06 setembro 2012

CAMUFOLHAGEM

© Fotografia de Pedro Serrano, Torreira (Aveiro), 2012.

05 setembro 2012

ONCE IN A BLUE MOON

"Once in a blue moon" é uma expressão usada para nomear um acontecimento raro. A origem do termo vem do fenómeno, ele próprio pouco frequente, de, num mesmo mês, ocorrer uma segunda lua-cheia. Van Morrison, o compositor e cantor irlandês gravou, no CD What's Wrong With This Picture (2003), uma canção sobre o assunto. Copio aqui em baixo a letra. Quanto à fotografia acima, é de uma dessas luas azuis que ocorreu no mês de Agosto de 2012. 


Once in a blue moon
Something good comes along
Once in a blue moon
Everything's not going wrong
When you get weary
Beating on the same old gong
Once in a blue moon
Someone like you comes along

Once every once in a while
Something comes along that feels just right
Once every once in a while
Just like switching on an electric light
And sometimes you try till you're blue in the face
But when you get that feeling
Nothing's going to take its place

Once in a blue moon
There's a thing called happiness
It happens when you're in
A state of natural grace

When the wind is blowing
All around the fence
I get that happy feeling
Things start making sense
All just feels so lucky
That you just can't go wrong
Once in a blue moon
Someone like you comes along

Once in a blue moon
There's a thing called happiness
It happens when you're in
A state of natural grace

When the grass is growing
All around the fence
And you get that happy feeling
Everything starts making sense
And you get so lucky
That you can't go wrong

Once in a blue moon
Something comes along
Once in a blue moon
Someone like you comes along
Once in a blue moon
Something good comes along
Once in a blue moon

© Fotografia de Pedro Serrano, Praia da Areia Branca. 

02 setembro 2012

MINHA PRETA É UMA RAINHA

 © Fotografia de Pedro Serrano, Aveiro, Agosto 2012. Nota: A frase "Minha preta é uma rainha" pertence a um verso da letra da canção "Gol Anulado" de João Bosco e Aldir Blanc (CD Galos de Briga, 1976). 

25 agosto 2012

A TIA ZIRINHA MANDOU-TE...




A tia Zirinha mandou-te,
Disse ele, logo à chegada,
Saudades e cumprimentos,
Uma mão-cheia de pimentos
Duas tigelas de marmelada







© Foto: Pedro Serrano, Buçaco 2012.

