08 maio 2014

O EMPRÉSTIMO

Numa tarde do Outono de 1977, tinha então vinte e quatro anos, fui procurar um amigo de quem era visita quase diária. Ele não estava e a mulher, de saída para compras, mandou-me entrar para que o esperasse na sala de estar, um compartimento um pouco soturno, com uma janela comprida e alteada de cave.
Por ali me sentei e, demorando-se o dono da casa, comecei a sentir-me enfartado com a espera pelo que me pus a olhar em volta à procura de algo com que me entreter. Mas o pequeno móvel de leitura que havia ao lado direito do sofá continha só revistas de malhas e crochet e um exemplar, de capa vermelha a imitar pelúcia, de Os Maias, o chorudo romance de Eça de Queirós.
Á época, o livro despertava-me o mesmo grau de interesse que uma revista de bordados e, para um tipo que gostava de ler como eu, esta aversão era herança directa do modo como no liceu me tinham feito a apresentação e o cultivo da literatura portuguesa. O que pode interessar a um rapaz de quinze anos uma epopeia, em verso, do século XVI, como Os Lusíadas, ou um secante drama de sacrifício e espessa honra como o Frei Luís de Sousa? Nada, zero: a única parte potencialmente picante dos Lusíadas (o Canto IX) ninguém nos a explicava ou, sequer, deixava ler e quanto ao Frei Luís de Sousa o nosso apetite ficava satisfeito com a passagem do “Romeiro, romeiro, quem és tu?”, a qual nos provocava um “Ninguém!” entremeado de barrigadas de riso. Exemplos destes multiplicavam-se, num bocejo permanente, ao longo da Selecta Literária, tomo onde se enfileiravam as pérolas da literatura portuguesa destinadas a cativar estudantes do liceu para a prosa doméstica.
Assim, foi por o meu amigo Carlos se estar a demorar para além do razoável e por absoluta falta de alternativa que peguei no livro do Eça e o abri na primeira página:
“A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula...”
Quando o Carlos chegou, tardiamente e sem remorsos, o meu primeiro gesto foi pedir-lhe o livro emprestado e raspar-me para casa logo que pude, a continuar a leitura. Dessa tarde à de hoje reli Os Maias umas vinte vezes (não exagero) e tenho por costume fazê-lo pelo mês de Abril, uma espécie de leitura de primavera, um equivalente mental ao abrir as janelas à casa, pôr os colchões e fronhas a apanhar sol; trocar a roupa de inverno pela de verão, que entristecia, encaixotada, na companhia da lavanda anti-traça.
Conheço Os Maias tão intimamente que, para além de saber o enredo de cor, trato por tu todos os personagens, dos principais (Carlos e Afonso da Maia, João da Ega) àqueles que sendo seres humanos diversos, como as três gerações de administradores Vilaça, se fundem na nossa mente num único personagem, à semelhança do que Gabriel Garcia Márquez viria a fazer com os Buendia e os Arcadio, quase oitenta anos depois, em Cem Anos de Solidão. Dou-me ainda com os sub-humanos como o gato de Afonso (o reverendo Bonifácio, que nas 600 páginas do livro dura muito mais do que é gatamente possível a um tareco) ou Niniche, a cadelinha de luxo de Maria Eduarda. Por o ter desfolhado tantas vezes consigo também aperceber o modo como Eça montou os andaimes que suportam a estrutura do romance e conduzem a história ao seu desfecho e identifico os termos que o escritor prefere para para dar o tom exacto ao cenário ou ao estado de espírito dos heróis: azul-ferrete, azeviche, faiscante, desmaiando, severo, fino, lânguido, sombrio, cavo, ebúrneo...
Que felicidade e engenho ter escrito uma coisa daquelas. Redigido ao longo de quase dez anos, Os Maias foram publicados (em dois grossos volumes) em 1888 por uma editora do Porto. Cento e vinte e cinco anos depois não perderam pitada de actualidade, tão bem o livro pinta as emoções, virtudes e defeitos comuns aos seres humanos e tão certeiramente retrata a maneira de ser portuguesa, muito dada, então como agora, a tempestades em pouca água, ao gosto por muita conversa e pouca acção, à inveja paralisante e maldizente perante os feitos dos outros.
Vou-me, mas deixo-vos com uma passagem que, estou certo, acharão aterradoramente actual e prova de que, na essência, os tempos não mudaram assim tanto (o personagem Jacob Cohen, para aqueles que não lhe conhecem a fronte altiva ou a mulher, é equivalente ao actual director do Banco de Portugal):
 - Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolutamente. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim havia de se continuar... 


