03 outubro 2015

UM MUNDO MELHOR

A sede da Ordem dos Médicos funciona provisoriamente em instalações cedidas pela farmácia Rama.
As instalações, sala e pequeno anexo, são, respectivamente, a antiga marquise e cozinha de uma velha moradia colonial, uma daquelas alegres casinhas que os portugueses de classe média construíam nos trópicos, um novo lar, a relembrar na traça e arrebiques as casas que tinham deixado, mas adaptando-se já ao exílio no telhado prolongado em alpendre – a defender os habitantes do sol impiedoso – ou nas paredes perfuradas para promover toda a ventilação possível.
A entrada, couraçada por uma espessa porta de metal e um grosso cadeado, deita para um pátio em que ainda se reconhece o coradouro e os arrumos, e onde agora uma família de pai, mãe e filho fazem a extensa parcela ao ar livre da sua vida. Há também um altivo garnisé macho e respectiva franga. Curiosa, como todas as do seu sexo, esta aparece às vezes na ombreira da porta a espreitar as reuniões, enquanto o companheiro, indignado, obriga a pausas nos trabalhos até que o seu canto estridente deixe de se sobrepor aos diálogos.
Já passa das quatro da tarde e enquanto espero que cheguem os outros, sento-me num banco de madeira que existe no pátio, vizinho da esteira onde o locatário e filhito dormem a sesta e um dos rapazes que apoia o funcionamento da Ordem, às devidas horas e depois de lavar os pés com a água de uma garrafa, se ajoelha de empréstimo, virado a leste, para dirigir a Alá as suas preces.
Olho noutra direcção, a resguardar a sua intimidade: do lado de lá da rua é o hospital principal do país e entre mim e ele, a um metro do muro, na berma da rua sem passeio, amontoa-se, a céu aberto, o lixo das redondezas. Com excepção dos resíduos de tipo IV (radioactivo, quimioterapia e outros venenos classificados), todo o restante lixo hospitalar vem parar a lixeiras destas, onde se entrelaça ao lixo doméstico, pelo que é possível ver restos humanos, como tripas, dedos,  ou pernas amputadas, a serem violentamente negociados entre os cães e os abutres que vasculham o lixo da cidade.
“Hoje está um calor do caraças...”, desabafo a T., que chegou agora, como se ontem ou anteontem tivesse estado fresco.
“Yá, é das chuvas... Viste o que choveu ontem à noite? A água cai no chão, encharca, depois evapora com o calor, cai mais água de cima e nós no meio a levar com aquilo tudo, sem ter para onde fugir!”
T. é muçulmano e, por isso ou até por isso, um tanto fatalista, embora essa característica não o impeça de esbracejar por um mundo melhor para o país dele. Sabe que é difícil, por vezes encolhe os ombros como se fosse impossível e o olhar cansa-se-lhe, entristece-se, a raiar a desistência. Mas não há volta a dar e estão a chegar outros para a reunião. Dentro da sala a luz é vermelha, tem a ver com a toalha encarnada sobre a comprida mesa de plástico que ocupa todo o espaço, com as cortinas que cobrem as janelas que separam a marquise do logradouro, onde o miúdo encheu e transporta um balde de água mais pesado do que ele, enquanto a mãe recolhe a roupa da corda e o pai atira grãos de arroz às galinhas.
Na sala, separada da farmácia por portas de madeira tristemente imóveis, cheira a remédio e uma solitária ventoinha espadana do tecto um abençoado ventinho, ameaçando fazer voar da mesa o papel solto no qual o miúdo dos vizinhos fez os trabalhos de casa da escola. 