18 agosto 2012

09 agosto 2012

UMA HISTÓRIA ILUSTRADA


Ilha de Santiago: vista que se tem da Senhora da Luz e, ao fundo, a ilha do Maio.
Quando os portugueses lá chegaram, por volta de 1460, não havia hotéis, resorts ou modalidades de alojamento tipo all inclusive. De facto, não havia lá ninguém!
Não sei porquê, a gente fica sempre um pouco agarrada à ideia de que os descobridores (agora é correcto chamar-lhes achadores, sob o pretexto ovo-de-Colombo de que não se descobre uma terra que já existia), ficamos a pensar, dizia, que os descobridores chegam sempre aos novos mundos pela capital e tendemos a imaginá-las como são agora, com os cristos de braços em cruz incluídos, como a prenda no bolo-rei... Mas não, os portugueses chegaram à ilha de Santo Iago pela enseada que se vê na foto e percebe-se porque resolveram chamar ao sítio de Cabo Verde.
Fomos espreitar aquilo uma manhã de Sábado tórrida e, depois de deixar a cidade e o asfalto para trás, andámos às voltas por uma estrada vagamente empedrada, ladeada de paisagem árida e austrálias comidas pela poeira. Numa bifurcação, o Oswaldo perguntou a um rapazito de bicicleta para que lado era a capela. Ele esticou o braço numa direcção e tentou seguir-nos durante uma centena de metros.
Depois a paisagem animou-se, pintalgou-se do verde das palmeiras, dos recortes de terra semeada, da roupa a secar, e beijou-nos as narinas, ainda mesmo antes do odor da maresia, o bálsamo húmido da proximidade de água.
E, enfim, do cimo de uma escarpa onde se equilibravam aldeias em linha recta, vimos aquilo que em 1460 eles devem ter visto quando se apinhavam na amurada: uma abrigada baía, onde a água se prateia em suave ondulação e, prolongando-a, terra dentro, um vale luxuriante, a prometer água potável, lenha, e a bicharada que apetece por a rodar num espeto e que sempre habita estes sítios abençoados. No cimo da escarpa, arriscando-se o mais possível a espreitar o mar, mandaram construir uma capela, que dedicaram à Senhora da Luz – que designação tão apropriada. A capela, que continua local de peregrinação e culto, pelos vistos estava a desfazer-se nos seus esquecidos séculos à beira-mar e não estiveram com meias-medidas: cimentaram o todo, como quem recama um bolo de creme. Que crime arquitectónico, contra o património! Pois, mas a capela continua lá, pelo menos não se esboroou falésia abaixo. Fecharam um dos pórticos com grades e, espreitando entre as barras, onde, pouco raladas com a nossa presença, pousam aves a descansar, espreitam-se bancos de culto muito alinhados na sombra apetecida do meio-dia. 
Como quem procura o recolhimento de uma mijadela privada, cada um de nós os três se afastou numa direcção solitária e, embora tenhámos visto e coscuvilhado o mesmo, fizemo-lo em separado, em silêncio, que é o que aquele local, pelo muito que já viu, aconselha. Quando nos sentimos saciados, regressámos à cidade onde, no ponto mais alto, mais debruçado, o velho descobridor estrangeiro, com o seu olhar de bronze, perscruta o mar sob a bandeira nacional.



© Fotografias de Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), 2011 e 2012.

