25 junho 2013

HIGIENE ORAL


Melhor para a Itália do que os sete anos de prisão a que Silvio Berlusconi foi ontem condenado e de que, aliás, não creio venha a cumprir um só dia, é a interdição perpétua de ocupar cargos públicos. Sempre é menos um palhaço a animar o patético espaço europeu...
Todavia, no montão algo fétido de detalhes que infestou os jornais, o que acima de tudo me intrigou foi a menção a ter sido uma antiga higienista dentária quem recrutou para as festas do senhor a jovem Ruby (uma marroquina underage, filha de um vendedor ambulante imigrado na Sicília) e as suas amigas folgazonas.
“Higienista dentária?!, em nome de que raio...”, embasbaquei.
Mas, ao dobrar o jornal sobre si próprio e recomeçar a leitura na coluna da página seguinte, o nome da angariadora dental faiscou em todo o esplendor: a senhora chama-se Nicole Minetti, o que, mais  consoante palatal menos consoante palatal, explica quase tudo!  


23 junho 2013

CONCERTO


Repentino como aguaceiro tropical
Esvaziando a emoção de dez mil almas
O rufar chuvado da salva de palmas

Contrabaixo de Ron Carter, © Fotografia de Pedro Serrano, Cascais, Julho 2008.

17 junho 2013

O ORVALHO DA NOITE


Eis o Pedro Miguel na tarde do seu casamento e da foto disse o Zé João que ele parece um fazendeiro sul-americano de 1860 ou por aí. Quanto à Rita, a noiva, que não desmerece a invocação, é uma latina clássica, podendo ser argentina ou venezuelana pelo mate da pele e muito sul da europa pelas feições. Um belo par, para despachar o retrato; oxalá o tempo os favoreça na aliança que celebraram.
O Pedro Miguel é o primogénito da Carlota e andava ainda no infantário quando ela começou a trabalhar cá em casa – de algum modo ele e o Zé João, o meu filho nascido pouco depois, cresceram juntos, ostentam ainda no sorriso e no abraço que dão quando se encontram – por muito que a vida os tenha levado por distintos caminhos – o prazer comum a pessoas que assistiram às respectivas infâncias.
Um dia, há vinte e dois anos, o telefone tocou demasiado cedo cá em casa, ainda mal amanhecia. “Porra, quem seria?”, pensei, alarmado, pois telefones a uma hora daquelas... Era a Carlota e queria uma opinião médica. Estava grávida de fim de tempo e acordara inundada com as águas rotas: o que achava eu que devesse ser feito? Não achei nada, saí de casa a correr e conduzi os vinte quilómetros até à urgência do hospital de Torres Vedras com tiques de ambulância. Foi assim que desovou o Ricardinho, que, no Sábado, assistiu ao casamento do irmão de óculos escuros, brinco na orelha e poupa no cabelo a esticá-lo ainda mais alto do que o metro e oitenta e tal que Deus e a boa comida da mãe lhe deram.
No meio disto tudo (ainda nem saíramos da igreja da Ramada para alvejar os noivos com uma saraivada de arroz colorido e pétalas de rosa), o João Pedro, o pai do noivo, chorava como uma madalena, aquele homenzarrão!
“Você está num lindo estado”, disse-lhe eu ao ouvido no abraço que demos.
“Que é que quer?! Vê-los assim criados, de repente; e depois ver aí chegar o Zé...”
Sim, essas partes eu compreendia. O tempo correra sem aviso por todos nós e o Zé João voara os mais de 3.000 km de Leipzig até aqui para estar no casamento do velho amigo. Quanto à mãe do noivo, essa chorou menos do que eu imaginaria, mas compreendo ser a atitude mais prudente para manter a maquilhagem num estado de caiação aceitável!

Esta cena da choradeira passou-se por volta da uma da tarde e eram umas nove da noite quando deixei a boda, em Alenquer, uns bons 60 km a norte da igreja onde se celebrou o matrimónio.
Na manhã de Domingo, a Carlota passou por cá a deixar umas amostras de bolos da boda e contou que a festa tinha acabado por volta das três da manhã, que o Zé João dançara como um louco.
“Estou a ver...”, respondi, “e você não parou de falar a noite inteira – até está rouca!”
“Foi do orvalho da noite...”, justificou-se numa resposta que só convence quem não a conhece.


© (1) Fotografia oficial do casamento; (2) Pedro Serrano, Ramada (Odivelas), Junho 2013.