A reunião acabou, os convidados dispersaram, lá fora o crepúsculo não trouxe o alívio que se espera dele e um calor húmido agride-nos como uma toalha molhada.
“Vamos tomar alguma coisa?”, proponho?
A umas dezenas de metros, numa rua de terra batida pontuada de mangueiras, o Comandante está sentado à sua esplanada como um soba destingido pelo sol. Dirige da cadeira todo o movimento do restaurante, dos numerosos empregados ao que há-de ver-se no ecrã de plasma amarrado a uma coluna, até às saudações que vai atirando a quem passa na rua. É alentejano, monárquico, destemperado, remoto descendente de Giraldo Giraldes – o Sem Pavor – e, apesar de ter jazigo reservado em Évora, está em África há tanto tempo, conhece-a tão bem, que não passa sem ela, sem o seu mato, as suas rolas, as suas pescarias; diria que sem a sua gente, embora se exprima – para padrões ocidentais sentimentalmente correctos – como um bruto.
“Levaram-me ontem à sua antiga quinta...”, resumo-lhe o meu passeio de Domingo à tarde.
“Ah, nem me fale nisso, aquilo já não é meu...”, responde ele no seu sotaque alentejano pausado e interrogativo, “esses cabrões roubaram-ma... vinte e nove milhões de francos para o caralho”, diz, abrangendo no esses o meu impecável acompanhante, médico e deputado da Assembleia Popular Nacional. T. ri-se, dá uma palmada amigável no ombro do outro.
Vamos sentar-nos na minha mesa predilecta, lá ao fundo, sob uma ventoinha, alegrada por uma toalha azul com uma miríade de figurinhas pretas. T. fala do Comandante com admiração e amizade. Por aqui toda a gente lhe conhece as idiossincrasias, a mansa loucura que insidiosamente embebe quem vive sozinho e longe dos da sua raça, e respeita a determinação, a iniciativa, o contributo do homem para o progresso local. T. aprecia os resistentes, o Comandante é desses. 
Lá longe, esparramado na sua cadeira, impedido de reagir rapidamente pelo porte volumoso, imponente como o dos hipopótamos do sul de que fala com temor e fascínio, o Comandante acabou de atirar uma das bases de palha entrançada onde se pousam os pratos ao gatito que anda por ali.
“Inácio, apanha aquilo por favor: o filho da puta do gato andava a ver se me caçava uma das lagartixas, coitaditas...”
Sorridente, Inácio, atravessa vagaroso o espaço e entra no canteiro a recuperar a rodela de palha.
O Comandante tem profundo apego às osgas que serpenteiam pelas traves do tecto da esplanada, pelos camaleões, por um sapo que canta no meio dos canteiros, a que se refere como o meu sapo e a quem gaba a beleza e utilidade.
“Ainda hoje de manhã o vi atravessar aqui o terraço, todo contente. Sabe que estes filhos da puta aqui têm medo de camaleões, os cabrões?”
“Ai, sim”, admiro-me, sentado em frente a ele, pois, ao fim de uma semana de chegado, distinguiu-me com um convite para acampar na mesa reservada, onde mais ninguém se pode sentar, onde sempre reside e come, partilhando-a apenas com alguns outros convidados, criteriosamente seleccionados entre brancos, pretos e mestiços.
“Sim! Acham que é bicho com feitiço ou assim... Divirto-me imenso a gozar as velhas: pego num e penduro-o numa orelha, ele fica ali, e elas todas fodidas, a resmungar...” E batendo com as mãos nas portentosas coxas, ri-se até às lágrimas, chama um dos empregados mais atados:
“Diz aqui ao senhor doutor o que faço eu com os camaleões...”
O homem, com o ar de quem se está a invocar assunto grave, confirma a história do brinco que muda de cor pendurado na orelha; eu pergunto o que acha ele disso.
“É muito perigoso...”, responde com a gravidade de quem teme pela vida do Comandante e até da sua, por andar perto e assistir a tais atrevimentos.
É aí, no café-restaurante, que amiúde encontro T. quando ali chego, sistematicamente à mesa do Comandante que, vendo-me frequentemente em companhia dele, comenta-o:
“Tipo muito sério e homem inteligente, homem competente. É um fula, sabia? Os fulas são gente séria, não são como a outra cambada de vigaristas e filhos da puta que por aí andam; alguns portugueses incluídos” E, baixando a voz, com comiseração: “Sabe que, durante a guerra civil, os cabrões de merda lhe mataram mais de vinte familiares chegados?”
Por trás do balcão, Inácio sorri o sorriso abrangente e caloroso de um Cristo perante os que não sabem o que dizem e Emília olha-me sem modificar a expressão, mas com uns olhos onde brilha um: “É assim, o meu patrão, que é que se há-de fazer...?” e há uma certa resistência, consciente e resignada, no modo como arrasta as chinelas e o andar no cumprimento das permanentes directrizes e interpelações do outro. Emília é de etnia Balanta e por isso animista, uma gente que, religiosamente falando, venera pedras, plantas e animais, pois tudo são manifestações divinas.
“Eu já te disse aí umas quarenta mil vezes que a colher é para estar fora do açucareiro, no prato, por causa da humidade... Mas vocês parece que não aprendem! Irra!”
