05 junho 2020

AMIGOS NOVOS E ANTIGOS (na morte de Aldir Blanc)


O meu primeiro contacto com a poesia de Aldir Blanc deu-se em 1978, quando se exibia em Portugal uma telenovela brasileira, nesses dias a coqueluche da programação da TV, chamada O Astro. No fundo musical do enredo ouvia-se, a páginas tantas, uma voz que recitava:

      Em Setembro se Vênus me ajudar
      Virá alguém
      Eu sou de Virgem
      E só de imaginar 
      Me dá vertigem...



E a canção propriamente cantada iniciava-se com a seguinte declaração:


      Minha pedra é ametista
      Minha cor, o amarelo
      Mas sou sincero
      Necessito ir urgente ao dentista
      Tenho alma de artista
      E tremores nas mãos
      Ao meu bem mostrarei
      No coração, um sopro e uma ilusão...


Devido ao sucesso da novela, pouco depois apareceu em Portugal um disco de longa duração, chamados LP, cuja capa anunciava conter a canção 'Bijouterias', da telenovela O Astro. O título desse LP era Tiro de Misericórdia, o cantor chamava-se João Bosco e o autor da letra e de, aliás, todas as outras, chamava-se Aldir Blanc. Comprei, ainda o tenho por aí nessa versão pré-histórica em vinyl.
Acontece, igualmente, que nesses anos 70 eu era estudante de Medicina e abundavam na Faculdade de Medicina do Porto os alunos vindos do Brasil fazer o curso em Portugal por falta de capacidade numérica das universidades de lá. Fiz amizade com vários e um deles era grande amante de música e especificamente de João Bosco, de quem possuía vinys de que eu nunca ouvira falar. Um deles chamava-se Caça à Raposa (1975) e outro, editado em 1976, Galos de Briga. Ponto em comum: todas as canções eram assinadas pela dupla João Bosco (música), Aldir Blanc (letra) e todas, mas mesmo todas, o que é muito raro num conjunto de 11 ou 12 canções, eram excelentes e musicalmente superiores. 
Algo que, desde logo, muito me cativou nessas canções eram os poemas, autênticas joias, repletos de ironia e humor, muitas vezes sarcástico outras vezes negro; as histórias que iam sendo contadas através deles; os retratos de habitantes de favela, malandros, deserdados vários da sorte, gente vulgar. Sim, já por cá andava o Chico Buarque a cantar isso tudo também e com a sofisticação literária que se lhe conhece, mas estes faziam-no em tom mais malandro ainda (se é que era possível e se assim se pode dizer), mais esfusiante, de como alguém que não tem respeito por ninguém. Inclusive, até com um samba do Chico gozavam numa das suas canções ('Samba de Marimbondo')!
Nesses dourados anos dos meus vinte anos fui conhecendo e ouvindo tudo quanto ia saindo de João Bosco. Não que os discos fossem comercializados em Portugal (nunca foi tão famoso por cá como Caetano, Gal, Chico ou Bethânia), mas esse meu amigo brasileiro ia praticamente todos os anos a Cachoeira de Itapemirim, terra natal de Roberto Carlos, visitar a família e, no regresso, trazia as novidades musicais, obrigatoriamente as referentes a João Bosco e Aldir Blanc. E, desse modo, conheci Linha de Passe (1979), Bandalhismo (1980), Essa É a Sua Vida (1981), Comissão de Frente (1982) e, em 1984, Gagabirô, a maravilhosa obra que, embora não o soubesse à altura, marcava o fim da colaboração regular e praticamente exclusiva entre João Bosco e Aldir Blanc. Tinha durado dez anos, bem bom; era uma pena ter terminado, sem dúvida, mas a vida corre assim.
Da esqueda para a direita: João Bosco, Aldir Blanc.
João Bosco, em minha opinião, nunca mais foi o mesmo, nunca se recompôs da ausência de Aldir Blanc, como nunca se recompuseram os The Doors após o desaparecimento de Jim Morrison, ou cada um dos quatro Beatles quando se separaram, ou Art Garfunkel quando ficou sem a inspiração de Paul Simon por perto. Acontece, "O tempo vence toda a ilusão", como escreve Blanc para 'Agnus Sei'.
Na metade que faltava completar da época de 80 e nas décadas seguintes fui comprando os CD de João Bosco que apareciam. Não todos por cá, que continuavam a ser pouco editados, mas em Espanha ou no Japão, país que tem extraordinária veneração pela música brasileira e onde se encontra tudo quanto se queira, de João Gilberto a Cartola, passando por Pixinguinha e João Donato. E fui assistindo aos concertos que João Bosco deu por Portugal, quatro ou cinco vezes entre o Porto e Lisboa. Sempre um músico fora de série, um cantor fora de série, na companhia de instrumentistas fora de série; introduzindo arranjos novos em canções antigas.
Mas composições novas, como as do tempo de Aldir Blanc, nunca mais. E sem aqueles poemas, sem aquela vivacidade, aqueles enredos, o que ficava mais no ouvido do João Bosco órfão de parceiro eram algumas canções de amor romântico, de queixa amorosa total (como 'Desenho de Giz' ou 'Quando o Amor Acontece'), que é sempre mais fácil de conseguir contar do que o resto. Os amores transviados ou difíceis dos tempos de Aldir evaporaram-se e nunca mais se pôs a vista numa "Amiga inseparável, rancores siameses nos unem pelo olhar; infelizes para sempre, em comunhão de males, obrigação de amar" ('Siameses'); ou num "Quando você gritou, mengo, no segundo golo do Zico, tirei sem pensar o cinto e bati até cansar" ('Golo Anulado'); nem jamais a declaração de que "O amor é demais, me fez dobrar os joelhos me faz tirar coelhos da cartola surrada da esperança" ('Falso Brilhante') ou o resignado "Voltei pro lar e, em plena dor de corno, quebrei o video da televisão" ('Bandalhismo').
Deixaram-me eterna saudade as metáforas ou as analogias surpreendentes como a de "Caía a tarde feita um viaduto" ('O Bêbado e a Equilibrista') ou a de "Hoje em dia o nosso romance está mais azul que equimose" ('Parati'), esta última só podendo ser achada por um médico, como o era Aldir Blanc. Empalideceu das letras das canções a beleza inesperada de "A ponta de um torturante Bandaid no calcanhar" ('Dois Para Lá, Dois Para Cá') ou os "Beijos, cometas rolando no céu da boca", de 'Latin Lover'; ou, ainda, a história, a estourar de nostalgia irónica, de um modesto sucesso, narrado por um velho admirador, de Margot no dia em que foi 'coroada Miss Suéter' no concurso do Instituto Nacional de Previdência Social [equivalente das nossas Caixas de Previdência], onde era administrativa:

      Fascínio tenho eu
      Por falsas louras
      Ai, a negra lingerie
      Com sardas
      Sobrancelha feita a lápis
      E perfume da Coty
      Na boca
      Dois pivots tão graciosos
      Entre joias naturais
      E olhos tais minúsculos aquários
      De peixinhos tropicais
      Eu conheço uma assim
      Uma dessas mulheres
      Que um homem não esquece
      Ex-atriz de TV
      Hoje é escriturária do INPS
      E que, dias atrás
      Venceu lá o concurso de
      Miss Suéter...


