16 março 2015

NÃO VENHAS TARDE: 5. FASTEN SEATBELTS

A manhã e a crua realidade obrigaram-nos a somar uma quarta regra às três orientações gerais de que falei ontem. Vamos ter de economizar o mais possível na viagem, pelo menos até ficarmos com uma noção de quanto custa a vida em cada um dos países que vamos atravessar: Grécia, Turquia, Irão, Afeganistão, Paquistão e Índia. E há que contar ainda com imprevistos, pois em, pelo menos, três destes países não existe embaixada ou consulado português que nos possa socorrer em hora de aflição.
Estamos por nossa conta e, chegada a hora da verdade, ninguém mostra simpatia especial pela situação portuguesa e pela nossa revolução floral: o escudo está de rastos e na conversão dos rolos de notas para dólares o emagrecimento em desvalorizações, taxas e comissões foi de estarrecer. Para agravar este panorama, o nosso dinheiro vai voltar a ter de ser reconvertido em dracmas gregos, liras turcas, riais persas, afeganis e duas diferentes espécies de rupias: paquistanesas e indianas. 
Gatwick fica a cerca de 50 km de Londres e, depois de deixarmos as mochilas num cacifo do aeroporto, apanhámos um comboio para lá chegar. Temos o dia inteiro para gastar, o nosso voo para Atenas é só à meia-noite.
O Verão aproxima-se do fim, Londres está pincelada a amarelo, vermelho e verde, pois há grandes jardins e árvores por todo o lado. O dia está morno e, nos parques, esquilos fazem crepitar os tapetes de folhas e marinham pelas árvores acima, indiferentes a quem apanha um sopro de sol nos relvados. Almoçámos (mal e caro) no Soho e demos uma enjoada volta pela famosa Carnaby Street, que parece uma versão multiplicada em espelho dos Porfírios!
Perto do British Museum encontrámos, numas ruas transversais silenciosas, as tais livrarias de que trazíamos referência: comprámos três versões do I Ching, o Overland to India and Australia e um irresistível livrinho com ilustrações de caligrafia religiosa islâmica, em que a beleza da escrita é, ela própria, um tributo ao divino. Numa papelaria de comer e chorar por mais esperavam por nós os cadernos de capa dura onde vamos registar os nossos dias; o meu é da marca Challenge e a capa é do azul-prússia que se ouve dizer ser o céu do Sul.
À hora do jantar regressámos ao aeroporto e no duty free fizemos alguns investimentos: dois relógios Timex e dois porta-moedas horrorosos, ilustrados em tons berrantes com a Torre de Londres e o Big Ben, bens que tencionamos revender por bom preço no Paquistão ou assim, de modo a atenuar o que perdemos nos câmbios. Pobres portugueses espertinhos que não sonham estar a dirigir-se a paragens onde se acocoram sobre os calcanhares, estribados na longa tradição da necessidade, da paciência e da filosofia de nunca deixar escapar um negócio, os comerciantes mais experientes e dotados do universo.
Chamam para embarque o voo da British Airways para Atenas. Lá vamos nós, crivados de vacinas e advertências, com as mochilas a aumentar perigosamente de peso, sem um mapa, sem máquina fotográfica e sem um plano concreto de viagem – destinação Índia, o resto se verá!
Pelos riscos de água tracejados na vigia do Rui percebe-se que lá fora chove a potes e o panorama piorou sobre a Alemanha onde atravessámos, sem sinais de conseguir sair, uma tempestade que inclui relâmpagos e ventania batida de água, algo bastante assustador àquela altitude. O avião aguenta-se mal, sacoleja e enfrenta a tormenta penosamente no mais completo breu. Há pessoas a correr para os quartos de banho, em desrespeito pelo amarelo nauseado do fasten seatbelts, que ainda não se apagou desde Londres. Outros preferem aproveitar o facto de o avião ir meio-vazio e deitam-se, usando vários assentos como leito.
Vou sentado na coxia e acabo por meter conversa com um grego que vai sentado no outro lado do corredor e que também não parece muito incomodado com os sobressaltos. De dicionário na mão, após partilharmos um cigarro, ele tenta fazer-se entender e transmitir-me de forma adequada um pedido: uma das malas que transporta contém uma batedeira eléctrica comprada em Inglaterra, o grande sonho da mãe. Pelos vistos as alfândegas gregas são temíveis para os nacionais, mas permissivas com os turistas. Será que eu não me importaria...? “Claro”, respondo, que posso eu sentir-me se não contente por ser intermediário na realização de um sonho helénico? O Rui já dorme, encostado à sua janela; mudo de lugar e estendo-me em três assentos duas filas mais atrás. Lá fora a tempestade acalmou e ainda nos sobram duas horas de voo.
Nikolas sacudiu-me delicadamente quando estávamos a descer para Atenas; espreito pela vigia: a noite está linda e o aterrar foi suavíssimo.