Sentado lá ao fundo, como um branco recém-chegado, mirando, distraído, as aves raras da cooperação internacional que por ali param – e cuja presença faz com que o Comandante seja mais reservado nos comentários – sorrio, divertido, deixando cair para baixo da mesa pedacinhos de frango à cafreal, para proveito e delícia do gatito e da mãe, que vivem no recinto de casa e pucarinho.
“Doutor, os cabrões dos gatos estão a incomodá-lo? Inácio, vai ali enxotar os gajos...”
“Deixe estar”, interrompo, “gosto dos seus gatos...”
“Dos meus gatos?! Porra, eles não são meus, andam por aí...”, resmunga ele.
T. chegou e o Comandante, embora finja não se interessar, pergunta-lhe novidades da situação política: o país está – outra vez – sem Governo, a situação arrasta-se há dois meses e os dois principais partidos continuam sem se entender. T. suspira; andam ainda em conversações mas a coisa não dá em nada. O país todo parado, as pessoas exasperadas, indignadas, falam abertamente do tema: apaixonadamente, intensamente, ainda não foram atingidas pela indiferença da política que atacou o Ocidente. T., sentado à mesa do Comandante, rilhando uns rissóis de camarão com arroz de tomate, vai contando o que sabe, vai comentando o país, depois voa e fala do assunto enquadrando-o num contexto regional, a seguir plana para uma visão africana global; finalmente, numa abordagem  geoestratégica, fala agora da II Guerra Mundial, dos russos, dos europeus, dos americanos.
“E os militares”, pergunta alguém, “o que dizem eles?”
“Estão à espera, a ver o que dá...”
“Doutor, o senhor vai ver que isto ainda vai dar merda...”, confidencia o Comandante quando ficamos sozinhos. “Foi sempre assim; vai ver que isto não vai lá sem porrada, sem matarem três ou quatro gajos... E logo, os seus olhos vivos adquirem um brilho irónico, provocador:
“Depois quero ver como vai jantar, com os gajos aos tiros aqui na rua...”
“Acho que nessa altura é melhor o senhor mandar servir o jantar debaixo da mesa...”, digo, levantando-me e despedindo-me: “Até logo, obrigado por me ter cedido uma fatia da sua melancia...”
“Minha melancia?! Ora essa, a melancia está aí para os clientes...”
“Não foi o que a Emília me disse: quando lhe pedi ela disse-me que estava reservada para o patrão, que para nós, comuns mortais, só havia papaia e maracujá...”
“Emília...”, chamou o Comandante.
Mas Emília, avaliando com olhar rápido a premência do assunto, não se move: está entretida ao portão da esplanada a receber uma rapariga, que segura na mão um balde de plástico preto.
“É a Edi”, informa o Comandante com uma cintilação terna nos olhos, e logo esquecendo o momento anterior: “É quem cuida do porco da casa ali em frente, vem aqui buscar a lavagem... Coitadinha, tem uma variz enorme numa das pernas. Acha normal naquela idade, pode ser perigoso?”
“Numa perna só? Que idade tem ela?”
“Não sei, é muito nova, para aí uns... Ó Edi”, berra o Comandante, “anda aqui mostrar a tua perna a este senhor, que é médico...”
Muito envergonhada, a rapariga vem até à nossa mesa e reconheço-a no cacho de cabelos que lhe emolduram a face: tirei-lhe, logo num dos primeiros dias, uma fotografia que ficou uma beleza; quase por acaso, à queima-roupa; a cor de chocolate dela contra o rosado de um muro, as flores da camisola a contrastar com um fundo de verde das plantas locais. Por insistência repetida do Comandante, Edi arregaçou uma das pernas das calças elásticas e mostra-me a pele: tem, de facto, uma tremenda variz, unilateral, do joelho para cima, da grossura de um dedo, mas, descubro que já foi diagnosticada em Portugal, vai ser operada para o ano em sítio aconselhado e seguro.
“Uma moça como deve ser”, louvou o Comandante quando Edi se foi, “e, para além de trabalhar, estuda, sabe, anda a estudar...”
“Ai, sim, e estuda o quê? Com vinte e um anos já deve ter terminado o liceu... Andará na Universidade?”
Mas o Comandante não sabe, só sabe que toma conta do porco da Dona Cármen - um ex-combatente do PAIGC e antiga Ministra da Saúde, que mora ali em frente -, que tem a variz e que anda a estudar.
Chega T., para me buscar, e à entrada cumprimenta Emília com um beijo e grande familiaridade. À saída, pergunto:
“Conhece-la bem?”
“Sim, é sobrinha de um primo meu.”
“Vocês, aqui, são todos primos uns dos outros!”, exclamo, suportado na frequência com que o vejo abraçar, beijar, parar para falar com gente em todo o lado, desde colegas de profissão a empregados de restaurante ou humildes serventes dos ministérios.
T. está parado no meio da rua e, como não tem carro próprio, faz sinal a um dos numerosos táxis azuis que circulam por Bissau. Depois, comenta:
“Sim, somos todos mais ou menos família...”
© Fotografias de Pedro Serrano, Bissau, Setembro/Outubro 2015.


