18 junho 2015

ÁFRICA SUBSARIANA

Guerra era-lhe palavra familiar. Nascera por ela, por assim dizer. O pai, que nunca vira, era branco, servia no exército colonial e fora já para o fim da comissão que engravidara a mãe. Depois desaparecera, mas nem sequer um nome completo deixara, sabia vagamente ser natural do norte. Era uma coisa que lhe fazia impressão, mesmo tantos anos mais tarde: embora tentado, nunca se decidira a ir a Portugal por receio de se aventurar num local que representava o mistério da existência.
O estado do país fizera com que toda a juventude se escoasse sem a certeza do dia seguinte: guerra civil, não há nada pior para impedir uma pessoa de pensar no futuro. Apesar disso, fora fazendo a sua vida e quando a tropa o deixou deixá-la era médico militar, sem nenhuma especialidade de que se pudesse gabar mas habituado a fazer um pouco de tudo, desde amputar membros a comportar-se de todos os modos necessários às ocasiões, e até quando adormecia durante uma reunião mais longa era capaz de vir à superfície rapidamente e apanhar o essencial do que fora dito.
Agora, sentado à cabeceira da mesa de reuniões – o cargo de director do Hospital Provincial assim o ditava – não dava para dormir ou sequer fechar os olhos: havia três brancos concentrados nele, a explicar-lhe uma série de coisas que pouco o interessavam, que prometiam agitar os serviços pelos quais era responsável, mas  não estava seguro se isso lhe interessava, se interessava fosse a quem fosse. Mas Luanda mandara que recebesse a missão portuguesa e tivera de encaixar a reunião logo a seguir ao almoço, amontoara à pressa os papéis que se empoeiravam sobre o tampo de fórmica da mesa para arranjar espaço para os dossiers e os computadores que as visitas tiraram das pastas, espaço para o caderno com elástico onde a loura não parava de escrever, como se o que ele dissesse lhe fosse servir para alguma coisa.
Estava um calor danado e o aparelho de ar condicionado – oferta da cooperação chinesa – mal refrescava o gabinete onde a porta devia manter-se aberta, pois havia sempre alguém para o vir chatear com um papel a assinar, com o recado de que o camião-cisterna não aparecera e que o hospital ia ficar sem água dentro de  horas ou que – mais uma vez – o gerador não aguentara por haver demasiada gente, dentro e fora da cerca do hospital, a puxar baixadas clandestinas à sua custa; até repartições do Estado tinham sido apanhadas a usar a electricidade alheia! E toda a gente queria sempre que resolvesse tudo, com urgência, sem dinheiro, sem poder efectivo, constantemente a sentir-se um rafeiro entre as ordens ladradas do Governo Provincial e os telefonemas prioritários do Ministério da Saúde...
As pálpebras pesavam-lhe, mas a loura continuava a debitar as vantagens para o progresso do país e para o hospital provincial dos serviços de consultoria – seria isso? – que lhe estava a propor gratuitamente e que passavam por ensaios clínicos, novos medicamentos, formação do ‘staff local’, dizia ela toda fresca, espantava-se como é que uma mulher que já devia ter os seus quarenta e bué não estava ainda transformada numa velha... Se calhar nem casada era, não tivera seis ou sete filhos para lhe derreter os lombos e lhe amarfanhar o corpo. Abanou a cabeça, como se estivesse a concordar com o que ela dizia, mas o aceno foi mais para registo do português sentado ao seu lado direito, mesmo de frente para a loura, o qual lhe parecia tão agoniado quanto ele com o discurso cheio de inputs, outcomes e maisvalias . Nem há vinte minutos, o gajo pedira licença, levantara-se e desaparecera pela porta entreaberta do quarto de banho, onde se demorara mais do que seria necessário, mas as visitas europeias, embora não abrissem o bico, ficavam sempre fascinadas pelas três kalashnikov encravadas entre a retrete e o balde de água que servia as vezes de autoclismo. Coitadas das velhas espingardas, estavam mais ali por companhia do que por outra coisa, duas delas até já tinham ganho capa de ferrugem, embora, já se sabe, uma AK47 nunca se estraga de vez, é sempre recuperável se voltar a ser preciso aplicar uma ração de chumbo. Algumas das visitas até saíam lá de dentro mais brancas do que já o eram e o português, ao voltar, olhara-o com mais incisura; aqui e acolá – enquanto a loura papagueava sobre alavancagens e ganhos em saúde, deixava o olhar passear-se até à porta entreaberta do quarto-de-banho como que a conferir se as armas ainda ali continuavam. Desconhecia que tipo de relação teria ele com a loura ou com a outra, pois virem juntos de Luanda não explicava tudo, não explicava nada. Ao chegarem, tinham-se apresentado, mas não ligara muito, nunca ligava muito, a maioria aparecia uma única vez; prometiam dar continuidade às iniciativas, escrever mails, ele nem os lia, e o que eles faziam na terra deles interessava-lhe pouco.
