25 janeiro 2012

AQUARELA INDIANA



Ontem, apesar das janelas fechadas, adormeci com o barulho das ondas contras as rochas. É que o quarto dá mesmo para o mar e como o baluarte circular da fortaleza se atreve nas águas, a maré cheia açoita-o com a violência da intimidade.
O forte foi construído na última década de 1500 pelos portugueses para defender esta enseada do ataque dos piratas, o que na altura era o pão nosso de cada dia... E esta zona, no norte de Goa, era especialmente cobiçada, pois havia aqui abastecimento, generoso e natural, de água doce. Por isso a edificação militar foi baptizada, e ainda hoje assim se chama, de Forte Aguada.
Estendido numa espreguiçadeira de beira de piscina, olhando o modo como a luz do sol ao longo do dia faz cambiar a cor da pedra em que é construída a fortaleza (de manhã, a cor escura da pedra queimada pelo tempo, mas ao final da tarde adquire o tom avermelhado da terra africana), não consigo deixar de pensar como deveria ser diferente o estado de espírito dos seres que, há quinhentos anos, se moviam naquela arena onde hoje em dia turistas posam para fotografias com o mar como recorte. Nesses dias antigos, quem por ali penava, de atalaia ao mar por trás das fendas quadrangulares por onde espreitavam bocas de canhão, veria em cada mancha surgida nas águas, em cada alteração do horizonte, um perigo potencial, uma ameaça à existência. Tudo muda, se o tempo lhe for permitido.
Li, há bocado, no The Times of India, que de manhã encontro pendurado na maçaneta da porta do quarto, que o estado de Goa vai passar a conceder ‘vistos à chegada’, uma comodidade face aos actuais vistos que só se podem obter, com grande antecedência, nos consulados da Índia. Dessa medida, antiburocrática e facilitadora do turismo, vão beneficiar vários países, entre os quais a Ucrânia, a Espanha e o Brasil. A Inglaterra, apesar da quantidade de visitantes dessa nacionalidade que todos os anos procuram a região, não será beneficiada com a medida, o mesmo acontecendo com Portugal. Suponho que a exclusão terá a ver com fracas memórias da nossa descolonização do território, que, ao contrário da francesa e da inglesa, não foi exemplar... Já depois de toda a gente se ter posto civilizadamente a andar de um colosso que não era seu, Salazar insistiu em achar que Goa, Damão e Diu eram parte intocável do nosso império além-mar. Tivemos de ser corridos, claro, e os indianos (corria o ano de 1961, os Beatles estourariam no ano seguinte e não tardaria ao homem ir experimentar a lua-cheia in loco) tomaram o que lhes pertencia em pouco mais de 24 horas.
Goa, ao contrário do que a gente tem tendência a pensar, não é uma cidade, mas antes um território onde mora milhão e meio de pessoas. Uma das suas três principais cidades chama-se Vasco da Gama, um senhor com quem hoje, em parede de honra do hotel, dei de caras quando, às 10:27 da manhã, descia apressadamente as escadas para tentar apanhar ainda a porta do pequeno-almoço aberta.  

© Fotografias de Pedro Serrano: Goa (Índia), Janeiro 2012.

23 janeiro 2012

CHILREADA AZUL (em 4 andamentos)

1. Allegro
2. Minuet
3. Andante
4. Rondó
© Fotografias de Pedro Serrano, Fort Kochi (Índia), Janeiro 2012.






22 janeiro 2012

SAI UMA IMPERIAL


Ontem fomos visitar a igreja de S. Francisco, aqui em Fort Kochi, e qual não foi o meu espanto ao tropeçar no túmulo do Vasco da Gama? Já tinha dado para perceber que o homem é uma presença forte aqui na terra, onde se pode inclusive ver a casa onde terá morado (agora uma hospedaria); a praça principal, em frente ao mar, tem o nome dele e existe até um café que o trata com toda a familiaridade. Nada mau para um gajo morto há quase quinhentos anos!
Mas, mesmo assim, dar com as barbas do homem aos nossos pés, é uma sensação estranha. Eu jugava que o tipo estava enterrado nos Jerónimos, e está, só que é uma sepultura em segunda-mão. Ele morreu, naquela que era a sua terceira visita à Índia, na noite de Natal de 1524 aqui em Fort Kochi (que à época se chamava Cochim), e aqui esteve enterrado durante catorze anos antes de ser trasladado para a vizinhança dos pastéis de Belém. Na frescura algo sombria da nave da igreja de S. Francisco há um painel que explica tudo isto em inglês, abrilhantado com fotografias do mosteiro dos Jerónimos e outros instantâneos lisboetas.
Passado este tempo todo, a presença portuguesa nesta costa do sudoeste da Índia ainda é nítida e pulverulentamente comovente: é a carne de porco em vinha de alhos que se transmutou em carne de porco vindaloo, é o salpicão assado que agora se pede como salpicao flambé, mas em ambos os pratos reconhece-se vividamente o sabor original, apaladados à sombra de telhados de desenho português a que só foram esticados os beirais para que a sombra saia mais pestanuda neste clima tropical.
E a gente não pode impedir-se pensar como é feita de persistência e coisas simples uma presença duradoura e de, tristemente, concluir como, desde esses tempos em que as nossas pegadas primeiro se marcaram na memória deste país imenso e civilizado, tudo se degradou para um Portugal ratado que vive actualmente, trémulo e de mão estendida, de olhos postos numa Europa que já deu o que tinha a dar.