Foram-se, também, as letras escabrosas e quase gráficas que algumas canções exigiam, como o "Preparando um caldinho para a noiva gargarejar" ('Foi-se o Que Era Doce'), ou "Fazendo anos no sofá-cama" ('Anos de Instituto/Anais'); a perspectiva visual de "Banca a artista, se cruza as pernas é aquela vista, mostra mais que em ida ao ginecologista" ('Tal Mãe, Tal Filha'), ou as imundícies orais de "Perdigoto, cascata [conversa fiada], tosse e escarro" acumuladas em 'Bandalhismo'. 
Mas Aldir Blanc tinha igualmente em si a mágoa da passagem do tempo, "É o tempo, Maria, te comendo feito traça num vestido de noivado" ('Bodas de Prata'), e o peso de todos os mortos acumulados de 'Viena fica na 28 de Setembro'; como não lhe era alheia a consciência de que o ser humano não é sempre transparente ou bem intencionado: "Meu coração tem botequins imundos" (Bandalhismo); "Domingo numa solenidade, uma otoridade me abraçou, bati-lhe a carteira, nem notou, levou meu relógio e eu nem vi, já não há mais lugar para amador" ('Profissionalismo É Isso Aí').
Apesar da irreverência, mas sempre sujeitas a ela, nas suas letras abundavam os episódicos bíblicos transformados, desde o presépio de 'Genesis' ("Quando ele nasceu foi do sufoco, tinha uma vaca, um burro e um louco"), ao Cristo morto de 'Vitral da Sexta Estação':

Ai, Verônica, enxuga esse ai no avental: 
lama, púrpura e cal, graxa, bile, suor
Essa borra em teu pano é um rosto profano 
na via cachorra de um batalhador numa de horror.

Aldir Blanc e João Bosco cantaram de tudo, cantaram até a pátria em vários hinos, épicos, como no grandioso fresco de 'Nação', ou nostálgicos como em: 

        Saindo pro trabalho de manhã
        O avô vestia o sol do quarador
        Tecido em goiabeiras, sabiás
        Cigarras, vira-latas e um amor
        E o amor ia ao portão pra dar adeus
        De pano na cabeça, espanador 
        Os netos, o quintal, Vila Isabel
        Todo o Brasil era sol, quarador...


estes últimos abrindo a canção 'Tempos do Onça e do Fera/Quarador' [quarador é o mesmo que coradouro]; sem esquecer o glosar de temas históricos e de escravatura, como em "Rubras cascatas, jorravam das costas dos santos, entre cantos e chibatas" ('O Mestre Sala dos Mares'), ou a colonização de novos países como em 'Agnus Sei': 

        Faces sob o sol, os olhos na cruz
        Os heróis do bem prosseguem na brisa na manhã
        Vão levar ao reino dos minaretes
        A paz na ponta dos arietes
        A conversão para os infiéis
        Para trás ficou a marca da cruz
        Na fumaça negra vinda na brisa da manhã...


Cantaram, igualmente, a história actual, a dos anos 70 a que assistiram, sobretudo os momentos políticos importantes, como acontece na imortal canção 'O Bêbado e a Equilibrista', que se transformou num hino nacional informal durante as Directas; cantaram as esperanças sem futuro dos emigrantes internos do Brasil, fosse na sua visão colectiva, como em 'Rancho da Goiabada', ou individual, como no divertido 'Vaso Ruim Não Quebra', ou no lindíssimo 'Essa É a Sua Vida':  

Ser atriz, ser feliz
Ex-favelada conquista Paris
Joias, corbéis, gritos de bis
Um gentil homem, que lembre Aramis
Ter sempre carne, licor de Anis
no Balcão
Serve em pé, pra um funcionário
pra um operário, pra um otário qualquer, o avental azul
os seus sonhos, manchas de café.

Podia estar todo o dia nisto, acreditem, e amanhã também. A dupla, desde que se conheceu em 1970, escreveu mais de 100 canções em conjunto e não consigo nunca decidir-me, sequer, pelas vinte melhores! (tentei fazer uma lista e acabei com 49 listadas, algumas a gemer na minha consciência por terem ficado de fora). 
Nos anos 70, O Pasquim, um jornal literário brasileiro de grande popularidade e humor e responsável pela edição do primeiro single de João Bosco (Agnus Sei/Bala com Bala; 1972), anunciava com frequência nas suas páginas que Aldir Blanc acabara de escrever mais uma letra totalmente impossível de musicar e o desafio, divulgado o poema, era medir o tempo que João Bosco demoraria a musicá-la. Fazia-o sempre, e de que modo brilhante e conseguido, em acrobacias tão descomunais como o que, mais recentemente e no inverso, Chico Buarque alcançaria (Carioca, 2006) ao inserir um poema na música 'Bolero Blues' de Jorge Hélder.
Da minha geração, fui conhecendo, aqui e ali e com grata surpresa e uma sensação de intimidade, outros fãs portugueses de João Bosco; um deles tinha o hábito energético de cantar 'Miss Suéter' a plenos pulmões logo que se levantava e cirandava pela casa. Depois vieram os filhos dessa gente e novos e intensos seguidores apareceram. Um dos grandes e mais antigos amigos do meu filho confessou-me um dia que abraçara a música como profissão ao ouvir, entre outros, João Bosco aqui em casa. E é reconhecível, na música que pratica, a marca de João Bosco, na que compõe o dedo de Aldir Blanc. Feliz surpresa. Como feliz surpresa é agora ver alguns dos filhos desses filhos começar a ouvir João Bosco como se fosse descoberta deles, tipo "pai, tu já ouviste bem isto?"  
Agora dizem que Aldir Blanc, morreu, mas, por mim, sei que vai continuar a espreitar às janelas da minha história. Que posso eu dizer mais, Aldir, que você não tenha dito já?

Vou-me, deixando a letra integral da canção que emprestou título a este texto ('Amigos Novos e Antigos') e onde Aldir escreveu e João musicou uma linda e delicada homenagem a 'Sun King', de Lennon e McCartney: 

          As frases e as manhãs são espontâneas
          Levantam do escuro e ninguém pode evitar
          Eu tento apenas mostrar cantando
          O lado oculto do meu coração.
          Eu tenho às vezes no olhar tardes de chuva
          E sons percorrendo alamedas na memória
          Eu tento apenas mostrar cantando
          O que há nos lagos do meu coração.
          Quando paramucho mi amore defelice corazon
          Mundo paparazzi mi amore chicka ferdy parasol
          Cuesto obrigado tanta mucho que can eat it carousel.
          Alguém entrou no meu peito agora
          Mas só depois vou saber quem é.
Aldir e Mariana Blanc.




Nota: este texto é dedicado a Andreia Azevedo Soares que, gentilmente, me falou da sua amizade com Mariana Blanc, filha de Aldir, nos tempos em que os dias que aqui referi tinham acontecido











© Todas as canções referidas são (excepto se indicado de outro modo) da autoria de João Bosco e Aldir Blanc.

