05 março 2017
07 dezembro 2016
LEONARD COHEN IN INDIA - They Remember you well
O Kemps Corner é uma zona intensamente
urbanizada do sul de Mumbai (a antiga Bombaim) e, não fora a extensa área
arborizada que se lhe encosta a sul, não veríamos mais do que prédios altos
como horizonte e grandes aves a planar no céu pálido. O mar, o mar que anda
sempre por perto em Mumbai, não se vê dali, é necessário ainda percorrer umas
boas centenas de metros pela Desai Avenue abaixo até lhe chegarmos.
Nos semáforos da parte alta da avenida
há homens vestidos como mulheres a pedir esmola e quando o sinal é favorável
aos automóveis vão reunir-se ao pequeno grupo de outros homens vestidos de
mulher que, sentados, desenham um círculo no passeio adjacente. São
prostitutas, são pedintes, fazem parte de uma casta? Um pouco de tudo, estamos
na Índia.
Quanto ao terreno arborizado referido,
que à primeira vista se poderia confundir com um esquecido jardim público onde
as árvores e a vegetação cresceram à mão de um jardineiro distraído, é ali a
Torre do Silêncio (Tower of Silence), o local onde os Parsi – uma pouco
numerosa mas poderosa etnia de origem persa – dão destino aos seus mortos. Os
Parsi acreditam não ser boa prática contaminar a terra, a água ou mesmo o ar,
com os restos mortais dos seus entes queridos e, como alternativa para um
embalamento até à eternidade, expõe os cadáveres à bondade dos abutres e outras
aves de rapina, até que apenas ossos restem na torre circular e sem cobertura
onde são deitados.
O Kemps é um hotel de duas estrelas, mas
pela bitola hoteleira seria mais apropriado chamar-lhe pensão, aquilo é mesmo
uma coisa modesta, o oposto do que se estaria à espera numa figura pública de
cinco estrelas.
Na recepção, pedi à menina de serviço
se podia ver um quarto, perguntei-lhe há quanto tempo trabalhava ali. Que sim,
que esperássemos um pouco na salinha ao lado, que trabalhava no hotel há três
anos. “Não serves”, pensei enquanto observava o cubículo onde mal cabia o sofá
de outros tempos. Depois chegou um rapaz
que nos convidou a subir num elevador onde dificilmente entraria mais alguém. O
quarto que nos queria mostrar ainda estava a ser arrumado, havia dois
empregados lá dentro que, apressadamente, passaram os lençóis usados e as
braçadas de toalhas para o quarto em frente, pois eu perguntara se podia tirar
uma fotografia. Uma cama de madeira, estreita, encostada a uma parede, uma
pequena secretária de madeira amparada a outra, lá ao fundo a janela por onde
tentava entrar uma claridade esverdeada, esbracejando na cortina de tela que
tapava a metade superior da janela e o aparelho de ar condicionado encastrado
na metade que sobrava. Paredes meias, em frente à porta de entrada, a casa de
banho: funda e estreita como o quarto; uma retrete, um lavatório e um bocal de
chuveiro a meio de uma parede, com um balde de plástico ao lado, no chão. Era
tudo e o rapaz deve ter farejado o meu modo incompleto, pois ofereceu-se para
nos ir mostrar um outro quarto, maior, com cama de casal.
O novo quarto ficava, pelos vistos,
noutro edifício, pois saímos para a rua, onde voltei a cumprimentar o velho
porteiro que saudava quem chegava à sombra do toldo, enfunado em verde e branco,
que emprestava um ar levemente festivo à entrada. O novo edifício ficava nas
traseiras do anterior, um outro toldo listrado em verde e branco prolongava a
continuidade, atenuava a fachada conspurcada. Foi por aí que perguntei ao nosso
guia há quanto tempo trabalhava no Kemps Hotel.
“26 anos”, disse.
“26 anos! Como é possível?”, respondi
enquanto fazia contas rápidas de cabeça: 2016-26=1990. “Quanto anos tem o
senhor?”
“44”, disse ele.
“A very nice gentleman”, respondeu de
imediato, “morreu há duas semanas...” E acrescentou, como que iluminado pelo
assunto e levantando um indicador em direcção ao céu, “ficava sempre neste
edifício, sempre num mesmo quarto lá de cima, do último andar...”
Quis saber se o poderíamos visitar. Que
não, que estava ocupado de momento, mas que era igual ao que já tínhamos
visitado no outro edifício.
“Tão pequeno?”, perguntei.
Sim, tão pequeno, era uma pessoa muito
simples, passava grande parte do dia no quarto, a ler e a escrever; saía para
passear um pouco e ir nadar numa piscina no fim da Warden, o velho, e ainda
usado, nome do tempo dos ingleses da Desai Avenue.
"A very nice gentleman”, voltou a dizer
e foi à sua vida, pois percebra que o nosso verdadeiro interesse não era imobiliário.Cá fora, à luz forte do fim da manhã, sob o toldo raiado, o velho porteiro foi mais crédulo e não nos deixou partir sem nos entregar uma página, tipografada nalguma impressora de cartuchos estafados, com as tarifas praticadas pelo hotel. Apertámos as mãos; “take care”, disse ele na despedida. No final da álea, antes de me dissolver na avenida, virei-me, a olhar uma última vez o toldo azul e branco e dei com ele a seguir-nos os movimentos, a levantar a mão num adeus, quem sabe se um até breve caso tomássemos em consideração o preçário convidativo do Kemps Hotel.
