02 fevereiro 2015

PRESA POR TER CÃO...



“Agora é que eu desgracei a vida, Pedro”, disse, tão pronto atendi e percebeu que lhe reconhecera a voz.
“Tenha calma, de certeza que não pode ser assim tão mau...”, respondi, habituado aos superlativos com que enfeita o que lhe sucede. Margarida traz à lembrança, seja pelos alaranjados do penteado, o excesso de rímel nas pestanas ou a gama XXL dos gestos e das emoções, um personagem de Almodóvar, realizador por quem nutre grande estima e de quem, um Natal, me ofereceu um CD com uma antologia das bandas sonoras das suas películas.
“Desta vez é, Pedro, desta vez não tenho safa...”
Tentei indagar os contornos do problema, para poder injectar uns toques atenuantes, mas ela informou:
“Não lhe posso contar ao telefone, é demasiado grave; demasiado perigoso...”
Encontrei-me com ela dois dias depois, pela hora do almoço, no Colombo, perto da entrada da FNAC; sentámo-nos num banco ali perto, a conversa desenrolando-se ao nível dos joelhos de quem passava.
“Ai, Pedro, dei cabo da minha vida...”, desabafou, virada para mim, a carteira pousada no colo.
“Margarida...”, censurei com brandura, “quantas vezes já não esteve metida em alhadas? Lembra-se daquela vez em que me telefonou à uma da manhã...? E, diga, não se resolveram todas?”
“Estive presa três dias, Pedro, e não tardará muito que volte para Tires a cumprir três ou quatro anos...”
Mantive a boca fechada, a fachada impassível. Saiu-me, estrangulado, um:
“Mas acusada de quê?!”
“Incendiária...”, respondeu prontamente, como se já se tivesse habituado ao estigma.
Olhei para ela, esgazeado, sem conseguir ver na excelente pessoa que conhecia há mais de vinte anos uma bombista ou alguém que anda por aí a atear fogo a matas. E então, desfiando entre os dedos a pega da carteira, na impessoalidade da multidão, ela contou-me:
Apaixonara-se por um tipo, fora o que fora, durante muito tempo tudo  correra bem, talvez demasiado bem... Ele era um bom bocado mais novo, mas o que interessam essas coisas quando saltamos para os domínios do sonho? Passaram a morar juntos, em casa dela; estabelecera-se um elo de confiança suficiente para que lhe passasse para as mãos códigos de cartões, pormenores da conta bancária; escorregava-lhe dinheiro quando ele precisava, que a profissão dele era incerta, cheia de azares até à data, mas o que interessava? Quem tem tino para se dar conta desses detalhes quando se vive uma paixão, acesa como uma fornalha? Um ser humano assemelha-se mais a uma epidemia do que a uma folha Excel! Mas depois o cardápio foi-se modificando, insidiosamente, parecia-lhe; as meiguices e a proximidade – ela era inteligente, foi estabelecendo nexos de causalidade com o coração a desfazer-se em cinzas no peito – relacionavam-se com os períodos de aguda necessidade de dinheiro por parte dele... Quando era abastecido, o príncipe tornava-se distante, desaparecia temporadas, evitava até atender-lhe chamadas, respondia aos SMS de forma evasiva... E ela, com o coração a retumbar nos tímpanos, o pesadelo a fazê-la sentir-se mais irreal do que o sonho quebrado, começou a memorizar desconfianças, a acumular indícios que se foram transformando em quase certezas. Um dia seguiu o carro dele no carro dela, viu-o estacionar entre outros automóveis num bairro desconhecido, entrar para um prédio; era noite e uma luz acendeu-se numa janela, cá de fora via o que se passava, implodida num horror de traição e abandono. E a preencher aquele buraco subiu-lhe uma onda carmim de raiva que a empurrou para a acção. Sendo profissional de saúde, trazia no carro um frasco de álcool a 90 graus, esguichou todo o conteúdo no tejadilho do carro do filho da puta, Pedro, eu não estava em mim, via-me a fazer aquilo como se estivesse de fora, chegou-lhe um fósforo, fugiu, quase se ia espatifando ao volante sobre quem vinha em sentido contrário, encadeada por faróis que noutras noites seriam pacatos como luas num céu de Verão...
Mas, engaiolada no apartamento, Margarida não se aguentara muitas horas com aquilo entre mãos, foi, sem que ninguém lho pedisse ou aconselhasse, apresentar-se na polícia local, confessou o que tinha feito... o polícia atrás do balcão, que a conhecia e respeitava, atrapalhado com o que ouvia, a esferográfica a hesitar no registo como quem pergunta “tem a certeza do que está a dizer?”
E o problema não fora propriamente que o carro dele ardera, a chatice foi que o fogo, etéreo e veloz, se pegara aos carros entre os quais o outro estava estacionado: três automóveis pasto de chamas, todo aquele plástico e borracha a fumegar na calma da noite... um crime público.
“Dois a seis anos de prisão efectiva, Pedro, para além de ter de pagar todos os prejuízos... Estou feita!”
Eu concordava que era pesado, mas, que diabo, não ia ser tratada como um angariador de madeireiro, como um pirómano que se mija nas cuecas enquanto tira o isqueiro do bolso, os juízes haviam de estabelecer a diferença...