04 junho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 1. Gambas à la planche

E a vida que era um tão longo processo de asfixia... 
Não estava no local mais consentâneo – aguardava uma dose de gambas à la planche, a especialidade da casa – mas fora um pensamento que, mal fechara sobre si a porta da garagem do Centro de Saúde, se lhe colara ao espírito como um chiclete à sola dum sapato. 
Meteu a chave ao bolso e espreitou pela esquina que permitia ver a fachada do edifício. Anoitecera, porém, a horda continuava lá, apinhada à porta da Urgência, à espera. Já de manhã tivera de se haver com alguns deles. Fartara-se de repetir – aos filhos, ao viúvo, à nora – que nada podia adiantar: era Domingo, era uma morte violenta, o ónus da decisão cabia ao Delegado do Procurador da República, ausente em parte incerta. Mas eles insistiam numa previsão da hora do funeral, esganiçavam-se sobre o ser preciso combinar com o padre, lavar e vestir a mãe…. Respeitoso, rodando a aba do chapéu preto entre os dedos, o viúvo atrevia-se, repetia-se:
“Bem vê, Sr. Dr., o tempo vai quente: amanhã já deve cheirar.”
Oh sim, nem ele calculava como; aliás já cheirava qualquer coisa, não ainda o infecto perfume da putrefação orgânica, mas uma mistela, igualmente inesquecível, de pólvora e vísceras ao léu. Disse:
“Eu sei, amigo, já de manhã falámos nisso...”
E fora nesse ponto da argumentação, enquanto os vultos de escuro se agitavam à sua volta, que decidira pelas gambas. Nada de carne: umas gambazinhas com aquele molho mistério que o Maximino aprendera na tropa; uma espécie de mimo a si próprio para pincelar a agrura do feriado. Para se desprender, foi prometendo:
“No fim digo-vos o que puder…” 
E, deixando a horda a esbracejar, raspara-se para o interior do edifício em direcção à cave, onde ficava a garagem.
“Quer ajuda lá em baixo, Dr.?” perguntou o enfermeiro, que fumava pensativamente um cigarro encostado à ombreira da sala de observações da Urgência.
“Obrigado, Soares, acho que não. Vou só tapá-la das moscas.”
Todavia, a oferta fê-lo reconsiderar e, pousando uma mão no ombro do homem, pediu: 
“Arranje-me um frasco de Cetavlon, uma pinça de dentes e uma molhada de gazes enquanto passo pelo gabinete a pegar a ventoinha – vou pô-la lá em baixo a soprar. Sempre é melhor que nada.”
O enfermeiro, como se encolhesse os ombros, arregalou as sobrancelhas acima da armação dos óculos de aros dourados. Era assunto mais que batido entre eles, aquele da estupidez de quem concebia equipamentos de saúde em Portugal. Onde já se tinha visto? Um edifício estreado há três anos, apetrechado com o último berro da tecnologia, como afiançara na inauguração um dos quatro ministros presentes e, aparentemente, ninguém se lembrara de que as pessoas morrem, que é necessário arrecadá-las, que, por vezes, é preciso proceder a uma autópsia. Estavam nos anos 80, porra! Mas nada: nem morgue nem sala mortuária, nem frigorífico onde coubesse um corpo. Que imaginavam eles? Que iam deitar os cadáveres numa das camas do internamento? Que os iam manter arrefecidos na arca congeladora da despensa, entremeados com as febras e as postas de pescada?! 
Já mesmo assim era um inferno improvisá-los por uma noite ou duas na garagem, espichados na mesa de carpinteiro que sobrara das obras, ao lado do Land Rover. De cada santa vez tinha de ouvir das boas às auxiliares, borradas de medo com aquelas presenças intranquilas, algumas recusavam-se a descer as escadas para a cave. Um dia fora vista uma ratazana a cirandar na garagem, a cobiçar o morto; houve que isolar as pernas da mesa, mergulhá-las em latas com gasóleo, dar um cheiro de Valium à Alcina, mais transtornada pelo roedor do que pelo defunto e que, incomodada por estar deitada numa marquesa em vez de a trabalhar, se justificava:
“Eu sei, Dr., nem sequer acredito muito que os mortos voltem para nos apoquentar, coitadinhos; mas o que quer - é mais forte do que eu, é como com os ratos.” 
“Então, hoje fica cá dentro? Com este tempo!"
Levantou os olhos da toalha de papel onde traçava riscos. Clara acercava-se com a ementa e um sorriso. Baixou a voz quando ela se inclinou a recolher a toalha usada.
“Sabes, aquilo lá fora está um bocado perigoso... Estou a ser muito requisitado.”
“Já ouvi dizer...”, respondeu ela com um acento sombrio, “a notícia chateou-me – eu gostava dela, sabe? Era boa mulher, chegou a trabalhar aqui. Nunca imaginei que fosse pessoa para fazer isto, mas, também, o que é que a gente sabe do que vai na cabeça dos outros?”
“Exactamente…”, concordou o cliente iniciando riscos na nova toalha, “mas não te adiantes em palpites, que ainda não temos autorização do tribunal para abrir o bico...”
“E então o que vai ser?”, quis ela saber, recuperando o tom e o sorriso como quem tira um lápis da estante da orelha.
“Olha, pede-me aí ao Maximino uma dose de gambas, bem picantes, e uma travessa de batatas fritas… E um fino, gelado, já já... Estou a precisar de um luxo no estômago…”
Ficou-se a vê-la atravessar a sala, carregada de pratos, a empurrar a porta de vaivém para a cozinha com o rabo, um gesto prático e sensual. Sentiu como que um raio de sol atravessar os pensamentos, era esse o efeito que Clara tinha em si.

(continua)

© Foto de baixo: pedro serrano, Penaformosa, 2016.

