11 setembro 2012
06 setembro 2012
05 setembro 2012
ONCE IN A BLUE MOON
"Once in a blue moon" é uma expressão usada para nomear um acontecimento raro. A origem do termo vem do fenómeno, ele próprio pouco frequente, de, num mesmo mês, ocorrer uma segunda lua-cheia. Van Morrison, o compositor e cantor irlandês gravou, no CD What's Wrong With This Picture (2003), uma canção sobre o assunto. Copio aqui em baixo a letra. Quanto à fotografia acima, é de uma dessas luas azuis que ocorreu no mês de Agosto de 2012.
Once in a blue moon
Something good comes along
Once in a blue moon
Everything's not going wrong
When you get weary
Beating on the same old gong
Once in a blue moon
Someone like you comes along
Once every once in a while
Something comes along that feels just right
Once every once in a while
Just like switching on an electric light
And sometimes you try till you're blue in the face
But when you get that feeling
Nothing's going to take its place
Once in a blue moon
There's a thing called happiness
It happens when you're in
A state of natural grace
When the wind is blowing
All around the fence
I get that happy feeling
Things start making sense
All just feels so lucky
That you just can't go wrong
Once in a blue moon
Someone like you comes along
Once in a blue moon
There's a thing called happiness
It happens when you're in
A state of natural grace
When the grass is growing
All around the fence
And you get that happy feeling
Everything starts making sense
And you get so lucky
That you can't go wrong
Once in a blue moon
Something comes along
Once in a blue moon
Someone like you comes along
Once in a blue moon
Something good comes along
Once in a blue moon
Something good comes along
Once in a blue moon
Everything's not going wrong
When you get weary
Beating on the same old gong
Once in a blue moon
Someone like you comes along
Once every once in a while
Something comes along that feels just right
Once every once in a while
Just like switching on an electric light
And sometimes you try till you're blue in the face
But when you get that feeling
Nothing's going to take its place
Once in a blue moon
There's a thing called happiness
It happens when you're in
A state of natural grace
When the wind is blowing
All around the fence
I get that happy feeling
Things start making sense
All just feels so lucky
That you just can't go wrong
Once in a blue moon
Someone like you comes along
Once in a blue moon
There's a thing called happiness
It happens when you're in
A state of natural grace
When the grass is growing
All around the fence
And you get that happy feeling
Everything starts making sense
And you get so lucky
That you can't go wrong
Once in a blue moon
Something comes along
Once in a blue moon
Someone like you comes along
Once in a blue moon
Something good comes along
Once in a blue moon
© Fotografia de Pedro Serrano, Praia da Areia Branca.
Classificação:
FOTOGRAFIAS,
MÚSICAS
02 setembro 2012
25 agosto 2012
18 agosto 2012
09 agosto 2012
UMA HISTÓRIA ILUSTRADA
| Ilha de Santiago: vista que se tem da Senhora da Luz e, ao fundo, a ilha do Maio. |
Quando os portugueses lá chegaram, por
volta de 1460, não havia hotéis, resorts
ou modalidades de alojamento tipo all
inclusive. De facto, não havia lá ninguém!
Não sei porquê, a gente fica sempre um
pouco agarrada à ideia de que os descobridores (agora é correcto chamar-lhes achadores, sob o pretexto ovo-de-Colombo
de que não se descobre uma terra que já existia), ficamos a pensar, dizia, que
os descobridores chegam sempre aos novos mundos pela capital e tendemos a
imaginá-las como são agora, com os cristos de braços em cruz incluídos, como a
prenda no bolo-rei... Mas não, os portugueses chegaram à ilha de Santo Iago pela
enseada que se vê na foto e percebe-se porque resolveram chamar ao sítio de
Cabo Verde.
Depois a paisagem animou-se,
pintalgou-se do verde das palmeiras, dos recortes de terra semeada, da roupa a
secar, e beijou-nos as narinas, ainda mesmo antes do odor da maresia, o bálsamo
húmido da proximidade de água.