29 setembro 2015

MORENA ROSA

© Edi fotografada por Pedro Serrano, Bissau (Guiné), Setembro 2015.

27 setembro 2015

A TRISTE HISTÓRIA DO PERU ABU

Mari
Olá, queridos amiguinhos e amiguinhas:
Desta vez este texto é dedicado aos mais pequeninos. Eu sou a borboleta Mari e vou-vos contar a triste história do peru Abu.
Abu era um belo peru, grande, tufado, bem tratado e alimentado, que não largava penas e, não fora aquela ideia, que o angustiava, de estar predestinado a uma ceia de Natal, seria um peru totalmente feliz. Mas todas as noites tinha pesadelos e sonhava que estava a ser trinchado às fatias e, pau-la-ti-na-mente, começou a meter-se nas bebidas enlatadas... E os amiguinhos, aí em casa, sabem – o bom gnomo George não se cansa de nos alertar para isso – o veneno que aquilo é com os seus açúcares, corantes e conservantes. Pois Abu não quis saber de mais nada e passado pouco tempo consumia uma dose tremenda de enlatados!
Abu

E acabou assim, mirrado e assustador. Como já não tinha dinheiro nenhum para comprar refrigerantes, procurava no meio do lixo, nas latas abandonadas, à procura de eventuais desperdícios de bebidas. Nas horas vagas, ajudava a arrumar carros e todas as moedas que pudesse juntar queimava-as a comprar refrigerantes. Pobre Abu!
© Fotografias de Pedro Serrano, Bissau, Setembro 2015.

