07 junho 2015

NÃO VENHAS TARDE: 18. AQUELA MÁQUINA

28 de Setembro, Istambul
Manhã gelada e nós na bicha para levantar os vistos desde as sete e meia. Por causa dos feriados a fila duplicou e só fomos atendidos duas horas depois. Novo suspense: o meu visto está pronto, mas não o do Rui. O passaporte dele caduca daqui a três semanas, pelo que nada feito: o passaporte deveria ser válido pelo menos por mais seis meses para se poder candidatar a uma autorização de entrada no Irão.
Descobrimos que em Istambul não há embaixada de Portugal, apenas um consulado do lado de lá do Bósforo. Temos pressa, apanhámos um autocarro, talvez nos concedam o visto ainda hoje se formos levar o passaporte à embaixada do Irão da parte da manhã.
O consulado funciona num prédio de habitação sem nada que o distinga a não ser um cartão ao lado do botão da campainha e uma bandeira portuguesa, murcha e esfiapada, lá em cima, especada numa varanda descascada. A casa é silenciosa e triste; na sala onde somos recebidos existe uma máquina de costura e baratas erram, desorientadas, pelo chão de madeira. O cônsul, um senhor velhinho, enquanto folheava o passaporte foi perguntando ao Rui se tinha com ele o bilhete de identidade, documento indispensável, segundo a lei portuguesa, para a revalidação.
Lamento, mas não tenho respondeu o meu amigo
E tem consigo uma licença militar, válida? Também é um documento obrigatório...
Confesso que também não a tenho actualmente na minha posse retorquiu o Rui naquele tom extremamente educado que emprega para falar com as mães e as avós das gajas em que anda interessado.
Eu calculei – suspirou o cônsul – quem é que vai andar com tudo isso num sítio destes!
E apenas testemunhado pelas nossas duvidosas figuras, depois de lhe contarmos um pouco quem éramos, de onde vínhamos e onde íamos, revalidou o passaporte por mais cinco anos.  
Quanto a ele, é médico como nós e reside na Turquia há quarenta anos. Está completamente falido, não tem sequer dinheiro para regressar à ditosa pátria que, agora que ele completa setenta anos, o vai pôr ditosamente na rua, sem reforma ou pensão. Enquanto nos despedíamos e ele nos convidava para o voltarmos a visitar quando regressarmos da Índia, a mulher, uma senhora francesa de pernas inchadas, passou em direcção à porta que dá para a varanda: será meio-dia em breve e ela vai apear a bandeira. O cônsul ainda a chamou para nos apresentar, mas a dama é surda e não ouviu o chamamento. O marido encolheu os ombros num sorriso.
Voltámos à embaixada do Irão em silêncio, interiormente comovidos com o que acabáramos de ver, com a sensação que quase valera a pena o passaporte caducado para termos passado por aqueles momentos no velho andar do consulado. Mas, na embaixada do Irão, os altivos persas não nos dão o visto para hoje:
– Come tomorrow. Tomorrow you will get visa!
Cassius Clay vs Ken Norton, Setembro 1976.
Jantámos no Lâle, o Rui foi deitar-se cedo. Está um tanto derreado com a incoercível coceira provocada por umas pápulas que lhe apareceram nas costas. Eu  saí com o Douglas Greenberg, um dos tipos que viajou connosco de Atenas e está aqui no hotel. Fomos até um café das redondezas para ver um combate de boxe na TV. Não que o pugilismo algum dia me tenha interessado, mas o Doug, que é californiano, está entusiasmado. Os turcos, esses, transbordam o café e estão ao rubro: disputa-se um mundial de pesos-pesados e o favorito é Cassius Clay, um herói por estas bandas pois é um americano que, para além da recusa em combater no Vietnam e lhe ter sido retirado o título por causa disso, se converteu ao islamismo, dando agora pelo nome de Muhammad Ali. Isto é uma coisa que põe os americanos loucos, um preto que se converte a uma religião de terroristas e que, ainda por cima, se recusa a cumprir o status quo. Dá vontade de o desancar, mas a porra toda é que o homem é mundialmente famoso a usar os punhos! Ao décimo quinto round lá se foi Ken Norton ao charco por toda uma eternidade e o café rejubilou em uníssono com o Doug, aos saltos e aos abraços aos infiéis turcos.