E, enfim, do cimo de uma escarpa onde
se equilibravam aldeias em linha recta, vimos aquilo que em 1460 eles devem ter
visto quando se apinhavam na amurada: uma abrigada baía, onde a água se prateia
em suave ondulação e, prolongando-a, terra dentro, um vale luxuriante, a
prometer água potável, lenha, e a bicharada que apetece por a rodar num espeto e
que sempre habita estes sítios abençoados. No cimo da escarpa, arriscando-se o mais possível a espreitar o mar, mandaram construir uma capela, que dedicaram à Senhora da Luz – que designação tão apropriada. A capela, que continua local de peregrinação e culto, pelos vistos estava a desfazer-se nos seus esquecidos séculos à beira-mar e não estiveram com meias-medidas: cimentaram o todo, como quem recama um bolo de creme. Que crime arquitectónico, contra o património! Pois, mas a capela continua lá, pelo menos não se esboroou falésia abaixo. Fecharam um dos pórticos com grades e, espreitando entre as barras, onde, pouco raladas com a nossa presença, pousam aves a descansar, espreitam-se bancos de culto muito alinhados na sombra apetecida do meio-dia.
© Fotografias de Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), 2011 e 2012.
Classificação:
CABO-VERDE,
RUMINAÇÕES
07 agosto 2012
QUANDO O FORTE SE FAZ FRACO
Se, porventura, tiver de viajar até à
Praia, a capital de Cabo Verde, não deixe de ir jantar ao restaurante Plaza, na Achada de Santo António, uma
das colinas da cidade.
Embora localizado em ponto central, o Plaza fica recatadamente oculto por uns outdoors do largo terreiro que o separa
da embaixada de Portugal e do seu congénere mais afortunado, em termos de
movimento, o restaurante Poeta.
Mas não deixe de ir experimentar as
iguarias que o Plaza põe à disposição
dos clientes e das quais apenas relembro aqui uma reduzida escolha: a cachupa
rica; o bife de barriga de atum, cujas lascas se separam ao contacto do garfo;
o polvo grelhado com molho verde e, não esqueça de perguntar e insistir por
eles, os pastéis de milho recheados com atum. Em relação a estes últimos, o
Paulo, que foi quem me iniciou no prazer de ir ao Plaza, recomendava, pelo exemplo, que os pintalgasse com a pasta
esverdeada de piripiri fresco, a qual lhes acrescentava um paladar especial,
por certo picante, mas não somente pela comezinha circunstância de por as
papilas gustativas aos saltos – nascia uma implausível frescura vegetal por trás do
tremeluzente incêndio.
“Este homem vale o seu peso em ouro...”,
sussurrava o meu companheiro quando, depois enfiar a garrafa de maduro-branco
do Fogo no seu balde de gelo, ele se afastava pela porta de vaivém que conduzia
à cozinha.
Ora uma noite, à hora de pagar e nos
despedirmos, o Sr. Bernardino informou-nos que, no dia seguinte, não estaria lá
para nos receber e obsequiar, mas que não nos preocupássemos com a ausência, uma
vez que já combinara tudo com uma das meninas
– termo dele – que costumavam partilhar o serviço às mesas, mas pouco assíduas
à nossa, pois, assim parecia, o Sr. Bernardino preferia ocupar-se de nós com silente
e atenta gravidade.
“É aquela menina que costuma andar por
aqui...?”, perguntei, referindo-me àquela das empregadas cuja presença era mais
constante na sala.
O Sr. Bernardino hesitou um pouco
antes de responder e encabeçou a resposta com uma negativa, como parece ser comum
nalguns Praienses, já que o meu amigo José da Rosa (recorde-o, neste blog, em As Noites Brancas do Senhor da Rosa) tem a mesma prática:
“Não, quer dizer, há duas meninas que
costumam servir aqui: uma é a Graciete, que é a mais forte, e, a outra, é a
mais fraca...”, e o senhor Bernardino hesitou no nome da outra. Um pouco
encabulado, acrescentou que, de momento, não recordava o nome da segunda
empregada, deixando-nos a nós, clientes ávidos da cultura autóctone, a
percepção de que aquele “forte”, a que se associava o esquecimento do nome da
“fraca”, arrastava consigo uma íntima preferência por uma das suas
colaboradoras.