03 maio 2014

PRIMAVERA

Por uma razão concreta, a Primavera faz-me recordar o meu pai. Esta lembrança está directamente relacionada com um acontecimento doméstico que ele presenciou e sobre o qual, daí em diante, queria sempre saber o ponto da situação.
Na parede mais protegida e ensolarada do alpendre de minha casa, numa latitude já vizinha do tecto, uma andorinha estrangeira construiu um dia – são passados bons anos sobre esse dia – um ninho, um daqueles abrigos arquitectados com rodriguinhos de lama justapostos que mais fazem lembrar uma colmeia do que um ninho. Após a postura e a migração para outras paragens nunca mais a andorinha retornou e o ninho quedou-se vazio no alpendre.
Anos passados, numa outra primavera, surpreendi um pequeno pássaro, de um castanho-fulvo que ganha brilhos canela quando a luz do sol lhe incide em pleno voo, peito generoso e bico fino e comprido de quem catrapisca insectos, numa actividade de sub-aluga, atarefado a acrescentar os rebordos terrosos do ninho com pequenos fragmentos de vegetação. Uns dias mais tarde, espreitava do ninho a cabeça de uma avezita que, plausivelmente, chocava ovos – pois que dali não arredava asa – e um parceiro fazia cautelosas trajectórias entre o quintal e o ninho por sobre o pescoço da Mia que, cá em baixo, vigiava atentamente a azáfama.
Foi a essa fase de instalação que o meu pai, passando uns dias aqui em casa, assistiu com prazer, prazer que se transformou em deleite quando quatro ou cinco bocas piantes eclodiram no ninho, reclamando o dia inteiro por sustento. E os pais não mais tiveram sossego, batendo as redondezas em busca de vermes e pequenos insectos para alimentar aquela corja uivante que me pejava a tijoleira de abundante merda fresca, despojos que a Carlota, no seu amor por animais, mangueirava sem se queixar.
A partir desse ano, de cada vez que ia ao Porto por Abril ou Maio, o meu pai, da sua poltrona na sala de estar, perguntava:

“Então, já tens inquilinos no ninho este ano?”
E agora, mesmo nos anos em que nenhum pássaro vem chocar no velho ninho, a primavera me faz lembrar o meu pai.


© Fotografias de Pedro Serrano, Praia da Areia Branca, Maio 2014.

  

