14 abril 2015

VOU-TE CONTAR: 69. FILOSOFIA DE ALCOFA

Agora funciona lá a Universidade, mas, no primeiro ano da década de 70, era o liceu quem ocupava aquelas paredes, que beneficiava do claustro e da fonte ornamental. Fiz lá as provas finais de três disciplinas – Desenho, Filosofia, Físico-Químicas – na segunda época, isto é Setembro, do então exame de sétimo ano.
Nesses dias havia um exame final à saída do liceu e, imediatamente depois, outro para ingresso na Universidade. Os exames de sétimo ano faziam-se às cinco disciplinas principais e eu chumbei a três delas na primeira época. Inimaginável que pudesse ultrapassar o falhanço ainda esse ano e a tempo de entrar em Medicina, ainda por cima quando só se podiam repetir simultaneamente duas disciplinas; para a terceira era preciso requerer uma autorização especial a uma qualquer Direcção-geral do Ministério da Educação, seria também necessário que um liceu nos aceitasse em candidatura autónoma... E repetir a coisa no meu liceu de sempre (o D. Manuel II, hoje em dia regressado à designação original de Rodrigues de Freitas) era impensável, entre outros senãos menos administrativos porque me pegara com a professora de Filosofia durante a prova. A examinadora era uma solteirona rosnante, de mentalidade disciplinar, e não conseguira ainda sobrevoar dos enquadramentos da lógica socrática, encarando toda a filosofia do século dezoito em diante – a que mais me atraía – com mal-disfarçado desdém. Assim, quando, em plena prova, me ordenou:
“Olha pela janela e diz-me o que vês...”; eu respondi:
“Vejo o céu azul e uma árvore...”; e ela contrapôs:
“E como tens a certeza que é uma árvore?”
“Porque a estou a ver...”
E por aí fora, até ao caldo estar completamente entornado; ela numa de silogismos e eu numa existencial. A coisa acabou mal com ela a chumbar-me e a anunciar que, se dependesse dela eu nunca terminaria Filosofia naquele liceu ou em liceu do Porto e arredores. Acresce que naquele liceu, naquele ano, havia duas professoras de Filosofia escaladas para exames: a outra era irmã dela, uma solteirona tirada a papiro químico...
De algum modo, a que desconheço detalhes, o meu pai conseguiu-me o deferimento da tal autorização para fazer três cadeiras em Setembro e o liceu de Évora aceitou-me como aluno externo para repetir os exames em falta. Assim, num dia de calor abrasador do princípio de Setembro, eu, ele e a minha mãe rumámos a sul. O meu pai voltou para cima logo no final do fim-de-semana, mas a minha mãe ficou comigo, a fazer-me companhia e a vigiar os meus progressos nos estudos, que eu não era de total confiança, como já se tinha visto.
Ficámos instalados na Pensão Residencial Policarpo, em pleno centro, não muito longe da Praça do Giraldo, não muito longe do liceu; cada um no seu quarto e em regime de pensão completa.
Por energias interiores a que ignoro a génese todo aquele enquadramento quase monástico me estimulou e passei as três semanas que vivemos em Évora a estudar como um cão, ainda no outro dia encontrei num armário atacado pelo bolor e pela melancolia os velhos livros desses tempos: um tratado de Filosofia desirmanado pelo manuseio; um compêndio de Química sublinhado com esferográficas de cores diferentes, como se fossem camadas geológicas de repetidas leituras, as margens repletas de anotações alusivas às leis da termodinâmica e à Tabela Periódica de Mendeleev.
Fazíamos as nossas refeições na pensão, mas depois do almoço concediamo-nos um passeio até ao centro, ao Café Arcada, um estabelecimento enorme e sombrio onde a minha mãe e eu tomávamos café sob o olhar severo dos outros clientes, pois a minha mãe – então com 43 anos – era a única mulher no local. As senhoras, na capital do Alentejo, não frequentavam estabelecimentos públicos nesses dias, estavam condenadas a espreitar das janelas como se já estivéssemos em Marrocos.
Bem, aquelas tardes e noites de estudo, sentado na minha secretariazinha estreita da pensão, cismando – como pausa entre capítulos – as tílias e os ciprestes que avistava da janela, deram o seu resultado e fiz as três disciplinas sem grande alarde e magníficas notas, tendo alcançado um 18 a Filosofia, única classificação de que me lembro por ter sido assim uma espécie de estandarte vitorioso espetado no cadáver simbólico da solteirona silogística do Porto. 

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Fotógrafo desconhecido, Évora 1970; (2) foto publicitária da Residencial Policarpo [net]; (3) Pedro Serrano, Évora 2015.