Encantados com o convite, seguimos para casa de Nikolas como se fizéssemos parte do clã que o foi esperar ao aeroporto e, para isso, fomos obrigados a apanhar dois táxis. À base de grego e sorrisos os pais de Nikolas tentam explicar como nos estão eternamente agradecidos por termos feito entrar a batedeira no país. Ora essa, não custou nada, nem sequer me abriram a mala. São seis da manhã e pela janela do táxi vejo, entusiasmado, o sol a tornar nítido o dorso das montanhas. Sou o único a reparar em tal trivialidade e, embora péssimo aluno no liceu em quase todas as cadeiras – incluindo História – sinto um fundo de emoção por estar em solo grego, como se estivesse a ver locais onde foi rodado um filme famoso. Mas à minha volta todos aqueles Áticos vão entretidos a falar pelos cotovelos e a saudar o regresso do electrificado filho pródigo.

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Março 2015; (2); Grécia, 2014.


13 março 2015

NÃO VENHAS TARDE: 4. AS 3 REGRAS DE OURO

16 de Setembro, aeroporto de Gatwick; duas da manhã

Em frente a mim, sentado num sofá, o Rui dorme dentro do saco-cama ao lado de uma gaja linda que dorme também. Foi um longo dia e ele tem mais razões para estar arrasado do que eu, pois sempre escapei à constrictora emocional das despedidas e das derradeiras pressões para não partirmos nesta jornada insensata.
No meu caso, há cerca de um mês que não punha os pés em casa, deixei praticamente de o fazer nos dias que se seguiram à cena com o meu pai em torno do dinheiro. Durante esse tempo fui dormindo aqui e ali, em casa de amigos, em apartamentos desconhecidos de novos conhecimentos; passando por casa a altas horas da noite para não me cruzar com ninguém, ir buscar roupa ao meu quarto e acrescentar a data da ocorrência numa folha de papel que, abandonada em cima da secretaria do meu quarto, diz: “Hoje não venho dormir.”
Abro a porta da rua procurando não fazer ruído, como um ladrão subo, às escuras, as escadas para o primeiro andar, acendo o candeeirinho que está sobre a mesa e dou por mim a olhar para o quarto vazio com tristeza: a cama feita, os meus pertences a ganhar a tonalidade do esquecimento. A bem dizer já não pertenço ali, os meus dias de criança e adolescente terminaram – em breve passarei a ser uma visita naquela que foi a minha casa. Ninguém me está a forçar a isso, é a vida que segue o seu caminho.
Mas, vendo a coisa por um prisma mais sorridente, este afastamento sem despedida evitou-me a erosão diária a que o meu companheiro de aventura foi sujeito por parte dos pais e de que fui testemunha, pois para além de nestes últimos tempos ter dormido em casa dele amiúde, dali fizemos o centro de lançamento da viagem.
Na véspera da partida fiquei em casa do Juca, estivemos a conversar os dois até às sete da manhã e havia algo de última conversa no nosso diálogo lento, o que o tornou intenso. Com três horas de sono no bucho, vivi o almoço em casa do Rui como se estivesse a assistir a uma projecção de cinema verité: o nervosismo do pai do Rui, que no seu incómodo desaparecia entre portas; o olhar da mãe que – depois de todas as tentativas histriónicas para evitar a largada – se tornara suplicante; a lamentação surda e de maxilares aferrolhados do Juca; o embaraço do Ventoinha, e o soslaio semi-irónico de M., a actual namorada do Rui, já habituada a todos estes ingredientes angulosos. Depois, no meio de lágrimas, partimos para Lisboa numa boleia do Juca e na companhia fiel da M. e do Ventoinha. Em Lisboa fomos aos Olivais buscar L., até há não muito minha namorada, a qual, extasiada com a nossa demanda, não quis deixar de estar presente na despedida para a “Viagem”. Saímos da Portela por volta das oito da noite e, na curva da gate, não nos virámos para trás num adeus, como é próprio do viajante empedernido.