© Fotografias de: (1) Pedro Serrano; (2) A. Rodrigues; (3)(4) Pedro Serrano. Fort Kochi (Índia), Janeiro 2012.

21 janeiro 2012

SANTOS DE RUA NÃO FAZEM MILAGRES


Não preciso sequer sair da cama e ir espreitar a janela para saber que acordei na Índia. Lá de fora chega um misto sonoro do crocitar das gralhas e das buzinadelas do trânsito e, ao contrário do que acontece noutros países onde é entendido como civilizado não usar o cláxon, na Índia o apitar faz parte da essência de conduzir. Mas aqui, embora omnipresentes, as buzinas nunca assumem a intensidade ou o tom de raiva homicida das buzinas ocidentais; aqui apita-se, sobretudo, para avisar o carro, a mota, o riquexó, a bicicleta ou a vaca que vai ser ultrapassada por nós a toda a velocidade, e a quem se preserva a saúde ou a chapa com um alegrete “chega para lá”.
Neste apitanço seguíamos pelo entardecer de Bangalore, uma cidade do sul da Índia com mais de seis milhões de habitantes e um trânsito condizente, com o motorista do nosso táxi a gincanar vertiginosamente sempre que podia, mas, mais frequentemente, afundados no vermelho dos semáforos e num trânsito tão denso que pouco adiantava a mudança para um verde mais esperançoso.
O motorista apontou um edifício acinzentado à nossa esquerda, do lado de lá do separador:
“Church...”
Li a placa que identificava a igreja e respondi:
“Not this one... The name is Mouth Watering Church...”
O tipo pareceu confuso, pegou no telemóvel e, guiando só com uma mão, telefonou para a central, desatou a falar em Kannada com toda a rapidez. Depois, estendeu o telemóvel para o banco de trás. Atendi. Do lado de lá, uma voz simpática queria que eu confirmasse o nome do restaurante, as coordenadas.
“Coconut Grove”, informei, “na rua, ou perto da rua, da igreja de Saint Mouth Watering...”
Senti um silêncio na linha e, depois, o meu interlocutor solicitou que confirmasse o nome da igreja. Soletrei m-o-u-t-h, acrescentei: “watering, like in ‘water’, I think it’s near the Tourist Infomation Centre...”
Finalmente, ele parecia ter compreendido, pediu que lhe passasse outra vez o motorista.
Tínhamos encontrado o nome do restaurante no Rough Guide to South India, um livro que tem, para cada cidade, uma indicação dos restaurantes aconselhados, uma descrição do que lá se pode comer de mais notável e, claro, a sua localização. Ainda no hotel, enquanto A. lia em voz alta as linhas dedicadas ao Coconut Grove, eu assentava num papel, em maiúsculas bem desenhadas, acessíveis a quem escreve habitualmente noutro alfabeto, as indicações-chave.
“Como se chama a rua?”, perguntei de lápis no ar.
“Não tem nome de rua, indica apenas “Church St. Mouth watering...”
Achei o nome da igreja divertido, nada comum, mas estávamos na Índia, país onde as religiões se entrelaçam com bonomia, onde um dos principais deuses é representado por um elefante, desse modo limitei-me a registar o nome da igreja, que era, cotejando com o mapa, perto do Tourist Information Centre.
E agora andávamos por ali às voltas no centro da cidade, enlatados num trânsito de fim do dia, o motorista, preocupado, apontando-nos todas as igrejas por que passávamos, “talvez fosse aquela, não?”
“No”, respondia-lhe, seguro de mim, “Saint Mouth Watering Church...”
Por fim, já passava das oito e quem tinha água na boca éramos nós, encontrámos o Coconut Grove numa relativamente pacata transversal da Mahatma Gandhi Road, uma das principais e mais movimentadas avenidas do centro de Bangalore.
De regresso ao hotel, peguei no guia para comparar a nossa sensação do restaurante com o que vinha indicado no texto, uma espécie de aferição da precisão da informação. E, sentindo subir a maior das vergonhas, numa admiração silenciosa pela paciência dos indianos perante os turistas que lhes pedem que os levem a locais inverosímeis, li o seguinte:
Coconut Gove. Church St. Mouth watering and moderately priced food...
Mas, pensando bem, a culpa não era toda nossa, fora antes da abreviatura St., que tanto serve street como saint...