07 agosto 2012

QUANDO O FORTE SE FAZ FRACO


Se, porventura, tiver de viajar até à Praia, a capital de Cabo Verde, não deixe de ir jantar ao restaurante Plaza, na Achada de Santo António, uma das colinas da cidade.
Embora localizado em ponto central, o Plaza fica recatadamente oculto por uns outdoors do largo terreiro que o separa da embaixada de Portugal e do seu congénere mais afortunado, em termos de movimento, o restaurante Poeta.
Mas não deixe de ir experimentar as iguarias que o Plaza põe à disposição dos clientes e das quais apenas relembro aqui uma reduzida escolha: a cachupa rica; o bife de barriga de atum, cujas lascas se separam ao contacto do garfo; o polvo grelhado com molho verde e, não esqueça de perguntar e insistir por eles, os pastéis de milho recheados com atum. Em relação a estes últimos, o Paulo, que foi quem me iniciou no prazer de ir ao Plaza, recomendava, pelo exemplo, que os pintalgasse com a pasta esverdeada de piripiri fresco, a qual lhes acrescentava um paladar especial, por certo picante, mas não somente pela comezinha circunstância de por as papilas gustativas aos saltos – nascia uma  implausível frescura vegetal por trás do tremeluzente incêndio.
“Este homem vale o seu peso em ouro...”, sussurrava o meu companheiro quando, depois enfiar a garrafa de maduro-branco do Fogo no seu balde de gelo, ele se afastava pela porta de vaivém que conduzia à cozinha.
Referia-se ao Sr. Bernardino, o omnipresente empregado, tão cuidadoso e requintado na observância do seu mister que, naturalmente, o julgámos o gerente do estabelecimento. O Sr. Bernardino esperava-nos à porta, conduzia-nos à mesa, trazia uma cestinha de pão fresco e torradas de manteiga com alho para nos entreter enquanto mergulhávamos, em devoto silêncio, na leitura do menu; desenroscava uma garrafa de água gelada e, se ainda não conseguira para hoje a almejada barriga de atum, prometia que o conseguiria antes da nossa partida...
Ora uma noite, à hora de pagar e nos despedirmos, o Sr. Bernardino informou-nos que, no dia seguinte, não estaria lá para nos receber e obsequiar, mas que não nos preocupássemos com a ausência, uma vez que já combinara tudo com uma das meninas – termo dele – que costumavam partilhar o serviço às mesas, mas pouco assíduas à nossa, pois, assim parecia, o Sr. Bernardino preferia ocupar-se de nós com silente e atenta gravidade.
“É aquela menina que costuma andar por aqui...?”, perguntei, referindo-me àquela das empregadas cuja presença era mais constante na sala.
O Sr. Bernardino hesitou um pouco antes de responder e encabeçou a resposta com uma negativa, como parece ser comum nalguns Praienses, já que o meu amigo José da Rosa (recorde-o, neste blog, em As Noites Brancas do Senhor da Rosa) tem a mesma prática:
“Não, quer dizer, há duas meninas que costumam servir aqui: uma é a Graciete, que é a mais forte, e, a outra, é a mais fraca...”, e o senhor Bernardino hesitou no nome da outra. Um pouco encabulado, acrescentou que, de momento, não recordava o nome da segunda empregada, deixando-nos a nós, clientes ávidos da cultura autóctone, a percepção de que aquele “forte”, a que se associava o esquecimento do nome da “fraca”, arrastava consigo uma íntima preferência por uma das suas colaboradoras.
Depois de prestada esta informação, o Sr. Bernardino sumiu-se na porta de vaivém, de onde regressou para nos informar que a menina mais fraca se chamava Margarida, mas que seria a Graciete (“a menina mais forte”) que tomaria conta de nós no dia seguinte.
Saímos do Plaza para o amplexo de uma noite tépida e atravessámos o escuro terreiro sob a benevolência da lua-cheia, o que assinalava com suplementar nitidez a localização dos  tradicionais dejectos caninos e deixava que a minha mente se entretivesse com a pertinente questão de qual seria a razão humana para que o Sr. Bernardino preferisse a Graciete à Margarida, pois, a mim – rude europeu – e assim de forma completamente apriorística, a menina fraca aparecia-me como senhora de mais inclementes atributos e não era, de todo, a qualidade do serviço hoteleiro que parecia factor distintivo entre ambas.
Sr. Bernardino e Graciete
Na noite seguinte, ao entrarmos a porta do Plaza, fomos recebidos, como se de contrassenha se tratasse, pelo sorriso meigo da Graciete, que nos acompanhou à nossa mesa do costume e nos entregou o menu no recolhido silêncio que casava tão bem com o conforto abrigado da sala onde não havia televisão e a música era um sussurro ambíguo. Logo que a menina forte percebeu termos feito as nossas opções para o jantar, aproximou-se e, então, falou, e foi como se o mar se abrisse e a explicação da fraqueza do Sr. Bernardino se revelasse: a Graciete, já toda ela languidez nos modos e no pisar, exprimia-se num tom de voz desfalecido que, como um pó entorpecente, fazia recuar para o escuro da consciência o facto de a sua cintura não ser de vespa e nos empurrava a adivinhar que se, por sorte e ventura, nos atrevêssemos a enlaçá-la, ressumaria do amplexo a calda açucarada em que se mergulham os sonhos. Mas, nessa noite, para sobremesa, as opções ao alcance eram os gelados caseiros de morango e chocolate ou o tradicional doce de papaia com queijo de cabra. Eu fui pelo morango e o Paulo, após se certificar que era mesmo caseiro, pelo de chocolate.    
© Fotografias de Pedro Serrano, Praia, Cabo Verde, Agosto 2012.