26 setembro 2015

NEM SÓ DE PÃO

No Hotel Coimbra, instalado numa antiga casa colonial e respectivos acrescentos, temos acesso a tudo quanto se queira para além de cama, mesa e roupa lavada. Há uma biblioteca e uma videoteca na recepção, outra pequena exposição de livros na sala de jantar e, no espaço do bar, aguarda a nossa curiosidade uma estante com uma sólida colecção de dicionários e enciclopédias em língua portuguesa. Depois, descendo as escadas e saindo para o inclemente calor exterior, encontra-se no andar térreo do edifício, mas pertencendo também ao hotel, um modesto supermercado à esquerda e uma livraria à direita. Que se pode pedir mais? Mas ainda há mais e pelos corredores, nos quartos, há quadros e desenhos nas paredes, produção de artistas locais, delicadamente escolhidos.
Já na secção de objectos animados, no pátio onde pontificam os enormes geradores que dão luz a isto tudo, há, ao fundo, um pequeno tanque com uma grelha de metal como cobertura. Lá dentro estão três crocodilos, tão apertados no exíguo espaço – ainda por cima, são forçados a partilhá-lo com algumas tartarugas – que a sua envergadura não passa do metro e raspas quando, aqui na Guiné, atingem facilmente os quatro ou cinco metros. Coitados, como não lhes foi dada a capacidade de enroscamento, como às cobras, só lhes resta viverem num atrofio.
“Para que é que vocês os têm aqui?”, pergunto ao empregado da recepção que mos foi mostrar, “é para comer, ou dar sorte?”
“Não”, responde ele com simplicidade e algum horror por eu propor que se pudessem comer, “aparecem por aí na rua a vender, a gente foi comprando e foi pondo aí...”
E quando lamentei o aperto de sardinha em lata em que estão os bichos, informou-me que nas novas instalações do Hotel já está programado um espaço, como deve ser, para os sáurios, com piscina e tudo. Boa espreguiçadela, pessoal!
Mas não é tudo quanto a animais: no terraço mais frondoso do hotel, fornecido de sombra pelas esteiras estendidas por cima das nossas cabeças existem duas gaiolas, do tamanho de um homem, e numa delas estão dois pequenos papagaios, verdes como pistáquios verdes, a que por aqui chamam periquitos. Da outra olha-nos um bicho solitário, tão velho que está completamente depenado e se nota a pele como a uma galinha a quem já se preparou o corpo para a panela. “Que pássaro é este?”, pergunto a Sacovaz, o director do hotel, que se ofereceu para me vir explicar as aves quando demonstrei curiosidade por elas.
“Também é um periquito, mas diferente; não o podemos pôr com os outros senão mata...”
“Quem mata quem?”, quis saber, mirando com dó o velho pássaro despelado e imaginando já o par de jovens papagaios a esfarelar o solitário idoso.
“A cinzenta, mata os outros logo...”
Fiquei a matutar naquilo e a olhar com redobrado respeito o bico, recurvo e poderoso, do periquito cinzento; os olhos amarelos onde não morava ponta de piedade, mas apenas luzia uma desconfiança predadora. Entretanto, Sacovaz produzindo pequenos ruídos assobiantes com os lábios, introduzia um dedo por entre as grades e tinha-se posto a coçar a cabeça do periquito cinzento, a única parte do corpo onde a pelagem se mantinha. Feliz, o pássaro revirava a cabeça cento e oitenta graus, de modo a melhor oferecer ao dedo do amigo o cocuruto do crânio e, embora os olhos não conseguissem adoçar a sua expressão de perigo iminente, toda a sua linguagem corporal era de balsâmica plenitude.
“Acha que lhe posso também fazer uma festita ou ele só é assim manso consigo?”
“Acho que pode...”, respondeu num laconismo não muito tranquilizante.
Fiz a minha esfregadela de ponta de dedo e o bicho tolerou a carícia, mas com visível indiferença.
“Parece-me que ele nota a diferença”, comentei para Sacovaz.
“Yá, acho que sim...”, admitiu ele, “venho aqui muitas vezes fazer isto, ele já me conhece bem”.
Regressei ao quarto cheio de sede, pois estar aqui ao ar livre mais de cinco  minutos faz-nos suar como lagostas na panela. Abri o frigorífico e a sensação de sombras a deslizar no interior assaltou-me, mas já sem a surpresa de alucinação do primeiro dia. No meu quarto, como nos outros, há algumas baratas e preferem morar dentro do frigorífico, único local onde as encontro: penso que esta preferência é, para elas, uma opção prática de associar hipótese de comida com frescura. No fundo, à dimensão humana, não será muito diferente de um bar de piscina num resort.
© Fotografias de Pedro Serrano, Bissau (Guiné), Setembro 2015.

