29 junho 2015

NÃO VENHAS TARDE: 20. SURGEM AS LOURAS

Wednesday, 29th September 1976
Rui and Pedro
I would like to wish you both Bon Voyage. I hope your journey is fulfilling.
Although our meeting was brief, I hope a friendship can develop in the future. I truly hope that we will meet again in Portugal or in New York.
Sincerely,
Larry Tarzy
Thursday, 30th September
At last, you’re off! These past few days have truly been a test of patience. I know you have passed the test.
Once again bonne chance.
Larry
1 de Outubro, Istambul
Apesar do bonito postal que o Larry nos ofertou, cuidadosamente enfiado em envelope e este em celofane transparente, apesar das sucessivas celebrações de despedida, numa das quais o Doug Greenberg nos cedeu para sempre a sua versão de bolso do Siddhartha [1], ainda aqui estamos ancorados e, pior, estou cheio de saudades desta cidade mesmo sem ter partido.  
Embora o tipo nos tenha vigarizado um pouco, mantivemo-nos com a mesma agência de viagens na nossa procura de transporte daqui para fora. Para quê mudar e começar tudo do zero? Acabaríamos por ir parar a um malandro parecido… Agora que tudo está esclarecido, desde a merda do Mercedes à aceitação da perda da entrada para os bilhetes, o gajo parece ter ganho algum respeito por nós e apressa-se a arranjar-nos cadeiras, a mandar vir copos de água com gelo, e chá, mal entramos a porta da agência. Mais, como, com grande alarido, assumiu mea culpa nos novos atrasos na partida, colocou-nos, a nós e a mais uma dezena de viajantes como nós, por sua conta, no Hotel Ayasofia, uma espelunca de nível superior ao Güngör, no miolo antigo de Sultanhamet. O nosso quarto, enorme, parece uma coisa saída do século XIX, com uma enorme cama de madeira maciça no centro e um colchão mole de serralho, mobília rangente a condizer, e uma varanda, grande como um alpendre, com uma cobertura feita à custa de uma ramada frondosa e por onde, entre balaústres de ferro roído, se enrosca, vinda da viela lá em baixo, uma trepadeira cheirosa. Como nem tudo é perfeito neste mundo e no nosso quarto, em camas desdobráveis convenientemente acrescentadas, ficaram a fazer-nos companhia um japonês sorridente e pouco falador e um alemão baixinho, gordo e bem disposto e, como todos os pícnicos, uma grafonola. Tem toda a pinta de quem logo à noite, depois de umas cervejolas largas, vai ressonar como um reco.
A agência de viagens, que diariamente visitamos em busca de informações, tornou-se uma espécie de sala de visitas do contingente que segue de Istambul para Teerão, alguns dos quais estão no Ayasofia, mas que não cessa de aumentar em conviventes. Será que o patrão está a adiar a partida até ter a lotação esgotada? O Des acharia que sim.
Todos os dias o tipo nos dá uma novidade para nos manter animados e a de hoje é a de que o autocarro que nos levará já está contratado, tem ar condicionado e o maior conforto. A sala de espera da agência está cheia e uma das presentes diz que tudo isso é muito bonito mas que o quer mesmo saber é a data da partida.
O nosso anfitrião, um turco alto, moreno, de bigode farto, faz que se ofende:
  Man, se eu tivesse essa informação já a tinha dado, afinal é para isso que aqui estou! É uma coisa que me ultrapassa, mas, enquanto tudo não se resolve, estou a fazer o que posso por vocês. Acham que vou ganhar algum dinheiro com esta viagem, com o que estou a gastar com hotel e tudo isso? Estou já a ter prejuízo, mas é uma questão de honrar compromissos, de amizade...
Com esta o tipo fez sorrir todos aqueles que lhe topam o estilo e calou a cliente inquisitiva, uma americana de cabelo curto, óculos redondos fumados, toda vestida de negro e que nos faz constantes demonstrações de como alcandorar nas costas, com um único movimento, uma monstruosa mochila. Muito o tipo self-made-for-the-road, sempre a barrar enormes fatias de pão com manteiga de amendoim que vai distribuindo por todos os presentes.   
