28 dezembro 2012

4 DA MANHÃ, NO FIM DE DEZEMBRO (Leonard Cohen)


Trintão, dez anos mais velho do que a média dos outros famosos, quando estourou no mundo da música (1967-1969) e adolescentes acompanhados por uma viola perramente harpejada miavam o “Suzanne” e o “So Long Marianne”, eu não gostava dele. Achava-o chato, no género cantor-sem-voz as minhas preferências iam todas para o Dylan, que se electrificara havia pouco e cantava histórias mais exuberantes.
Quem sempre gostou muito dele foi o meu cunhado Pedro e essa era uma preferência tão vincada que no inverno de 2001, ao ver num escaparate o disco novo, o comprei para lho oferecer como prenda de sapato.
“Olha o Cohen”, pensara ao olhar a capa, “não sabia que o gajo ainda andava por aí... Já deve ter quase 70 anos!”
De facto, há quase dez anos que o homem não editava um álbum e aquele Ten New Songs era novidade acabada de sair, produto mesmo a tempo do Natal.
Cheguei a casa e, curioso, pus o futuro presente do Pedro a rodar no leitor de CD. Todas as dez canções, letras e músicas, eram espantosas, não mais parei de as escutar, suponho ter ouvido o disco milhares de vezes desde então, umas centenas logo nesse Dezembro vazio e gelado.
Meia dúzia de anos depois, ao ver um anúncio do festival Optimus Alive, reparei que uma das atrações era Leonard Cohen. Comprei bilhete e guiei até Alcântara, desprevenido de todo naquela curiosidade recente pelo homem. Estava uma noite de verão indescritível, daquelas que apenas são convocadas para um filme, uma lua cheia irradiava perfeita em brilho e dimensão, o palco fora montado na margem do rio e essa presença de água sentia-se na macieza da luz e da brisa que abençoavam o recinto. Assisti ao concerto de pé, era um espectáculo sem cadeiras ou lugares marcados, espetado no meio de uma multidão e sem o poder evitar, aí pela terceira canção (“Bird on the Wire”, acho) senti uma mão de veludo envolver-me a garganta e lágrimas a deslizarem mansamente. Apesar de ser noite adiantada, a lua derramava uma luz diurna sobre o terreiro e, entre duas canções, espreitei em volta, embaraçado, a investigar se alguém reparava na minha triste figura. Não precisei de me preocupar: lágrimas não rareavam por ali e o público parecia igualmente hipnotizado e comovido pelo balanço encantado que chegava do palco.
No género pronto-a-vestir, nada mais parecido com uma experiência mística do que ver Leonard Cohen em palco, algumas das suas canções são o que de mais semelhante pode haver com um hino, ou aquilo que a gente imagina que um hino deva soar no coração dos crentes.
Este Outubro de 2012 voltou a Portugal, e logo ao entrar no palco, de soalho revestido de tapetes como é costume, disse:
“Espero vir a encontrar-vos mais vezes, mas, se isso não acontecer, prometo que hoje daremos tudo...”  
O artista tem 78 anos, já passou por tudo que é imaginável, só continua a dar concertos porque a ex-fiel empresária lhe fugiu com o dinheiro todo, e, embora não seja apropriado como cartão de visita de um profissional do entretenimento, foi calmante ouvir esse equivalente a: “Deixemo-nos de merdas, já sou velho, cada vez pode ser a última...”
Dito isto, o nosso homem não parou de cantar ou recitar nas três horas seguintes, deixando cada espectador no charco de sonho que lhe cabia ao redor da sua cadeira do Pavilhão Atlântico. Eu, já me sei, de novo especialmente tocado por “Bird on the Wire”, “The Partisan”, “Secret Life”, “Alexandra Leaving”, estas duas últimas canções novas no tal CD que comprei para o meu cunhado nesse Natal gelado de há dez anos atrás.
Todas estas canções são (pelo menos mentalmente) em tom menor, mas nenhuma agasalha tão grande desalento como “Famous Blue Raincoat”, uma história de amor que acaba mal, conforme vai sendo cantada ao traidor, pela voz do traído, uma noite de Dezembro já distante do crime, por volta das quatro da manhã.

© Fotografia do palco: Pedro Serrano, 2012.