26 maio 2020

05 maio 2020

COVID19: UM BALANÇO ONDULADO

Grosso modo, resumindo e apenas com o fito de equacionar atitudes práticas no dia a dia, Portugal, como um todo, não chegou assim tão mal ao final da primeira onda da pandemia: com 25.351 casos e 1.007 mortos, parece que a nossa letalidade (proporção de infectados por Covid19 que morre da doença) ronda os 4,0 %, valor dentro da média para a letalidade global por esta doença, segundo os, sempre algo atrasados, cálculos da OMS e que, no início de Março, apontava os 3,4 %. 
Mas convém usarmos de prudência e, talvez, para obter valor mais condizente com o real, seja adequado adicionar-lhe mortes arrumadas como por todas as causas, mas que, sobretudo na fase inicial da pandemia, poderiam ser devidas a Covid19 não diagnosticado como tal, e, nessa óptica, juntar-lhe-ia outro tanto (mais um milhar), o que, grosso modo, e deixando as pitonisas emergentes e os teóricos das décimas após a vírgula engalfinhados, fará subir a letalidade portuguesa actual para 7,9 %. É forte, se nos compararmos com a Alemanha (4,1, %), mas há quem se esteja a sair bem pior, como a Espanha, a Itália, o Reino Unido ou a Bélgica (todos com valores, por agora, acima dos 10 %), e sob a reserva desta nova doença estar ainda a revelar contínuas surpresas em termos de apresentação, gravidade e mortalidade associada. E, deve acrescentar-se que o tamanho deste valor, que nos dá uma ideia sobre o risco de morrer se infectado pela doença, tem, em Portugal, estado fortemente dependente da quantidade de pessoas com idades avançadas que têm morrido, quase metade pessoas muito idosas e internadas em lares. 
Com cerca de 39.000 de testes de diagnóstico por milhão de habitantes, estamos nos primeiros quatro lugares, a nível planetário, dos países que mais testam, o que tem uma ilação interessante: esta quantidade de testes permite, finalmente e com alguma segurança, dar como próximas a realidade e os números que nos são divulgados diariamente pelas autoridades. Finalmente, outro aspecto positivo é o modo como os hospitais estão a aguentar o embate da doença: como os casos têm sido contidos a montante pelas medidas de prevenção postas em prática (confinamento, higiene, protecção individual), os internamentos e os cuidados intensivos têm aguentado bastante bem a procura gerada pelo Covid19.
2. Na história lusa desta epidemia, medida desde Fevereiro de 2020 quando tudo começou a aquecer a nível mundial, há, ao nível nacional, quem se tenha portado muito mal (responsáveis máximos de órgãos centrais do Ministério da Saúde) e muito bem (profissionais de saúde e autarcas). Este últimos foi o que nos valeu, diria, pois a esse tempo, Lisboa só dizia disparates (não vai chegar cá; só é confinado quem quer; é uma doença leve como a gripe; máscaras não servem para nada; vá ao lar visitar os velhinhos), sendo conveniente sublinhar — pois há já quem se entretenha a retocar o sucedido — que todas estas aleivosias tiveram lugar nos últimos três meses! Três meses que parecem três anos! Bem, enquanto Lisboa se entretinha na cacofonia e na desorientação, houve quem, após aguardar pacientemente por orientações nacionais, arregaçasse as mangas e pusesse as mãos à massa. Os primeiros foram os hospitais, os que iam levar com a fúria do touro no peito, isto é com as terríveis consequências de um Covid19 no seu estádio mais assanhado. Por lá, eles já andavam a medir com preocupação o que se via nos vizinhos do lado e, por aventuras anteriores, sabiam o que uma simples gripe banal pode provocar num hospital enfraquecido por anos de desinvestimento, quanto mais um bicho cerca de 40 vezes mais agressivo na sua capacidade de fazer mal! Honras lhe são devidas, a todos eles, e particularmente aos grandes hospitais do Norte que, como se sabe, foi onde a tormenta bateu mais forte. E, para além deles, os autarcas e, esses, enfureceram-se mesmo com a paralisia do poder central e, na minha visão, muito apropriadamente. Enquanto o camião dos testes levava quinze dias de Lisboa a Aveiro, era à porta deles que batiam os familiares dos velhinhos que morriam nos lares, uns atrás dos outros, enquanto a capital, como fazia a Constança dos incêndios, remetia a culpa do que sucedia nos lares para os lares ou, filosoficamente, ruminava que "morrer num lar não é uma fatalidade", enquanto em Lisboa chovia no molhado, eram os autarcas que, nas ruas das suas terras, eram interpelados ao vivo pelos munícipes e assistiam, em directo, à desgraça, ao caos e à ausência de resposta, tudo a crescer como uma maré. Se alguém tem dúvida que pergunte a Ovar, ao Porto, a Vila Real, a Aveiro, a Vila Nova de Gaia, a Resende.
3. Dito isto, que foi um balanço para trás, balancemos então para a frente, ou seja: preparemo-nos para a segunda onda da pandemia, a qual irá ser desencadeada pelo Corona com a nossa ajuda. É que isto não vai desaparecer assim, o vírus não é um ser bem-educado que verterá uma lágrima emocionada pelo nosso esforço colectivo e dirá:  "Ok, foi lindo, adorei os novos anúncios dos hipermercados e agora vou portar-bem e só farei cócegas e trejeitos fofinhos". Não, ele vai comportar-se como os bancos falidos, vai procurar novo sustento no fundo de resolução que somos nós todos, os que ainda não fomos visitados por ele e a que os especialistas chamam 'susceptíveis'.
    Portugal. Casos diagnosticados de Covid19 entre Abril e Maio de 2020. 
    Fonte: Johns Hopkins University. Nota: Na figura pode ainda ser observado 
    o famoso pico que, desobedecendo ao anunciado pela Ministra da Saúde, 
    teve lugar a 10 de Abril e não a 14 de Abril de 2020.
Lamento desenganar os mais sonhadores (ou os mais assustados), mas, pela nossa intervenção humana, isto só vai parar com uma vacina eficaz ou atenuar-se a sério com a descoberta de um (ou mais) medicamentos que nos façam, pela razão covidiana, deixar de ter medo de ir parar ao hospital e evitar as fases mais dramáticas dos cuidados intensivos. Até lá, o Corona vai marrar e só nos salvam as medidas do costume: distanciamento entre pessoas, máscaras cada vez que saímos (e luvas se formos andar a mexer em coisas) e a higiene que, por esta hora, já todos aprendemos. Já aprendemos muita coisa todos nós e isso foi outra benesse deste dilatar do tempo mantendo o vírus razoavelmente açaimado: toda a gente teve tempo para se preparar melhor, aprender a proteger-se melhor e interiorizar esses comportamentos.
É previsível que a tal segunda onda levante a cabeça com o desconfinamento (Maio/Junho), sobretudo se as pessoas acharem que tudo voltou ao que era, que o sonho mau terminou e que o Corona foi a nado para a América e para o Brasil. A altura da crista que a segunda onda terá vai depender mais de nós do que de milagres. Depois dessa, é possível que nos visite uma terceira onda lá para o Outono, com o frio (os vírus respiratórios adoram o frio, embora este seja algo mix nos gostos) e, nessa altura, a gripe normal, dita sazonal, vai complicar tudo, vai confundir tudo, uma vez que irá coexistir com o Covid19 e ambos partilham sintomas muito similares como a febre, a tosse e as dores no corpo. Vacine-se contra a gripe sazonal logo que essa vacina chegue (começo de Outubro), particularmente se integrar um grupo de risco. Para além da protecção contra uma gripe mais violenta, estar vacinado contra a gripe irá ajudar os profissionais de saúde a melhor decidir sobre se os seus sintomas podem ser devidos a uma vulgar constipação ou a uma infecção por Covid19.
4. Termino com um alerta especialmente dirigido às minhas ouvintes, embora saiba que os homens também estão mortos por ir ao barbeiro/cabeleireiro — mas não é a mesma coisa! Amigas, eu sei do vosso desespero com as pontas e as raízes confinadas, mas não conheço intimidade maior do que a que se estabelece com uma cabeleireira/manicura/esteticista (só talvez a massagem...). Nunca esqueçam que vão ter uma pessoa (ingenuamente contaminada e potencialmente infectada) a respirar sobre vós, mesmo que nas vossas costas, a muito menos da distância regulamentar (1,5/2 metros); alguém que vos vai mexer na cabeça; endireitar o pescoço; entortar a cara; meter os dedos no vosso couro e cabelo. Deste modo, ou ela/e está muito bem artilhada/o (máscara, viseira, luvas) e o local severamente higienizado, ou estamos mal. E há um derradeiro detalhe: mesmo que você entre no salão usando máscara, vai surgir um momento em que a cabeleireira sussurrará à mente sonolenta da cliente:
"Ó Dona Gabriela, alivie aí um bocadinho essa bico-de-pato: é que tenho de lhe dar aqui um jeito com a tesoura nesta madeixa ao lado da orelha, e com os elásticos da máscara..."
Inocentemente, a querida ouvinte irá obedecer com a naturalidade de quem se quer eternamente bela e é por aí, por essa fenda exígua da vaidade, que o Covid19 lhe vai soprar ao ouvido: "Bom dia, alegria: vamos então dar um grande abraço e ficar muito juntinhos?"      