Como da adrenalina para a água, ao lado deste frenesi está sentada uma outra americana, esta muito tímida, olhos azul-porcelana resguardados por uns óculos sem armação. Mantém-se muito quieta na ponta do sofá, numa pose receosa e não aceitando nada do que vai sendo oferecido para comer ou beber. Para entreter a timidez vai fazendo festas a um gato de Istambul que se lhe aninha no colo, mal acreditando que alguém lhe coça os lombos... Bem que a avisei daquilo a que se estava a candidatar, mas ela limitou-se a abanar as farripas do cabelo liso como quem não se importa.
No género contido, mas este do sexo oposto, empoleira-se num maple como se estivesse já no isolamento da sombra de uma figueira-sagrada um inglês dos seus quarenta anos, magro como um cão e de cabelo apanhado num rabo-de-cavalo. Mantém os olhos permanentemente cerrados, só os abrindo para esclarecer, quando inquirido, a clássica questão:
– E você, para onde vai?
– India… I’m goin’ there to get lost…
Finalmente, dois tipos da Malásia, nossos vizinhos de quarto no Ayasofia, de tez bem brunida, cabelos negros pelos ombros, ambos muito do subgénero vigarista-simpático.
O turco da agência circula incessantemente entre os presentes com a preocupação de manter o ambiente ao rubro e as pessoas satisfeitas. Sempre que passa por nós mete-se com o Rui para dizer que o bigode dele é mais pujante do que o do meu companheiro de viagem. Numa dessas deambulações, imagine-se só, convidou, o mais discretamente que conseguiu, a americana tímida para ir hoje jantar com ele.
Saímos da agência acompanhados de três novos hóspedes para o Hotel Ayasofia: um afegão, uma presença muito disputada na agência, pois toda a gente quer saber novidades e informações sobre o misterioso país. O tipo, enquanto distribuía sementes de melão e cigarros pelos presentes, lá ia dizendo que era um país lindo e muito barato, mas estava mais interessado em saber o preço de tudo e em comprar tudo em que a vista lhe pousa. Nessa noite, quando o levámos ao nosso café, quis comprar os copos por ondes bebíamos chá. Para o calarem, acabou por levar um copo de presente, mas não conseguiu comprar a meia-dúzia que pretendia pois havia um desafio de futebol na TV, o café estava cheio e os copos faziam falta.
Os outros dois novos hóspedes do Ayasofia por conta da agência e que seguem connosco no autocarro para Teerão, na improvável data em que este partirá, são duas francesas dos arredores de Paris. Louras, cabelos longos, olhos azuis, do subgénero altamente comestível não fosse a regra de ouro n.º 2. Dizem ir para a Índia durante três meses e uma delas trouxe até uma viola com ela, objecto que me ofereci para carregar durante o trajecto para o hotel:
– Pardon, madame, peux je transporter votre guitare?
– Oh, merci, monsieur…
Na confusão da chegada e das mochilas acabei por levar a guitarra para o meu quarto e, através da varanda, emprestei-a a um dos malaios do quarto pegado ao nosso. Passados uns minutos ele bateu-nos à porta para nos convidar a ir ouvir música ao quarto deles. Quando lá chegámos, um deles perguntou mal nos sentámos:
– Nenhum de vocês tem erva?
Abanámos a cabeça com simplicidade, achando que não valia o investimento estar a explicar-lhe a génese da regra de ouro n.º 3. Impermeável a tudo isto, o japonês mantém-se sentado sobre a sua cama desdobrável, de pernas cruzadas, a coser o saco-cama com gestos lentos e amplos de linha e agulha.
[1] Siddhartha – Livro de Hermann Hess, publicado em 1922, é uma poética versão da vida de um jovem indiano, contemporâneo de Buda, em busca da plenitude interior. Juntamente com O Fio da Navalha, de Somerset Maugham (veja Nota n.º 5), era um dos clássicos inspiradores dos viajantes para Oriente. Em português, entre outros editores, Siddhartha foi editado pela Minerva em 1974.