Classificação:
ESBOÇOS e RETRATOS,
LEONARD COHEN
02 dezembro 2016
A TORRE DO SILÊNCIO (Tower of Silence)
Now I bid you farewell, I don't know when I'll be back
There moving us tomorrow to that tower down the track
There moving us tomorrow to that tower down the track
Leonard Cohen (Tower of Song)
Fica no meio da cidade, a grande
mancha arborizada está actualmente situada no coração de um abraço de prédios
altos, talvez noutra época tenha sido diferente. À entrada do parque, um tipo
sentado ao lado de uma cancela que impede a passagem destemperada de automóveis
esboça, por gestos, que o acesso nos é interdito. Como ele não falasse inglês,
nem nós hindi, acrescentou: “dead people”. Respondi “I know” e isso pareceu
quebrar o impasse e ele, como quem encolhe os ombros, facultou-nos a entrada.
Uma álea asfaltada desaparece entre as
árvores, pontuada por bancos de jardim, uma bifurcação surge mais além e
desdobra um novo caminho à direita, por ele desce lentamente uma ambulância
antiquada. Param um pouco à nossa frente e enquanto me apercebo, pelas letras
pintadas na carroçaria, que é um carro funerário, um homem sai do veículo e
escreve com giz numa placa afixada à borda da estrada. Depois vão-se embora, rolam
em direcção à saída do parque.
Compreendo que vieram deixar um corpo
e, pelos outros registos a giz na placa, que já estão mais dois na torre. É
aqui que os Parsis – uma etnia de origem persa também conhecida como Zoroastros
– expõe os seus entes queridos ao modo de enterramento que consideram o mais perfeito:
os seus mortos serão despedaçados e comidos pelos abutres, pois deste modo não
poluirão a terra com os seus cadáveres nem o firmamento com o fumo da sua
cremação.
O problema é que quase já não há
abutres em Mumbai, o crescimento urbano e o uso excessivo de antinflamatórios
potentes (como o Voltaren) entre os humanos envenenaram e dizimaram as enormes
aves. No céu, lá em cima, volteando no azul, veem-se águias mas não abutres. A
comunidade Parsi, essa, está deveras preocupada com o assunto: já são poucos
membros e nem os que partem conseguem facilmente fazê-lo do modo tradicional;
encaram isso como um mau augúrio quanto à sobrevivência do grupo.
Conseguimos subir até ao cimo da álea
mas não mais do que isso, pois mandam-nos retroceder. A torre fica ali ao lado,
entre árvores, não se avista, tudo se passa discretamente e só as enormes aves
no céu parecem algo excitadas e se vão concentrando por cima de nós, planando
sobre os prédios da cidade.
© Fotografias de Pedro Serrano, Mumbai (Índia), Novembro 2016.
29 novembro 2016
ENTRETANTO EM BOMBAIM, BOMBAY, MUMBAI...
Classificação:
FOTOGRAFIAS,
INDIA
26 novembro 2016
24 agosto 2016
OS QUERUBINS ASSÍRIOS
Já deu para perceber que os filhos do
embaixador do Iraque em Portugal gostam de se despir em público. Um deles tê-lo-á
feito por duas vezes numa discoteca de Ponte de Sôr e fê-lo perante os olhos
nacionais na muito pré-arquitectada entrevista concedida à SIC. Foi um gosto
ver rapazinhos de dezassete anos (um deles ainda ostentava nos nós dos dedos as
marcas deixadas pelos murros que deve ter pregado) a papaguear a lição, tão
certeiros nas respostas, tão maduros na análise crítica dos acontecimentos, tão
politicamente correctos, mas deixando escapulir no entredito que consideram
Portugal um lugar de perdição, onde o álcool é demasiado acessível aos
adolescentes, onde menores de 17 anos podem conduzir automóveis diplomáticos,
onde raparigas frequentam discotecas em cidades de província... No Iraque natal
nada daquilo seria permitido!
Sim, rapazes, estamos de acordo,
Portugal é demasiada tentação para o vosso limiar de sensibilidade e uma vez
que as diversas ramificações da imunidade diplomática nada deixarão que vos
suceda, o melhor é porem-se a andar para lá de Bagdad e levarem o papá junto na
mala diplomática. O meu país
agradece.
Quanto ao Ministério dos Negócios
Estrangeiros português, o costume: pamonhas,
é o termo popular mais simpático para categorizar o comportamento, sobretudo no
começo dos acontecimentos, antes de o ministro se dar conta que o país estava
ao rubro com a ofensa e que o chão onde pousava os pés lhe vacilava. Uma paralisia
sempre justificada pelo “não é nós que compete”, o “não podemos fazer nada
enquanto... etc.” A reboque da agenda do embaixador do Iraque que, entretanto,
publicava comunicados a defender os herdeiros na página da internet da
embaixada, apresentava queixa contra desconhecidos, pedia audiências e
deslocava-se por iniciativa própria ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Bela imagem dá a diplomacia portuguesa, a Portugal e ao mundo, onde a notícia
já corre em tons de indignação.


