18 dezembro 2012

VOU-TE CONTAR: 55. O MIOLO DO PÃO DE LÓ


Quando o telemóvel tocou andava pelo supermercado, na prateleira dos derivados do tomate, à procura de polpa, a explorar um spaghetti à bolonhesa que trazia na ideia para o jantar.
Era a minha sogra e queria saber como seria com o Natal deste ano. Contei o que já estava alinhavado: a 24 jantava com a família lá de cima, o cozido do almoço de 25 era por conta da minha irmã Clarinha e, a partir daí, não tinha nada programado.
“Então fica como o costume”, disse ela num despacho: “vens cá jantar a 25, com o Zé João.”
“OK”, agradeci do lado de cá da polpa de tomate, “aí estarei”, logo me escorregando o fluxo do raciocínio do spaghetti para a necessidade de encomendar, mal chegasse ao Porto, um bolo-rei e um pão-de-ló dos grandes, pois em casa da minha sogra são ferrenhos do pão-de-ló com vinho do Porto, e bolo-rei, já se sabe, não há igual ao que se enforna na capital do Norte, em que até a fava tem um torrado sem calcanhares a que se chegue.
Corriqueiro diálogo, concluirão ouvintes mais impacientes, dado que milhares de planos desta natureza terão lugar todos os Natais por esse éter fora... A pequena diferença, neste conto de supermercado, é que o contador é divorciado de mais de dez anos, pelo que esta sogra, antiga de trinta anos, e este telefonema de prazenteira combinação deveriam, no mínimo, jazer soterrados no pó do tempo ou no gelo do esquecimento.
Ah, mas vocês não conhecem a minha sogra, ela é uma especialista em manter famílias agregadas, uma espécie de íman familiar, teimoso e distraído... Para ela, separações, divórcios, filhos e netos a morar a 3.000 km, não são nada que não se ultrapasse com meia-dúzia de truques do livro de receitas de família. Já me dera conta disso quando os meus cunhados se separaram, e o mesmo aconteceu quando chegou a vez à filha mais velha e ao seu, então, marido – eu.
É claro que durante uns, escassos, anos as relações bilaterais amornaram – é humano que cada destroçada parte torça pelo seu grupo sanguíneo, qualquer especialista em transfusões nos explicará as razões disto – mas, ainda assim, a minha fotografia não desapareceu do lintel por cima da lareira, apenas foi remetida durante o período de nojo para plano mais discreto, mais atrás, perto da chaminé, que, no fundo, a minha sogra não me queria arrefecido de todo.
Agora, continuámos a encontrar-nos em casa dela para celebrar mais uma consoada e tirar uma sorridente fotografia de Dezembro, retrato onde só os mais novos aparecem de cara fechada ou em trejeito brincalhão, pois ainda não se aperceberam completamente do pequeno milagre em que participam nessa noite de outras muitas...
E, olha, lá estamos todos, depois do peru, das rabanadas, do pão-de-ló e do celebrado
“Olhem que este vinho do porto é colheita do ano em que eu nasci...,”
a sala tão bonita e ricamente decorada, o meu filho afagando as teclas do piano, a minha sobrinha belga à viola, cantando qualquer coisa alusiva, juntos, os que partilham o sangue e aqueles que nem sonhavam a existência dos outros antes de entrarem aquela casa; os que pisam as escadas para o andar de cima com a inconsciente desenvoltura de sempre e os que, como eu, optam agora pelo lavabo do rés-do-chão para lavar as mãos e darão uma última olhadela ao presépio (na mesinha onde outrora ficava o telefone) antes de rodar o puxador da porta da sala, movimento ao qual a minha sogra, como se fosse uma senha que só nós conhecemos, dirá:
“Ah, só faltavas mesmo tu... Meninos, já podemos ir para a mesa...”

© Fotografias de Pedro Serrano, Cascais: (1) 2012; (2) e (3) 2009.