22 fevereiro 2012

ELOGIO DO CHÁ VERDE


1. Et in Arcadia ego
Eis o jovem, o intrépido viajante chegando ao fim da primeira etapa da sua viagem pelo Oriente. Ei-lo, na bicha de chegada ao aeroporto de Atenas, mochila às costas, calças de ganga, botas altas de cabedal preto e, pendurando-se de uma das mãos, um avantajado pacote quadrangular, ostentando no exterior publicidade a uma batedeira eléctrica...
As botas pelo joelho tem uma explicação lógica, na sua mente mais profunda o intrépido viajante sabe que vai ao encontro de terras onde abundam seres rastejantes, muitos deles venenosos e, bem vistas as coisas, sempre será melhor enfrentar uma cobra-capelo de botas do que descalço; embora, feito o balanço final, o maior perigo com que elas tiveram de arrostar foram dolorosas bolhas nos pés. Mas uma batedeira eléctrica!?
Nessa noite de Setembro de 1976, o voo da British Empire Airways entre Londres e Atenas foi voo atribulado, percorrido numa estratosfera carregada onde raios cintilavam no negrume da noite, vários passageiros vomitaram os seus paper-bags e a maioria seguiu cor de cera e muda. Menos eu e o meu companheiro do lado de lá da coxia, um tipo que estudava em Londres e com quem estabeleci animada conversa. Ganha a confiança, Dimitrios perguntou se, por acaso, eu me importaria de, no passar da alfândega, lhe transportar um pacote... Era uma batedeira eléctrica, daquelas com base e vaso misturador, um velho sonho da mãe e produto quase impossível de encontrar na Grécia pós Socrática e pré-Troika. Acontecia que o controlo da polícia da alfândega ateniense, tal como a portuguesa da época, era terrivelmente apertado para gregos e troianos, mas nada para com os turistas...
Deste modo, eu e o Rui não entrámos no país como uns outros quaisquer, tínhamos à nossa espera, acenando freneticamente do lado de lá da paliçada, uma família completa de pai, mãe e vários filhos que, mal tomaram conhecimento do meu acto heroico nos levaram em triunfo para sua casa, uns sete ou oito marmanjos amicalmente amontoados num automóvel.
Amanhecia sobre Atenas, uma aurora dourada tingia-se de vermelho em cada fiapo de nuvem que aflorava, os cedros e os ciprestes ainda recortados no negro em que se tinham envolvido para passar a noite. À chegada, em casa de Dimitrios, enquanto era preparado o pequeno almoço e se arranjavam as nossas camas, foram-nos servidos rosados cubos de melancia gelada. Nesse porto de abrigo nos mantivemos dois dias antes de enfrentar a verdadeira, a árida estrada.
Nunca esqueci esses momentos raros, nem outros semelhantes em que, em país distante, um desconhecido nos estende um gesto generoso... Que balsâmicos esses mimos, esses gomos frescos de melancia que nos tornam de estranhos em pertença, nos fazem sentir em casa no meio do nada.
2. Entretanto em Lisboa
Carolina à porta do Assuka.
Em Lisboa frequento tão amiudadas vezes o Assuka que por lá me chamam “Sr. Pedro”, alguns dos empregados reconhecem até a minha voz quando telefono a marcar mesa. O Assuka é um restaurante japonês na rua de S. Sebastião da Pedreira, uma ruela estreita que nasce ao largo da igreja do mesmo nome e se enfronha por ali abaixo, o mais paralela que consegue à avenida António Augusto de Aguiar. Come-se bem no Assuka e janto lá muitas vezes, sendo a minha companhia mais frequente e mais deliciada a minha sobrinha Carolina que, para além de ser certeira a escolher as mais requintadas iguarias, mora ali ao lado e nunca se faz rogada para desembestar comigo rua abaixo.
