08 fevereiro 2015

VOU-TE CONTAR: 67. PAZ DOMÉSTICA

Quem parece estar mais apetrechada para, a qualquer momento, levantar voo e desaparecer por entre as nuvens de estúdio que fazem o fundo do retrato é a minha avó Zaida, propulsionada pelo seu laçarote, imenso como uma hélice, e estabilizada na rota pelas duas pequenas ventoinhas penduradas ao pescoço. Mas, de momento, as três senhoras estão imóveis e o silêncio palpita na fotografia, instantâneo que, a julgar pelas texturas, idades e parentesco de quem ali posa, deve ter sido tirado ainda no século XIX, embora já nos anos de mil oitocentos e noventa e muitos, nas redondezas da última epidemia de peste no Porto, praga que estarreceu a cidade nos idos de 1899. Para onde terá o fotógrafo aconselhado que olhassem, já que nenhuma fixa a objectiva ou um horizonte comum?
A dama do centro, a de peito canoro e bem estofado, é a minha bisavó materna, Emília,Figueirinhas por matrimónio, e a minha tia-avó, Fernanda, apoia-se nela com a moleza de um marinheiro a um mastro. Aquele olhar – de sobrolho um pouco levantado, com ecos de pio de coruja – manteve-o pela vida fora, recordo-o bem, e se aqui lhe dá um ar levemente misterioso, de facto pouco o era e na família próxima sugeria-se a sua pouca sagacidade na narrativa dos deslizes compatíveis a quem não se apercebia com grande acuidade do mundo em que se movia. Dela se contava uma história em que contracenava também o dono de um talho perto da casa dela, um sujeito bronco e intratável conhecido à boca pequena pelo “Caraças”. Pois a minha tia Fernanda, um dia em que a criada não o pôde, foi comprar carne e o tempo todo que esteve ao balcão a encomendar tratou repetidamente o açougueiro por “e queria também que me embrulhasse meia-dúzia de fêveras Sr. Caraças, das do cachaço” não se apercebendo do riso dos outros clientes nem do fumegar do homem! Em casa, a minha tia controlava os acontecimentos como só uma mulher sem filhos e com uma imaginação monolítica o consegue fazer e, dizia a minha mordaz mãe, que o meu tio Domingos, o definhante cônjuge, jazia tão à míngua de confortos gastronómicos que se refugiava no açúcar do xarope da tosse como consolo de sobremesa. Sim, lembro-me dele a tossicar ao canto das salas, a esfregar as mãos e sempre pronto para se levantar e seguir a minha tia no final das visitas.
“Domingos, veste o sobretudo e traz-me o casaco...”, dizia ela levantando o sobrolho em sua intenção. 
Já a adolescente, delicada e de traços finos, do laçarote viria a ter outro tipo de paixões. A minha avó Zaida tinha absoluto terror à água canalizada, que achava tão perigosa de ingerir como se fosse um veneno patenteado, pavor que provavelmente lhe vinha dos tempos pré-clorados em que a água transmitia perigosas doenças, como a cólera ou a febre tifoide. Se estivesse por perto nunca nos deixava beber água e, se forçada a admitir que estávamos demasiado esbaforidos, só da morna, da aquecida, e depois de passada no filtro de porcelana que existia na copa. Ah, o mundo, que lugar tão perigoso, assombrando a paz doméstica com bactérias invisíveis e coristas rechonchudas...
Quem diria, olhando apenas...? Duas rapariguinhas de olhares tão sonhadores, tão desprendidos, nelas podiam pousar as aves na segurança de quem dormita em mármores... E, ao centro, a minha bisavó naquele olhar alçado, entre o rendido e o revelado, de quem vê passar arcanjos.
© Fotografia: Foto Artística, Rua do Coronel Pacheco, Porto.