23 fevereiro 2012

A COMBINAÇÃO COMBINADA



Fascínio tenho eu por falsas loiras (ai a negra lingerie)
As sardas, sobrancelha feita a lápis e perfume da Coty
                     “Miss Suéter” (João Bosco/Aldir Blanc)


Uma das entradas do El Corte Inglés de Lisboa abre directamente para a secção de lingerie e é, por razões logísticas, a entrada que mais utilizo.
Mal se franqueia a porta automática entram-nos pelos olhos dentro as formas de milhares de soutiens, cuecas, combinações e outra roupa interior feminina, ordeiramente arrumada em filas, penduradas das suas cruzetas e cruzetinhas numa variegada profusão de cores onde, mesmo assim, reina o preto e o branco. A intervalos regulares, fotografias maiores do que nós exibem jovens mulheres que demonstram aos olhos boquiabertos dos passantes o efeito arrasador que pode advir de usar roupa daquela natureza.
99,99 % das vezes que por ali passo faço-o por razões de comodidade e, confesso, a essa comodidade vem, como um bónus, agarrada uma emoção de bem-aventurança que me acompanha até ser engolido pela escada rolante que leva à secção de informática do piso inferior.
Mas acontece que ontem enfrentei essa secção com o fito de tentar substituir uma combinação preta, evaporada como fumo em local não traçável pela memória dos actos falhados. Nos escaparates da Calvin Klein encontrei facilmente o modelo perdido e os meus dedos desataram a fazer deslizar as cruzetas em busca do tamanho pretendido, que parecia não constar por ali. No momento, e enquanto por ali estive, era o único homem num espaço onde apenas mulheres rondavam, pensativas ou febris, as delicadas peças expostas.
“Posso ajudá-lo...?”, ouvi de uma voz aproximando-se.
“Pode...”, respondi, rodando um pouco sobre mim para encarar a empregada, “não tem iguais a esta em tamanho S? É que só vejo por aqui o M e o L...”
Ela achava que não, que não tinha, mas foi confirmar no armazém. Quando voltou trazia no braço uma combinação que desdobrou perante os meus olhos, dizendo:
“Não, do modelo que o senhor pretende já não temos o S; mas que acha desta? É um S, e há em preto e em beije...”
A combinação em causa era um bicho preto, de toque também macio como pele de pêssego, mas com a zona do peito demasiado vincada, conferindo-lhe um tanto o ar dois-em-um de soutien-saiote.
“Não gosto muito...”, comentei, “preferia uma coisa mais parecida com o modelo de que andava à procura...”
Ela remexeu uns cabides, estendeu-me outro exemplar, uma peça com uma linda renda negra a debruar um decote discreto e o mesmo toque sedoso de arminho geneticamente modificado que caracterizava a combinação perdida:
“E esta? É um pouco mais cara mas muito bonita...”
“Hmm..., respondi, deixando correr a renda entre o polegar e o indicador. “Sim, levo esta...”
“É para presente?”, perguntou ela antes de se afastar para ir procurar uma caixa condigna.
Passado pouco tempo regressou com a caixa e, antes de me pedir para a acompanhar até ao balcão onde iria acomodar a prenda no seu leito de celofane e cartolina, perguntou de chofre:
“Não deseja também uma cuequinha a combinar...?”
“Não, muito obrigado, por agora é tudo...”
Fiquei, ao balcão, a vê-la embrulhar a combinação com todo o desvelo, como se preparasse um presente para si própria, detendo-se, a ponta da língua concentrada entre os lábios, a revirar contra uma haste de tesoura as pontas do laço que rematava o embrulho.
Paguei e no momento em que me devolveu o cartão de crédito e o talão para uma eventual troca, ela dardejou sobre mim um intenso e instantâneo olhar, muito possivelmente a tentar decidir em que categoria de caçador de lingerie me espetaria.

© Fotografia de Pedro Serrano, Panjim (Índia), 2012.