Póvoa de Varzim, Agosto 1976: Rui, Pedro, Ventoinha, Manel.
A chegada a Inglaterra foi conturbada: os nossos cabelos pelos ombros, as jeans de cano dobrado, as minhas botas negras de cabedal pelo joelho e o casaco preto de couro do Rui; as mochilas carregadas de sinais inequívocos de “atenção gente estranha” e, sobretudo, as nossas conjuntivas ainda congestionadas pelo derradeiro charro fumado antes de entrar no avião, fizeram disparar o ímpeto controlador dos funcionários alfandegários. Apesar de em trânsito para outras paragens e apenas com uma permanência de 24 horas em solo inglês, estivemos quase duas horas a ser espremidos num inquérito policial que incluiu uma lista exaustiva de perguntas e uma devassa sistemática e milimétrica às nossas mochilas após termos sido conduzidos a uma sala especial.
– É capaz de explicar a razão pela qual este comprimido não tem o nome gravado – queria saber o tipo fardado de azul, apontando uma drageia de anti-histamínico que, selada num blister com uma das faces transparentes, não relevava o título à vista desarmada.
  Sei lá – respondi – possivelmente porque o comprimido está virado ao contrário: o nome deve estar gravado no outro lado..., no dark side – improvisei em homenagem ao penúltimo álbum dos Pink Floyd [1], grupo genuinamente inglês. – Se quiser – acrescentei – pode abrir para verificar.
Mas, na bancada ao lado, tinha acabado de explodir um facto bem mais interessante. O tipo que esquadrinhava a mochila do Rui descobrira algo inusitado no interior dos tubos de alumínio da estrutura e, usando um gancho de metal, esfuracava por ali dentro como se estivesse entretido com o recheio de uma antena de lagosta! A descoberta dos rolos de notas, uma metade na mochila do Rui e, minutos mais tarde, a outra metade na minha, emocionou os homens. Lá lhes explicámos que no nosso país, graças a uma mudança política de regime recente, não era permitido sair com mais do que 7 contos e que 7 contos não era suficiente para sobreviver três meses fosse onde fosse, mesmo que esse “fosse onde fosse” fosse a Índia.
  Mas então vocês são uns vigaristas! – desabafou o carrasco do Rui.
– Penso que todos o somos um pouco – respondeu o meu amigo.
Depois de uma última pergunta, acompanhada de muitas sorvedelas nasais sobre a pobre flor seca aprisionada entre duas páginas do Tarot que, juntamente com O Fio da Navalha [2] e outros livros integram a nossa bibliografia obrigatória para a viagem, fomos mandados entrar em paz no país, até com um perceptível ar de peso na consciência por parte de quem nos revistara. Para nós, apressados a considerar tudo o que o vinha ao nosso encontro como experiência positiva e coincidência significativa, o incidente na alfândega acabou por se revelar muito útil, pois, sem o auxílio daquele providencial gancho, não estávamos a ver como iríamos sacar do âmago das mochilas os rolos de escudos que precisávamos de trocar, o mais tardar, no dia seguinte!  
