07 setembro 2011

ABRAÇÁVEL


Tenho um fraco por canções eternas, já por aqui falei numa delas (Less Than Greek) e “Embraceable You” é outra das tais. A canção foi escrita em 1928, o que significa que, não dentro de muito tempo, fará 100 anos. Se nos fosse permitido obter os efeitos da adição de uma dezena destas canções, daquelas que por cá andam há este número de anos, poderíamos imaginar que uma tão pequena mão-cheia delas cobririam mil anos num instante, isto é, a eternidade ao nosso alcance.
“Embraceable You”, à letra Abraçável Tu ou, menos à letra, Tu Tão Abraçável foi escrita por George e Ira Gershwin e os menos avisados dos meus ouvintes poderão pensar tratar-se de marido e mulher, como eu pensei quando, ao ouvir “Summertime” (a mais eterna das canções eternas desta dupla), procurei na contracapa do disco o nome dos autores e dei com um George e uma Ira. Mas não! Este Ira é um homem e era o irmão do George que tratava das letras das canções.
Ultrapassado o equívoco do nome dos autores, escutando a letra da canção esbarramos noutra situação ambígua: a canção fala de bebés (baby), de ‘vem ao papá’ (come to papa) ‘bebé malandro’ (naughty baby) e somos tentados, catalisados pela sua graciosidade de canção de embalar, a julgar que é melodia dirigida a uma tenra e encantadora criança. Mas, outra vez, não! A narradora, quem cantou pela primeira vez isto foi Ginger Rogers numa coreografia dirigida por Fred Astaire, dirige-se a um homem e estamos, afinal, perante a clássica cantada de um amor adulto.
Como muitas outras das canções eternas, esta também foi escrita para um musical da Broadway (Girl Crazy, 1930) e desde esse dia nunca mais parou de ser interpretada, tocada, cantada, ensinada nas escolas de música.
Pessoalmente falando, ouvi-a a primeira vez nos anos 70 quando comecei, nos meus vintes, a prestar atenção a essa sofisticada música que é o jazz. Desde aí, milhares de vezes a ouvi e trauteei, não se gastando nunca a ternura dourada que a ilumina, que a toca quando ela toca. E, nesta eternidade de que falava e que marca certas canções, vi, muitos anos depois de mim, o meu filho falar dela, pegar nela usando um trompete, com a recente naturalidade de quem a canção lhe pertence.
Deixo aqui, para os que não a conhecem, a versão do abençoado Nat King Cole, um senhor que, para além de a fazer trepar às nuvens com a sua voz sorridente, é também quem toca o piano que acompanha e onde  introduz, quase no final da canção, uma filigrana de acordes que evocam caixas de música a soar esquecidas num quarto de criança ensolarado.

Nota: Aqui ficam os mil anos de canções prometidas, apenas pelas mãos de George & Ira Gershwin: “But Not For Me”, “The Man I Love”, “A Foggy Day”, “‘S Wonderful”, “Someone to Watch Over Me”, “I Love You, Porgy”, “I Can’t Get Started”, “Nice Work If You Can Get It”, “Till Then”, “How Long Has This Being On”.

© Fotografias: (1) Pedro e Zé João Serrano, foto MJ Costa, Cascais 1989; (2) fotógrafo desconhecido, Porto 2010.


"Embraceable You", de George/Ira Gershwin, por Nat King Cole