23 abril 2014

VOU-TE CONTAR: 66. UMA BOA HORINHA

Rezam os actuais itinerários da internet que Ribeira de Pena, um concelho do distrito de Vila Real ainda encostado ao Minho, dista do Porto 106 km e que esses km se percorrem em uma hora e seis minutos.
Pois em 1980, ano em que fui viver por lá, Ribeira de Pena, um lugarejo perdido no nordeste, distava cerca de 130 km do Porto e em dias simpáticos um automóvel demorava duas horas e meia a chegar, tal as curvas serpenteavam do Porto até lá. Nessa altura, Ribeira de Pena era, literalmente, um beco sem saída: entrados na vila e querendo continuar para outras paragens era forçoso dar a meia volta e regressar à estrada por onde tínhamos chegado. Dali, a não ser penantes, não se podia furar noutra direcção e Vila Real, a capital do distrito, nos seus cinquenta km de distância, ficava a uma hora de nós.
No final de Outubro de 1980 Ribeira de Pena inaugurou um Centro de Saúde novinho em folha, pago na sua totalidade por coroas norueguesas. Apesar da bandeja, as peripécias que rondaram a construção, o equipamento e a abertura deste serviço de saúde (feito a pensar numa população que nada tinha) davam para escrever um livro, tendo-se as atribulações passeado pela falência e fuga do empreiteiro, pela construção de estufas de esterilização de material médico feita por fabricantes de fogões de cozinha reconvertidos e, claro está, o todo temperado pelo ingrediente clássico da panela lusitana: a pasmada ineficiência das autoridades de saúde do nível distrital.
Quer pelo isolamento nas serranias, quer pela distância a outros estabelecimentos de saúde mais sofisticados (Vila Real e, sobretudo, o Porto) foi decidido que o Centro de Saúde disporia de um pequeno internamento, o qual incluiria uma sala de partos e respectivas acomodações.
Tendo o Centro de Saúde sido inaugurado à pressa, sob a pressão política do costume, ainda sem o equipamento de que necessitava (abrimos ao público, por exemplo, sem um único medicamento no serviço que ostentava uma tabuleta iluminada a dizer URGÊNCIA), ficou acordado entre mim (o jovem director da coisa), o patronato distrital e os sensatos noruegueses, supervisores do andamento do projecto, que a maternidade só seria aberta uma meia dúzia de meses depois, dando tempo a que se terminassem as obras ainda em curso no sector do internamento, a que o equipamento em falta chegasse e as restantes valências prioritárias (consultas, seguimento de grávidas e crianças, vacinação, urgência) estivessem estabilizadas e a rolar a velocidade de cruzeiro.
Ao povo da Noruega, Ribeira de Pena agradecida 25.10.1980
Chegou o inverno, um daqueles invernos gelados como só Trás-os-Montes os concebe, e o aquecimento do Centro de Saúde mudo como um mármore: o esquecimento dos construtores em adicionar anticongelante fizera gelar a água na tubagem dos painéis solares que cobriam o telhado e rebentara, para todo o sempre, com o moderníssimo aquecimento sustentável. Sim, é certo que havia a possibilidade de remendar o inconveniente recorrendo ao aquecimento a gás, pois o Centro estava equipado com um enorme reservatório, resguardado numa cerca das traseiras. Mas a enorme botija ecoava de vazia: faltava-lhe o contrato com a firma fornecedora, ninguém tratara disso e eu não tinha nem dinheiro nem autonomia para o poder assinar – era mais um daqueles papéis que ganhavam pó nos sepulcros de Vila Real.
