29 junho 2010

VOU-TE CONTAR: 10. Da jardinagem como ramo da poesia

Mal saí da curva fiz pisca à direita e apontei a frente do carro ao portão. Depois saí para o abrir. Uma cama de folhas opôs suave resistência ao empurrão com que costumo abrir as duas portas gradeadas de ferro do portão.
É um perfeito fim de tarde do princípio do mês de e Agosto e a luz espelha-se em dourados, o jardim está lindo, desmente que aquela casa está desabitada há mais de um ano! Abençoada a ideia, a decisão de mantermos o Sr. Alfredo, jardineiro da casa desde a sua construção, a ir lá duas vezes por semana, cuidar do quintal.
Não foi um contrato muito alegre, aquele que se estabeleceu para manter funções numa casa onde não habita ninguém, onde deixa de haver com quem troque uma laracha a meio da manhã, onde deixou de haver uma sandes e cerveja a meio da tarde. Mas o Sr. Alfredo gostou da ideia, ficou contente por manter a ligação à casa e a nós, perguntou se podia cultivar uma pequena horta pessoal na parte de trás do quintal, reocupar o galinheiro, há muito abandonado e castanho de ferrugem, com uma ou duas aves poedeiras.
“Achas que sim?”, perguntou a minha irmã Susana quando me ligou a expor a ideia, "não achas a ideia demasiado louca?"
“Sim, que dizer: não! Claro, claro que sim.”
O meu pai havia de gostar, pensar aquele quintal abandonado seria para ele tremendo desgosto. Todos os dias da sua vida, mais religiosamente ainda na parte final, ele dava uma volta completa ao quintal, sabia de cor quantos gomos tinham nascido nessa semana em cada uma das árvores de fruto, quantos pêssegos tinha cada um dos três pessegueiros-anões.
“Só este tem 73, este ano estão carregadinhos”, dizia com prazer.
Das árvores de fruto, o enorme limoeiro era o seu maior sucesso. Já por ali estava quando a casa foi construída, fazia parte da pequena quinta que era o quintal da casa dos meus avós, calhou-nos em herança junto com uma nespereira e um marmeleiro que entretanto secaram, mas, de repente, deixou de dar limões. Crescia e reverdecia em pujança, mas estéril. Desgostoso, o meu pai, num excesso terapêutico que nem quadrava com a sua habitual sensatez clínica, aplicou-lhe em simultâneo os dois remédios usados na sua aldeia natal em circunstâncias análogas: espetou-lhe um grande prego ferrugento no tronco e encheu a base da árvore de pancada, como quem dá uma coça num filho desobediente, a ver se aprende.
Com um grau de miraculosidade gémeo da oração a Santo António para encontrar objectos perdidos, o limoeiro desfez-se em limões e nunca mais cessou de o fazer: há limões todo o ano, uma curta excepção para o tempo em que em vez de frutos ele anuncia a chegada das suas lanternas amarelas produzindo flores de perfume meridional.
Extasiado com a visão do jardim, estacionei o carro no fim da rampa, tirei as malas para fora e fui dar uma volta antes que anoitecesse de vez. 
Venho, sozinho, passar duas semanas de férias nesta casa, antes que ela se estrague em demasia por estar fechada, por se sentir só. 
O Sr. Alfredo deve ter estado por aqui hoje ou ontem, nota-se na terra regada e no ruborizado consolado dos tomateiros.

© Fotografia de Pedro Serrano, Viana do Castelo (2007).