Depois de prestada esta informação, o
Sr. Bernardino sumiu-se na porta de vaivém, de onde regressou para nos informar
que a menina mais fraca se chamava Margarida, mas que seria a Graciete (“a
menina mais forte”) que tomaria conta de nós no dia seguinte.
Saímos do Plaza para o amplexo de uma noite tépida e atravessámos o escuro
terreiro sob a benevolência da lua-cheia, o que assinalava com suplementar
nitidez a localização dos tradicionais dejectos
caninos e deixava que a minha mente se entretivesse com a pertinente questão de
qual seria a razão humana para que o Sr. Bernardino preferisse a Graciete à
Margarida, pois, a mim – rude europeu – e assim de forma completamente
apriorística, a menina fraca aparecia-me como senhora de mais inclementes
atributos e não era, de todo, a qualidade do serviço hoteleiro que parecia
factor distintivo entre ambas.
| Sr. Bernardino e Graciete |
© Fotografias de Pedro Serrano, Praia, Cabo Verde, Agosto 2012.
Classificação:
CABO-VERDE,
ESBOÇOS e RETRATOS
05 agosto 2012
UM DOMINGO BEM PASSADO
Ao Domingo, há missa às onze na igreja de Nossa Senhora da
Graça. Da esplanada do Morabeza, no
Plateau, consegue-se ver a porta da igreja, pelo que me sentei por ali a tomar
o pequeno-almoço, à espera que a missa acabasse e pudesse ir ter com a Maria da
Luz, com quem combinara encontrar-me para me despedir, pois deixo hoje Santiago.
Este ritual de esperar alguém que foi à missa a partir da
esplanada do Morabeza já o praticara
com a Ana Cristina, que é católica e vegetariana. Sentava-me por ali à espera
dela, até que pelas três portas, uma principal e duas laterais, da igreja
começava a jorrar uma colorida hemorragia de fiéis. Que diferença, em
quantidade e qualidade das missas portuguesas, que, à hora do fecho, apenas
purgam meia-dúzia de beatas, roucas de ganir acompanhamentos e indispostas com a
azia provocada por terem engolido a hóstia a seco, sem um golinho de água... Aqui,
os fiéis são muitos, de predominância jovem, e vestidos a preceito para a
cerimónia. Lá de dentro chegam ecos de cantos felizes e uma satisfação serena espraia-se
nas faces de quem, no final, se espalha pelo jardim Alexandre Albuquerque onde
o coreto, pintado em azuis e rosa, lembra um bolo de noiva.
Hoje, ao meu lado, nas mesas da esplanada, um casal consulta
demoradamente o menu, ela folheando um dicionário de bolso alemão-português sob
o olhar atento do hirsuto marido que, vermelhusco, parece correr o risco de
explodir a qualquer momento sob o calor inclemente do Agosto cabo-verdiano.
Finalmente, decidiram-se e chamam o empregado. Tudo parecia
estar a correr muito bem com o processo de encomenda até que o rapaz informou
que o prato escolhido pelo senhor se tinha acabado. Agitação e impasse, o homem
folheia de novo a lista, afogueado, enquanto olha em volta, como um náufrago,
procurando inspiração nas mesas adjacentes. Súbito, o olhar ilumina-se e
inclina-se para comunicar à mulher, que é quem serve de tradutor simultâneo,
que ambiciona um prato igual ao que está a comer uma moça local, de vestido
kaikai, uma combinação com um ar bem calórico e coroada por um ovo estrelado.
Num português prenhe de gestos e cuja sonoridade faz lembrar
espanhol desossado, a senhora informa o paciente rapaz que o seu marido quer
algo semelhante. O empregado regista o pedido com acenos de compreensão, o
alemão remexe-se na cadeira como um javardo com pulgas, a esposa desfaz-se em
sorrisos ambientais e abandona, com alívio, o dicionário sobre a mesa.
Mas eis que o empregado, que já avançava para o balcão,
retorna e pergunta em bom português:
“O ovo estrelado é bem ou mal-passado?”
