15 dezembro 2012

2. DENGUE: A DANÇA DOS CURANDEIROS


Quando um dos seus colaboradores adoece com dengue, é regra das Organizações Não Governamentais (ONG) com trabalho no âmbito da cooperação internacional mandar regressar esse colaborador à base e informá-lo que os seus tempos de missão no exterior chegaram ao fim. Nunca mais essa alma poderá, ao serviço dessa ONG ou de outra igualmente cuidadosa, voltar a trabalhar nesse projecto, nesse local, nesse país ou em outros onde possa haver notícia de dengue. Santo Deus, pensarão porventura os meus ouvintes, que medida tão desproporcionada para uma doença que é, genericamente, tão benévola, por vezes assemelhando-se a pouco mais do que uma gripe com umas manchitas na pele...
Sim, mas por trás desta medida draconiana das ONG existe uma razão, muito razoável do ponto de vista da saúde das pessoas envolvidas. Podendo ser provocado por quatro formas ligeiramente diferentes do vírus (sempre transmitidos pela picada do nosso amigo mosquito Aedes), o dengue é geralmente benigno no seu primeiro episódio, mas se acontece a quem já teve a doença ser repicado por mosquito infectado com um dos outros tipos de vírus – e isso nunca se sabe quando e como vai acontecer – a possibilidade de ter uma forma grave, hemorrágica, da doença aumenta bastante. E a gravidade de um dengue hemorrágico, sobretudo em doentes deficientemente tratados, pode ser tão dramática que chega a matar 40 % desses doentes, um poder mortífero sobreponível à de alguns dos cancros mais agressivos.
Toda esta conversa prévia me serve para comentar, de forma mais fundamentada, as declarações que os jornais estamparam na sequência da visita à Madeira de uma comitiva de personalidades, entre as quais o nosso ministro da Saúde que, preocupado com a dimensão do fenómeno, se quis deslocar ao território para se inteirar do modo como o assunto estava a ser enquadrado por quem deve lidar com ele.
Durante a iniciativa, e como é costume, houve quem aproveitasse os microfones da comunicação social para regurgitar as opiniões mais levianas e, entre outras pérolas, ouviu-se a estafada, pró-turística e irreflectida comparação com o Brasil que “teve 286.000 casos de dengue e 74 mortes”, enquanto nós, talvez por milagre ou meiguice do mosquito madeirense, apenas somáramos “2.000 casos e nenhuma morte...” Maravilha, ponham os olhos nesta diferença que fez impar o orgulho regionalista. O problema é que, se pensarmos em termos de escala, tudo isto nos murcha rapidamente: o Brasil tem 200 milhões de habitantes, a Madeira pouco mais de 250.000. Isto é: se a dinâmica da nossa epidemia de dengue fosse transposta para a população brasileira isso amplificaria os seus 286 mil casos para 1,6 milhões de doentes... Não é por aqui que nos podemos gabar ou angariar potenciais turistas... Quanto à tranquilidade com que, no presente, adormecemos perante a total ausência de mortes da epidemia portuguesa seria prudente não cuspir para o ar, pois, como disse acima, o dengue é geralmente simpático apenas na primeira visita e ainda não houve tempo para uma segunda...
Na dança das comparações absurdas, outros argumentos de irmandade foram esgrimidos, tal como o apontar do dedo à existência de casos recentes de dengue no Norte da Europa (exportados pela Madeira, recorde-se) ou o lamento fadista de que temos de nos habituar a viver com isto, como se nada se pudesse, ou devesse, fazer para tentar controlar a epidemia... Seria bem melhor que, calados, metêssemos mãos à obra, pois, tal como acontece com os famigerados mercados, os agentes turísticos internacionais e os mosquitos transmissores de dengue pouco se deixarão impressionar pelos perdigotos dos esconjuros soprados aos microfones portugueses.
Num tom comedido e discreto, o ministro da Saúde, em jeito de comentário final, referiu a importância de uma vigilância apertada do problema e a preparação de um plano de contingência para controlar e minorar a situação. Ou seja, deu a medida técnica a ser dada perante um problema que é sério e deve ser encarado de forma séria. Valha-nos isso!    
© Fotografias de Pedro Serrano: Funchal, Novembro 2012