E em nome, supõe-se, da
‘equidistância’ ou do ‘alto interesse nacional’, o senhor ministro não pôde,
sequer, telefonar a desejar melhoras à família do agredido. Interrogado sobre o assunto na
TV, tentou primeiro iludir a pergunta, respondendo ao lado. Mas parvo é coisa
que Rodrigo Guedes de Carvalho não é e logo encostou o suspeito às boxes, insistindo
na pergunta. E o importante governante lá teve de confessar que nada tinha
feito, mas que se inteira do estado do doente a todo o momento, queremos até
crer que o terá em permanência no pensamento, tal como a embaixada do Iraque,
onde se reza pelo Ruben diariamente.
Mas, afinal, o que tem assim o Iraque de tão especial
para o superior e enevoado interesse nacional? Petróleo? Ora, pelo amor de
Allah, fornecedores não faltam, e vocês já viram o preço a que desceu o barril
Classificação:
SOCIEDADE
08 julho 2016
COMO QUE A DESPEDIR-SE
Veio cá parar, como a maior parte
deles, pela mão do Zé João que, regressado da escola, topava num gato
abandonado, pequenino, trémulo e de olhos ramelentos. Depois enfiava-o num
caixote de papelão, cruzava o portão com ele e pronto. Nunca nenhum de nós – eu
ou a mãe – lhe disse que não, que não dava, que a altura não era boa, a adopção
era imediata e sem formalidades.
A Mia veio tapar o buraco da morte da
Tangerina, o que me faz supor que, tendo morrido a outra no Natal de 2001,
possa ter aparecido aqui em casa em 2002, deveria andar agora pelos treze,
catorze anos, uma senhora idade para um gato.
Era uma vadia predominantemente
cinzenta, de olhos verdes, uma mancha branca de uma pureza de glaciar entre as
patas dianteiras, contrastando em combinação perfeita com o cinza-frio do resto
do corpo.
Ontem à noite, perto da uma da manhã,
já estava deitado, ouvi miar, como que um chamamento; discreto, nada de
especialmente insistente ou desesperado. Levantei-me, desci, ela jazia deitada
na pedra do jardim onde na última semana passava os fins de tarde, para depois
desaparecer até à manhã seguinte em sítio incerto. Desde que ficou gravemente
doente (complot de idade e cancros da mama, que iam sendo operados mas voltavam
uns tempos depois na mama seguinte) deixou de querer estar no interior da casa,
nunca percebemos a razão. Andava em torno da casa, ia mudando de local à medida
que o sol rodava no céu, um dos locais preferidos era a terra sob os
marmeleiros, aquecida pelas duas da tarde mas ensombrada pelo túnel do
entrelaçado das plantas. Primeiro deixou de comer, mas bebia; depois deixou
praticamente de beber, nos últimos dois dias não aceitava sequer a água que lhe
estendia numa tijela, para exaspero do dono. Ontem, ao longo do dia, ao vê-la
deitada no chão, a cabeça encostada à pedra quente, já sem reagir muito a
estímulos exteriores não duvidei que iria durar pouco: um dia, dois dias? Era
impossível continuar assim por muito mais, com aquela respiração aflita, aquele
olhar triste ausentando-se...
Diz a Carlota que de manhã, ao fazer-lhe
uma festa, que levantou a cabeça e terá olhado para ela como que a despedir-se,
muito amiga.
Então, ontem à noite, ao ouvir o miado,
desci e encontrei-a deitada na pedra do chão perto da porta da entrada. Quando
me sentiu perto, balbuciou um pouco, acariciei-a e acalmou. “Mia...” Fez-me
impressão vê-la ali, estava a cair aquela bruma nocturna que é tão useira nas
praias, à noite. Fui procurar a manta onde ela se costumava deitar na cadeira
ao lado da lareira e embrulhei-a nela, sentindo-me indignado com o peso-pluma a
que a gata tinha chegado. Embrulhei-a bem, apenas a cabeça de fora, deixou-se
ficar sem protesto naquela figura de criança abandonada numa trouxa. Fiz-lhe
uma festa, entrei, fechei a porta como quem vira as costas a um comboio que sai
da estação.
Hoje, ao amanhecer, estava no mesmo
local de ontem à noite, exactamente, embrulhada na sua manta-xadrez, quase
parecia que nada tinha mudado e que dormia, não fora as patas traseiras
esticadas e a sobrar da manta, o carreiro de formigas que se apressava em
direcção a ela como mulheres para saldos.
Enterrei-a num canteiro, sob roseiras.
Classificação:
ANIMAIS
05 julho 2016
CONCERTO NUM MUSEU GREGO
© Pedro Serrno, Hydra (Grécia), Junho 2016.
25 junho 2016
17 junho 2016
E O DANÚBIO ALI TÃO PERTO...
Classificação:
BUDAPESTE,
FOTOGRAFIAS
14 junho 2016
07 junho 2016
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