“Ai, não sei, Pedro, não sei... Olhe, sabe, quem me deu força e foi impecável comigo este tempo todo? As minhas colegas de cela em Tires – não diga nunca isto a ninguém, que vão julgar que estou louca – mas até que não foi uma experiência má de todo... Aprendi muito estes dias.
Quando nos despedimos, a luz já se tornara débil nas claraboias do centro comercial, abracei-a com força, pus-me à disposição para qualquer coisa em que pudesse ajudar.
“Se calhar até vou abusar de si: o advogado diz que vai ser bom apresentar algumas testemunhas abonatórias em tribunal...”
E assim sucedeu. Uns bons meses mais tarde, naquela calmaria com que a Justiça cobre de poeira e objectividade as atribulações humanas, recebi uma convocatória para me apresentar no tribunal de X, um dia, ao fim da manhã. Fui com o meu melhor ar de amigo de incendiária: casaco, calça com vinco, gravata. À entrada, nas escadas, fumando nervosamente, encontrei um grupo de gente que rodeava carinhosamente a arguida.
“Ai, Pedro”, saudou ela, “hoje é que vai ser, é hoje que se vai decidir tudo: a minha vida, se vou dentro ou não...”
Entrámos, fomo-nos aproximando da sala de audiência. O julgamento ia ser à porta fechada e o colectivo seria constituído por três juízes! E então, sem que ninguém mo indicasse, apercebi a presença encafuada do móbil do crime, que se encostava a um canto, olhando de soslaio o grupo ruidoso que acompanhava a sua paixão fraudulenta... Paixão! Bastou-me um olhar para perceber que Margarida fora vítima de um chuleco de subúrbio, um tipo novo, de ar sonso, daqueles para quem a vida será sempre um expediente, e que aguardava a vez de prestar declarações na companhia do papá e se mantinha o mais distante de nós que podia, pois a cobardia não o impedia de intuir que não seria bem recebido nem enganaria nunca ninguém, a não ser uma Margarida apaixonada.
As testemunhas começaram a ser chamadas e primeiro entrou o psiquiatra que a ré tinha arranjado, pois uma moldura do contexto psicológico fica sempre bem e nada como a ciência para vaselinar as gretas das falhas humanas. Logo a seguir chamaram por mim, talvez por consideração a ser o único a vir de tão longe.
A sala de audiências era sem janelas e as paredes eram forradas de madeira clara, pelo que a meia-dúzia de magistrados de negro contrastava ali como um bando de corvos num milheiral. Corteses, frios e atentos quiseram saber a minha relação com a arguida, há quanto tempo a conhecia, o que pensava de tudo aquilo, se achava que o acto em julgamento fora premeditado ou não... Respondi com o meu ar mais sensato, pausado, entre o profissional e o humanitário:
Sim, conhecia a arguida há mais de vinte anos, trabalhara amiúde com ela, era uma profissional cuidadosa, diligente, sensata; tínhamo-nos tornado amigos no decorrer disso tudo. Não, não sabia da história daquela paixão nem conhecia o senhor que fora o motivo próximo de tudo. Quanto à premeditação... claro que não, senhores doutores juízes, aquilo fora um momento puramente passional, daqueles em que uma pessoa vê tudo vermelho e quando se deu conta já espetou a faca no meio das costelas do filho da..., quero dizer, da vítima. E fazendo um gesto de mãos discreto e inclusivo afirmei para os autos com a sinceridade à flor da pele:
“Todos temos um limite e quando esse limite é excedido pelas condições a que nos sujeitam, todos nós reagimos como seres humanos feridos, não importa se somos médicos, engenheiros ou juízes...”
Margarida saiu de tudo aquilo como de um conto de fadas com um final feliz: pena suspensa por um ano, nada dos seus erros ficaria registado em lado nenhum (inclusive no seu perfil profissional) se não reincidisse durante o período de vigência da sentença. E é claro que ela não reincidiu: uma paixão tão incendiária não surge assim por dá cá aquela palha, durante longo tempo o terreno vai ficar coberto de cinza fria. E, depois, ao preço a que está o álcool etílico a 90 graus, os fósforos, as acendalhas...  
Durante anos, apesar de nos encontrarmos com regularidade, nenhum de nós voltou a falar no assunto, é precisar dar tempo a que a erva cresça sobre as sepulturas. Um dia, no final de uma sessão de trabalho conjunto, fui levar Margarida à boca do Metro: chovia e eu tinha guarda-chuva. Durante o trajecto, por entre poças e passeios escorregadios, ela meteu o braço no meu e sabendo que não precisaria de introdução ao que falava, desabafou:
“Sabe, Pedro, queria que soubesse que o meu luto está concluído: foi dos lutos mais bem resolvidos da minha vida! Não ficou ódio nem rancor, apenas uma aprendizagem e boas memórias de quem esteve comigo, inclusive das colegas dos três dias em Tires... Coitadas, algumas delas provavelmente ainda por lá penam...”
Fiquei a vê-la entrar na carruagem. Depois ela virou-se e, notando que eu ainda me conservava no cais, ergueu a mão e um sorriso num perfeito adeus.

© Primeira fotografia (de cima para baixo): Pedro Serrano, Grécia, 2014.