05 agosto 2012

UM DOMINGO BEM PASSADO


Ao Domingo, há missa às onze na igreja de Nossa Senhora da Graça. Da esplanada do Morabeza, no Plateau, consegue-se ver a porta da igreja, pelo que me sentei por ali a tomar o pequeno-almoço, à espera que a missa acabasse e pudesse ir ter com a Maria da Luz, com quem combinara encontrar-me para me despedir, pois deixo hoje Santiago.
Este ritual de esperar alguém que foi à missa a partir da esplanada do Morabeza já o praticara com a Ana Cristina, que é católica e vegetariana. Sentava-me por ali à espera dela, até que pelas três portas, uma principal e duas laterais, da igreja começava a jorrar uma colorida hemorragia de fiéis. Que diferença, em quantidade e qualidade das missas portuguesas, que, à hora do fecho, apenas purgam meia-dúzia de beatas, roucas de ganir acompanhamentos e indispostas com a azia provocada por terem engolido a hóstia a seco, sem um golinho de água... Aqui, os fiéis são muitos, de predominância jovem, e vestidos a preceito para a cerimónia. Lá de dentro chegam ecos de cantos felizes e uma satisfação serena espraia-se nas faces de quem, no final, se espalha pelo jardim Alexandre Albuquerque onde o coreto, pintado em azuis e rosa, lembra um bolo de noiva.
Hoje, ao meu lado, nas mesas da esplanada, um casal consulta demoradamente o menu, ela folheando um dicionário de bolso alemão-português sob o olhar atento do hirsuto marido que, vermelhusco, parece correr o risco de explodir a qualquer momento sob o calor inclemente do Agosto cabo-verdiano.
Finalmente, decidiram-se e chamam o empregado. Tudo parecia estar a correr muito bem com o processo de encomenda até que o rapaz informou que o prato escolhido pelo senhor se tinha acabado. Agitação e impasse, o homem folheia de novo a lista, afogueado, enquanto olha em volta, como um náufrago, procurando inspiração nas mesas adjacentes. Súbito, o olhar ilumina-se e inclina-se para comunicar à mulher, que é quem serve de tradutor simultâneo, que ambiciona um prato igual ao que está a comer uma moça local, de vestido kaikai, uma combinação com um ar bem calórico e coroada por um ovo estrelado.
Num português prenhe de gestos e cuja sonoridade faz lembrar espanhol desossado, a senhora informa o paciente rapaz que o seu marido quer algo semelhante. O empregado regista o pedido com acenos de compreensão, o alemão remexe-se na cadeira como um javardo com pulgas, a esposa desfaz-se em sorrisos ambientais e abandona, com alívio, o dicionário sobre a mesa.
Mas eis que o empregado, que já avançava para o balcão, retorna e pergunta em bom português:
“O ovo estrelado é bem ou mal-passado?”
Na mesa ao lado, quase tive piedade ante o novelo de incompreensão e paralisia que acometeu os alemães e inclinei-me um pouco para a frente num prólogo de ajuda, pois a senhora pegara outra vez no livrinho de capa amarela, porventura à procura do significado de “mal-passado”. Mas, depois, lembrei-me a tempo que não seria pior ideia deixar à sorte o desfecho daquele confronto gastronómico norte-sul e ficar a ver em que resultaria a habitual supremacia germânica.
Infelizmente, num olhar de relance por sobre a praça, apercebi uma onda de gente que começava a atapetar de cor as escadas da igreja da Senhora da Graça e levantei-me, apressado, da minha mesa.

© Fotografias de Pedro Serrano, Santiago, Cabo Verde, 2011.

04 agosto 2012

CONVERSANDO EM PORTUGUÊS

Conversando no Bar Zé da Rosa. Da esquerda para a direita: Maria da Luz Lima (Cabo Verde), Mário Tamy (Guiné-Bissau), António Moreira (Cabo Verde), Almeida Chitungo (Angola), Paulo Graça (Cabo Verde), Nicolau Almeida (Guiné Bissau), Miriam Delgado (Cabo Verde), Pedro Serrano (Portugal), Paulo Ferrinho (Portugal), Salomão Crima (Guiné-Bissau). © Fotografia: Zé da Rosa (Cabo Verde), cidade da Praia (ilha de Santiago), Cabo Verde, 3 de Agosto 2012.

