece.


© (1) Fotografia oficial do casamento; (2) Pedro Serrano, Ramada (Odivelas), Junho 2013.