© Fotografias de Pedro Serrano, (1) e (3) Bangalore; (2) Fort Koshi (Índia), Janeiro 2012.


19 janeiro 2012

ENTRETANTO EM KERALA

© Foto de Pedro Serrano, Fort Kochi, Kerala (Índia), Janeiro 2012.

12 janeiro 2012

DEIXA QUE TE CONTE


Deixa que conte tudo enquanto ainda o lembro
Como se pintou em dourado aquele Setembro
E a maresia apaladou de sal a névoa da manhã
Seria Maio? Não, recordo a cesta com romãs.
Deixa que conte tudo enquanto ainda o lembro
O tostado amarelo das castanhas em Dezembro
As impressões digitais sarrafuscadas a carvão,
As linhas da tua palma na palma da minha mão.
Deixa que te recorde enquanto lhes conto tudo
(Sossega, em tenor te canto, em verso te acudo)
A memória esfarela-se como as pegadas n’areia
Como o sangue, além, vai parar de correr na veia.
Deixa que conte tudo enquanto... quanto, canto
Antes que a minha memória imploda
E tudo isto, que é sal e água, se foda


© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Porto, 2011; (2) Porto, 2010.

FOR WHAT IT'S WORTH


Amy Winehouse canta "To Know him is to love him", 
canção de Phil Spector.

07 janeiro 2012

A SUA COISA É TODA TÃO CERTA


 Dando como adquirida a minha competência em cooperação internacional, ao aproximar-se o primeiro fim de semana que passámos em Santiago, a Ana C. perguntou-me se conhecia algum cabeleireiro na cidade.
Que não, respondi, que até já tinha cortado o cabelo em La Habana e em Tóquio, mas nunca em Cabo Verde. Sugeri-lhe que se aconselhasse com as doutoras que trabalhavam na Cooperação portuguesa, sempre tão incansáveis a dar resposta às nossas mais diminutas necessidades logísticas. Ela assim fez e na sexta, à hora de jantar, apareceu com um look todo envernizado, encheu-me de novidades e aproveitando, cheia de malícia, a brecha que eu lhe proporcionara ao dizer que se o cabeleireiro fosse bom talvez recorresse aos seus serviços, pois precisava de cortar o meu remanescente cabelo:
“O senhor tem de lá ir... O salão chama-se Beleza Pura e o cabeleireiro Elvis...”
Previdente, a Ana C. trouxera um cartão onde, para além de se esclarecer que o tal Elvis tinha salões em Santiago e em S. Paulo, constavam os telefones. Marquei apontamento para Sábado às três da tarde e, máquina fotográfica a tiracolo para o que desse e viesse, parti à aventura, ciente de que um salão que escolhera para nome uma canção do Caetano Veloso só podia ser recompensador.
Consegui cortar o cabelo, mas nunca disparar a máquina fotográfica, pois, pelo menos, seis pares de olhos femininos nunca mais me largaram desde que a minha silhueta se recortou na porta de entrada, um deles propriedade de Nancy, a recepcionista brasileira. Quanto a Elvis, também ele brasileiro, esse tratou-me invariavelmente por “querido” sempre que me interpelou, fosse para indagar se a água estava suficientemente morna ou para saber se desejava que me aparasse as sobrancelhas.
À saída, enquanto pagava e por continuar sem abertura para poder usar a máquina fotográfica, fui circunvagueando o olhar pelas paredes, tomando conhecimento do catálogo de serviços do Beleza Pura, que incluía fortalecimentos capilares e extensões, mas também préstimos de qualquer tipo de depilação íntima, desde aquela que tem por única finalidade ajudar a respeitar as fronteiras da parte inferior de um bikini, à poda mais radical.
Estava uma tarde de sol inspiradora e, sabendo que dali a meia-hora estaria a trabalhar, fiz o caminho de regresso a pé, para gozar daquela sensação de leveza que um céu azul e um cabelo recém-aparado proporcionam. Como as coisas tinham mudado desde a minha juventude... Onde, no meu tempo de rapaz, seria possível um gajo ir cortar o cabelo a um cabeleireiro de senhoras? Ou ser servido por um barbeiro chamado Elvis que nos trata por “querido”? E a depilação íntima... No meu tempo não havia disso, elucubrava rua abaixo baseado quer na experiência pessoal quer na observação fortuita das revistas masculinas (Playboy, Penthouse ou Lui), onde as modelos ostentavam, conforme os fenótipos com que a mãe-natureza as brindara, uma vegetação ora estépica ora luxuriante e com o atrevimento migrante da vinha-virgem. Era o reinado soberbo da variedade! Mas agora, e apercebia-o como uma perda, parecia que todos os cabeleireiros do mundo se tinham juntado em congresso para discutir prejuízos e descobriram, por sugestão inspirada de um congressista brasileiro, o filão da depilação generalizada como garante do seu futuro económico. E decretaram a ditadura dessa moda de toda a mulher trajar um adorno púbico esquálido, preciso e similar, o que recuperou o viço financeiro dos salões de beleza e dos apicultores e entristeceu os clássicos.
E, no meio dessa tarde azul, dei comigo a trautear o “Você É Linda”, outra canção do Caetano Veloso em que, louvando a beleza das diversas partes da sua musa, ele se refere a isto mesmo cantando, em voz melosa e sonhadora: “a sua coisa é toda tão certa...”    