Agora já passa das três da manhã e o Rui mudou de posição dentro do saco-cama o que o fez adornar confortavelmente sobre o ombro da beldade que dorme ao lado. 
A mim, está a custar apagar-me. Não consigo dormir sentado e, para além dessa limitação, estou excitado com tudo isto que nos acontece. Portugal ficou muito lá para trás e a carga emocional das últimas semanas parece ter-se dissolvido no impacto daquele espaço imenso em que nos encontrámos, e onde, com ar naturalíssimo, dezenas de pessoas aguardam ligações com todos os cantos do mundo.
Estou, em folhas soltas, a escrever estes apontamentos sobre o Tarot, sentado, de pernas cruzadas, encostado a uma coluna da gare de Gatwick: amanhã vamos a Londres e tenciono comprar um caderno para dele fazer o meu diário de bordo. Procuramos também um Overland to India, um guia underground para aquelas paragens de que ouvimos falar, e o Rui quer comprar uma edição em condições do I Ching. Ele tem uma referência qualquer para umas livrarias alternativas que há para os lados do British Museum onde poderemos encontrar tudo isto.
No Porto, nos meses que antecederam a partida, fomos, de conversa em conversa, estabelecendo alguns assentimentos comuns para orientação da viagem. São poucas, as regras, mas funcionam como espinha dorsal do empreendimento e, de certa maneira, são o cartão de visita do tipo de viajantes que seremos, em tudo distintos do turista típico:
Primeiro – viajaremos sem máquinas fotográficas ou mapas: iremos evoluindo na rota ao sabor da etapa seguinte.
Segundo – para desenjoar do que tem sido ultimamente a nossa vida neste domínio e estarmos mais disponíveis para experiências espirituais, evitaremos envolver-nos em contactos amorosos ou sensuais. Já por isso partimos de casa mais ou menos livres de amarras, embora eu mantenha uma vaga ligação sentimental em Guimarães e o Rui outra no Porto.
Terceiro – um pouco por razões similares às do ponto anterior não recorreremos a substâncias alteradoras do estado de consciência, como se costuma dizer. Ou seja: evitaremos erva, hashish e todas as outras tentadoras substâncias que o Oriente produz. Esta última regra parece-me, a mim, a mais difícil de cumprir, precisamente pela profusa oferta dos locais para ondes nos dirigimos!
Olho o meu adormecido amigo: na génese da sua viagem está uma marcada tendência mística, ele parte à procura de uma razão de ser e do respectivo modo de estar e, não menos importante, da figura de um mestre que possa ajudar a cumprir o caminho e o atingir desse estado que, conforme as escolas, uns chamam de conhecimento e outros de iluminação. Eu também me interesso por essas coisas, claro, e, desde os ensinamentos de Buda aos do brujo mexicano D. Juan[3] tenho lido um pouco de tudo nos últimos cinco ou seis anos. Mas a minha aproximação é mais diletante, diria (e digo-o agora, na confortável posição que a passagem de trinta e cinco anos sobre o assunto possibilita). Resumindo: embarco nisto mais como um turista exótico do que como um aprendiz de feiticeiro.
Os olhos fecham-se-me. Pelo tecto da gare insinua-se a luz acinzentada da madrugada. Como diriam os Moody Blues, uma outra banda inglesa de culto:

Dawn is a feeling,
A beautiful ceiling,
The smell of grass
Just makes you pass
Into a dream...[4]



[1] Dark Side of the Moon, 1973, Harvest/EMI Records.
[2] O Fio da Navalha, de Somerset Maugham, publicado em 1944. Edição portuguesa, na Livros do Brasil-Colecção Dois-Mundos, editada nos anos de 1950.
[3] Mediados através dos profusos escritos do seu profeta americano Carlos Castañeda, editados pela primeira vez em português pela Record, Rio de Janeiro, durante os anos 70.
[4] Da canção “Dawn” (Pinder), do álbum Days of Future Passed, 1967, Deram/Decca.

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Pedro Serrano, Porto 2010; (2) Fotógrafo desconhecido, Póvoa de Varzim 21 de Agosto 1976.

09 março 2015

NÃO VENHAS TARDE: 3. ATRAVÉS DO UNIVERSO

A 14 de Fevereiro de 1968 os Beatles partiram para a Índia, em parte arrastados por George Harrison que já por lá estivera no ano anterior e que, há algum tempo a essa parte, se interessava quer pela filosofia e religião hindus quer, mais profissionalmente, pela sofisticada música indiana. A primeira vez que essa influência se fez sentir pode ser apreciada na cítara usada na canção “Norwegian Wood”[1] e, posteriormente, de modo mais marcado em dois discos que, curiosamente, antecederam a viagem: Revolver, de 1966, e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, de 1967.
Quanto à viagem dos quatros rapazes (as idades oscilavam entre os 25 e os 28 anos) para Rishikesh, uma localidade no sopé dos Himalaias e lambida pelas águas do Ganges, a sua finalidade prendia-se maioritariamente com a procura de uma espiritualidade e de um tipo de conhecimento diferente do vigente nas alienadas sociedades ocidentais; uma coisa que perdurasse. Nesta viagem de 1968 a música era um fito muito longínquo e George Harrison não se fez mesmo acompanhar de nenhum instrumento! Mas o ambiente indiano foi propício à fecundidade musical do grupo e, apesar de terem permanecido no país apenas dois meses, as canções que compuseram por lá (quase todas as trinta músicas do duplo Beatles–White Album, de 1968, e ainda algumas das canções de Abbey Road, de 1969) e a onda de influência, musical e existencial, que essa experiência desencadeou ainda hoje vibram através do Universo...
Eu que o diga, que acabei por ir lá parar na peugada disto tudo. Em Fevereiro de 1968 tinha catorze anos e não podia fazer mais do que babar-me de deslumbramento com os caminhos que os meus músicos e mentores preferidos exploravam, com os ecos, amplificados e distorcidos pelo mito, que nos chegavam à pasmacenta cidade do Porto. Mas oito anos volvidos, em 1976, já decidia por mim, mesmo que isso pudesse significar uma ruptura familiar, e a esse exaltar do Oriente que os Beatles tão bem encarnaram juntou-se o conhecimento que outras explorações da minha curiosidade trouxeram.
Desde que me lembro, e por determinantes que não consigo precisar, o Oriente exerceu um tremendo fascínio sobre mim, a Índia em particular e, na infância, a minha imaginação reagia com fervor a cenários de serpentes encantadas, faquires que acomodavam a sesta em camas de pregos, templos abandonados cuja única função era a de servir de fundo à deambulação listrada de um tigre solitário. Mas, nesses tempos, tudo quanto contribuía para o alimentar da minha fogueira eram as tiras de texto quase anedóticas dos almanaques, um ou outro romance de aventuras juvenil e as páginas ilustradas do National Geographic Magazine. Nesses dias eu era muito pequeno e vivia num local demasiado isolado para ter acesso à chama que se acendia em torno do Levante e do Oriente, que crescia nas vozes dos americanos e ingleses que se exilavam na Grécia e em Marrocos (como Lawrence Durrel e Paul Bowles) ou naqueles que os visitavam com vagar e teciam as suas crónicas e escritos embebidos pelo pulsar dessas latitudes, como Henry Miller, Truman Capote, Allen Ginsberg ou Jack Kerouac.
George Harrison, Paul McCartney, John Lennon, Donovan, Índia 1968.
Depois, vieram os anos 60 e explodiu o tal novo ressurgimento da Índia de que os Beatles, mas não só, foram um dos principais culpados. É que eles, não convém esquecê-lo, na sua curiosidade e vontade de experimentação, beberam nessas fontes de onde vinha o rock and roll e a cultura que lhe estava associada. E a famosa viagem de Kerouac através do Estados Unidos, que explodia em On the Road[2], tinha antecedentes...
É cíclica esta atracção do frenético Ocidente pelo imperturbável Oriente. No final do século XIX, início do século XX, houve febre semelhante e a pintura impressionista, por exemplo, foi moldada na influência da pintura japonesa, assim como são impressionadas pelo Oriente a literatura e a poesia europeias e, apenas citando exemplos caseiros, podemos encontrar vestígios do velho fascínio em Pessoa e Mário de Sá Carneiro. Eça de Queiroz, esse, fez e desfez malas na poeira do Levante, chegou a espetar as estacas de um pavilhão japonês numa quinta dos Olivais com vista para o Tejo...