Na mesa ao lado, quase tive piedade ante o novelo de incompreensão
e paralisia que acometeu os alemães e inclinei-me um pouco para a frente num
prólogo de ajuda, pois a senhora pegara outra vez no livrinho de capa amarela,
porventura à procura do significado de “mal-passado”. Mas, depois, lembrei-me a
tempo que não seria pior ideia deixar à sorte o desfecho daquele confronto
gastronómico norte-sul e ficar a ver em que resultaria a habitual supremacia
germânica.
Infelizmente, num olhar de relance por sobre a praça, apercebi
uma onda de gente que começava a atapetar de cor as escadas da igreja da
Senhora da Graça e levantei-me, apressado, da minha mesa.
© Fotografias de Pedro Serrano, Santiago, Cabo Verde, 2011.
Classificação:
CABO-VERDE,
ESBOÇOS e RETRATOS
04 agosto 2012
CONVERSANDO EM PORTUGUÊS
Conversando no Bar Zé da Rosa. Da esquerda para a direita: Maria da Luz Lima (Cabo Verde), Mário Tamy (Guiné-Bissau), António Moreira (Cabo Verde), Almeida Chitungo (Angola), Paulo Graça (Cabo Verde), Nicolau Almeida (Guiné Bissau), Miriam Delgado (Cabo Verde), Pedro Serrano (Portugal), Paulo Ferrinho (Portugal), Salomão Crima (Guiné-Bissau). © Fotografia: Zé da Rosa (Cabo Verde), cidade da Praia (ilha de Santiago), Cabo Verde, 3 de Agosto 2012.
Classificação:
CABO-VERDE,
FOTOGRAFIAS
01 agosto 2012
30 julho 2012
VISITAS AO FIM DA TARDE
Classificação:
CABO-VERDE,
FOTOGRAFIAS
29 julho 2012
ENTRETANTO EM CABO VERDE: Cooperação internacional
Acabado de chegar pela madrugada, fui hoje ao Pão Quente (na filial aqui da Achada de
Santo António), comprar umas garrafas de água para ter no frigorífico do
apartamento, pois está um calor que não se pode!
No Pão Quente, a
técnica de pagamento consiste em ir acumulando num papelinho o que se vai
consumindo na mesa, pagando-se tudo à saída.
Na caixa, mesmo por baixo do retrato do Dáti (veja o texto O Táxi Humano para perceber quem era), o rapaz de serviço, um míope como eu,
reparou no meu sofisticado, porém automático, processo de mudar de óculos, isto
é: tirei os óculos de lentes brancas da cara, extraí da embalagem os de sol e
pu-los na cara, e devolvi os de lentes brancas à embalagem de onde retirara os
escuros.
“Também são graduados...?”, perguntou o rapaz, vivamente
interessado na solução.
“Claro, de outro modo não veria nada...”
“Ah...”, disse ele mirando-me a cara com atenção.
“Quer experimentar?”, propus, pois percebi que daquele
intercâmbio poderia nascer alguma decisão óptica.
Ele quis e quase gemeu de maravilhamento ao sentir a
tonalidade, entre o castanho e o alaranjado, daquela visão do mundo.
“Ué, fica tudo mesmo mais escuro...”
“E tem uma visão nítida ou vê tudo um bocadito embaciado?”
“Vejo um pouco embaciado...”, concluiu ele, levantando e
baixando os meus óculos sobre o nariz.
“É que a sua miopia deve ser diferente da minha”, comentei,
“quanto é que você tem?”
Ele não sabia, mas, em alternativa, ofereceu-me os óculos dele
para eu experimentar, desculpando-se da rachadela vertical de uma das lentes,
coisa que teria de mandar compor um dia destes.
“Também vejo tudo um bocado embaciado”, esclareci, usando a
moça que comprava pão ao balcão como mira técnica da nitidez factual.
Devolvi-lhe os óculos, ele estendeu-me os meus, informando
que, se calhar, ia adoptar a minha técnica: um par de óculos conforme a
situação.
“Para mim, ainda é o melhor: há umas palas de encaixar nos
óculos normais, mas é uma chatice, nunca fica tão bem...”