01 agosto 2012

BELA ADORMECIDA

© Fotografia de Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), Agosto 2012.

30 julho 2012

VISITAS AO FIM DA TARDE


© Fotos: Pedro Serrano, Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde, 30 Julho 2012.

29 julho 2012

ENTRETANTO EM CABO VERDE: Cooperação internacional


Acabado de chegar pela madrugada, fui hoje ao Pão Quente (na filial aqui da Achada de Santo António), comprar umas garrafas de água para ter no frigorífico do apartamento, pois está um calor que não se pode!
No Pão Quente, a técnica de pagamento consiste em ir acumulando num papelinho o que se vai consumindo na mesa, pagando-se tudo à saída.
Na caixa, mesmo por baixo do retrato do Dáti (veja o texto O Táxi Humano para perceber quem era), o rapaz de serviço, um míope como eu, reparou no meu sofisticado, porém automático, processo de mudar de óculos, isto é: tirei os óculos de lentes brancas da cara, extraí da embalagem os de sol e pu-los na cara, e devolvi os de lentes brancas à embalagem de onde retirara os escuros.
“Também são graduados...?”, perguntou o rapaz, vivamente interessado na solução.
“Claro, de outro modo não veria nada...”
“Ah...”, disse ele mirando-me a cara com atenção.
“Quer experimentar?”, propus, pois percebi que daquele intercâmbio poderia nascer alguma decisão óptica.
Ele quis e quase gemeu de maravilhamento ao sentir a tonalidade, entre o castanho e o alaranjado, daquela visão do mundo.
“Ué, fica tudo mesmo mais escuro...”
“E tem uma visão nítida ou vê tudo um bocadito embaciado?”
“Vejo um pouco embaciado...”, concluiu ele, levantando e baixando os meus óculos sobre o nariz.
“É que a sua miopia deve ser diferente da minha”, comentei, “quanto é que você tem?”
Ele não sabia, mas, em alternativa, ofereceu-me os óculos dele para eu experimentar, desculpando-se da rachadela vertical de uma das lentes, coisa que teria de mandar compor um dia destes.
“Também vejo tudo um bocado embaciado”, esclareci, usando a moça que comprava pão ao balcão como mira técnica da nitidez factual.
Devolvi-lhe os óculos, ele estendeu-me os meus, informando que, se calhar, ia adoptar a minha técnica: um par de óculos conforme a situação.
“Para mim, ainda é o melhor: há umas palas de encaixar nos óculos normais, mas é uma chatice, nunca fica tão bem...”
Ele torceu o nariz, sabia do que eu estava a falar e também não apreciava o resultado final.
Depois sorrimos um ao outro, como que ressalvando o benefício da troca pela qual tínhamos acabado de passar, ele ficou a atender a moça do pão quente e eu, ajustando os óculos de sol, arrisquei-me ao bafo inclemente da tarde. 
© Fotografia de Pedro Serrano, Praia (Santiago), Julho 2012.

20 julho 2012

SEM VOCÊ


Chico Buarque interpreta "Sem Você" de António Carlos Jobim e de Vinícius de Moraes.

15 julho 2012

MISTÉRIOS DO COSMOS


No meu quarto do hotel Kosmos, em Leipzig, na parede fronteira à cama, estavam penduradas duas fotografias emolduradas de um casal, e que, apesar de serem duas e separadas pelas respectivas molduras, formavam um todo, de tal modo constituíam um casal. Eram, ou tinham-se tornado, até fisicamente parecidos.
Pela roupagem, sou levado a supor que a fotografia data do fim do século XIX, dealbar do séculos XX, e a senhora tinha uma presença impressionante, aqueles olhos claros e intensos deixavam marca na memória e dava comigo a olhar para ela de soslaio quando, à noite, regressava ao quarto, como se estivesse a prestar contas a pessoa que tivesse um qualquer ascendente familiar sobre mim.
Para além desse mistério, a moldura dela encerrava um outro: uma mancha de humidade parasitara o quadro, instalara-se, com a fixidez das presenças definitivas, cristalizada no formato exacto de um copo de pé alto. Que faria ali e que se teria comemorado antes de eu, num fim de tarde incerto do século XXI, ter rodado a chave do quarto 31 do Hotel Kosmos?
© Fotografias de Pedro Serrano, Leipzig (Alemanha), Junho 2012.