Assim, quando naquele escritório me zanguei com o meu pai, não foi só por me sentir traído na promessa que fizera de me financiar uma viagem de fim de curso onde eu quisesse. Sentia-me, também, atrasado, sufocado, preso num cantinho onde os dias se repetiam quando tudo estava a acontecer lá fora! Porra, será que era assim tão difícil de entender? E agora, que me preparava mentalmente para partir com a consciência de ir já agarrado ao rabo do cometa, ainda tinha de me debater com detalhes comezinhos como estes! Dinheiro?!
O problema é que, por barato que fosse o Oriente e por esquálidas que quiséssemos as nossas comodidades de viajantes, tudo aquilo ia custar algum dinheiro. O Rui e eu tínhamos calculado, por alto e para quatro meses de viagem, um orçamento individual de 50 contos (250 euros), o que, em termos actuais, corresponderia a qualquer coisa como 1.800 euros. Mas, para já, tudo quanto possuía era um bela nota verde de 100 dólares (14 contos) que o meu tio Mário oferecera pelo meu recente sucesso académico. A isto poderia somar os 7 contos oficiais do meu pai – ficavam ainda em falta cerca de 30 contos.
Bati à porta da família, mas como toda a gente ia estando a par do conflito e das minhas ideias loucas, levei delicadamente com os pés; as recusas irritantemente temperadas com um futurista “um dia ainda me hás-de agradecer...”.
Acabei por conseguir o financiamento em falta junto de alguns amigos que admiravam o projecto e o primeiro dinheiro que, como médico, ganhei no ano seguinte foi para pagar, a prestações, essas dívidas.
Conseguido o dinheiro, o choque seguinte com a realidade foi transformar esse, já pouco, capital em divisas que fossem convertíveis em todos os países que iríamos atravessar, isto é: dólares americanos. O escudo estava, em termos de cotação, pelas ruas da amargura e os próprios bancos portugueses nos demonstraram isso na troca da pequena fatia que podíamos cambiar legalmente para a transformar em traveller’s checks, uma forma relativamente segura de transportar dinheiro numa época pré cartões de crédito ou de débito e em que máquinas de levantamento automático de dinheiro eram um sonho tão de ficção científica como a Internet ou os telemóveis. Os traveller’s checks, como o nome sugere, eram cheques emitidos por instituições financeiras americanas (habitualmente o American Express ou o Thomas Cook) que podiam ser trocados por dinheiro em todas as agências destas instituições ou, até, aceites como forma de pagamento directo por muitos estabelecimentos à volta do mundo. Ainda mesmo antes de tirarmos os pés do Porto o nosso dinheiro diminuiu a olhos vistos em taxas e depreciações.
On The Road, capa da 1.ª edição portuguesa, 1960.
E, atente-se, este dinheiro legalmente cambiado era apenas uma oitava parte dos nossos escudos a converter, excepção feita à abençoada nota verde do meu tio Mário. Quem nos iria trocar o resto num Portugal onde exportar escudos ou divisas era um crime? Batemos a uma série de portas, mais ou menos clandestinas, mas as comissões eram tão exorbitantes e as condições de segurança da própria transação tão duvidosas que acabámos por decidir enfiar os nossos grossos rolos de notas em escudos no miolo vazio dos tubos de alumínio da estrutura das duas enormes mochilas cor de laranja que nos emprestaram para a viagem. Quando chegássemos a Londres, a nossa primeira paragem a seguir a Lisboa, trocaríamos aquilo tudo por dólares, libras esterlinas, francos suíços ou  cheques de viagem, conforme o que se mostrasse mais vantajoso cambialmente falando.
“Londres?!”, admirar-se-á o leitor mais atento a um fio condutor geograficamente impecável, “então não é para Sul que eles vão?”
Certo. Vamos sempre para Sul e para Leste, mas achámos não valer a pena perder tempo com a Europa mais imediata, ajuizámos ser um desperdício de dias, de dinheiro e de energia rolarmos para sul pela Espanha, pela França, pela Itália, Jugoslávia… Ou, trajecto mais interessante mas praticamente inviável, atravessarmos para África em Algeciras e atingirmos o Irão através do Iraque depois de atravessar Marrocos, a Argélia, a Líbia, o Egipto...
Assim, apagando a Europa do mapa, apanharemos um avião para Londres e, daí, um voo para Atenas onde, na prática, começa a rota do Oriente. É que não há voos directos de Portugal para a Grécia, por isso a Inglaterra. Para além do mais, há umas compras imprescindíveis que temos de fazer em Londres. 