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Goa (Índia), 2011; Lisboa, 2011.

06 janeiro 2012

KILO BITE


Pedro Serrano, Viseu, Setembro 2011.

No verso do pacote brilhante,
Mesmo por baixo do bónus,
Agachados, em letra diminuta,
Os hidratos de carbono
Numa dose filha da puta

31 dezembro 2011

AS NOITES BRANCAS DO SENHOR DA ROSA


Quando a Luz nos deixou ao portão da embaixada eram quase quatro da tarde! No trajecto até à porta dos nossos apartamentos estripei a gravata, disse à Ana Cristina:
“Vou fazer a mala e esticar-me um bocado em cima da cama, estou roto. De outro modo vamos passar mal logo à noite...”
Dali a meia-dúzia de horas teríamos de estar no aeroporto e uma exposição de objectos, dispersos pelo apartamento ao longo de três semanas, esperava ser enfiada numa mala que, mirando-me do canto do quarto, já se ia recusando a acumular dentro de si tanto despojo.
Na hora seguinte abri e fechei portas de armários, indaguei fundos de gaveta, decidi que era um disparate transportar comigo o que restara do sabonete que comprara no Kalu e Ângela, o pacote de bolachas torradas. Escrevi um bilhete à Ita, a agradecer as limpezas, as doses generosas de toalhas novas, deixando dito que podia levar as maçãs do minibar, os iogurtes, o pacote de bolachas.
Depois, com a sensação de ter tudo sob controlo, semicerrei os estores e estendi-me na cama para a sesta antes do jantar, a acumular uns átomos de sono que seriam preciosos na dissipação das horas de espera no aeroporto, na noite, sempre mal dormida, a voar sobre o Saara. E em Lisboa, que estavam menos de dez graus, um frio de rachar!
Eram agora cinco e meia. Para o que desse e viesse, configurei o telemóvel para  despertar às sete: teria assim o tempo necessário para me vestir, deixar as malas no apartamento da Ana Cristina, chegar a horas ao jantar com as ministras e os outros importantes todos. Fechei os olhos.
De imediato, desfilou na tela interior dos meus olhos a cerimónia de encerramento do Curso, o discurso do Paulo, as fotografias de despedida com os alunos – a Domingas como fotógrafa –, o almoço volante no andar de cima do Centro de Formação... Que bem se tinha comido: apesar do calor que reconfortante aquela sopa de farinha de milho grosso com pedacinhos de peixe a flutuar, o atum assado, o ensopado de cabrito (não falta nunca cabrito aos almoços especiais de Cabo Verde) e, soberbos, o doce de papaia com queijo de cabra e...
“Já provou o pudim de coco, Ana Cristina?”
“Estava a preparar-me agora para isso”, respondeu, “estou apenas indecisa entre o de coco e o de queijo...”
“Ah!, não hesite”, esclareci, veemente, “vá pelo de coco, está divino! Sabe o que é divino?!”
Garantiu-me que sabia, afinal é católica praticante.
As pálpebras descaíram um pouco mais, a mente deslizou por entre imagens soltas, o sono começou a invadir-me como uma névoa benévola... Foi então que o telemóvel tocou.
“Professor? Aqui José da Rosa. Hoje à tarde não tive a oportunidade de me despedir convenientemente... Tinha muito gosto em convidá-los para ir tomar uma bebida ao meu bar...”
(Em África toda a gente nos chama ‘professor’, já desisti de explicar que, embora passe parte razoável do tempo a dar aulas, não sou um académico encartado).