Mas também paro por lá sozinho e assim aconteceu uma noite gelada de princípios de Dezembro de 2011, não muito depois de ter chegado de ir visitar, pela primeira vez, o Zé João a Leipzig. Nessa noite o restaurante estava pacato, a clientela escassa e, acabara de aviar uma sopa miso e começava a pinçar umas vieiras grelhadas, quando chegaram três pessoas à mesa ao lado da minha. Estando sozinho, dei comigo a por em prática aquela técnica que consiste em observar atentamente o que sucede à nossa volta sem deixar de olhar em frente, sem quase tirar os olhos do frasco do molho de soja que arrefece no nosso solitário tampo de mesa.
As recém sentadas eram três raparigas estrangeiras, duas alemãs e uma italiana, e desenvolviam um comovente esforço para falar entre elas apenas em português.
“Erasmus...”, diagnostiquei de imediato.
As moças estiveram séculos a consultar o menu e fui percebendo que mais do que dificuldade em entender a ementa, elas tentavam conjugar pratos que fossem do agrado de todas e baratos...
“Tesas...”, sarrabisquei mentalmente.
Entretanto chegou uma quarta conviva, desta vez uma brasileira pequenina, óculos de míope e chapéu de coco na cabeça, um pormenor que conferia, mais do que o piercing no nariz, um toque singular ao seu perfil banal. De imediato, a quarta conviva mergulhou no menu e estabeleceu, sempre num português que de ora em ora era clarificado com um termo inglês, complicadas negociações gastronómicas com as outras três.
“O seu descafeinado...”, anunciou o empregado pousando uma chávena à minha frente, “mais alguma coisa?”.
Desenhei no ar o arabesco que uso para pedir a conta.
Ao meu lado esquerdo, as quatro amigas tinham iniciado a refeição e estavam já mais animadas e menos anémicas do que à chegada. Interpelavam a brasileira como se ela fosse portuguesa, fosse em termos de esclarecimentos linguísticos:
“un grrande ... building?”, tateava uma
“Edifício...”, esclarecia a do chapéu de coco.
fosse em termos de locais que ainda não conheciam, mas estavam a considerar visitar:
“Coimbrrà?”
A brasileira torceu o piercing com ar de enfado, informou que não havia nada para ver por lá, nada para fazer. Já o mesmo não comentou sobre Braga, cidade que reputou como muito interessante e animada, e onde conhecia alguém a quem podia recomendar as outras.
A minha conta chegou. Levantei-me, fui pagá-la ao balcão. Depois perguntei à empregada, uma velha conhecida minha:
“Posso saber em quanto vai a despesa daquelas quatro meninas ali?”
Ela consultou o computador: o total, com os pratos principais e as bebidas já todas encomendadas, ia em 42 euros e uns pós de cêntimo.
“Vou deixar aqui 45 euros para pagar a despesa delas, tá bem?”
A senhora olhou para mim com discrição contida, mas percebi no seu fácies uma certa curiosidade, mais do que espanto pelo meu gesto. E não fosse também a possibilidade de as quatro raparigas, ao saberem da oferta, juntar ao  espanto algum medo de que as esperasse lá fora, na esquina seguinte, quiçá com a gabardina, que não usava, de abas abertas, acrescentei:
“Por favor diga-lhes que foi um tipo que tem um filho a fazer Erasmus na Alemanha, e que sabe bem o que é estar longe de casa e alguém ser simpático connosco...”
3. Elogio do chá verde
Passada uma semana, é possível que duas, voltei ao Assuka. Acabara de pegar na ementa quando a empregada com quem tive o anterior diálogo se aproximou:
“Sr. Pedro, hoje já vai ter que beber ao jantar! As meninas do outro dia deixaram, já pago, um chá verde para si.”
“Verde...?”, quis perceber a especificidade do presente.
“Verde...”, confirmou ela.
Bebi-o devagar, olhando-lhe a cor, apreciando o paladar, fazendo com que durasse o jantar inteiro. Era bom, aquele chá. Pelo menos tomei-o como tal.

© Fotografias de Pedro Serrano. De cima para baixo: (1) Praia da Areia Branca, Dezembro 2011; (2) Lisboa, Novembro 2010; (3) Leipzig (Alemanha), Novembro 2011; (4) Lisboa, Assuka, Janeiro 2012.