08 julho 2012

SUSTO!

© Fotografia de Pedro Serrano, Ikau (Bengo), Angola, 2008.

03 julho 2012

HÁ COISAS PIORES!


Na Alemanha, os motoristas de táxis são corteses, devolvem o troco ao milímetro, ajudam os clientes a enfiar as bagagens na mala e não cobram taxa extra pelo seu transporte. O mesmo pode ser dito dos chauffeurs de táxi espanhóis no que se refere à cortesia e ao modo como lidam com as malas. Quando ouvem rádio, tal como os seus colegas alemães, fazem-no no mínimo do volume e não há colunas a berrar o que ouvem para os assentos de trás.
Eis-nos regressados à pátria num Domingo, final de dia em dia de final do Euro 2012. Na Portela, à saída do aeroporto, a bicha para os táxis tem aqui um aspecto menos industrializado do que no aeroporto de Barcelona. Como motorista calhou-nos um brasileiro amulatado que demorou a sair do táxi o tempo suficiente para que, quando chegou ao nosso lado, já eu tivesse aberto a mala e estivesse a encafuar as malas lá dentro.
A meio do trajecto, e visto que o automóvel era dele, ligou o rádio bem alto, pois eram horas do começo do jogo. Ao chegar ao nosso destino, depois de receber o dinheiro que lhe era devido, bem sentado no seu lugar, perguntou se não nos importávamos de tratar nós de ir buscar a bagagem às malas. Possivelmente face ao ar meio admirado com que o mirámos achou por bem explicar:
“É que tou com as costas estragadas – ontem à noite a namorada rebentou-me todo!”
© Fotografia de Pedro Serrano, Lourinhã 2011.

27 junho 2012

ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO


Alemanha: antes e depois.