Agora que ela estava ali à sua frente conseguia encarar a loura tecnicamente, mas gostaria era de ver como se safava a chupar as espinhas de um cacusso entre os dedos ou a dançar kizomba... De qualquer modo, o outro tipo não parecia apreciá-la muito, pois de vez em quando lançava-lhe olhares enraivecidos para a cabeleira ou interrompia-lhe o discurso para explicar – a ele, que tentava não adormecer por fora e por dentro – que não era bem como ela estava a dizer ou que o que ela estava a dizer era que..., embora pudesse ser também de outro modo, logo se ia vendo, dependia também do que Angola achasse sobre o assunto, aquilo era apenas uma reunião de carácter exploratório...
Irritada com a interrupção, a loura folheava as páginas do caderno como que a procurar o que ainda faltava dizer, sarrabiscava vês com a Montblanc nas notas do canhenho, e, pelo canto do olho, apercebeu o português a descolar as costas suadas do espaldar de napa da cadeira, quando ela tomou, de novo, a palavra, pois a outra – uma morena engraçada de que se lembrava dos anos no Uíge como médico militar – pouco abria a boca; sabida... Calculava que ia deixar correr o marfim e que se pronunciaria só no final, não se ia gastar com tretas como a loura. 
Ao olhar os três assim de fora veio-lhe uma enorme vontade de rir à boca e para disfarçar alisou a barba por fazer, compondo uma atitude grave ao cofiar o queixo. Depois, como sentisse a testa perlada de suor, aproveitou a lembrança, pegou no bloco, onde ainda não escrevera uma linha, e começou a usá-lo como leque. Na outra cabeceira, em sincronia, a morena bebeu um gole do gargalo da garrafa de água que ele mandara Faustina colocar na mesa, junto com um pacote de litro de sumo de pêssego e os guardanapos de papel.
Agora o português – achava que ele era professor, embora não soubesse bem de quê – cruzara os braços e espalmara as mãos sobre os punhos da camisa, como se se quisesse defender do discurso da loura, que falava entretanto do que Angola deveria fazer para organizar os seus cuidados de saúde, citava exemplos de sucesso na Tanzânia e no Uganda e em outros sítios que eram um atraso de vida e que o seu país não encarava como modelos a seguir. Disfarçadamente, deixou escorregar o braço para o colo, de modo a poder esticar a manga da bata e olhar o relógio. Mas a loura fitava-o de testa franzida, os olhos consumidos muito arregalados. Dizia:
“Suponho que aqui, na África Subsariana, este é um problema que vos dirá muito...” 
Distraído no gesto encapotado de consultar o relógio e confrontado com o tom inquisitivo da outra, ficou a achar ter deixado escapar algo importante e sentiu-se momentaneamente apanhado, sem perceber em que sentido se devia manifestar. Então, olhou para o português com um certo ar em que se caldeava a estupefação e o pedido de ajuda. Ao ver o outro piscar-lhe um olho  discretamente, sentiu que tudo estava sob controlo e que não precisava de se preocupar a responder.
© Fotografias de Pedro Serrano, Angola, Julho 2008.