Ele torceu o nariz, sabia do que eu estava a falar e também
não apreciava o resultado final.
Depois sorrimos um ao outro, como que ressalvando o benefício
da troca pela qual tínhamos acabado de passar, ele ficou a atender a moça do
pão quente e eu, ajustando os óculos de sol, arrisquei-me ao bafo inclemente da
tarde.
© Fotografia de Pedro Serrano, Praia (Santiago), Julho 2012.
Classificação:
CABO-VERDE
20 julho 2012
SEM VOCÊ
Chico Buarque interpreta "Sem Você" de António Carlos Jobim e de Vinícius de Moraes.
Classificação:
MÚSICAS
15 julho 2012
MISTÉRIOS DO COSMOS
No meu quarto do hotel Kosmos, em Leipzig, na parede
fronteira à cama, estavam penduradas duas fotografias emolduradas de um casal,
e que, apesar de serem duas e separadas pelas respectivas molduras, formavam um
todo, de tal modo constituíam um casal. Eram, ou tinham-se tornado, até
fisicamente parecidos.
Pela roupagem, sou levado a supor que a fotografia data do
fim do século XIX, dealbar do séculos XX, e a senhora tinha uma presença
impressionante, aqueles olhos claros e intensos deixavam marca na memória e
dava comigo a olhar para ela de soslaio quando, à noite, regressava ao quarto,
como se estivesse a prestar contas a pessoa que tivesse um qualquer ascendente
familiar sobre mim.
Para além desse mistério, a moldura dela encerrava um outro:
uma mancha de humidade parasitara o quadro, instalara-se, com a fixidez das
presenças definitivas, cristalizada no formato exacto de um copo de pé alto.
Que faria ali e que se teria comemorado antes de eu, num fim de tarde incerto
do século XXI, ter rodado a chave do quarto 31 do Hotel Kosmos?
© Fotografias de Pedro Serrano, Leipzig (Alemanha), Junho 2012.
Classificação:
RUMINAÇÕES
11 julho 2012
08 julho 2012
03 julho 2012
HÁ COISAS PIORES!
Na Alemanha, os motoristas de táxis são corteses, devolvem o
troco ao milímetro, ajudam os clientes a enfiar as bagagens na mala e não
cobram taxa extra pelo seu transporte. O mesmo pode ser dito dos chauffeurs de
táxi espanhóis no que se refere à cortesia e ao modo como lidam com as malas.
Quando ouvem rádio, tal como os seus colegas alemães, fazem-no no mínimo do
volume e não há colunas a berrar o que ouvem para os assentos de trás.
Eis-nos regressados à pátria num Domingo, final de dia em
dia de final do Euro 2012. Na Portela, à saída do aeroporto, a bicha para os
táxis tem aqui um aspecto menos industrializado do que no aeroporto de
Barcelona. Como motorista calhou-nos um brasileiro amulatado que demorou a sair
do táxi o tempo suficiente para que, quando chegou ao nosso lado, já eu tivesse
aberto a mala e estivesse a encafuar as malas lá dentro.
A meio do trajecto, e visto que o automóvel era dele, ligou
o rádio bem alto, pois eram horas do começo do jogo. Ao chegar ao nosso destino,
depois de receber o dinheiro que lhe era devido, bem sentado no seu lugar,
perguntou se não nos importávamos de tratar nós de ir buscar a bagagem às
malas. Possivelmente face ao ar meio admirado com que o mirámos achou por bem
explicar:
“É que tou com as costas estragadas – ontem à noite a
namorada rebentou-me todo!”
© Fotografia de Pedro Serrano, Lourinhã 2011.
Classificação:
SOCIEDADE
27 junho 2012
ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO
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| Alemanha: antes e depois. |
Na ressaca da II Guerra Mundial foi necessário dividir a
Alemanha em fatias para que ela não ficasse com ideias. Os despojos foram
partilhados entre a União Soviética, a Inglaterra, os Estados Unidos e a
França. Com o seu pedaço e a rica experiência anterior em criar repúblicas
independentes, a URSS imaginou a República Democrática Alemã (mais conhecida
por Alemanha Oriental ou do Leste), território de grande utilidade para que o
colosso comunista farejasse de perto o que se passava na Europa Ocidental.