O Dr. José da Rosa, médico e solteirão inveterado, foi nosso aluno no Curso Internacional de Especialização em Saúde Pública, ao qual chegava, diariamente, levemente atrasado, nada de muito grave, nada que o impedisse de participar empenhadamente no decorrer das sessões. A mim, ele lembrava-me sempre um daqueles personagens que aparecem nas telenovelas brasileiras, passadas nos anos 30 ou 40 em cidades do interior; aquele senhor muito delicado, impecavelmente vestido, com uma pose entre o tímido e o esquivo, solteirão pétreo que vive com uma mãe idosa para não ser asfixiado por alguma mulher mais perigosa. Para além de todas estas virtudes, o Zé da Rosa toca violão, canta, tem um bar (gerido pela irmã) com o seu nome numa das ruas principais do Plateau, bar onde, em noites inspiradas, se fecha a porta e se fazem serenatas... O Jorge Amado poderia inspirar-se nele, no jeito pausado de articular as palavras, de acentuar as sílabas como se as declamasse num português sul-americano que ecoa a toada do castelhano cubano; de iniciar a resposta a qualquer questão, ainda que de sentido afirmativo, com um “não”.
Sim, era verdade, o Zé da Rosa não se despedira convenientemente de nós. Chegara um pouco atrasado à cerimónia de encerramento do Curso e desaparecera, misteriosamente, durante o almoço; quando saímos não o conseguimos encontrar para dizer um adeus.
“Ah, não se preocupe, professor”, atirou a Luz, com o seu ar de menina travessa, “deve ter ido por aí fazer alguma visitinha...”
Desliguei o telefone, sentei-me na borda da cama, cocei a cabeça.
“Ana Cristina”, disparei mal ela abriu a porta, “o Zé da Rosa quer que a gente vá ao bar dele, ver a Noite Branca no Plateau...”
“Agora?!”, exclamou ela, arregalando os olhos ensonados.
Foi ela que ligou ao homem, a esclarecer a coisa, tentando dissuadi-lo, pois tínhamos pouco mais de três quartos de hora para todo o programa proposto: chegar ao Plateau, ir ao bar, ver a Noite Branca, estar no jantar de gala às oito em ponto. Mas o Zé da Rosa achou toda aquela argumentação pouco impressionante, garantiu-nos que havia tempo para tudo, dentro de dez minutos estaria à porta da embaixada à nossa espera.
Aproveitei os dez minutos e fui ao meu quarto buscar a mala, transbordei-a para o apartamento da Ana Cristina. Depois, olhei uma última vez o meu quarto, verifiquei que não esquecera nada e bati a porta com a chave lá dentro, que são as regras de quem parte.
“Dr. Zé da Rosa, acha mesmo que temos tempo de ir lá em cima?”, disparei mal nos abriu a porta do jipe, “não era melhor ficarmos aqui pelo Poeta?”
“Não, temos muito tempo; em cinco minutos estamos lá em cima...”
“Olhe que, às oito em ponto tenho de estar no hotel Praia-Mar...”
“Não, professor, não vai haver problema, às oito deixo-o lá...”
A cidade da Praia, capital da ilha de Santiago e do arquipélago de Cabo Verde, também se recorta em colinas e a nossa vida por lá consistia em descer do morro da Achada de Santo António, onde se situa a embaixada de Portugal, e subir até ao Plateau (como o nome sugere, a parte alta da cidade), onde ficava o nosso local de trabalho. Entre colinas, tem-se o mar aos pés e, no cimo delas, uma vista cheia sobre o Atlântico, em azul, verde ou prateado conforme as horas.
O trânsito começou a emperrar no começo da subida para o Plateau e o meu sentido do tempo fez-me mover, inquieto, no assento, enquanto, ao volante, o Zé da Rosa falava da vida de Cesária Évora, que morrera nessa tarde. Andámos mais uns metros e começou a ouvir-se o som profundo de tambores, uma massa de som como o dos nossos Zés Pereiras, mas com uma batida que lembrava a do carnaval brasileiro. Abri a janela, senti entrar o cálido da noite, esqueci o tempo e perguntei:
“Afinal o que se passa no Plateau?”
“Não”, respondeu o nosso guia, “são as festas da cidade, a Noite Branca...”
Dei-me então conta que o homem estava vestido de branco... Pensei em neve...
“Mas tem a ver com o Natal? É uma tradição de Dezembro?”