[1] Álbum Rubber Soul, comercializado em Inglaterra em dezembro de 1965, EMI Records.
[2] Publicado em1957. Editado em Portugal, com o título Pela Estrada Fora, pela Ulisseia em 1960.

05 março 2015

NÃO VENHAS TARDE: 2. ANCORADOS

O verdadeiro nome do Piolho é Café Âncora d’Ouro, mas ninguém o designa, fosse nos anos 70 do século XX ou hoje em dia, por esse nome. Acresce que o estabelecimento não possui nenhuma das características marítimas que o nome oficial deixa supor.
Para começar, o Piolho fica distante de qualquer linha d’água, está situado no centro da cidade, numa das esquinas de uma praça que também não se chama assim mas a que toda a gente se refere como Praça dos Leões; equidistante da Faculdade de Ciências e da Faculdade de Letras, monos arquitectónicos de paredes tão enegrecidas e ar tão extinto como os fundilhos de um limpa-chaminés. Depois, no interior do café, para além de uma âncora em baixo-relevo no espaldar das cadeiras, nada mais há que recorde o mar, sejam cordas com nós, papagaios num poleiro ou conchas a servir de cinzeiro.
Tal como hoje, já nesses há mais de trinta e cinco anos a que me refiro o interior se assemelhava mais a um cemitério do que ao Licorne, tantas eram as placas de mármore comemorando os milhares de cus universitários que vegetaram por aquelas mesas ao longo dos anos 40, 50 e 60 do século anterior; placas que, enquanto aguardava alguém ou curtia o tédio do mais profundo spleen universitário, me entretinha a decifrar com náusea.
E foi a uma dessas mesas de tampo frio, sempre que possível uma das do fundo do café, encastrada sob as escadas em caracol que conduziam à sala de estudo do andar de cima, que quase toda a nossa viagem foi gizada e revelada, incluindo os percalços causados pela birra do meu pai e as estratégias para os ultrapassar.
Nessa década de 70 toda a movida do Porto – diria do norte do país – passava por aquele café, o qual funcionava como ponto de encontro e centrifugação para todas as conspirações políticas pré-revolução de Abril, para todos os encontros amorosos a ser ou a devir, para todos os intelectuais e artistas em potência ou já potenciados, ou para aqueles que, como eu e um certo tipo de amigos, queriam somente observar o carrossel e, de quando em quando, dar uma volta numa das girafas.
Nunca alcancei, nesses dias ninguém se ralava com essas ruminações, limitávamo-nos a aceitar o que aparecia, qual a razão da fama daquele café e não de outro qualquer. Havia centenas de cafés no Porto, alguns com espessa patine mítica, mas nada que se pudesse comparar com este. Exactamente ao lado do Piolho, paredes-meias, pode dizer-se, havia um outro, teoricamente tão apto como o Âncora de Ouro mas sempre às moscas e apenas frequentado pelos reformados e outros escarradores de passeio ocasionais que constituíam a clientela usual dos cafés em torno da Praça dos Leões.
Essa aura mítica perdeu-se, o Piolho ainda lá está, alguns dos empregados envelheceram dentro daqueles muros, mas agora o estabelecimento é basicamente um café em crise como os outros e revisitá-lo em peregrinação é como insistir em encomendar missas pela intenção de almas a quem já não conseguimos relembrar as feições. 
Ah! mas nesses dias não havia encontro que não passasse por ali, não havia estrangeiro que chegado ao Porto, vomitado por um liceu de província para os bancos da Universidade, não fosse aportar àquele molhe de espuma encardida.
Para me defender de uma possível acusação de exagero saudoso, para que olhos do presente possam ajuizar do caso especial que era aquele café, da nata estelar que por ali se movimentava usando os espelhos que revestem as paredes como aferidor de imagem, eis, ao correr da pena, alguns dos personagens que se cruzaram comigo pela sala ou, no Verão, pela esplanada do Piolho. Comecemos pela mais nobre das artes e, passando pela literatura e pelo cinema, resvalemos, pela ordem alfabética dos nomeados, até aos baixios da política: António Pinho Vargas, Carlos Tê, Jorge Lima Barreto, Rui Reininho, Rui Veloso, Zé Nogueira; Francisco Vale, Jorge Sousa Braga, Manuel António Pina; João Botelho (na altura famoso pela qualidade das companhias femininas); Carlos Magno, Pacheco Pereira. Deixo para cauda desta linhagem Artur la Gauche, um personagem que, sem se ter