Nota razoavelmente técnica: Os números que serviram de baliza ao texto são os publicamente divulgados, por entidades nacionais e internacionais, e referem-se aos dias 30 de Abril e 1 de Maio de 2020. As estimativas sobre total de mortes por todas as causas/possíveis excessos de mortalidade atribuíveis ao Covid19 em Portugal, inspiram-se em trabalhos do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, que há cerca de vinte anos desenvolve investigação e vigilância nesta área, designadamente nas estimativas de mortalidade por ondas de calor, ondas de frio, e gripe sazonal.


© Fotografia de cima: pedro serrano, Sri Lanka, novembro 2017.

30 abril 2020

18 abril 2020

ESPERA



© Fotografia de pedro serrano, Tessalónica, Grécia, 2018.

16 abril 2020

COVID19: OS DIAS CONTADOS

"Sabes que fiquei em primeiro lugar no concurso?"
"Eh, Francisco, que fixe! Quantos concorrentes eram?"
"Dois, eu e outro; o outro desistiu na prova prática..."
"Olha, fiquei classificada em terceiro lugar no concurso?"
"Ai sim? E quantos eram os concorrentes?"
"Duzentos e cinquenta."
Estes dois diálogos expressam duas verdades: 
A primeira grita que os números, em estado solto, a granel (também chamados  brutos ou absolutos), não significam grande coisa, como se vê no caso dos concorrentes acima. Há um tal Francisco, que parecia ser uma brilhanteza pelo lugar que obtivera numa prova de concurso, mas afinal isso só acontecera por haver apenas um outro na disputa; em seguida, no segundo diálogo, há uma rapariga que até só fica em terceiro lugar na listagem, mas os candidatos a concurso são 250, o que lhe realça, de imediato, o valor no resultado obtido. 
A segunda verdade, reza que, para podermos tirar ilações consistentes e comparáveis, é sempre obrigatório fazer contrastar o tal número a granel com o universo que lhe diz respeito. Por exemplo: número de casos confirmados de Covid19 e tamanho da população do país onde isso acontece. Outro exemplo: número de mortes por Covid19 por milhão de habitantes, e não apenas que "são 600 e aumentaram 35 desde ontem" — isso diz-nos (quase) nada. Ainda um outro exemplo: número de casos internados nos cuidados intensivos e sua relação com o motivo pelo qual esse número tem diminuído ou aumentado. É muito diferente o número de internados estar a diminuir porque os casos de Covid19 estão a diminuir no país, desse número de internados estar a diminuir porque têm morrido a grande parte dos que vão parar a cuidados intensivos e, deste modo, há sempre camas para todos e o sistema não rebentou. Pois não, mas, e como quase não há recuperados, esta folga deu-se à custa do cemitério e não da brilhante política de saúde do Sr. Ministro da Pasta Respectiva.
Estes longos preliminares tiveram como finalidade enquadrar uma situação que, de quando em vez, gera desconforto nos ouvidos mais atentos.
Portugal tem, consistentemente, ocupado o 15.º ou o 16.º lugar, a nível mundial, nos países com Covid19. Ora, tendo em conta, que temos 10 milhões de habitantes, este lugar no pódio de um mundo que tem, grosso modo, 195 países, é posição de arrepiar e, pessoalmente, preferiria que estivessemos na cauda do que nos píncaros.
É por isso que insistir apenas em mostrar números brutos (soltos de um valor que os relacione com o tamanho do local em causa) é curto, pode ser manhoso, e é  sempre enganador: A Espanha, aqui ao lado, tem 47 milhões de habitantes, a França 67 milhões, a Itália 60, a Alemanha 83 milhões, o Reino Unido 67; a Rússia 145 milhões, o Brasil 210, os EUA 329 milhões, o Irão 82 e a China 1.300 milhões. Estes países, de muito maior população e onde, portanto, um número maior de infectados representa muito menos, estão connosco no tal pódio, aliás acima de nós nesse estreito pódio, mas o estar acima pouco conta ao considerar o número de habitantes que têm quando comparados com a nossa migalha ibérica! Dos que estão ainda acima de nós, mas muito próximos em número de casos, temos a Bélgica (11,5 milhões de habitantes), a Holanda (17 milhões) e a Suíça (9 milhões) e, já em melhor situação do que nós e com menos casos, a Áustria (também com 9 milhões) e a Irlanda (com 4 milhões). Se tentarmos resumir isto usando o número de casos por milhão de habitantes, método que já nos permite compararmo-nos com quem nos apetecer, uma vez que o tamanho da população respectiva é tido em conta, verificamos que Portugal (1848 casos/por milhão de habitantes) está em 7.º ou 8.º lugar a nível mundial, mais ou menos como os EUA (1948 casos/milhão), e só somos ultrapassados por Espanha, França, Itália — os nossos vizinhos do lado — encontrando-nos em pior situação do que a Inglaterra, a Alemanha ou a Holanda, já para não falar da China ou do Irão, onde parece ter chegado a bonança. Deste modo é, na minha opinião, inquietante ver o cunho de simpática excepcionalidade com que nos consideramos em termos de atingimento pelo Covid, parecendo que tudo vai muito bem por cá, que a coisa quase parou na fronteira, pois o nosso jeito de cintura enganou o vírus! 
