23 abril 2015

NÃO VENHAS TARDE: 11. YOUTHFUL FOLLY

Acordei, passava das onze da manhã, sob um vozeio que se cruzava sobre o meu saco-cama como o chilreio de pardais ao entardecer. Por a casa já estar com a lotação esgotada, eu e o Rui ficámos a dormir na sala de estar e agora esta volta a cumprir a sua função primordial. O Rui conversa com o David (o nosso benfeitor, grego de nacionalidade) e com duas irmãs austríacas que também dormiram cá. Na conversa, a que me junto logo que me enfiam uma caneca de chá nas unhas, toma parte uma australiana chamada Teresa Jezioranski que ontem jantava no templo e que também ficou a dormir em casa do David.
Invade-nos uma sensação de conforto e bem-estar que se prolongou pelo resto da manhã, passada no pátio ao fim das escadas, onde, em cuecas, lavei a nossa roupa suja acumulada. Sentado numa poça de sol ao meu lado o Rui confecciona, usando pedaços de tecido cru, um bolso interior nas nossas jeans. Este bolso secreto é cosido na parte interior e fronteira do cós das calças e destina-se a aconchegar itens importantes como dinheiro e passaportes, um documento muito almejado para falsificação e venda. No Caminho dos hippies, como é conhecida a rota que vamos seguir e que, tradicionalmente, se inicia em Istambul, os bolsos são lugares pouco seguros, assim como o é, por exemplo, o esconderijo clássico de guardar pertences valiosos no fundo do saco-cama quando nos enfiamos nele para dormir: por estas paragens, as navalhas são afiadas e silenciosas, e leves as mãos alheias. Tudo isto vamos aprendendo uns com os outros e na leitura do excelente Overland to India, um guia de viagem pouco convencional e que se tornou o meu livro de cabeceira.
Agora o Rui sacode as almofadas e desimpede o quarto onde dormimos, para que se pareça uma sala outra vez, e, no exterior da casa, o David arruma e varre a varanda. Uma saborosa manhã de trabalhos caseiros que termina com um banho em que nos mangueirámos um ao outro como se lavássemos automóveis e uns jactos malandros atingem David lá em cima, no varandim, que solta um “ei!” divertido em todo semelhante ao que berraria um português em semelhante surpresa aquática.
Pelas quatro da tarde do nosso último dia em Atenas descemos ao centro da cidade. Fomo-nos à loja despedir dos pais do Nicholas que, agora que sabem que não vai voltar a haver procura, nos oferecem a profusa simpatia dos dias da batedeira eléctrica. Depois fizemos aquilo que era nossa intenção inicial: visitar a Acrópole por dentro. Mármore branco que chispa ao sol ou um amontoado de pedras sem significado? Por ali vivia o jet-set da Atenas do compêndio de História e não se pode dizer que tenham escolhido mal o lugar! A vista é soberba e, pelo sim pelo não, dá para perceber, a léguas, quem se aproxima na distância, por terra ou por mar. Centenas de turistas, com ar chateado, ouvem os respectivos guias. É só escolher a língua, parasitar um grupo excursional e podemos ouvir falar de Péricles e de Fídias em inglês, alemão, italiano ou japonês. Não sei, talvez seja um particular da Grécia, mas acho que por aqui todas as pedras são eloquentes, mesmo as rugosas e rasteiras que não alcançam o gabarito do mármore que veio de Paros para erigir tudo isto.
Antes de regressar a casa, passámos a despedir-nos do nosso cafezinho com vista para o templo de Hefesto, aquele onde escrevemos tantos postais e aerogramas para Portugal. O empregado lembra-se de nós.
Hoje, durante a barrela da manhã, o Rui cortou-me o cabelo, curto, em estilo tijela, no molde do corte que usa actualmente o John Mc.Laughlin[1]. A coisa fez tanto sucesso que os seus novos dotes de cabeleireiro foram requisitados pela loura cabeça da Teresa, pois a australiana exige um corte igual ao meu.
Antes de me deitar, consultei o I Ching, perguntando-me intimamente ao chocalhar as moedas na mão fechada, as pálpebras concentradas, como nos correria a viagem dali para a frente, se os ventos nos seriam de feição.

Saiu o Hexagrama 4, Mêng (Youthful Folly), ou seja: A Inexperiência, a Loucura Juvenil. Olha a surpresa!  





[1] Guitarrista inglês que, no final dos anos 60, integrou o grupo de Miles Davis. Em 1971, convertido ao hinduísmo e tendo adoptado o nome de Mahavishnu John Mc.Laughlin, formou a Mahavishnu Orchestra e, em 1973, juntamente com o também convertido Devadip Carlos Santana, gravou o devoto álbum Love, Devotion and Surrender. Mais recentemente gravou e fez digressões com músicos indianos como Hari Prasad Chaurasia, Shiv Kumar Sharma, Zakir Hussain e U. Srinivas.   

© Fotografia de Pedro Serrano, Acrópole, Grécia, 2014.