19 abril 2015

NÃO VENHAS TARDE: 10. A TUA PORTA É A MINHA JANELA

21 de Setembro
O padre acordou-nos às sete da manhã. Já o sentia cirandar por ali, mas mantive-me imóvel e de olhos fechados,  a ver se escapava, agora que, depois de uma noite às voltas em busca de uma posição impossível naquele chão duro, o meu corpo tinha atingido uma certa anestesia adaptativa e se sentia embalado o suficiente para dormir até ao meio-dia.
Uma meia-hora mais tarde saímos para a rua na sequência da recusa delicada em tomar parte na oração matinal e em integrar o grupo que vai, por essa cidade fora, evangelizar os atenienses a distribuir prospectos. Mas será que toda a gente não tem mais que fazer do que se entreter a brincar às igrejas?! Em Portugal, um ano antes, eu e o Rui, por tédio e por curiosidade, deixáramo-nos, uma noite, arrastar do Piolho até à moradia de uns colegas (todos médicos ou em vias de o ser em breve) ali para a Avenida da Boavista. O serão consistia em juntar montinhos de papel, reproduzidos em stencil, e agrafar os comunicados resultantes para um grupo maoísta e, como música de fundo, o gira-discos entoava cânticos da Revolução Mexicana (qual delas já não recordo). Como tudo estava a sair ainda mais chato do que a modorra no Piolho e tendo eu apercebido o L.A.Woman[1] na pilha de discos, resolvi pôr a rodar o “Love Her Madly”, que é a animada segunda canção do lado A do vinil. O que eu fui fazer! O agrafador-chefe interrompeu o seu ritmo de agrafagem – cadência, pelos vistos, inspirada no esgravatar das enxadas do campesinato mexicano – calou os Doors sem piedade e fez-nos logo ali uma prédica sobre os efeitos alienantes da música americana que não fosse a do Pete Seeger ou, vá lá, a do Bob Dylan pré-1965, antes de este perpetrar o pecado de electrificação das guitarras. Depois, ainda ao leme do dirigente, o sujeito quis organizar as brigadas de distribuição dos panfletos para o dia seguinte. Educados, como éramos, ainda nos oferecemos para levar alguns para a Faculdade e deixá-los por lá sobre os balcões do vestiário, pois tínhamos aulas a que tencionávamos assistir na manhã seguinte... Pior a emenda do que o soneto: o revolucionário-mor, dono da casa e do gira-discos, ficou assanhado, invectivou-nos a ir distribuir a papelada para as ruas da baixa do Porto! Quando lhe respondemos “vai tu” convidou-nos a deixar as instalações.
Ora bem, penso que o padre teve uma reacção semelhante, não que nos pusesse a andar dali para fora, mas proibiu-nos de deixar as mochilas na casa durante o dia, como se elas atrapalhassem grande coisa um apartamento vazio! Assim, aqui estamos outra vez de mochilas às costas, eu ainda a mancar das bolhas, pois as botas com tacão, isoladas da atmosfera por um fecho-éclair até ao joelho, não favorecem uma cicatrização rápida. 
Voltámos à agência de viagens e conseguimos comprar bilhetes para Istambul por 600 dracmas, cada! Em seguida passámos pela embaixada de Portugal a despachar parte dos nossos haveres para casa, pois urge que nos tornemos mais leves. Obtivemos  grande melhoria livrando-nos de todos os livros (com excepção de um dos I Ching) e aproveitámos a estadia em território nacional para fazer umas abluções mais profundas no magnífico quarto-de-banho para funcionários que eles tinham.  
A meio da tarde, despedimo-nos dos bancos do National Gardens e decidimos ir reconhecer o local de onde partem as camionetas para a Turquia, sentando-nos a descansar as mochilas num banco público em frente. Ao nosso lado acabou por se sentar um tipo louro com o qual metemos conversa, pois há nele um ar de viajante. É americano, mas detestava de tal maneira viver por lá que não só deixou o país como também o nome com que os pais o registaram: agora chama-se Rijath Rubio, sendo o Rubio uma referencia à cor do cabelo, e há quatro anos que deambula entre a Turquia, a Espanha e a Grécia. Andou cinco meses pela Índia, diz que é excelente altura para ir até lá pois as monções estão na fase descendente, e deu-nos a morada em Nova Deli de uns amigos dele que podemos ir procurar.