O regime da Alemanha de Leste (a RDA) ficou conhecido pela
sua ortodoxia e dureza e os russos não poderiam ter sonhado com melhores
discípulos, pois nem nas suas mais devotas repúblicas federadas, como a
Lituânia, a Ucrânia ou o Cazaquistão, conseguiram tanto ordenamento do
território...
Um dos pilares da montagem e manutenção deste sistema foi o
Ministério da Segurança do Estado (cuja sigla STASI se tornou famosa), um
ministério totalmente dedicado ao policiamento político do país e arredores, com
90.000 funcionários a tempo inteiro e, no seus melhores dias, quase dois
milhões de informadores, incluindo crianças, o que fazia com que a RDA tivesse
cerca de 1 espião por cada 63 habitantes. Imagino que nas bordas da Península
Ibérica o nosso ditador caseiro se babava de inveja.
A STASI, criada em 1950, teve as suas raízes na Gestapo
alemã e absorveu com eficácia todos os métodos e requintes da sua congénere KGB
com quem, aliás, mantinha estreita colaboração. A sua estrutura e interesses abrangiam
todos os ramos possíveis da actividade humana, tendo até um departamento
central cuja função era o controle do lixo, secção onde, como é do conhecimento
geral, se podem obter informações vitais para o desenvolvimento de um país.
A sede nacional da STASI ficava em Berlim Leste, ocupava um
quarteirão e tinha arquivos com cerca de 170 km de documentação. Mas nas outras
cidades da RDA a STASI tinha filiais e Leipzig, no nordeste do país, era uma
delas.
No passado Domingo, não em completo à vontade, subi as
escadas da antiga sede da STASI de Leipzig, um edifício maciço e tristonho,
agora transformado em museu, situado numa das principais avenidas da cidade e
fronteiro à escola de música Felix Mendelssohn onde
o Zé João e mais 600 alunos fazem os seus estudos musicais.
Há várias sombras que impressionam numa visita destas, a
primeira das quais é a de ainda em 1989 tudo aquilo ser uma realidade operante
e não o comboio-fantasma obsoleto em que os seus corredores se transformaram e onde
o equipamento técnico repousa envidraçado: máquinas para abrir correspondência
subrepticiamente, carimbos falsos de todas as cidades do mundo; cabeleiras
postiças comidas pelo tempo; máquinas fotográficas disfarçadas em carteiras de
senhora cujo couro engelhou...
Embora a STASI não fosse uma polícia política
particularmente carniceira (nos anos 50 e 60 o cheiro a carne chamuscada na
Europa era ainda uma memória vívida e a violência física mal vista), lá está,
discreta na parte inferior de um placard, a fotografia a preto e branco de um
pequeno forno crematório, uma coisa quase nada, quase só uma torradeira para o desenrasque
de situações urgentes.
Finalmente, e isso é pormenor que só se sente cá fora,
respirando o ar puro das ruas pacatas de Leipzig, os aromas das alamedas
frondosas e dos seus jardins bem tratados, a gente fica a perguntar-se por onde
andarão essas pessoas que ainda há menos de 25 anos faziam parte deste jogo
repressivo. O que pensarão, hoje em dia, quando se cruzam, sorridentes e em
liberdade, connosco e vão à sua vida como se nada fosse? Nada, é o mais provável.
Com excepção do mapa, © Fotografias de Pedro Serrano, Leipzig (Alemanha do ex-Leste), Junho 2012
Classificação:
SOCIEDADE
23 junho 2012
ENTRETANTO EM LEIPZIG
Entretanto em Leipzig as pessoas preparam-se para ver o Grécia-Alemanha em enormes ecrãs colocados pela cidade. Na véspera, o Portugal-República Checa animava todos os televisores e o comentador alemão torcia de forma mal-disfarçada por Portugal...
© Fotografias de Pedro Serrano, Leipzig (Alemanha), Junho 2012.