Na ressaca da II Guerra Mundial foi necessário dividir a Alemanha em fatias para que ela não ficasse com ideias. Os despojos foram partilhados entre a União Soviética, a Inglaterra, os Estados Unidos e a França. Com o seu pedaço e a rica experiência anterior em criar repúblicas independentes, a URSS imaginou a República Democrática Alemã (mais conhecida por Alemanha Oriental ou do Leste), território de grande utilidade para que o colosso comunista farejasse de perto o que se passava na Europa Ocidental.
O regime da Alemanha de Leste (a RDA) ficou conhecido pela sua ortodoxia e dureza e os russos não poderiam ter sonhado com melhores discípulos, pois nem nas suas mais devotas repúblicas federadas, como a Lituânia, a Ucrânia ou o Cazaquistão, conseguiram tanto ordenamento do território...
Um dos pilares da montagem e manutenção deste sistema foi o Ministério da Segurança do Estado (cuja sigla STASI se tornou famosa), um ministério totalmente dedicado ao policiamento político do país e arredores, com 90.000 funcionários a tempo inteiro e, no seus melhores dias, quase dois milhões de informadores, incluindo crianças, o que fazia com que a RDA tivesse cerca de 1 espião por cada 63 habitantes. Imagino que nas bordas da Península Ibérica o nosso ditador caseiro se babava de inveja.
A STASI, criada em 1950, teve as suas raízes na Gestapo alemã e absorveu com eficácia todos os métodos e requintes da sua congénere KGB com quem, aliás, mantinha estreita colaboração. A sua estrutura e interesses abrangiam todos os ramos possíveis da actividade humana, tendo até um departamento central cuja função era o controle do lixo, secção onde, como é do conhecimento geral, se podem obter informações vitais para o desenvolvimento de um país.
A sede nacional da STASI ficava em Berlim Leste, ocupava um quarteirão e tinha arquivos com cerca de 170 km de documentação. Mas nas outras cidades da RDA a STASI tinha filiais e Leipzig, no nordeste do país, era uma delas.
No passado Domingo, não em completo à vontade, subi as escadas da antiga sede da STASI de Leipzig, um edifício maciço e tristonho, agora transformado em museu, situado numa das principais avenidas da cidade e fronteiro à escola de música Felix Mendelssohn onde o Zé João e mais 600 alunos fazem os seus estudos musicais.
Há várias sombras que impressionam numa visita destas, a primeira das quais é a de ainda em 1989 tudo aquilo ser uma realidade operante e não o comboio-fantasma obsoleto em que os seus corredores se transformaram e onde o equipamento técnico repousa envidraçado: máquinas para abrir correspondência subrepticiamente, carimbos falsos de todas as cidades do mundo; cabeleiras postiças comidas pelo tempo; máquinas fotográficas disfarçadas em carteiras de senhora cujo couro engelhou...
Embora a STASI não fosse uma polícia política particularmente carniceira (nos anos 50 e 60 o cheiro a carne chamuscada na Europa era ainda uma memória vívida e a violência física mal vista), lá está, discreta na parte inferior de um placard, a fotografia a preto e branco de um pequeno forno crematório, uma coisa quase nada, quase só uma torradeira para o desenrasque de situações urgentes.
Mas uma das vitrines que mais provocam uma sensação de mal-estar, pegajosa e duradoura, é a que protege uns grandes frascos de vidro cilíndricos, com tampa de enroscar e umas flanelas amareladas enroladas lá dentro. Que porra seria aquilo,  enquadrado entre as máquinas fotográficas dissimuladas atrás de botões de casaco e os diminutos gravadores de fita acoplados a telefones? Pois é um catálogo de cheiros! Perante cada objecto suspeito, encontrado abandonado, os agentes da STASI aplicavam-lhe um pano altamente absorvente que captava as moléculas olorosas geradas pelo seu dono potencialmente fora da lei. Mais tarde, quando esse dono era chamado a interrogatório, sentavam-no numa cadeira com uma flanela nova dissimulada sob o assento, a qual se impregnava do odor específico de quem ali se sentara. Para a prova de compatibilidade entre as duas flanelas a STASI possuía (em 1988) 41 cães treinados para isso mesmo: cheirar quadrados de panos e providenciar evidência científica da culpa dos habitantes extraviados de Leipzig.
Finalmente, e isso é pormenor que só se sente cá fora, respirando o ar puro das ruas pacatas de Leipzig, os aromas das alamedas frondosas e dos seus jardins bem tratados, a gente fica a perguntar-se por onde andarão essas pessoas que ainda há menos de 25 anos faziam parte deste jogo repressivo. O que pensarão, hoje em dia, quando se cruzam, sorridentes e em liberdade, connosco e vão à sua vida como se nada fosse? Nada, é o mais provável.


Com excepção do mapa, © Fotografias de Pedro Serrano, Leipzig (Alemanha do ex-Leste), Junho 2012








ENTRETANTO EM BARCELONA...

Entretanto em Barcelona a madrugada invade o quarto e polvilha-o em canela

© Fotografia de Pedro Serrano, Barcelona, Junho 2012.

23 junho 2012

ENTRETANTO EM LEIPZIG

Entretanto em Leipzig as pessoas preparam-se para ver o Grécia-Alemanha em enormes ecrãs colocados pela cidade. Na véspera, o Portugal-República Checa animava todos os televisores e o comentador alemão torcia de forma mal-disfarçada por Portugal...
© Fotografias de Pedro Serrano, Leipzig (Alemanha), Junho 2012.