23 setembro 2015

ENTRETANTO NA GUINÉ-BISSAU...

O gerador do hotel é omnipresente na rua, como se alguém tivesse deixado um camião com o motor ligado e um tijolo esquecido sobre o acelerador. Não se consegue sequer escapar-se-lhe do lado de lá da rua, no “Farol do Porto”, um restaurante com esplanada ou, melhor dizendo, uma esplanada que é restaurante e onde o proprietário, um alentejano que mora por aqui há um quarto de século, tem mesa reservada. Não admira, passa a vida lá sentado, recebe cada cliente individualmente abancado como um soba de adopção, inclinado para trás na cadeira, pois tem um ventre tão abrangente que de outro modo embarraria na mesa, tombá-la-ia. Enquanto vai apontando um controlo-remoto ao plasma de LCD, pendurado numa coluna no lado oposto da esplanada, e mudando os canais à medida que se irrita com o que está a ser emitido, o Sr. Torres ingere enormes talhadas de melancia, que ele mesmo seccionou com a reverência de quem trincha um peru. O fruto tinha um ar tão rubro e o apetite prazeroso do homem era tão visível que, à sobremesa, pedi uma fatia para mim.
“Não há...”, comunicou-me a sorumbática empregada.
“Mas ainda há pouco... não sobrou nenhuma?”, protestei debilmente apontando a mesa reservada.
“É do patrão...”, resumiu ela, propondo-me manga como alternativa. Não fiquei a perder, eu que nem aprecio grande coisa a fruta exótica. Duas fatias finas e longas, alaranjadas como um sol nascente, com meia lima a fazer contrastar a cor e sublinhar o sabor. Ainda hesitei sobre uma segunda dose mas afazeres profissionais  esperavam-me às duas da tarde, de modo que fui despedir-me do Sr. Torres e vazei.
“Boa sesta...”, desejou ele.
© Fotografias de Pedro Serrano, Bissau, Setembro 2015.