distinguido em nenhuma área do conhecimento ou das artes, fez escola pela pose dos seus cortes de cabelo, chapéus, casacos de cabedal e correntes, o todo bastante decalcado dos cenários de Berlim segundo as apropriações feitas por Lou Reed ou David Bowie. O Arturinho, como era desdenhosamente conhecido, ficou também famoso pelas ideias enfumaradas e desaparecimentos misteriosos para locais de culto no mundo (estaria em Nova York, na Factory do Warhol; voara até Amesterdão, a buscar ácidos; enjoava, num dromedário, em busca de kif...), ausências profusamente publicitadas enquanto ele roía as unhas num apartamento do centro do Porto até acondicionar o tempo suficiente para ser convincente o regresso numa nova metamorfose.
Toda esta corte de famosos a ser era, como risonhamente sempre acontece, entremeada de suficientes musas e candidatas a musa que faziam o seu debute nas cadeiras do Piolho e expunham o seu brilho na passerelle de cimento quadriculado entre as mesas da esplanada. Discretamente, fornecendo material de sonho a quase todos, alguns dealers estavam disponíveis para, por monossílabos ou linguagem gestual, anunciar a chegada de novidades e comerciar os seus produtos acondicionados em papel de prata. Os mais carismáticos de entre eles, confraternizavam mesmo com algumas franjas da clientela.
Sim, o Âncora de Ouro podia não ser um barco, mas tinha algo de navio permanentemente fundeado, sempre pronto a partir ou a chegar, trazendo e levando gente, mercadorias e especiarias...
Extravasando das personalidades, borbulhavam as tendências e de tudo ali se podia encontrar em laboratório: o ménage à trois e a quarta Internacional; as feministas mais greladas; as nuances sexuais mais escorregadias; os aromas mais enjoativos; o teatro mais vanguardista, as actrizes mais convencidas; a filosofia mais niilista, o pensamento mais estruturalista (oh, já estavas desactualizado: mais pós-neo-estruturalista); os cultores da completa ausência de capacidade técnica como nova estética musical; e, imperdoável!, ia esquecendo, a semiótica mais seminal, brochada e encaixada casualmente na axila ou, com o título a revelar-se, espreitando do bolso da samarra. Havia até um tipo, trajando uma famosa gabardina Burberry de verão e de inverno, que ensaiava o suicídio pelo sono, o que consistia, com a celestial ajuda de hipnóticos, em dormir cada vez mais horas e deixar cada vez menos a cama, mas sem a maçada de ter de produzir algo como os sete volumes do À La Recherche[1].
Não alcançaria o subgrupo ou seria sequer uma tendência, mas, no meio do caldeirão, podia também ouvir-se a esparsa voz daqueles que ansiavam pela viagem iniciática e tentavam alcançar o sul do Oriente por terra, não por embirrarem com o Vasco da Gama, mas porque as longas viagens e a procura do Oriente se confundiam com a procura de si próprio. Claro que, modernos e ignorantes como éramos, garantiríamos a pés juntos que a tendência se teria iniciado nos anos 50 do século XX com os Beatniks e que, nessa esteira, os Beatles teriam dado uma dimensão viral ao fenómeno...  
Como é natural, eu e o meu amigo Rui, cada um interessado na viagem por motivos distintos, mas com suficiente denominador comum para a imaginarmos fazer juntos, seguíamos com toda a atenção as novas dos viajantes portuenses para Levante. Mas, ao longo dos verões de 1974 a 1976, esse era um terreno desencorajador. Os poucos que víamos atrever-se nessa direcção regressavam pouco depois ou porque  a carrinha Volkswagen pão-de-forma se tinha avariado e não havia cachimbos para o distribuidor na Turquia, ou porque tinham sofrido dissabores com vistos nas fronteiras ou, mais humilhante ainda, porque tinham sido desbaratados por vómitos e diarreias mal deixaram o conforto da comida peninsular! E cada vez que via um desses viajantes cruzar a soleira do Piolho, de ar cabisbaixo e olheiras fundas, ouvia em fundo a frase reacionária e profética do meu pai:
– Oh, menino, nunca hás-de passar da Grécia...


© Fotografias, de cima para baixo: (1) Fotógrafo desconhecido, Porto; (2) Fotógrafo desconhecido, Porto, 1975; (3) Pedro Serrano, Porto, 2014.



[1] À La Recherche du Temps Perdu (Em Busca do Tempo Perdido), de Marcel Proust, edição portuguesa na Relógio d’Água (tradução de Pedro Tamen), 2003/2004.