Ao fim da tarde atingimos o patamar do Hare Krishna Temple derreados de tanto calcorrear a cidade e, quando soube que comprámos bilhetes para o milhar de quilómetros seguinte, o padre tentou dissuadir-nos de partirmos já para a Índia. Convidou-nos a ficar a viver no templo, onde teríamos tudo grátis e, simultaneamente, faríamos a nossa aprendizagem de noviços. Em Fevereiro, partiríamos então todos para a Índia onde integraríamos o ashram[2] a que pertence. Recusámos, polidamente. Não nos apetece estar tanto tempo à espera de seguir em frente e, mais do que isso, não nos agrada a ideia de ficarmos às ordens de alguém que, como mestre, nos parece deixar muito a desejar.
Outra vez grande variedade de gente ao jantar, excelente como ontem. Quase no final da refeição, na presença de todos, o padre repreendeu Jenny (a rapariga que conhecemos no parque e que, embora grega, se apresenta como canadiana, pois anda fugida à polícia local) por ela, afirma o nosso anfitrião repetidamente, se estar a tornar o centro das atenções. Ao fim de dois ou três apertos na falha narcísica Jenny saiu da sala e, logo de seguida, ouvimo-la chorar convulsivamente no quarto ao lado. Criou-se um silêncio constrangido e um dos convivas tentou levantar-se com o fito de ir consolar a lacrimosa fugitiva. Porém, o padre não o permite e discorre sobre o sentimentalismo como sendo a fuga habitual de gente que não sabe nem o que quer nem o que faz. Não deixa de ter razão, mas a dureza da prédica criou um ambiente de cortar à faca e acabou por gerar uma discussão com o padre, pois houve mais quem se sentisse tocado pela argumentação. As pessoas vão saindo, e agora o padre está para ali sentado a um canto, com ar ensimesmado. Quando ficámos praticamente só nós pergunto-lhe se podemos ficar a dormir no templo mais esta noite. Diz que não, a não ser que fiquemos para sempre.
– Não, obrigado; amanhã nunca se sabe[3] – respondi, interiormente realizado por poder usar, inteiriço, o título de uma música para dar a resposta; ainda por cima de uma canção de travo místico-existencial.
Preparámos a saída para a noite escura, mas, na despedida, vendo o ar amargurado que transparece na expressão do nosso ex-senhorio, ainda acrescentámos que compreendemos a decisão dele e não lha levamos a mal. O homem suspirou, confessou que se sentia muito cansado e que lamentava ter sido tão duro com a Jenny, que estava apenas no dealbar do seu caminho espiritual.
Começávamos a descer as escadas quando uma das portas que existem no varandim do templo se abriu e eis David, um dos tipo que costuma ir jantar ao Hare Krishna Temple, a convidar-nos para ficarmos em casa dele. A nossa alegria é imensa: uma porta que se fecha e, sem transição, outra que se nos abre!
E assim ficámos a dormir paredes-meias com o Hare Krishna Temple, no qual, especulo, o grosso do movimento de fiéis poderá resultar de ali se jantar bem e grátis, e onde esta noite houve uma rotura provocada por alguém que tenta arrastar o mundo atrás de si, mas sem grande estofo ou carisma para o vir a conseguir. Pobre padre, é um homem só e temo pelo seu futuro neste ramo de actividade.

[1] L.A.Woman, Doors, 1971, Elektra/Asylum Records.
[2] Comunidade formada com o intuito de promover a evolução espiritual dos seus membros e frequentemente orientada por um místico ou líder religioso.
[3] “Tomorrow Never Knows” (Lennon-McCartney), álbum Revolver, 1966, EMI Records.

Imagens, de cima para baixo: (1) © Fotografia de Pedro Serrano, Kyoto (Japão), 2006; (2) Cartaz de propaganda maoísta; (3) © Fotografia de Pedro Serrano, Paul, Santo Antão (Cabo Verde), 2013.