07 junho 2013

VOU-TE CONTAR: 58. VIVE LA FRANCE


Quando eu era pequeno, o meu pai, nos intervalos da sua intensa actividade como cirurgião, parecia apreciar a minha companhia.
Para grande contrariedade minha, sacudia-me da cama para intermináveis manhãs de caça ao coelho e às perdizes; arrastava-me a errar por km para avaliar se os vasos de recolha de resina, suspensos nos pinheiros, tinham atingido um bom nível de seiva e, ainda, por outras actividades igualmente secantes para um miúdo de dez anos, mas que, para ele, eram elixir de alegria e o faziam exclamar, a sublinhar uma qualquer plenitude, a enigmática e descontextualizada interjeição:
“Vive la France!”
Depois, quando já penava pelos bancos do liceu e o meu desempenho em botânica se revelava assustadoramente fraco, o meu pai – mais entusiasmado do que o filho com as páginas do compêndio – estudava comigo as nuances da seiva bruta e da seiva elaborada e forçava-me a aulas práticas usando como laboratório o jardim lá de casa onde, para grande horror meu, pululavam monocotiledóneas, corolas, estames, anteras falciformes com deiscência poricida e outros atropelos ao bom nome...
Uns anos passados, já aluno de Medicina, desafiava-me por vezes para o acompanhar nas consultas domiciliárias que deixava para o fim do dia e com o fito de esmiuçar ao vivo algum telefonema de um cliente que o deixara preocupado ou com uma dúvida médica por satisfazer. Ainda a estacionar o carro, antes de entrarmos na casa do doente, recomendava-me que não abrisse o bico durante a visita e explicava-me o contexto clínico e familiar do que talvez nos esperasse lá dentro. À entrada, pedia delicadamente autorização ao visitado para que eu estivesse presente – apresentando-me como um quase colega – e, regressados ao automóvel, resumia-me o entendimento a que chegara, não apenas a clínica envolvida ou o tratamento prescrito, mas também as consequências que o prognóstico sombrio daquele doente iam ter sobre o sorriso daquela senhora tão simpática que nos abrira a porta e, no fim, nos convidara a jantar...
Hoje, passados estes anos, lamento um pouco não ter dado mais atenção a todos esses momentos, o não ter respondido com mais entusiasmo e menos ar de enfado ao prazer que o meu pai parecia ter na minha companhia, em participar da minha vida nascente e associar-me à dele. Não posso emprateleirar este sentimento no negrume dos remorsos, é mais uma nostalgia que sobra da consciência do tempo fugido e que paira por aí, dizem os físicos, misturado à poeira cósmica, essa mistura de recordação e perda que fez o Proust escrever mais de 3.000 páginas sobre o assunto nos sete volumes do À la Recherche du Temps Perdu.
Nas ruelas transversais à sua intensa actividade profissional, o meu pai encontrava por vezes uns amigos muito diferentes dos médicos que iam jantar a nossa casa, que às vezes passavam férias connosco na mesma praia do Algarve.
Eram os pintores. O meu pai parava a falar com um punhado de tipos com um ar um pouco estranho, que tratava com respeitosa atenção e a quem, a crer pela quantidade de quadros amontoados no seu escritório, servia de guia para os males do corpo já que, é sabido, os artistas, embora desligados, evidenciam tendência para se afligiram muito e tem pouco dinheiro vivo para gastar em médicos. Recordo caminhar na baixa do Porto e cruzarmo-nos com esses sujeitos de aspecto despenteado, de vestes esquecidas do ferro de engomar e lenços de seda a resguardar o pescoço. O meu pai por ali se quedava em conversa, enquanto eu, calado, interiormente fascinado e divertido, absorvia a presença excessiva daqueles seres.
Quando a casa nova foi construída, a espaçosa e alta parede que acompanha a escadaria para o andar de cima, iluminada por um boa luz do norte, ficou pontuada por quadros dessa gente, sendo da nossa especial predileção uma pintura de um tal Cid que representava um D. Quixote aos tropeços na impressionista e descomunal asa de um moinho. E nos mais de dez anos que morei naquela casa era para mim quase automático pousar os olhos naquele quadro sempre que subia ou descia as escadas e que, mesmo já não estando lá, ficou associado àquela curva da escada.
Havia um outro, chamado Pedro Olaio, um pintor que morava em Valadares e tinha um estranho modo de nos desejar Feliz Natal. Todos os Dezembros chegava a casa do meu pai – apesar de o homem amputar o nome da rua e não escrever o número da porta! – um bilhete postal dos Correios em que a face onde as pessoas garatujavam as palavras festivas de circunstância, estava unicamente preenchida por uma aguarela, espanejada numa gama em pretos e cinzentos. “Que estranho motivo para um postal de Natal”, pensava eu olhando os motivos e os tons sistematicamente sombrios da pequena pintura e esquecendo a intenção que por ali morava.     


© (1) Pedro Olaio, 1969; (2) Pedro Serrano, Porto, 2010.