“Não, tem a ver, sim, com o Natal, mas é a primeira vez que as festas se fazem na cidade; estão a assistir a isto pela primeira vez”, respondeu ele, extasiado por estarmos a assistir com ele ao nascimento de um fenómeno.
A culpa daquilo tudo era do novo presidente da Câmara de Santiago. Nós já tínhamos reparado que, nos últimos dias, uma azáfama especial se apoderara calmamente da cidade: muros estavam a ser caiados, passeios reconstruídos a alta velocidade; ao lado da esplanada do Morabeza nascera uma feira do livro que se espraiava pela rua pedonal, palcos eram carpinteirados...
“Não, o homem teve uma ideia genial e cada local do Plateau vai ter uma animação, toda feita pelo povo: numa praça vai dizer-se poesia, noutra faz-se teatro, noutras ruas vai ter música... E foi pedido que toda a gente saísse vestida de branco.”
E era tudo isso, com uma passagem rápida pelo Bar José da Rosa, que ele nos queria mostrar entre as sete e meia e as oito.
O nosso guia estacionou o carro num sítio meio proibido e deslizámos por entre gente vestida de branco. A cada cinquenta metros uma pessoa cumprimentava o Dr. José da Rosa e, a cada cem, ele parava para nos apresentar alguém com quem trocava saudações de Natal, com quem comentava que linda e animada estava a cidade. E até a nós, olhos recentes no Plateau e em Santiago, tudo nos parecia transfigurado. Na praça vizinha da loja de discos, um tipo fazia um monólogo cómico em crioulo, para logo passar a apresentar um coro que tomou conta do palco e da noite a cantar clássicos de Natal.
Começou a apetecer-nos abrandar o passo, ficar a olhar o que se passava e agora era o próprio Zé da Rosa que olhava pelo nosso relógio. Avançámos e na rua principal, mesmo ao lado do mercado, um palhaço interpelava um cacho de miúdos pequenitos a imitar os gestos e as vozes de animais: gatos, galinhas, cães e, suspense maior, o rugido e o avançar perigoso de um tigre. Em volta, pais e mães sorridentes, gargalhavam, batiam palmas. Mais à frente, já não distante da esplanada do Morabeza, uma roda compacta de assistentes não deixava ver o que se passava no seu centro, apenas nos chegava um batucar incessante. Furámos, esfuracámos entre cabeças e ombros até termos um vislumbre do miolo: eram batucadeiras, algo que já ouvira em CD mas nunca vira. Um rancho de mulheres sentava-se em círculo com um pequeno tambor entre as pernas e produzia um som contínuo que nos atingia directamente no plexo solar. No meio da roda, seis ou sete mulheres dançavam ao ritmo da percussão. De tempos a tempos, as instrumentistas aceleravam o ritmo para uma batida frenética e as dançarinas acompanhavam o frenesi sonoro com um movimento de corpo vizinho próximo da possessão, mexida que contagia quem vê, e passei a sentir o coração bater directo na garganta.
“Temos de ir...”, soprou a Ana Cristina a meu lado, depois de se conseguir arrancar daquela visão e ter olhado o relógio.
Regressámos ao carro, o olhar ainda preso nas manifestações que se desdobravam em cada canto, na multidão passeando-se de lá para cá numa festa de Natal que tinha algum tempero das celebrações dos santos populares portugueses.
“Ainda bem que insistiu para que viéssemos, Dr. José”, a Ana Cristina dava corpo ao que era exactamente o meu pensamento nesse momento.
“Não, tenho pena é de não termos podido passar pelo meu bar, mas, de facto...”
De facto já eram oito menos cinco e o jipe ainda gincanava entre gente, mas porque estávamos em pleno milagre de Natal o José da Rosa, guiando de forma algo destemperada, conseguiu pôr-nos no nosso destino à hora marcada.

© Fotografias de Pedro Serrano, cidade da Praia, Santiago, Cabo Verde, 2011.