Se, por outro lado (usando a técnica de meter sob os números, que nos mostram diariamente na TV, o universo a que respeitam) olharmos o retrato segundo o número de mortos por Covid, o que se vê? Que Portugal (62 mortos por milhão de habitantes) continua no pódio, desta vez num 8.º ou 9.º lugar a nível mundial. É sabido que à nossa frente estão países como a Itália (358 mortos/milhão), a Espanha (409) e a França (263/milhão), mas esses três começaram a sentir os efeitos da pandemia antes de nós, já tiveram mais tempo para que os desfechos se manifestassem e possam ser contabilizados. Há depois, em situação mais grave, o Reino Unido (202 mortos/milhão) e a Holanda (193), mas, em relação a esses países, todos conhecemos a política desastrosa de lidar com o assunto que os respectivos líderes políticos assumiram e a que, a breve trecho, o Brasil se reunirá.
O que mais chama a atenção, no número de casos e mortos por milhão de habitantes, é a onda numérica, de uma certa contiguidade com os países que se sucedem quando olhamos para leste: Espanha, França, Itália. Seria, talvez, melhor arregaçarmos as mangas da precaução e da intervenção, em vez de estarmos à espera de um milagre tipo mar Vermelho ou de nos supormos país  neutro, como durante a II Guerra Mundial.  
Quanto à letalidade (proporção de doentes com Covid que morrem da doença), ela anda em Portugal pelos 3,5 %, valor semelhante ao estimado em Março pela Organização Mundial de Saúde (3,4 %), porém um número bastante acima das iniciativas iniciais da organização sobre a letalidade do Covid e que se ficava nos 2,0 %. Relembre-se que a letalidade média da gripe banal ronda os 0,1 %, ou seja: o coronavírus é cerca de 35 vezes mais mortífero.  
A perspectiva que expus até agora, baseada somente em número de casos confirmados e mortes reportadas oficialmente, é simples de obter, calcular e olhar, mas toda esta análise ganharia em ser mais sofisticada como, por exemplo, acrescentando-lhe o acesso a dados como mortes de diagnóstico pouco claro ou indeterminado (dá-nos uma ideia sobre a parte submersa do iceberg);  as estimativas do excesso de mortalidade sazonal, que poderá estar a acontecer e se evidencia objectivamente quando comparamos esta primavera de 2020 com primaveras homólogas (ou seja: anteriores); podendo tudo isto ser ainda temperado por informação específica vinda do funcionamento e movimento dos serviços de saúde (públicos e privados), tal como o número da casos de Covid19 entrados e saídos dos cuidados intensivos e qual a proporção dos doentes que morrem da doença durante o internamento, o que permitiria uma ideia sobre a qualidade dos cuidados prestados e compará-la com o que sucede noutros países. Isso ajudaria. Ajudaria também, em termos de retrato desapaixonado e honesto da situação, se os números de fontes distintas fossem comparados e uns servissem para rectificar ou validar os outros, pois já se viu que a contagem rigorosa não tem sido apanágio de Lisboa.
Finalmente, ainda no terreno contagem e relacionamento, apreciaria ver os números avulsos de casos e mortos mostrados na TV (que, pelos vistos, é a ração que, coitados, lhes é servida pelo Ministério da Saúde) apresentados por região e distrito do país, usando a tal técnica tão simples de os relacionar com o número de pessoas que lá moram e, para começar, respectivas idades, recorrendo a técnicas básicas de ajustamento e padronização.   
O que exaspera, no modo como todo este problema tem sido gerido e comunicado, mais do que a possível gravidade da situação do país (somos como os outros, havemos de conseguir fazer parecido; lamberemos as feridas como os outros), o exasperante é o optimismo bacoco das meias-verdades; de nos servirem no LCD um aumento de 30 casos nos curados como a sétima maravilha do mundo, quando a proporção de curados (total: 493), em relação ao total de casos (18.841) é de apenas 2,5 %, e sendo o número total destes curados bastante inferior ao número de mortos (total: 629). Sendo essa a realidade, não lhe chamem "a boa notícia é que o número de curados", pois não é boa nem má: mostra apenas que (nos que se safam) a recuperação e a cura são lentas.
De tudo o que ficou dito, há um aspecto que irrita e outro que preocupa. O que irrita, para além da nossa milagrosa diferença em relação a outros, são as fantasias em torno do pico e da data do pico, do planalto e do achatamento da curva. Que é isso do planalto? É um pico que não cresce e vai por ali fora em linha recta? E de que modo todo este crescimento no número de infectados, controlado ao nível decimal, é-o, apenas, por estar dependente do número de testes feitos diariamente, dependente também da fatia a quem são feitos esse testes, e do tempo que demoram os resultados a ser vertido nas estatísticas?
Portugal: Casos diários de Covid19 (confirmados), Fevereiro-Abril.
Fonte: John Hopkins University, 2020. Nota: a coluna mais alta assinala o
dia 10 de Abril, e 4 colunas à direita desta encontra-se o famoso pico,
previsto ministerialmente para o dia 14 de Abril de 2020 (é um pico assim para 