Numa dessas manhãs geladas, em que percorríamos os corredores batendo os pés para os manter minimamente quentes, a Graça, a nossa energética e competente enfermeira-parteira, sapateou da consulta de Saúde Materna até ao meu gabinete, que franqueou afogueada:
“Doutor Pedro, temos uma mulher em trabalho de parto na consulta...”
Saltei da cadeira, fui dizendo, enquanto corria ao lado dela:
“Temos de dizer ao Albano para ligar aos bombeiras: chamar uma ambulância, mandá-la já para Vila Real...”
“Não vai dar tempo, está em dilatação máxima, é expulsão para menos de meia-hora...”
“Mas por que é que ela não apareceu antes!?”, dirigi toda a minha raiva sobre a cliente, “não andava a ser seguida na consulta?”
Ela abanou a cabeça:
“É um prematuro, pelas minhas contas à volta de sete meses e pouco. A mãe não fez uma única consulta de seguimento, não está sequer vacinada, nada!”
“Então parece que só nos resta inaugurar a maternidade, Graça...”
Num ambiente gelado, na sala sombria e quase nua, a marquesa foi preparada à pressa e o menino (era um rapaz) caiu-nos nos braços quase em silêncio, sem o choro que num momento destes é bom de ouvir. Sim, era um prematuro e pesava 1.600 gramas, um kg abaixo do que deveria pesar um recém-nascido normal! E estava roxo de frio, calado de entupimentos, evidenciando sinais nítidos de quem não se ia safar sem cuidados especiais, um dos quais seria ser enfiado de imediato numa incubadora que o aquecesse, arejasse e resguardasse do mundo exterior. Incubadora que não tínhamos, pois todo o nosso equipamento a vir estava pensado para gravidezes e partos normais. Olha a porra!
“Ai, doutor Pedro, temos de o por andar daqui para fora depressa, que senão ele vai-se-nos!”
“Eu sei, Graça, mas como vamos remeter o embrulho até ao Porto?!”
Não sei se foi a palavra embrulho que despoletou o caminho a tomar, o certo é que a Graça era uma profissional prática e eu um tipo com imaginação. Foi por aí que o nosso olhar caiu sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama onde gemia a parturiente, ainda dorida de um esforço prestes a volver-se inútil.
E assim construímos a nossa incubadora: mandámos o pessoal da cozinha ferver água, encher duas botijas; e que nos trouxessem um rolo de papel de alumínio, daquele de embrulhar a comida que vai ao forno. Depois entalámos as botijas na gaveta, uma daquelas gavetas de metal de mesinha de cabeceira de hospital, e atulhámo-la com rolos de algodão, de modo a parecer-se com um ninho. Finalmente, enrolámos o presente em papel de alumínio, só os olhos e o nariz ficaram de fora, e enfiámo-lo na gaveta com a nossa bênção. A ambulância já ronronava à porta da urgência, as traseiras muito encostadas de molde a diminuir a distância a percorrer pelo bebé sob o gélido ar exterior. A Graça também saltou lá para dentro, para fazer uma entrega mais esclarecida da encomenda aos atónitos olhos do pessoal da Neonatalogia do Hospital de Santo António. 
Graça Tavares, Pedro Serrano e o embrulho, 1981.
Uns meses volvidos, já a primavera ia adiantada, a Graça e eu fomos padrinhos de baptismo do menino e tudo acabou em bem. Mau padrinho como sou, nunca mais soube nada dele, mas calculo que ainda circule por aí – deve andar pelos seus 35 anos, agora. Nem ele imagina a boa horinha que teve quando aterrou neste mundo.     


