12 fevereiro 2012

VOU-TE CONTAR: 45. Não venhas tarde


Da direita para a esquerda: eu, Rui, etc.
Era um dia do início do Verão de 1976, uma hora avançada da tarde, quando eu, ao volante de um Fiat 128 azul-escuro, e ele, ao meu lado, atravessámos a cerca do Hospital de S. João com a finalidade de ir ver a classificação obtida no último exame, da última cadeira, que nos separava de um diploma de médico.
Nenhum de nós experimentava alguma espécie de apreensão quanto ao resultado, nem pela cabeça nos passava chumbar naquela disciplina. Mas o saber isso foi muito diferente do silêncio com que estacionámos o carro e nos dirigimos para a entrada de um dos pavilhões pré-fabricados que, na esteira da democratização do ensino universitário, começavam a juncar os amplos e frondosos jardins do Hospital, onde, aulas terminadas e pares de namorados desaparecidos da relva, os pássaros se entretinham ruidosamente a comemorar o fim do dia, alheios a quem passava. Mudos, observámos as nossas quase gémeas e excelentes classificações e, sem abrir o bico, regressámos ao carro. Aquela lista de nomes, dactilografada e assinada por um professor, significava, com a evidência de punhos cerrados, um facto incontornável: a partir desse momento, para todo o sempre, seríamos médicos; os seis anos de estudo tinham chegado ao fim e essa consciência vibrava na minha cabeça com a surdez de uma pedra ao bater no fundo de um poço.
Sentado ao volante do automóvel estacionado, olhando em frente, senti uma grande angústia tomar conta de mim e, mesmo sem olhar, pelo silêncio carregado como chumbo que emanava do banco ao lado, senti que o mesmo se passava com o meu amigo Juca.
“Agora é que estamos fodidos...”, desabafei, como se, encostado a uma parede de tijolo, anunciasse a vista do pelotão de execução.
“Vamos mas é embora daqui...”, rouquejou ele, com o incómodo característico a quem dá conta que se deixou ficar num cemitério após o anoitecer.
Acendi um cigarro, encaixei uma madeixa de cabelo, que me caía sobre os óculos, por trás da orelha, e arranquei dali.
Imperturbável, a tarde de Verão esbarrondava-se num poente e, Circunvalação abaixo, víamos tons de vermelho acumulando-se para os lados do mar.
“E agora, que fazemos?”, perguntei.
“Sei lá…”, sugeriu ele.
“Podíamos passar pelo Piolho, ver se está por lá alguém e, depois, ir jantar a qualquer lado...; que dizes? Mas primeiro tenho de passar por casa, prometi aos meus velhos que lhes dava notícias quando ficasse médico.”
“Tá bem”, concordou o Juca que não se importava tanto como eu de passar lá por casa, pois mantinha um oculto e muito respeitoso fraquito pela minha irmã mais nova.
À noite, durante o jantar, informei o Rui, que não se dera ainda ao trabalho de passar pela Faculdade, que passara na última cadeira, também era tão médico, como nós. Em resposta, disse apenas:
“Como é, sempre vamos?”
“Vamos, claro!”, respondi, sentindo um frémito no estômago.
Começámos, em volta do bolo de bolacha, a combinar alguns pormenores e decidimos que partiríamos apenas em Setembro, pois, sabíamos muito vagamente que as monções terminavam por essa altura e que a viagem seria melhor com clima seco.
“Vamos ter de fazer uma porradaria de vacinas..., lembrou ele, e recomendou: ”Vê se começas a tratar do graveto com o teu velho...”
“Isso não vai ser problema”, retorqui, “ele prometeu que, se me formasse sem chumbar nenhum ano, me oferecia uma viagem de curso onde eu quisesse...”
Pois, mas o que o meu pai nunca imaginou foi que a viagem de curso onde eu quisesse era uma jornada à Índia, ainda por cima por terra; um overland to India como estava então na moda. À imagem dos meus colegas de curso, vários deles filhos de colegas de consultório dele, o meu pai contava que eu pedisse fundos para uma passeata de semanas pela Itália, pela Suiça, pela Escandinávia, em termos de atrevimento máximo pelo Canadá, Estados Unidos... Assim, quando lhe apareci com a decisão de ir à Índia, a pé, e gastar nisso os cinco ou seis meses que me separavam do início da vida clínica, ele passou-se:
“Á Índia?! Por terra?! Tu sabes o que estás a dizer?! Já viste no mapa os países que terias de atravessar? Tens uma noção de onde aquilo é, de como aquilo é por aquelas bandas? Na maior parte desses lugares nem existe uma embaixada portuguesa!”
Com a irritante serenidade inconsciente da juventude assegurei-lhe que sim, que sabia muito bem onde em estava a meter, que cerca de nove mil km nada eram para mim; que o facto de o Afeganistão ser um covil de bandidos e o Paquistão estar, mais ou menos, em guerra civil não era coisa que perturbasse os nossos planos...”
O meu pai era um tipo que adorava História, assinava o Courier da Unesco, tinha um globo terrestre na estante do escritório, sabia bem como o mundo se movia em torno do seu eixo naquela segunda metade da década de setenta. No seu desespero por me dissuadir daquilo que  julgava ser um capricho passageiro, cometeu um erro fatal: ao negar-me o apoio financeiro que teria o prazer de me dar se o meu destino fosse outro qualquer que não a Ásia foi como se proibisse o meu sonho. E quando eu lhe recordei a sua promessa, rematou:
“Dou-te exactamente o dinheiro com que se pode sair do país, nem mais nem menos!”
Estávamos nos anos em brasa da Revolução dos Cravos e, tentando estancar a hemorragia de capitais para o exterior, o Governo determinara como plafond máximo de exportação de divisas os 7 contos de réis (cerca de 35 euros), quantia que dava, à época, para ir passar uma semana rafada a Londres ou regressar de Paris com pouco mais do que um LP do Jacques Brel e uma torre Eifel dourada. Isto é, aquela generosidade oficial cortava-me totalmente as asas. Fiquei furioso e, antes de sair do escritório, atirei:
“Pois saiba que hei-de ir de qualquer maneira...”
“Oh, menino, não hás-de passar da Grécia”, ouvi-o ainda amaldiçoar-me.
No hall, dei com a minha mãe que, com cara de caso, rondava por ali como um abutre sobre a Torre do Silêncio de Bombaim.
“Que se passa?”
“Nada”, ladrei, “apenas gente que não cumpre o que prometeu...”. Azedo, informei ainda:
“Vou sair agora, não esperem por mim para jantar...”
“Não venhas muito tarde...”, suplicou, um ar de sexta-feira santa espraiando-se-lhe nas feições.
“Nunca se sabe...” respondi, misterioso, “talvez não volte mais...”.

(continua)

© Fotografias: (1) Arredores de Mirandela, fotógrafo desconhecido, 1976 [?]; (2) Pedro Serrano, Porto, 2010.