o baixote, mas não se pode ter tudo!).
Dito o que me enchia os olhos de poeira, o que me preocupa é que todo este realismo mágico transborde e ensope de dourado as calças e as saias dos que decidem no país. Desejo intensamente que todo este inebriamento não contamine e venha a moldar as decisões que vão ser tomadas sobre o regresso a escolas, abertura da indústria e do comércio, fim de medidas de isolamento, trilhamento de liberdades e garantias, etc. Em casos como este, tenho um medo que me pelo das decisões baseadas na evidência que os políticos sugerem que os técnicos lhe forneçam como sendo descoberta deles, técnicos.    

Nota: Todo este texto se baseia em dados disponíveis a 14, 15 e 16 de Abril de 2020, pelo que as posições relativas expostas (países no pódio dos mais atingidos, mortalidade) podem, para o melhor ou o pior, vir a sofrer alteração.

© Fotografia de cima e montagem: pedro serrano, abril 2020.

15 abril 2020

MÁSCARAS: Tudo quanto você gostaria de perguntar e não teve lata

Agora, que já se podem usar sem perigo de que nos ralhem, as pessoas, que têm vários tipos de máscaras em casa ou as tencionam comprar brevemente, perguntam-se muitas miudezas práticas, sendo uma das mais prementes: afinal aquilo é reutilizável ou não e, sendo, por quanto tempo posso usar a mesma? 
Deixo aqui alguns pensamentos e dicas sobre o assunto, adiantando, desde já, que nada do que se segue é preto e branco, e que o que se segue é enquadrado pela situação concreta que vivemos, em que o óptimo é inimigo do bom.
1. Máscaras cirúrgicas (FFP1) — Estas máscaras não são feitas de um tecido contínuo (como o pano de algodão ou lã), mas sim à base de diversos tipos de fibras, aglomeradas por diferentes processos. A finalidade do seu uso profissional (médicos, enfermeiras, dentistas) é evitar que qualquer bactéria ou vírus, que quem a usa possa ter, passe para o doente ou cliente. Resumindo: protege mais o outro do que quem a usa. Já não é mau! Tendo em consideração a sua arquitectura, a máscara cirúrgica é aplicada sobre a boca e nariz, não deixando espaço livre, entre a cara e o tecido, onde circule o ar. Deste modo, rapidamente vão ficando impregnadas do vapor da respiração de quem as usa e acabam molhadas. Ao ficarem molhadas, perdem parte da sua capacidade de filtro.
Num mundo ideal, estas máscaras devem ser usadas, continuamente, durante 2 horas, e os médicos mudam-nas também quando passam de um doente para outro. Falamos de profissionais e num mundo ideal. Se você, que se quer defender do Covid19, tem destas máscaras em casa e em pequena quantidade, não se pode dar ao luxo de as deitar fora de cada vez que usa uma. Certo? O que poderá então proceder para além do paralisante ralhete "não as use, são uma protecção ilusória", e para que não fique a olhar para o tecto sem faca e sem queijo?
Em tudo o que digo, parto do princípio que você está a cumprir as regras de afastamento e isolamento social e que só sai de casa para ir ao supermercado, à farmácia e aos correios, e que no seu lar TODA a gente está a fazer o mesmo. O quê? Às vezes batem-lhe à porta para entregar uma encomenda? Ok, deve pôr a sua máscara antes de abrir a porta e, se tiver luvas, calce umas antes de pegar seja no que for. Se não as tiver, vá lavar as mãos de imediato, cantando durante 30 segundos "ah suas mãos, onde estão?, onde está o seu carinho?" (na versão Caetano Veloso).
Agora, você chegou do supermercado, andou por fora uma hora e a sua máscara está bastante húmida, além do mais porque você fartou-se de lhe soprar — aquela sostra que estava à sua frente na fila nunca mais se despachava a descarregar do carrinho os 260 rolos de Scotex 4 folhas com sabor a maracujá.
Aplique e tire sempre a máscara, seja ela de que tipo for (máscara ou respirador), usando os elásticos e sem tocar no material de que é feita, pois isso, para além de lhe passar para as mãos eventuais vírus que possam ali ter pousado, vai deteriorar o material e fazer-lhe perder características isolantes. Pegue na máscara retirada por um elástico e pendure-a, usando o elástico e tentando que o resto não toque em nada, num sítio alto (longe de alguém lhe poder mexer) e exposta à luz solar: a face de dentro de uma janela é o ideal, pois o vidro funcionará como lente ao reflectir os raios solares. A sua máscara vai ficar assim exposta ao calor, à secura e à radiação ultravioleta. Todos os vírus detestam esta combinação e o seu número começa de imediato a reduzir-se ao fim de poucas horas nesta estufa natural. Entretanto, se tiver de voltar a sair ou usar máscara, use uma máscara suplente e faça com que a que pendurou na janela (do lado de dentro, embora se houver uma brisa a passar nada a opor, pois arejar é também um bom método de desinfectar), tente que a pendurada esteja por ali 3 ou 4 dias sem lhe mexer. Passado este tempo, estará seca e razoavelmente pronta a ser usada de novo. 
Um conselho: não use álcool ou lixívia para desinfectar este tipo de máscaras: vai encharcá-las e dar cabo das propriedades isolantes. Para além do mais, a lixívia é irritante para as vias respiratórias e ao voltar a usá-la vai sentir coisas semelhantes a sintomas respiratórios (exemplo: garganta a arder, tosse, dor no peito ao inspirar) e julgar que é do Covid19. Não é, é apenas ansiedade lixivial, o conhecidíssimo 'síndrome Neoblanc'.  
Nunca use máscaras de outra pessoa, por íntima que esta seja e você ponha as mãos no fogo por ela.

2. Máscaras bico de pato (com ou sem válvula) FFP2 — Você tem duas máscaras destas em casa por pessoa? Óptimo. Estas máscaras protegem bastante mais quem as usa do que as máscaras cirúrgicas e graças à sua arquitectura não ficam em contacto directo com a boca, o bico de pato cria um espaço entre a boca e o material de que é feita a máscara. Assim, não se humedecem tanto como as máscaras cirúrgicas e, logo, duram mais em condições de bom uso. Quando são providas de válvula (aquele quadradinho ou círculo de plástico que fica mais ou menos em frente à boca) ainda melhor: o ar que se expira sai pela válvula e o vapor não se acumula tanto no interior da máscara. Quanto ao modo de as alternar, siga o que ficou dito para as máscaras cirúrgicas. Se as suas máscaras bico-de-pato possuem válvula em plástico poderá, como medida suplementar, passar sobre a válvula um pouco de papel de cozinha (ou mesmo Scotex não-usado, se não antipatizar com o sabor a maracujá) embebido em álcool. Deste modo, ajuda a desinfectar a zona por onde entra e sai o ar. Faça tudo isto sem tocar no restante material de que é feita a máscara.
Nunca use máscaras de outra pessoa, por íntima que esta seja e você ponha as mãos no fogo por ela.
3. Finalmente, as máscaras FFP3, de que o exemplo mais conhecido são os respiradores usados pelos pintores de automóveis ou agricultores quando aplicam pesticidas. Estas máscaras têm quase sempre válvula, dão uma protecção excelente (ronda os 99 %) e habitualmente são feitas de um material semelhante ao cartão (ou plástico, ou tecido reforçado e algo rígido) e muitas possuem no contorno uma tira de borracha que permite uma aplicação quase perfeita e estanque sobre o nariz e a boca. Quando se leem as instruções que as acompanham, estas dizem que dão para um uso de 7 a 8 horas, isto é: a jornada de trabalho de um pintor de automóveis ou de um pedreiro ou estucador quando não faz horas extraordinárias. Isto seria no tal mundo ideal, neste em que vivemos (sem máscaras nas lojas; com máscaras em algumas farmácias e na internet a preços exorbitantes) teremos de as reutilizar e, diria, tendo em conta a arquitectura e o material de que são feitas, estas são as que se aguentam melhor e mais tempo.
Nunca use a máscara de outra pessoa, por íntima que esta seja e você ponha as mãos no fogo por ela.
4. Máscaras sociais: O que dizer sobre as tais máscaras sociais (ou comunitárias) que 200 empresas portuguesas já começaram a produzir, ultrapassando todos os limites de velocidade habitualmente aplicados às máquinas de costura? Não se me oferece dizer nada, não abro o meu bico-de-pato sobre o assunto, até que se perceba melhor o que aí vem. Nesta atitude limito-me a seguir o argumento comum dos nossos dirigentes da Saúde: não tenho evidência, nem científica nem outra. 
E agora a pergunta em que toda a gente estará a pensar: tenho eu máscaras em casa? E de quais? Tenho. Tenho sempre algumas máscaras cirúrgicas por aí, dão jeito de vez em quando e há longos anos que integro um grupo arriscado. Depois, boquiaberto, fui vendo o que se passava na China (Janeiro de 2020) e pensei para mim mesmo: "esta porra é grave e vai chegar cá não tarda!" Quando vi os pontinhos vermelhos de alguns casos a picarem o mapa da Europa, telefonei para a farmácia onde geralmente vou e perguntei:
"Ó Dr.ª L., a senhora por acaso tem por aí máscaras bico-de-pato? 
Ela tinha, bué, quantas precisava? Comprei uma caixita. Passou-se isto a meio do mês de Fevereiro e um pouco mais tarde, nos primeiros dias de Março, passei na secção de adubos e pesticidas da Agriloja, um supermercado tipo 'Casei com um Agricultor'. 
"Olha que jeitosos respiradores FFP3 eles aqui têm... E caixas com 100 luvas de látex." 
Comprei uma caixa de luvas e outra de respiradores. Ainda por lá ficaram milhares, uma autêntica reserva estratégica.
Estas aquisições, honra lhes seja feita, ainda me permitiram desenrascar posteriormente alguns entes queridos, daqueles que também pensavam que isto não tinha probabilidade de chegar a Portugal! Oh, pra eles, que bem ficam de boquinha tapada! 

© Com excepção das 2 imagens referentes a máscaras bico-de-pato, todas as fotografias e design por pedro serrano, 
abril 2020.