21 setembro 2015

ANTES QUE ARREFEÇA

Generoso, quase em excesso. Pelo menos foi isso que pensei, quando,  sem me conhecer de lado nenhum, se ofereceu para me emprestar dinheiro.
Eu explico: um amigo avisou-me de uma colunas de som que estavam à venda, umas JBL4311, um par de objectos místicos, profissionais, com uma qualidade de som ainda hoje imbatível. Fiquei arrebatado com a hipótese de poderem vir a ser minhas, mas onde tinha 90 contos para pagar aquilo? Isto passou-se em 1978 e nesses anos tal quantia correspondia a cerca de 20 vezes o meu ordenado, qualquer coisa como uns 90.000 euros de hoje.
“O Fernando diz que empresta a grana pra você”, telefonou-me, uns dias mais tarde, o Flávio, o amigo comum, a comunicar.
“O quê?! Mas o gajo nem me conhece, não tem garantia nenhuma que  lhe venha a pagar...”
“Você não conhece o Silva”, avisou ele, “falei-lhe do seu gosto em ter aquilo e ofereceu-se logo.”
Foi assim que o conheci, por causa do dinheiro que me emprestou para comprar as colunas por onde ainda hoje ouço música, por onde a ouvi nestes mais de 35 anos. Conheci-o e com isso recebi a pronto duas lições: uma sobre generosidade, esse bem tão frágil, e outra sobre confiança no mundo. Com essas duas vinha agarrada uma terceira, essa em prestações vindouras: amizade.
Quanto a ele, morreu num instante, como um tordo alvejado por um tiro certeiro; morte invejável, a de morrer como um passarinho. Meti-me no carro, fui por aí acima, foi no habitáculo solitário, sem testemunhas, que chorei as primeiras lágrimas. Já no átrio da igreja, chorei outras ao conseguir espreitar, por uma nesga da porta aberta, a filha, que chegara a correr de Inglaterra, encostada ao topo do caixão, passando uma mão carinhosa pelos cabelos do pai, a conversar com ele palavras inaudíveis.
O átrio por trás da igreja estava repleto, toda a gente da terra passava por ali para o visitar, era um tipo querido de todos, já o suspeitava. Estavam por ali todos os ex-empregados da oficina de automóveis onde tinha sido mecânico e depois patrão: o Leão, o Chaparral, o Neca, o Aguiar, outros colaboradores. Quando resolveu desfazer-se da oficina, fez os empregados sócios, deixou-lhes aquilo quase de mão beijada... E médicos, assim ao correr da pena, andavam por ali uma dezena. Que raio fazia com que tivesses tantos amigo médicos, Fernando? Não usaste nenhum deles em benefício próprio, nenhum te serviu profissionalmente; um deles era antes a tua companhia fiel dos passeios diários à beira-mar.
O barzinho do Centro Paroquial estava aberto – para servir quem ali andava a visitar o defunto, a entregar respeitos à família – fomos lá meia-dúzia de nós comer um caldo-verde e picar uma carne de porco à Alentejana. Teríamos ido contigo se o defunto fosse outro, Silva; terias esfregado as mãos ao sentar-te à mesa, que a noite pôs-se friota, bonita – um crescente de lua no céu nítido e a luz dos aviões a confundir-se com estrelas – mas friota. O senhor do Centro Paroquial falou-nos de ti enquanto nos servia, de como eras generoso às escondidas:
“Mas olhe que não queria que se soubesse: era a primeira coisa que pedia. Ajudava toda a gente, ainda outro dia andava por aí uma senhora muito doente, a viver sozinha, sem posses, uma situação... Fomos ter com ele: Fernando é preciso dar uma ajuda... E ele sacava do livro de cheques. Mas nunca queria que se soubesse. Vá perguntar ao jardineiro da Igreja de São Miguel-O-Anjo  quem é que tem pago os arranjos do jardim...”
Voltei a chorar quando cheguei ao hotel, ao fim da noite, e li em sossego a brochura que a agência funerária preparou. Abre com uma frase, uma espécie de poema branco, inteligentemente redigido, onde parece que ele se dirige em discurso directo a cada um de nós. E a fotografia foi bem escolhida: reproduz o ar prazenteiro que lhe era característico, que ostentava quando nos aproximávamos e fazia com que nos sentíssemos sempre bem-vindos... E há um brilho líquido no olhar, como se estivesse comovido com a comoção que nos provocou a notícia da sua morte.
Olha, Fernando, sabes que não posso ficar para o funeral: tenho um avião para apanhar e 300 km para chegar até ele. Morrias um dia mais tarde e eu não teria podido ir dizer-te adeus, ia ficar com isso atravessado quando o soubesse lá longe. Não vou poder ver o teu fumo branco subir direito no céu anil do norte da cidade. É que se pôs um lindo dia, azul, sem vento, quase sem nuvens... Vou andando, querido amigo, ainda vou tentar escrever umas palavras sobre tudo isto antes que arrefeça.


Nota: Em memória de Fernando Silva, 15/3/1948-20/9/2015.