© Fotografias, de cima para baixo: (1) Pedro Serrano, Ribeira de Pena, 1983; (2) Per Hjortdahl, Ribeira de Pena, 2008; (3) e (4) fotógrafos desconhecidos, Ribeira de Pena, 1981.

21 abril 2014

AS CARPAS



Clareava, e no início
Como se fora um indício
Tocou em braille o telhado
[E dei por mim despertado]

Num sinuoso instante
Atingiu a voz possante
De um regato apressado
[E dei por mim acordado]

Os pássaros
Absortos nas penas da existência
Já não se fazem ouvir
Nas telhas, só a chuva a cair

Uma serena cadência
Repescou a sonolência
Vão as carpas a fugir...  
[Deram por mim a dormir]
Banana madura. © Fotografia: Pedro Serrano, Abril 2014. 

11 abril 2014

A VIDA DOS OUTROS

O que mais chamava a atenção era o espaço vazio cavado entre as duas extremidades da grande mesa em volta da qual se atarefava o grupo. Perto da porta da sala, agrupava-se um enxame zumbidor de sete ou oito  mulheres, enquanto na outra extremidade, uma ponta mais silenciosa – se assim se podia dizer – se sentavam apenas duas.
Entre os dois polos, camuflando ao menos prevenido aquele fosso e dando um ar de intensa actividade ao tampo envernizado da mesa, dispunham-se cortes de tecido, entretelas, carrinhos de linhas e novelos de lã; tesouras, e revistas com as folhas centrais desdobradas como se fossem mapas de alguma jornada militar.
Mas havia uma razão para aquela fronteira, garantia Dona Gertrudes à sua interlocutora:
“É que na realidade, Dona Rosi, a mim e à Dona Lucinda não nos interessa assim tanto a vida dos outros, não sei se me entende...”
Dona Rosi percebia perfeitamente, de facto, jurava do outro lado do fio, também era uma dessas:
“Olhe que o que sei dos outros é mais por que me vêm dizer do que por perguntar...”
“Foi por isso que, com naturalidade, nos acabámos por sentar naquele canto da mesa, perto do aquecedor, onde havia mais sossego e não nos sentíamos tão obrigadas a cortar na vida alheia...E passou a ser o nosso sítio habitual.”
Mas acontecera aquela perturbação na vida de Dona Lucinda, a quem um divertículo intestinal levara ao aparecimento de uma febre inexplicável e, após três semanas de angústia e incerteza, a um internamento hospitalar!
“Não me diga,” tartamudeou Dona Rosi, “estou para a minha vida! Internada!?”
“Vai para seis dias,” garantiu Dona Gertrudes, satisfeita com o tempo de exposição à ignorância da outra, “olhe que em dois dias levou cinco garrafas de soro – parece que estava muito desidratada, coitadinha; as cólicas...”.
“E eu sem saber de nada... Nem sei que me parece; espero que ela não fique a pensar que foi falta de cuidado da minha parte...”
“Ora, Dona Rosi, a Dona Lucinda conhece-a melhor do que isso – é uma senhora na verdadeira acepção da palavra...”
“Lá isso...”
“Foi por essa e por outras que acabámos por escolher sempre aquela ponta da mesa, a ficar um pouco arredadas daquele frenesi de bota abaixo, não sei se me entende. Mas ao fim de uma semana, logo que o estado da Dona Lucinda estabilizou e foi dada como fora de perigo, voltei aos Encantos d’ Avozinha e, ao entrar – já lá estavam as outras todas – não sei que me pareceu sentar-me lá ao fundo, sozinha, e como visse uma cadeira vaga no meio delas perguntei se estava vaga...”
“Que a gente saiba...”, respondeu logo uma, assim com uma ponta de gelo na voz, que eu até estive para nem me sentar, juro-lhe. Mas também não queria estar a passar por enjoada ou da laia delas, não sei se percebe...
“Ah, não deve ter sido nada fácil para si, Dona Gertrudes...”, solidarizou-se Dona Rosi enquanto mudava de canal na TV a quem tinha emudecido o som.
“Só Deus sabe... Pois sentei-me, tirei as agulhas e os carapins do saco e comecei a tricotar em silêncio. Pois julga que alguma delas me perguntou sequer pela Dona Lucinda, por que razão deixara de aparecer? Nada, um desprimor, aquilo, para mim, classificou-as de vez!”
“Ah, veja-me só! Que insensibilidade!”
“Para falar da vida dos outros, para cortar em toda a gente – olhe que não há uma só alma que seja perfeita para aquelas mulheres – estão para ali viradas, mas para perguntar por uma pessoa que convive com elas duas vezes por semana, que até podia estar morta...”
“Que gente...”
“Pois sentei-me, pus-me a trabalhar e não é que, de repente, entra pela porta a Dona Adosinda, aquela a quem eu estava a ocupar a cadeira e que, pelo tom das outras, fiquei a julgar que nesse dia não ia?!! Olhe que me ia dando uma coisa...”
“Veja só, e ninguém a avisar...”, disse Dona Rosi descolando com cuidado o selo do pacote de bolachas, de modo a não exportar ruído para a ligação telefónica.
“’Então está sentada no meu lugar?’,” disse ela mal bateu a porta. “Olhe que fiquei branca, até me embrulhei a murmurar: É que julguei que estava vaga..., também não quis estar a apontar o dedo às amigas dela, não sei se percebe...”
“E ela?”, perguntou Dona Rosi, interessada.
“Quando me viu a fazer tenção de me levantar disse que me deixasse estar, que ia ela lá para o fundo – assim como quem fala que é obrigada ao degredo! Olhe que nem sei que me apeteceu responder-lhe, mas não estive para me rebaixar ao nível delas – há gente sem instrução mais bem educada aí pelas aldeias. Então agarrei nas minhas coisas, levantei-me e fui-me sentar, muda como um sepulcro, no meu lugar!”
© Fotografia de Pedro Serrano, Barcelona 2012.



07 abril 2014

ALGUMAS DELAS


Aqui há uns dias andei a fazer arrumações no disco do meu computador como quem mexe em sótãos pouco visitados ou assim. Uma das coisas que descobri, e que já esquecera, foi este video que alguém me enviou no longínquo mês de Maio de 2009. A articulação da sequência de imagens está belissimamente conseguida e terá dado um grande trabalho ao seu autor (Philip Scott Johnson); a música de fundo (Sarabanda da Suite n.º 1, em Sol maior, para violoncelo solo, de Bach) não podia ser mais adequada na sua beleza insistente e áspera.
Nota: carregue no quadradinho da direita (por baixo da tira vermelha) para ver em tamanho ampliado.

03 abril 2014