14 abril 2020

COVID19: DEPOIS DA PÁSCOA, O CARNAVAL

Pode o Carnaval suceder à Páscoa? Pode a realidade ser tão relampagueante na mudança que nos deixa zonzos? Pode. 
Foi o que me sucedeu nos últimos dois dias e de tal modo me senti vertiginoso que tive de ir reler alguns dos textos que escrevi por aqui sobre o uso de máscaras! Ainda somente há três semanas, sentindo-me o David que afronta os Golias da Organização Mundial de Saúde (OMS), do poderoso Centro de Controlo de Doenças (CDC) dos Estados Unidos da América ou a sua imitação europeia (ECDC), sentindo-me, como dizia, um atrevido pigmeu, tentava desmontar, um por um, os 6 argumentos usados pelas  organizações formais para o não uso de máscara, da estupidez que era o povo comum usar máscara; essa coisa de uso tão complexo que podia ser mais prejudicial do que útil, uma espécie de medicamento pleno de efeitos secundários.
Por cá, a casa gastava a copy-paste e quer o Ministério da Saúde (na pessoa da Ministra) quer a sua Directora-Geral da Saúde nos advertiam, com repetida paciência, da inutilidade e até do perigo para o uso desse artefacto, dessa ilusão. Por vezes, já  maçadas da repetição, deixavam perpassar para o espectador lá em casa alguma impaciência condescendente: "não use máscara, é uma falsa sensação de segurança; é um pano", o que, à moda do Norte, seria algo como dizer: "Ó sócio, se queres usar essa porra, é contigo, mas depois não venhas dizer que não te avisei!"
Lá na OMS, nas conferências, eles lançavam mão dum tipo irlandês chamado Michael Ryan, um ex-ortopedista de ar colérico que, quando o patrão lhe delegava os aspectos técnicos (Ryan é Director dos Programas de Emergência da OMS), nos vinha também barafustar contra as máscaras e o seu uso indevido, o qual consistiria, basicamente, em todo o uso que não fosse sancionado por eles, que estão no nível mundial. E estávamos assim, e de vez em quando lá surgia algum intrometido a falar que se calhar não era má ideia usar uma mâs..., mas os chineses... E eles que não, que era apenas um trapo, que ficava molhado como uma fralda, e que o melhor era lavar as mãos enquanto se cantavam os "Parabéns a Você" ou o "Oh corona não te quero ver mais" da Maria Leal.
E então, ontem, vi, boquiaberto e sem máscara, os nossos mais altos responsáveis da Saúde a afirmar, claramente, que toda a gente deve usar máscara, sempre, cada vez que sair para um local onde haja gente! Máscara, máscara, máscara, uma qualquer, pode até ser uma feita em casa com uma t-shirt velha ou um pano do pó, e até se inventou um novo nome para este tipo de máscara popular: máscara social. Estou deserto por folhear próximas edições da Luxe da Caras para ver como gente tal Lili Caneças e Babá Pitta da Cunha se adaptam ao novo tipo de visual e que sumptuosas máscaras sociais não irão produzir para as nossas elites os estilistas lusos mais ousados.
É verdade que havia alguma crispação na nossa Ministra, na nossa Directora-Geral, quando passaram a ter de advogar o uso do tal trapo, há sempre um travo amargo no engolir dalguns tipos de cálices e, para exorcizar o arrepio, Marta Temido afirmou mesmo, por várias vezes e na peugada do que já tinha feito o supracitado Ryan, que a máscara é apenas um complemento, um suplemento; de que nada resultará se o povo não continuar a seguir as medidas que eles já advogam há que tempos. Certo, estamos cientes!
Mas, confesso aos meus ouvintes, que estou algo preocupado com isto tudo, quero dizer, com o 8 ou 80 de que parece não sermos capazes de abdicar. A partir de agora, pode-se improvisar uma máscara em cima de qualquer joelho (faça-a em casa); a EFACEC, pós Isabel dos Santos e reconvertida à causa nacional, vai mesmo fabricar ventiladores a metade do preço do mercado! E mostraram até um protótipo, uma geringonça que parecia mais um armário metálico, daqueles onde se aloja um quadro eléctrico ou se guarda a mangueira dos incêndios, do que o ventilador de plásticos macios e abaulados made in China. Oxalá aquilo funcione, rezei a mim mesmo, reles incréu que tenho sido. Mas para que estava eu alagado em dúvida se aquilo tudo vai ser certificado pelo INFARMED? Pois.... Talvez eu esteja enganado, ultrapassado, mas a minha ideia do INFARMED (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, organismo dependente do Ministério da Saúde) é que se trata de uma instituição pesadamente burocrática, mais administrativa do que técnica, que se limita a conferir as bulas dos medicamentos ou a mandar retirar do mercado pílulas avariadas, após ter sido avisada ou pela própria indústria farmacêutica que as produziu ou por algum congénere europeu ou americano. Que se saiba, não há por lá gente que tenha o hábito de avalizar as entranhas de um aparelho mecânico e electrónico complexo como um ventilador. Será que se vão apenas guiar pelo folheto de garantia da EFACEC na certificação? Confesso que não me sinto totalmente seguro com todo este entusiasmo e, sendo assim, termino com uma sugestão caseira de gato escaldado:
Caro leitor/a, compre uma máscara, das certificadas, logo que possa. Não há, não encontra? Já falaremos disso e, enquanto espera, use então uma caseira — melhor que nada. Mas depois (se ainda não a tiver, pois, pelo que tenho visto, muita gente a tem) trate de encomendar algo decente, que o proteja mais seriamente do que uma posta de t-shirt. Continua a haver na Internet material de protecção individual à venda, de tudo quanto possa precisar. É caro, é mais caro do que o que deveria? Certamente, mas compete-lhe a si decidir as prioridades: vale mais gastar 35 euros por duas máscaras FFP2 (bico de pato, protecção 95 %), ficar a discutir as perversões da especulação, ou ir parar a um ventilador? 
E algumas destas máscaras podem ser reutilizadas, sobretudo quando são usadas durante pouco tempo, como ir ao supermercado e voltar. Não vou gastar tempo a explicar como se usam: já o fiz por aqui (Covid19: Máscaras Reajustadas) e os telejornais (algo irritados por terem tido de andar a dizer mal das máscaras anteriormente) já nos prestam esse serviço; há vários clips na internet que o explicam, mas, não obstante, deixo aqui, para que veja com o que se parecem, uma foto doméstica dos três principais tipos de máscaras, do género: como devem ser. De cima para baixo:
FFP1 (máscara cirúrgica): aquela que vemos o nosso dentista usar sistematicamente; vemo-la nalguns médicos que encontramos nos hospitais; e em alguns seres vivos normais com quem nos cruzamos na rua e que, habitualmente, estão em período de baixa imunidade, por exemplo doentes oncológicos em tratamento. Chegam para pequenas deslocações a locais como supermercados, farmácias, correios, abrir a porta de casa a quem nos vem entregar uma encomenda.
FFP2 (máscara bico-de-pato; na foto uma de fabrico português, certificada): protege muito bem, evitando 95 % de todas as partículas que podemos respirar, designadamente vírus.
FFP3: protege muito bem, evitando 99 % de todas as partículas que podemos respirar, designadamente vírus.


De cima para baixo: máscara cirúrgica (FFP1); máscara bico-de-pato (FFP2); respirador FFP3.

 © Fotografias de pedro serrano, abril 2020.