05 junho 2013

ESVAI-SE O TROPICAL SENTIDO NA LAPELA


Viajávamos para sul, para Alcáçovas, parece-me, mas devíamos esperar por boleia num ermo a meio do caminho pois só tínhamos transporte a partir de metade do caminho.
Seguíamos os dois numa carrinha comercial, A. ao volante, eu no assento ao lado tamborilando com os dedos o vidro frio lambido por gotas de chuva, uma canção na cabeça e por fundo sonoro o bater do chassis metálico do furgão contra o pavimento da estrada não asfaltada.
Apesar de cair uma morrinha que transformara aquela manhã de verão numa paisagem grisalha e molhada de inverno, estacionámos o furgão, saímos e esperámos pelo próximo transporte sob a intempérie. Longe, ao fundo, por entre o batido de água e névoa, conseguia aperceber um barracão enorme e, em redor dos portões escancarados, um grupo de trabalhadores que cantava uma música cujo eco me chegava envolto em familiaridade. Quando o vento me trouxe, mais distinto, o verso “esvai-se o tropical sentido na lapela...” foi que percebi ser o “Foi Por Ela” do Fausto.
“Que engraçado”, gritei a A., “tenho vindo o caminho todo a trautear esta canção na cabeça!”
Em Évora, onde chegámos sem memória do transporte ou do percurso que nos levou até lá, esperamos ainda pela boleia para Alcáçovas ou Alcácer e estamos os dois no patamar largo de uma escadaria de madeira onde se acumula um magote de gente contra o corrimão de retorcidos. Eis que chega um tipo de cabelo acamado a água e sobretudo de gola levantada, acompanhado por uma rapariga, também agasalhada por casaco comprido de gola levantada. A esta, no entanto, não consigo recordar as feições, não porque não as tivesse, mas mais por a cara lhe ser lisa por não conseguir impregnar-me a memória de modo duradouro. O tipo, fazendo o silêncio no ruído da turba, clama:
“Quem está à espera de boleia para Almodôvar?”
“Somos nós”, responde A.
“Hmmm, gosto...”, comentou o tipo dardejando um olhar apreciador sobre a minha companhia. Não fiquei contente, nem com o comentário nem com o sorriso satisfeito de A. (que lhe arrepanhou o lábio superior e lhe mostrou dois dentes), e uma nuvem de amuo fechou-se sobre mim.
Mas a nossa boleia e sua companheira teriam ainda algo a tratar em Évora e nós fomos procurar um posto de enfermagem, pois ambos devíamos tomar uma injecção de adrenalina nesse dia. A. foi a primeira a ser escolhida e estava receosa, sentia eu observando-lhe a face preocupada. A enfermeira também não ajudava ao entrar em demasiadas explicações quando falhou a veia e A. se sentiu mal... Uma novata, possivelmente, concluí enquanto a via ameaçar com a agulha o outro antebraço.
“Deve ser uma crise hipotensiva...”, continuava ela nas explicações, “é melhor deitar-se um pouco; vá eu ajudo-a a despir-se...”
“Não quer dar-me primeiro a injecção a mim?”, perguntei, estendendo o braço nu e tentando dar alguma paz a A.
“Deixe estar...”, respondeu, cobrindo A. com um lençol.

Eu não estava a gostar nada daquilo! Primeiro, uma enfermeira inexperiente que usava seringas de vidro e agulhas de metal, daquelas de ferver que já não se usavam em lado nenhum, e depois – tanto quanto sabia – a adrenalina costumava subir a tensão arterial, não baixá-la daquele modo desastroso.
“Tem a mínima a 2,5”, comunicou a enfermeira tirando o estetoscópio dos ouvidos, “não admira que se tenha sentido enjoada...”
A., reclinada numa marquesa larga como uma cama, apesar do seu estado esvaído, era uma figura sedutora na sua palidez, nos cabelos desalinhados que lhe roçavam os ombros nus, nas mamas friorentas que apercebia em recorte na luz fria da manhã.
O mesmo deve ter achado a nossa boleia de cabelo penteado a água e lapela levantada que entrou nesse momento na sala do posto de enfermagem.
“Estão prontos...?”, perguntou, olhando A. com concupiscência.
Ao menos ela tinha tapado as mamas com o lençol ao ouvir a voz, pensei, outra vez chateado.
Agora, outra vez sós, continuamos a esperar por uma boleia noutra encruzilhada do caminho e, molhados da chuva, cansados na ressaca da adrenalina, procuramos o abrigo de uma gruta. A., sentada e abraçando os joelhos com os braços, olha desolada o clima e eu, usando um pau de giz, desenho no chão de areia fina que atapeta a gruta uma frase inspirada: “puta que pariu as gajas”. Depois, mais aliviado, apaguei tudo com uma mão rendida, começando por me desfazer da palavra “gajas”.

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Praia da Areia Branca, 2011; (2) Lisboa, 2012.