Classificação:
FOTOGRAFIAS,
LEIPZIG
20 junho 2012
UMA MÃO TRAVESSA
Agora que o mundo está tão globalizado é provável que já
tenha reparado no estranho fruto que aparece na fotografia aqui ao lado, pois é
relativamente comum dar com ele nos escaparates de legumes dos nossos supermercados.
Chama-se quiabo mas não se assuste com a sonoridade do nome, pois o seu sabor
não tem, nem de longe, tantos bicos.
Enquanto os especialistas continuam a discutir se é oriundo
da África e alguém o levou para a Ásia ou se é asiático e nos chegou via África,
aproveito o fundo de ecrã do rumor das discussões para dizer que, a mim, os
quiabos me fazem sempre lembrar Angola e que, quando lá chegava, ia a correr
comer alguns e, a cada prato que encomendava num restaurante, perguntava se
“traz quiabos?”
Em nome dessa saudade, deixo aqui uma receita e, também,
alguns truques sobre o modo de escolher e tratar com quiabos.
Compra
Quando vir quiabos à venda observe-os com cuidado e escolha
aqueles que têm uma cor verde bem viva. Evite os que apresentam manchas
esbranquiçadas na superfície ou que, ao toque, não reagem da sua murchidão. Ou
seja, os quiabos querem-se firmes mas, por outro lado, pequenos: uma mão
travessa ou pouco mais (10 a 12 cm), de outro modo serão fibrosos e duros ao
paladar.
Preparação
Ao corte, os quiabos podem escorrer uma baba que impressiona
os mais sensíveis mas que desaparece quando são cozinhados. Mas, se isso a
inibe, uma maneira simples de fazer desaparecer esse fluido gomoso é deixá-los,
durante uns 15 minutos, numa taça de água na qual se espremeu sumo de limão.
Depois passe-os por água fria e corte as pontas de ambos os lados. Estão
prontos a serem cozinhados
REFOGADO DE QUIABOS
(para aproximadamente ½ Kg de quiabos)
Corte uma cebola
de tamanho médio às rodelas e disponha-as pensativamente no fundo de um tacho
onde está a aquecer azeite q.b. Deixe
alourar. Mas o que é isso de alourar, perguntarão para si próprios aqueles que
não tem coragem de o perguntar a terceiros? Bem, para isso tem de estar por
perto: a cozinha nunca sai bem se a encaramos de forma precipitada ou menos
cuidadosa e desse ponto de vista é como acender uma lareira e mantê-la a
funcionar – para nos fazer companhia, uma lareira precisa de ser acompanhada. À
medida que o azeite vai aquecendo, a cebola aquece também e vai amolecendo sob
os nossos olhos. No início há uma fase em que parece que as rodelas se
inteiriçam, que secam, mas depois rendem-se ao calor, à envolvência do azeite,
e começam a tornar-se lassas, a ganhar um enrubescimento amarelado. Está no
ponto (é um ponto instável, que rapidamente vira esturro) quando a cor se
aproxima da do mel do sul do país, que é um mel claro e dourado. Neste ponto,
deite os quiabos no tacho e ponha o
fogo no mínimo. Antes de tapar o tacho, polvilhe o verde dos quiabos com sal (pouco) e pimenta. Depois, como quem dá de comer às pombas, distribua dois
dentes de alho, finamente picados,
sobre o conjunto. Olhe que isto de só aplicar o alho nesta fase do cozinhado é
importante: se o mistura à cebola logo no começo é muito provável que o alho
frija, o que vai afundar o paladar dos quiabos num travo de bifana de rulote!
Não, o alho quer-se discreto. Ponha a tampa e deixe o todo refogar, sempre no mínimo, durante 20 minutos.
Deixe-se estar por perto e espreite de vez em quando o que se passa lá dentro:
se o refogado perder água, por exemplo, pode ter de acrescentar um pouco, de
molde a manter a humidade necessária. Sabe que os quiabos estão no ponto
quando, ao levantar a tampa, os sentir macios, sob o pau da colher, como uma
almofada de penas.
© Fotografias: (1) Do blog Tertúlia de Sabores; (2) Pedro Serrano, Barra do Dande, Angola, 2008
Classificação:
RECEITAS COZINHA
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