20 junho 2012

UMA MÃO TRAVESSA


Agora que o mundo está tão globalizado é provável que já tenha reparado no estranho fruto que aparece na fotografia aqui ao lado, pois é relativamente comum dar com ele nos escaparates de legumes dos nossos supermercados. Chama-se quiabo mas não se assuste com a sonoridade do nome, pois o seu sabor não tem, nem de longe, tantos bicos.
Enquanto os especialistas continuam a discutir se é oriundo da África e alguém o levou para a Ásia ou se é asiático e nos chegou via África, aproveito o fundo de ecrã do rumor das discussões para dizer que, a mim, os quiabos me fazem sempre lembrar Angola e que, quando lá chegava, ia a correr comer alguns e, a cada prato que encomendava num restaurante, perguntava se “traz quiabos?”
Em nome dessa saudade, deixo aqui uma receita e, também, alguns truques sobre o modo de escolher e tratar com quiabos.
Compra
Quando vir quiabos à venda observe-os com cuidado e escolha aqueles que têm uma cor verde bem viva. Evite os que apresentam manchas esbranquiçadas na superfície ou que, ao toque, não reagem da sua murchidão. Ou seja, os quiabos querem-se firmes mas, por outro lado, pequenos: uma mão travessa ou pouco mais (10 a 12 cm), de outro modo serão fibrosos e duros ao paladar.
Preparação
Ao corte, os quiabos podem escorrer uma baba que impressiona os mais sensíveis mas que desaparece quando são cozinhados. Mas, se isso a inibe, uma maneira simples de fazer desaparecer esse fluido gomoso é deixá-los, durante uns 15 minutos, numa taça de água na qual se espremeu sumo de limão. Depois passe-os por água fria e corte as pontas de ambos os lados. Estão prontos a serem cozinhados
REFOGADO DE QUIABOS (para aproximadamente ½ Kg de quiabos)
Corte uma cebola de tamanho médio às rodelas e disponha-as pensativamente no fundo de um tacho onde está a aquecer azeite q.b. Deixe alourar. Mas o que é isso de alourar, perguntarão para si próprios aqueles que não tem coragem de o perguntar a terceiros? Bem, para isso tem de estar por perto: a cozinha nunca sai bem se a encaramos de forma precipitada ou menos cuidadosa e desse ponto de vista é como acender uma lareira e mantê-la a funcionar – para nos fazer companhia, uma lareira precisa de ser acompanhada. À medida que o azeite vai aquecendo, a cebola aquece também e vai amolecendo sob os nossos olhos. No início há uma fase em que parece que as rodelas se inteiriçam, que secam, mas depois rendem-se ao calor, à envolvência do azeite, e começam a tornar-se lassas, a ganhar um enrubescimento amarelado. Está no ponto (é um ponto instável, que rapidamente vira esturro) quando a cor se aproxima da do mel do sul do país, que é um mel claro e dourado. Neste ponto, deite os quiabos no tacho e ponha o fogo no mínimo. Antes de tapar o tacho, polvilhe o verde dos quiabos com sal (pouco) e pimenta. Depois, como quem dá de comer às pombas, distribua dois dentes de alho, finamente picados, sobre o conjunto. Olhe que isto de só aplicar o alho nesta fase do cozinhado é importante: se o mistura à cebola logo no começo é muito provável que o alho frija, o que vai afundar o paladar dos quiabos num travo de bifana de rulote! Não, o alho quer-se discreto. Ponha a tampa e deixe o todo refogar, sempre no mínimo, durante 20 minutos. Deixe-se estar por perto e espreite de vez em quando o que se passa lá dentro: se o refogado perder água, por exemplo, pode ter de acrescentar um pouco, de molde a manter a humidade necessária. Sabe que os quiabos estão no ponto quando, ao levantar a tampa, os sentir macios, sob o pau da colher, como uma almofada de penas.
Estão prontos e pode comê-los só assim ou usá-los como acompanhamento de qualquer prato. Quais? Sei lá, por exemplo um belo bife da vazia, um frango assado ou uma costela-mendinha estufada.
© Fotografias: (1) Do blog Tertúlia de Sabores; (2) Pedro Serrano, Barra do Dande, Angola, 2008